onde isso é possível), mas um modelo explicativo, um modo de ver que acrescenta conhecimento ao que, até agora, sabe-se sobre o assunto.
A rede social que existe de fato será chamada de “rede-mãe”
ou “a matriz”. As redes voluntariamente articuladas, com o intuito de copiar a topologia, a morfologia ou a dinâmica da
“rede-mãe”, são interfaces estabelecidas para se tentar uma comunicação direta com essa matriz. São feitas para dialogar, pois a “rede-mãe” não reconhece bem outras formas organizativas, não entende sua linguagem. A rigor, dever-se-ia afirmar o seguinte: quanto menos distribuídas forem as redes articuladas para construir essa interface com “a matriz”, mais difícil será a comunicação com ela.
Esse esquema explicativo funciona relativamente bem. Ele dá conta de explicar por que, por exemplo, organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização ou multicentralização) têm imensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas. A rede social que existe de fato – a “rede-mãe” – não recebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido.
É o que ocorre quando se ouve relatos de organizações sociais profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não mudam, parece que tudo continua como d’antes.
Caso sejam analisadas as circunstâncias de atuação dessas organizações de base, será possível perceber que elas possuem um alto grau de centralização ou um grau de enredamento insuficiente. Esse é um problema de comunicação. A rede social
que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagens emitidas pela organização. É muito provável que essa organização esteja estruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma igrejinha. É muito provável que ela faça parte da ‘‘nova burocracia das ONGs”, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar – com baixíssimo grau de rotatividade, menor ainda que o dos partidos e organizações corporativas. É muito provável que seus chefes queiram se eternizar no poder (um micropoder, é verdade, mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, comporta-se mais ou menos da mesma maneira, sempre por meio do poder de excluir o outro) porque precisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter o reconhecimento social por sua atuação.
Se essa organização que não consegue boa comunicação com a “rede-mãe” for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada em um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico ou no interesse político de um grupo particular que quer manobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede social que existe de fato – “a matriz” – é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas construídas para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempre privadas, mesmo quando são urdidas teorias estranhas para legitimar a privatização, como aquela velha crença de que existem interesses privados que, por obra de alguma lei sociohistórica, têm o condão de se universalizar, quer dizer, de universalizar seu particularismo, quando satisfeitos.
Essa é a “teoria”, por exemplo, da “classe redentora” no pensamento marxista.
Só há uma maneira de se conseguir uma boa comunicação com
“a matriz”: copiando-a o mais fielmente possível, ou seja, construindo interfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição possível. Quanto mais distribuídas forem as redes
construídas para copiar a “rede-mãe” melhor será a comunicação com ela e maior efetividade terá o esforço de se promover mudanças na sociedade.
Agora serão observadas as dificuldades do modelo explicativo ora proposto.
A principal dificuldade é que a “rede-mãe” nem sempre é uma rede peer-to-peer distribuída. Deveria ser se não tivesse sido invadida por padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos. Mas nas sociedades realmente existentes, nas localidades ditas civilizadas, ela não é.
Para enfrentar essa dificuldade é preciso considerar que “a matriz” é a rede, não o programa que roda nela. Nessa chamada
“rede-mãe”, é possível instalar programas que alterem sua topologia. Como ocorre nas redes neurais do cérebro humano (FIG. 2.4), o software – certas linguagens, por exemplo, sobretudo simbólicas, como nos mostrou Terrence Deacon (1997), em The simbolic species: the co-evolution of language and the brain – pode modificar o hardware. Podem desativar ou impedir que novas conexões se estabeleçam, assim como podem estimular novas conexões.1
A “rede-mãe” está “projetada”, se for possível falar assim, para permitir o grau máximo de distribuição – todos conectados com todos. O que não significa que isso ocorrerá. Na prática, isso não ocorre em nenhuma sociedade humana complexa, mas apenas em pequenos grupos. A introdução de padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos equivale à instalação de programas que desativam conexões e impedem que novas conexões se estabeleçam.
FIG. 2.4 | Redes neurais
O genótipo da “rede-mãe” é o da distribuição máxima, mas o fenótipo acaba sendo o da distribuição combinada com a centralização (e a multicentralização), em que o grau de centralização é muito grande, tornando-se praticamente impossível a manifestação de um “metabolismo” democrático, que exige sempre algum nível de distribuição. A democracia – e a pluriarquia, isto é, a democracia realizada em redes altamente distribuídas – é um caminho em direção à distribuição.
Se o desejo é de que uma determinada sociedade altere seus padrões de organização e seus modos de regulação na direção de mais horizontalidade (mais conectividade) e mais democracia (mais “metabolismo” de rede distribuída), há que se construir interfaces organizativas capazes de permitir a instalação de
programas que ativem conexões e fabriquem novas conexões.
É razoável supor que essas interfaces organizativas devem ser, para tanto, mais distribuídas do que centralizadas. Deve-se falar a “linguagem de máquina” da “rede-mãe” e não a linguagem dos programas que foram instalados para colocar obstáculos ao trânsito, à fluição. Tem-se de remover os obstáculos, quer dizer, eliminar as escadas, derrubar os muros, demolir as pirâmides, destrancar as portas... em outras palavras, deve-se quebrar o poder privatizante das corporações e das outras organizações hierárquico-verticais.
Quando se constrói uma hierarquia deforma-se a rede e não há comunicação verdadeira com “a matriz”, quer dizer, não com o que ela é porque assim foi tornada ao rodar um programa
“verticalizante” e sim com o que ela pode ser funcionando apenas por meio de algo assim, em uma comparação sofrível, como o seu Bios (em computação, Basic Input/Output System).
O que é chamado propriamente de social é, assim, construído a cada instante pelo processo de conectar para criar novos caminhos ao fluir; não é um dado, uma herança e sim um projeto sempre retomado.