desenvolvimento é o “aprender” de uma comunidade, a democracia é um “deixar aprender”. Como pacto de convivência, a democracia é um modo de regulação de conflitos que preserva a existência dos conflitantes, permite a continuidade de sua experiência de convivência social, possibilita a expansão continuada dos graus de liberdade para que possa haver cada vez mais experimentação, mais aprendizagem e, por conseguinte, mais desenvolvimento.
É por isso que não pode haver desenvolvimento – tomado em termos regulacionais, na visão proposta aqui, ou seja, desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade – sem democracia. Ou melhor, é por isso que mais desenvolvimento (ou sustentabilidade) implica mais democracia, avanço do processo de democratização, de democratização da democracia.
Pode haver crescimento – da renda, da riqueza ou de qualquer outra variável extra-econômica da equação do desenvolvimento, como o conhecimento, por exemplo – sem democracia, mas não pode haver, nesse sentido, desenvolvimento.
E é por isso que o desenvolvimento depende da produção de capital social, ou seja, da capacidade de uma sociedade de gerar ordem espontaneamente pela cooperação. Em outras palavras, é por isso que desenvolvimento depende da capacidade de uma sociedade de constituir comunidade, de tramar seu tecido social a ponto de permitir a eclosão dos fenômenos associados à emergência (multiplicidade, diversidade, reverberação, circuitos de retroalimentação, de reforço ou de feedback positivo, etc.).
de qualidades ou dinamização de potencialidades contidas em gérmen. É o desenrolar. Em certo sentido, o termo “evoluir”
ficou muito marcado por essa idéia. O pinto está contido no ovo.
Há uma transformação pela qual a “forma” contida em gérmen (no conteúdo do ovo) vira outra “forma” (a ave). Já o modelo variacional evoca a idéia de mudança acarretada por uma interação com as circunstâncias. Nada está totalmente contido em gérmen. O que está contido muda de acordo com as variações aleatórias que ocorrerão, sobretudo, na interação com o meio.
O primeiro modelo de mudança – o modelo transformacional – foi muito usado pelos que conferiam um papel preponderante ao Estado ou a um sujeito coletivo munido de um projeto e vontade no processo de desenvolvimento. O segundo – o modelo variacional – foi usado pelos que atribuíam ao mercado um papel principal como motor do desenvolvimento. Com efeito, o mercado parece ter um comportamento que é mais bem explicado pelo modelo variacional do que pelo modelo transformacional.
Nenhum desses dois modelos de mudança é inteiramente compatível com uma visão de sustentabilidade. Sugere-se, por isso, um terceiro modelo, o modelo regulacional, que parte da idéia de que existe uma rede que regula a mudança. Ele não nega a transformação nem a variação, mas não atribui papel determinante à criação de condições para que a transformação aconteça, nem deixa a mudança ao léu das variações aleatórias.
Falar de desenvolvimento sustentável é a mesma coisa que falar de desenvolvimento de uma perspectiva regulacional ou sistêmica. Só é sustentável (e, nesse sentido, só se desenvolve) aquilo que permanece (como o que é, como o que se identifica de um modo particular e único) e muda ao mesmo tempo (de acordo com a mudança das circunstâncias). Em outras palavras, isso significa conservar a adaptação. Para se adaptar, é necessário
mudar. Mas o padrão de mudança deve ser conservado, pois, do contrário, o ser em mudança deixa de ser o que é.
Para que isso seja possível, é necessário reconstruir programas de adaptação com base em um padrão que defina uma identidade. Pois bem, essa identidade é a identidade da rede social, onde o processo de mudança se verifica e não a identidade particular desse ou daquele indivíduo, desse ou daquele grupo de indivíduos.
Não apenas em termos ambientais, mas também em termos sociais, desenvolvimento é o mesmo que sustentabilidade.
Quando se fala em mudanças em um ecossistema, esta-se falando da teia de conexões que regula o fluxo de energia e matéria dentro do sistema e de suas relações com o meio. Se esse fluxo for regulado – incluindo o aparecimento de novos indivíduos, organismos e espécies, seu desaparecimento e as mudanças físicas – por essa teia de conexões, o ecossistema se mantém. Ele muda para permanecer como tal, muda – apesar de ser um pouco estranha a formulação – para permanecer o que é, e só permanece se estiver em contínua mudança. É igual (ao que é), quando, a cada momento, consegue ser diferente (do que era).
