A rede aprende toda a vez que é obrigada a se auto-regular.
A rede aprende toda vez que gera nova ordem, toda vez que o fenômeno da emergência se manifesta.
nas preocupações dos teóricos do desenvolvimento há menos de vinte anos. A natureza em questão é a natureza da sociedade humana – ora, se se volta a discutir tanto, hoje em dia, sobre a natureza da natureza humana, por que não se pode discutir também sobre a natureza da sociedade humana? Sim, porquanto o que é chamado de capital social é, na verdade, a sociedade, no sentido tocquevilliano do termo.
Pois bem, a natureza da sociedade é a rede social. O que se identifica como social é a rede social, conquanto comumente se atribua o qualificativo (ou o designativo) de “social” para qualquer realidade humana. Humano e social não são sinônimos.
Ao contrário do que parece “social” não é a coleção de elementos humanos. Humanos vistos individualmente, naquilo que aportam de recursos para o desenvolvimento em virtude de suas qualidades e potencialidades humanas intrínsecas, não compõem o social se não se incluir no conjunto as relações que tais humanos estabelecem entre si.
Pode-se dizer que essa discussão é ociosa visto que o humano não se constitui como tal na ausência do social. Isso parece certo. Entretanto, se apenas os componentes do capital humano stricto sensu forem focalizados, não se poderá deles derivar o capital social. Ou seja, não há nenhuma equação que permita
“calcular” o capital social a partir do capital humano. Daí que o que se chama de políticas sociais são, na verdade, políticas humanas, no sentido de políticas de proteção ou promoção do desenvolvimento humano (como saúde e educação, por exemplo). Por outro lado, políticas de indução do desenvolvimento social, propriamente dito, como aquelas que têm como objetivo aumentar a conectividade (inspirando, por exemplo, programas de instalação de telecentros comunitários) muitas vezes não são percebidas nem consideradas como políticas sociais (quando é somente isso o que são!).
Capital social é um tipo de recurso bastante diferente do capital humano porque não pode ser individualizado, internalizado por um sujeito, identificado com atributos isoláveis do ambiente ou do campo social – no sentido de que tal recurso continue existindo na ausência desse “campo de força”. É claro que o capital humano gera capital social se as colisões forem a ele acrescentadas, em um modelo análogo ao que se emprega para observar um gás aquecido: Singapura tem muita densidade de capital humano que, como moléculas de um gás, vão se chocar em uma freqüência muito maior do que no Afeganistão ou na Amazônia. Essas colisões são, na verdade, uma imagem das conexões. Caso haja colisão com muitas pessoas, “o gás vai se aquecer”. Em um mundo pequeno (Small World Network) – quer dizer, com alta conectividade, baixa extensão característica de caminho ou graus de separação reduzidos –, haverá maior produção de capital social.
Tudo isso sugere que o fundamental não está na metáfora do capital social, como se fosse um recurso misterioso produzido pela cooperação ampliada socialmente ou pelos níveis sociais de confiança emitidos, quem sabe, por corações humanos que, incontidos em sua generosidade, querem sair do peito (não é da sociedade dos anjos que se está falando aqui) e sim nos fenômenos que ocorrem na intimidade mais profunda disso que é chamado de sociedade. O fundamental é o multiverso das conexões ocultas que configuram o que se chama de social. O fundamental é descobrir que padrões de convivência social são mais favoráveis à criação de um campo empoderante. (Ah! Sim, o capital social encoraja o capital humano a realizar suas promessas). Ou, em outras palavras, o fundamental é captar aquelas configurações e dinâmicas de rede que favorecem a emergência, a geração espontânea de ordem.
As conexões representadas por linhas fixas são apenas rastros de fluições. A rede não é o grafo, o emaranhado das linhas é
apenas a trajetória de algo que já fluiu por ali, não no espaço físico ou sobre o território geográfico, mas no espaço-tempo dos fluxos. É claro que um fluir repetido cria um sulco por onde acabam escorrendo o que ainda virá. Nesse caso, a conexão se torna estrada, a aresta vira trilha por onde outros caminharão.
É assim que nascem as ruas em uma cidade; antes elas nasceram no espaço-tempo dos fluxos para, só depois, virarem construção urbana.
No espaço-tempo dos fluxos, cada caminho novo que se abre é uma possibilidade de futuro que não havia até então.
O desenvolvimento, nesse ponto de vista, é a abertura de novos caminhos, de novos futuros. Poucos futuros, pouco desenvolvimento. Imagine-se que explicações inovadoras podem surgir daqui: o estoque – ou o fluxo, melhor dizendo – de futuros disponíveis é o reservatório dos futuros possíveis;
ou o desenvolvimento não é um caminhar de volta ao presente passando pelos futuros disponíveis?
Em breve, as metodologias de indução do desenvolvimento, baseadas no investimento em capital social, serão descritas como um conjunto de técnicas e atividades que têm por objetivo a criação e a animação de redes sociais, ou seja, netweaving.
Notas e referências
1 Cf. FUKUYAMA, Francis (1999). A grande ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
2 DEWEY, John (1927). The public and its problems. Chicago: Gataway Books, 1946.
3 LEWONTIN, Richard (1998). A tripla hélice. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
4 Idem.
5 Cf.: MATURANA, Humberto; VARELLA, Francisco (1973). De máquinas e seres vivos – autopoiesis: a organização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997;
MARGULIS, Lynn (1998). O planeta simbiótico: uma nova perspectiva da evolução. Rio de Janeiro: Rocco, 2001; HO, Mae-Wan; SAUNDERS, P. T. (Orgs.).
Beyond darwinism: introduction to the new evolutionary paradigm. London:
Academic Press, 1984; STROHMAN, Richard. The coming kuhnian revolution in biology. In: Nature Biotechnology, vol. 15, mar., 1997; e HO, Mae-Wan. Genetic engineering: dream or nightmare? Bath: Gateway Books, 1998.
6 JACOBS, Jane (2000). The nature of economies. New York: Vintage Books, 2000.
7 Cf. FRANCO, Augusto (2001). Uma teoria da cooperação baseada em Maturana. In: Aminoácidos 4. Brasília: AED, 2002. Disponível em: < http://
contexto4.blogspot.com>