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Tensões, inseguranças e preparativos

No documento Rio de Janeiro (páginas 77-81)

até que as pendências burocráticas sejam totalmente resolvidas para evitar problemas junto à Caixa, enquanto os futuros moradores desejam antecipar a mudança, resolvendo assim a questão do risco de invasão, eliminando o transtorno de ir e voltar e reduzindo custos para os que pagam aluguel.

Os três meses de pesquisa de campo que antecederam a inauguração – que de fato ocorreu no dia primeiro de maio de 2015 – foram permeados por essas tensões. Assim que saímos da reunião, Jurema disse, com expressão de preocupação, que tinha sido muito pressionada por alguns integrantes do grupo na última assembleia por conta da indefinição da data de inauguração. Apesar das reclamações dos futuros moradores e dos argumentos apresentados, Jurema foi irredutível, e os demais, mesmo contrariados, acabaram acatando. É perceptível que embora os futuros moradores sejam maioria, a autoridade de Jurema como liderança da União e mediadora no que se refere às relações com as diversas instâncias do Estado lhe confere legitimidade para decidir pela não antecipação da inauguração.

Não há ninguém ali, além de Jurema, que possua o conhecimento sobre o funcionamento destas instâncias – Light, CEDAE, Caixa – e sobre as consequências de uma inauguração antes da finalização das obras e resolução de pendências referentes à infraestrutura das casas. Assim, apesar das pressões vindas dos moradores, dos desentendimentos e algum mal estar, a decisão de Jurema permaneceu respeitada.

cumprimentar: é muito duro se matar pra fazer isso tudo, pra chegar no final e ver nego vendendo. Jurema, Carol (estudante de mestrado de Geografia que estava acompanhando o grupo para sua pesquisa) e Alexandre (assistente social da Fundação Bento Rubião) conversavam a respeito da possibilidade de venda das casas após o término da construção. A conversa ocorria entre eles num canto do barracão, e em voz baixa. A conversa era sempre interrompida caso outra pessoa se aproximasse. Jurema perguntava: já pensou esse trabalho todo pra construir e depois ver o povo vendendo?. A possibilidade de que a casa fosse passada adiante era um dos grandes medos de Jurema. Esta hipótese era vista como uma espécie de

“fracasso do projeto”. Alexandre e Carol também pareciam compartilhar desta preocupação.

Alexandre disse que as informações sobre venda estavam no contrato da Caixa, e estava naquele momento com uma cópia do mesmo, examinando. Sentei- me ao lado dele, e observamos no contrato que estava previsto que o repasse das casas poderia se dar mediante autorização da Caixa, repassando assim, a dívida para outra pessoa. A coordenação e os representantes da cooperativa não tinham qualquer poder de decisão sobre isso, uma vez que as propriedades são individuais. Além disso, formalmente não há cooperativa. Como já mencionado anteriormente, de acordo com as regras e diretrizes da Caixa o grupo é registrado como um conjunto de condomínios, não havendo nenhuma representatividade coletiva além dos síndicos dos condomínios. Jurema demonstrou muita preocupação, dizendo que isto pode acabar com o projeto. Continuou relembrando uma experiência anterior, em uma outra cooperativa na região: Em Herbert46 todo mundo vendeu, saiu... Tem uma mulher que é dona de três casas lá e aluga todas, disse em evidente tom de reprovação e lamentação. A venda posterior da casa aparece como uma ameaça constante de deslegitimação da “luta política” travada. Esta não é, aparentemente, uma preocupação dos moradores ou futuros moradores das cooperativas, mas sim dos membros da União, pesquisadores e profissionais que compõem a assessoria técnica, que veem nesta ameaça o caráter coletivo e político do trabalho desaparecer.

pessoas com quem poderia conversar. Quem não estava no barracão, quase sempre estava trabalhando nas obras.