Esse é o aparente paradoxo da sustentabilidade. E é por causa dele que é tão difícil entender esse conceito.
Assim, afirma-se que isso pode igualmente ser observado em termos sociais. A rede social – a verdadeira Matrix, não o mainframe do filme dos irmãos Wachowski, mas a network, a teia invisível, móvel, pulsante de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade, também denominada, do ponto de vista dos recursos necessários ao desenvolvimento, pela expressão “capital social” – tem o papel de mudar os programas de adaptação por meio de seu próprio padrão de identidade.
Ainda não há instrumentos teóricos e condições técnicas para se mapear os padrões de identidade de uma rede social. Mas se chegará a esse conhecimento velozmente. Experiências recentes com trânsitos de mensagens e monitoramento das interações entre indivíduos em um pequeno grupo já estão permitindo desenhar configurações complexas de conexões. O problema agora é identificar, nesses intricados desenhos, os invariantes, as formas que não mudam quando tudo muda. No momento em que se conseguir fazer isso, ter-se-á descoberto a “impressão digital” de uma sociedade particular.
O que é chamado de desenvolvimento, de um ponto de vista regulacional, é apenas “a dança conforme a música”. Isso pode significar crescimento, expansão de uma ou de várias características ou fatores, mas também pode não significar.
Crescimento significa sempre mudanças relativas de fatores, uns em relação aos outros, em torno de valores ótimos.
Crescimento de um fator (por exemplo, o econômico) não acompanhado por movimentos correspondentes de outros fatores (humanos, sociais, ambientais), em geral, leva à insustentabilidade. Mas os economistas ainda vão levar algum tempo para perceber essas coisas.
Maturana e Varela, nos anos 80, estabeleceram um importante paralelo entre o processo de vida e o processo de conhecimento.
A chamada, por alguns, “Teoria do Conhecimento de Santiago”
é um conjunto de hipóteses sobre tal paralelo.7 Os ecologistas já haviam estabelecido um paralelo semelhante entre o processo de vida – sobretudo em ecossistemas, mais do que em organismos e partes de organismos – e o processo de desenvolvimento.
É daí, aliás, que nasce a idéia de desenvolvimento sustentável.
Aventa-se, então, a possibilidade de um paralelo entre o processo de conhecimento e o processo de desenvolvimento. Não se trata de uma grande descoberta, qualquer um que estabelecesse uma relação lógica (na verdade, analógica) simples poderia chegar
à mesma hipótese. Se “vida” é análoga a “desenvolvimento” e
“vida” é análoga a “conhecimento”, então, “desenvolvimento” é análogo a “conhecimento”.
Mas dizer que tanto o processo de vida quanto o processo de conhecimento são análogos ao processo de desenvolvimento admite alguns pressupostos e tem conseqüências importantes.
Um desses pressupostos é o de que deve haver uma estrutura comum, que vive, aprende e se desenvolve, sendo essas três coisas, talvez, três maneiras de olhar um mesmo processo estrutural (estrutural no sentido em que Maturana emprega a expressão e não nos sentidos em que a filosofia estruturalista ou o marxismo a empregaram). Essa estrutura é a rede. Só pode viver o que está conectado em rede. Só pode aprender o que tem o padrão de rede. Só pode se desenvolver o que tem a configuração de rede.
Se o cérebro é capaz de aprender é porque ele não é uma CPU de computador, mas tem a estrutura de rede. Se um acidente destruir uma parte do cérebro, sendo tal dano irreversível, visto que o componente destruído não poderá ser refeito, isso não significa que não possa ser compensável, isto é, que sua função não seja assumida por outro nodo da rede ou por uma nova combinação de conexões entre esse nodo e os demais. Fala-se, portanto, de regulação. Não da regulação operada por uma instância superior, top down ou de fora para dentro, mas da regulação própria que só pode ser operada por uma rede. Os estímulos podem vir de fora, mas o seu processamento ocorre dentro da rede. Trata-se de auto-regulação.
Uma conseqüência importante dessa concepção é que o sujeito deixa de ser o indivíduo evoluindo e passa a ser a rede aprendendo. A rede aprende, entretanto, de um modo bastante diferente daquele que (se imaginava) ocorre com os indivíduos.
A rede aprende toda a vez que é obrigada a se auto-regular.
A rede aprende toda vez que gera nova ordem, toda vez que o fenômeno da emergência se manifesta.