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Redes e sustentabilidade

No documento Escola de Redes - (www.pgcl.uenf.br). (páginas 151-155)

A rede não predetermina o que vai acontecer, mas combina e recombina, continuamente, eventos e relações já existentes com novos eventos e novas relações introduzidas pelas mudanças endógenas e exógenas. E não importa se tais alterações são ou não casuais. O programa regulador – que “roda” na rede e não nos organismos, em partes de organismos ou em outros nodos que a compõem – tende a assimilar as alterações casuais de tal sorte a torná-las adequadas à conservação da adaptação do organismo ao meio. Esse programa é autopoiético e também vai se modificando para dar conta de exercer seu papel regulador em circunstâncias que vão se modificando. Ou seja, a rede aprende.

A rede aprendendo é o sujeito e não o organismo evoluindo.

Se esse ponto de vista for adotado, deixa-se para trás a questão a respeito de se deve ou não haver um paralelo entre o desenvolvimento (social) e a evolução (biológica) e se tal paralelo seria ou não legítimo. Sociedades humanas nada têm a ver com organismos, partes de organismos ou ecossistemas, a não ser enquanto são, igualmente, reguladas por redes – sistemas complexos que apresentam, como tais, características e propriedades análogas.

Desenvolvimento – um conceito aplicado a sociedades humanas – seria, então, um processo de mudança, regulado pelas redes sociais, que depende de estímulos internos e externos, múltiplas interações entre alterações internas e externas, aleatórias ou não, cujo “propósito” é assegurar a conservação dinâmica dessas próprias redes e, nessa medida, dos elementos que a compõem.

variacional. Transformações e variações acontecem o tempo todo. Transformações não são unicamente o desdobramento de um projeto prefigurado, contido em germe, em um programa arquivado em um genoma. E variações não são o resultado da replicação imperfeita desse projeto diante da mudança totalmente aleatória das circunstâncias. A nova ordem implicada na mudança só pode emergir porque a transformação e a variação passam a ser reguladas. Essa nova ordem emerge quando há regulação da mudança. Quem regula a mudança, nesse ponto de vista, é a rede social. Ela se adapta e conserva seus padrões de adaptação. Ela só consegue conservar a adaptação porque reconstrói (ou seja, muda) seus programas de adaptação com base nesse padrão (a identidade de uma rede social).

Sustentabilidade, nesse ponto de vista, é desenvolvimento, que só pode existir quando existe ordem emergente, quer dizer, auto-regulada.

Novamente é evocado um poderoso paralelo heurístico. Se, em termos biológicos, sustentabilidade é a mesma coisa que vida, em termos sociais sustentabilidade é a mesma coisa que desenvolvimento. A vida cessa quando se rompe a congruência entre o indivíduo e o meio, o que significa incapacidade de manter uma correspondência dinâmica com os outros elementos da rede que possibilite a autopoiese. O desenvolvimento (sustentável) ocorre, a não ser enquanto há auto-regulação social.

Mas há ainda um outro paralelo heurístico: assim como o processo de vida é análogo ao processo de conhecimento, o processo social – ou seja, o processo de desenvolvimento social de um ponto de vista regulacional (ou para uma teoria sistêmica do desenvolvimento, poder-se-ia dizer) – é também comparável ao processo de conhecimento. É assim que se pode, então, dizer que a sociedade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede social aprendendo. Aprendendo o quê? Aprendendo a se auto-regular.

Aprender, aqui, significa ser capaz de reconstruir seu programa

de adaptação, ou seja, ser capaz de construir um outro (novo) programa com base na (mesma) matriz de identidade, isto é, no mesmo padrão que caracteriza uma sociedade particular porque contém os invariantes da configuração e da dinâmica de sua rede social.

Ocorre que uma sociedade particular capaz de fazer isso é sempre uma sociedade local. É por isso que se diz que todo desenvolvimento (sustentável) é local, porque “todo bottom up é local”, porque todos os conhecimentos tomados (a partir de baixo) são locais, ou seja, são tomados com base em avaliações locais das circunstâncias mais amplas ou das condições mais gerais. A emergência – quer dizer, o surgimento de uma nova ordem por auto-regulação – se dá no local;

inclusive uma ordem emergente de caráter mais global é construída por interações locais.