46 “Herbert de Souza” é uma cooperativa construída também em Jacarepaguá logo após a construção de Shangri-lá, ainda com financiamento do Fundo Rotativo da Fundação Bento Rubião, mencionado anteriormente neste texto. Frequentemente é mencionada por Jurema como uma experiência de cooperativa que “não deu certo”, justamente por conta de vendas posteriores.

A venda posterior da casa coloca em xeque o argumento da construção dos laços de solidariedade e de uma comunidade onde todos se conhecem e se ajudam, e é justamente neste argumento que se pauta a lógica do mutirão e da autogestão das cooperativas. Este “medo” parte também do pressuposto de que as pessoas não possuem capacidade para avaliar o que seria mais vantajoso para elas a médio e longo prazo. Sendo assim, há um argumento segundo o qual as pessoas venderiam e possivelmente voltariam a morar em lugares precários e em áreas de risco. Há então o agravante de que após a pessoa ser beneficiária do MCMV, não poderá sê-lo novamente caso queira. Assim, as lideranças e técnicos utilizam como linha argumentação o fato de que caso a pessoa venda a casa e volte a morar de forma precária, não poderá novamente ser incluída em um projeto habitacional por conta da restrição da Caixa, que não permite que a mesma pessoa seja beneficiada mais de uma vez. Outra questão é que a venda por um preço maior do que aquele que foi pago pelo morador também deslegitima o princípio da Cooperativa, que é não operar visando lucro individual, e sim o “bem-estar coletivo”. A venda, aparentemente traz à tona a lógica do interesse individual e destrói – segundo os argumentos dos movimentos e coordenadores – o projeto da cooperativa enquanto algo construído coletivamente, e que opera por uma lógica diferente da lógica de mercado.

A narrativa que constrói a cooperativa habitacional como um exemplo virtuoso é justamente baseado na noção de poder popular e autogestão, operando com o objetivo de garantir o bem estar coletivo, através da mobilização e articulação da sociedade e não visando o benefício material, opondo-se, portanto, à lógica do mercado (RIZEK, BARROS, BERGAMIN, 2003; ROLNIK, 2013; MINEIRO, RODRIGUES, 2012). Considerando que não há forma legal de impedir que as pessoas vendam suas casas após o término da construção, as lideranças da União e os técnicos envolvidos costumam desencorajar, enfatizando a necessidade de valorização da comunidade ali construída. A ideia de que a casa não são apenas quatro paredes é uma frase recorrente das lideranças, e principalmente de Jurema, em uma sinalização de que existem valores que estão para além da construção da unidade habitacional. Enfatiza-se, assim, a dimensão de construção da comunidade.

Na ocasião em que ocorreu a reunião anteriormente mencionada no início deste tópico, Jurema argumenta que não se deve informar as pessoas sobre a possibilidade de venda. Assim, quando surge este assunto, a alternativa, segundo ela, seria fugir

da conversa: quem já quer saber se pode vender antes de terminar a obra tá mal intencionado.

Em torno desta questão da venda das casas há um forte ponto de conflito:

algumas pessoas que serão moradoras das cooperativas já mencionaram em conversas comigo que desejam ter a liberdade de vender suas casas caso assim decidam. Uma mulher do grupo Guerreiras, que será o foco do próxima parte da tese, me disse durante uma conversa que queria poder vender sua casa quando quisesse, afinal, ela já havia se mudado muitas vezes durante sua vida, e gostaria de se mudar novamente se assim fosse sua vontade: ela afirmava que também não achava justo ter que vender sua casa para o movimento pelo mesmo valor que pagou, porque desta forma, o dinheiro recebido não seria suficiente para comprar uma casa em outro lugar47. O privilegiamento da lógica de mercado (MINEIRO, RODRIGUES, 2012) que opera em nossa sociedade em torno da moradia está na base deste conflito: a habitação é compreendida como um ativo financeiro (ROLNIK, 2014) também para as classes populares.