Sistemas complexos são capazes de fazer isso, ou seja, de configurar ordem mais global (macrocomportamentos) por meio de regras locais, tornando-se capazes de comportamento emergente, inteligência coletiva e de swarm intelligence quando seus elementos se concentram na solução dos mesmos problemas (que são, então, forçosamente, problemas locais).

Sociedades (de massa) não são capazes de fazer isso, mas comunidades (de projeto) sim. Ou melhor, sociedades só são capazes de fazer isso se as comunidades de projeto que se formaram em seu seio fizerem isso, como percebeu Jane Jacobs, em outros termos, há 40 anos. Só comunidades de projeto que se dedicam, por milhares de micromotivos diferentes das pessoas e grupos que as compõem, à resolução dos mesmos problemas locais podem ser capazes de adquirir a dinâmica de sistemas complexos adaptativos e, assim, tornarem-se sustentáveis.

É por isso que uma nova visão do desenvolvimento, como a que está sendo cogitada aqui, aponta para o desenvolvimento

local, que, nesse sentido, não é uma redução, não é uma particularização. Desenvolvimento local nada mais é do que desenvolvimento comunitário, ou seja, desenvolvimento de comunidades de projeto alcançado por meio das próprias comunidades. Desenvolvimento, nesse sentido, é uma emergência.

E o terreno da emergência é o local.

Só redes podem aprender, mas não é qualquer rede que aprende.

Só redes podem ser sustentáveis, mas não é qualquer rede que pode ser sustentável. No que tange a sociedades humanas, o tecido social pode atingir o grau de tramatura suficiente apenas em comunidades de projeto, ensejando o fenômeno da auto- regulação. Comunidades são sociedades que atingiram certo grau de tramatura de seu tecido social. Uma ordem na sociedade global – se não for autocrática – só poderá emergir, quer dizer, vir de baixo, do local.

Tudo isso pode ser analisado por teorias do capital social se for considerado que o fator do desenvolvimento designado pela noção de capital social nada mais é do que a rede social. É o grau de conectividade, o número de caminhos – medido, se assim se desejar, pela “extensão característica de caminho” ou pelo “comprimento de corrente” – existentes entre os nodos de uma rede social que origina o poder social de uma sociedade, ou seja, sua capacidade de empoderar seus elementos para que eles criem, inovem, empreendam, assumam o protagonismo, enfim, desenvolvam-se à medida que desenvolvem o coletivo do qual fazem parte. Desenvolvimento (sustentável) é, assim, a coincidência de autodesenvolvimento e comum-desenvolvimento.

Em outras palavras, conforme Jacobs (2000), desenvolvimento é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes.6

Qualquer ordem não-autocrática só pode existir se for emergente. Tem-se aqui uma pista para estabelecer um nexo conotativo entre desenvolvimento e democracia. Assim como o

desenvolvimento é o “aprender” de uma comunidade, a democracia é um “deixar aprender”. Como pacto de convivência, a democracia é um modo de regulação de conflitos que preserva a existência dos conflitantes, permite a continuidade de sua experiência de convivência social, possibilita a expansão continuada dos graus de liberdade para que possa haver cada vez mais experimentação, mais aprendizagem e, por conseguinte, mais desenvolvimento.

É por isso que não pode haver desenvolvimento – tomado em termos regulacionais, na visão proposta aqui, ou seja, desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade – sem democracia. Ou melhor, é por isso que mais desenvolvimento (ou sustentabilidade) implica mais democracia, avanço do processo de democratização, de democratização da democracia.

Pode haver crescimento – da renda, da riqueza ou de qualquer outra variável extra-econômica da equação do desenvolvimento, como o conhecimento, por exemplo – sem democracia, mas não pode haver, nesse sentido, desenvolvimento.

E é por isso que o desenvolvimento depende da produção de capital social, ou seja, da capacidade de uma sociedade de gerar ordem espontaneamente pela cooperação. Em outras palavras, é por isso que desenvolvimento depende da capacidade de uma sociedade de constituir comunidade, de tramar seu tecido social a ponto de permitir a eclosão dos fenômenos associados à emergência (multiplicidade, diversidade, reverberação, circuitos de retroalimentação, de reforço ou de feedback positivo, etc.).

No documento Escola de Redes - (www.pgcl.uenf.br). (páginas 151-155)