Jurema estava muito tensa neste dia também por um outro motivo: uma cooperada havia ficado devendo quinhentas horas no mutirão. Todos os núcleos familiares precisavam cumprir determinado número de horas de trabalho. Como esta mulher não havia conseguido cumprir estas horas, agora seria obrigada, por decisão da plenária, a pagar o valor de quatro mil reais à cooperativa por conta desta dívida.

Jurema disse que achava o valor muito alto, e entendia que isto seria não só ruim para a família, mas também poderia trazer problemas futuros à cooperativa caso a cooperada resolvesse denunciar. O valor do financiamento inteiro ficava em torno de quatro mil reais. Como podia então uma pessoa pagar o valor equivalente a outra casa por conta de uma dívida com a própria cooperativa? Carol e eu concordamos com a análise de Jurema, no entanto, não houve nenhuma conclusão sobre uma maneira de solucionar isso. As tensões e conflitos que envolvem a questão financeira são sempre enfrentadas com muita apreensão por Jurema. Para ela, este é um tópico delicado e que pode ser oportunamente utilizado para deslegitimar a atuação da União. Nesta ocasião, ela me disse: já pensou se essa mulher depois sai por aí dizendo que pagou o dobro pela casa dela? Vão dizer que o movimento enganou, roubou. Esta é uma

47 Esta questão que envolve a possibilidade de venda posterior da casa e a perspectiva de vender a casa para o movimento pelo mesmo valor que foi pago será retomada na última parte da tese onde desenvolverei algumas considerações sobre propriedade individual e propriedade coletiva.

forte tensão: a possibilidade de o movimento ser criminalizado em algum momento.

Assim, Jurema se mostra sempre muito cautelosa com assuntos que envolvem dinheiro das pessoas que compõem os grupos.

Houve em seguida a esta conversa uma breve reunião com algumas mulheres que faziam parte da coordenação da cooperativa – Marlene, Neide e Maria. Jurema dizia a elas que precisavam colher os nomes das madrinhas e padrinhos para o dia da inauguração, que ocorreria no dia primeiro de maio. A ideia era que todas as famílias escolhessem uma pessoa para lhes entregar o certificado de entrega das casas quando fossem chamadas ao palco. Alguns escolhiam como padrinhos ou madrinhas pessoas da cooperativa que os indicaram para entrar na cooperativa, outros escolhiam pessoas de fora, quase sempre familiares que deram apoio. Mas um número bastante expressivo de pessoas apontou Jurema como madrinha. Durante a reunião Jurema reclamou bastante sobre a falta de mobilização das pessoas para ajudar nos preparativos da inauguração. Segundo ela, foi muito difícil que as pessoas se disponibilizassem a ajudar nas tarefas de organização do evento.

Eu perguntei pro grupo: ‘quem pode ajudar com a feijoada?’, ninguém. ‘Quem pode ajudar servindo o refrigerante?’, ninguém. Virei as costas e fui embora da reunião. Aí depois o povo aparece dizendo que pode ajudar. Querem que a gente faça tudo pra eles.

Este tipo de situação era relatada de forma recorrente e sempre causava certa irritação em Jurema: segundo ela as pessoas tentavam escapar das tarefas voltadas para o coletivo, o que para ela, revelava certo egoísmo. O que me parecia era que as pessoas, apesar de animadas para a inauguração, estavam muito preocupadas em fazer os ajustes finais de suas casas. Neste dia muitos estavam concentrados em acabamentos no exterior das casas, para que estivessem bonitas no dia da inauguração. Apesar disso, já se sabia que não haveria tempo para acertar todos os detalhes que faltavam para a data em questão. Acabamentos nas partes externas, principalmente, ainda estavam sendo feitos. Havia muitos tanques na área de serviço por colocar, telhas, grades e portões que ainda não tinham sido instalados, entre outros detalhes.

No documento Rio de Janeiro (páginas 77-81)