Não se pretende reproduzir nem desenvolver aqui as teorias construídas para analisar redes sociais. Os interessados na chamada “ciência das redes” devem estudar a bibliografia indicada, tomando como guia o bom reader The structure and dynamics of networks, editado por Mark Newman, Albert-László Barabási e Duncan Watts (2006), onde o leitor poderá entrar em contato com os diversos campos de investigação da nova ciência das redes: modelagem de redes real-world, redes como estruturas que se desenvolvem e redes como sistemas dinâmicos.
O foco deste trabalho não é investigar as pesquisas dos estudiosos das redes, mas fazer explorações no mundo das redes buscando inferir interpretações que inspirem novas visões sobre a sociedade.
Como foi mencionado na apresentação deste volume, este é um livro sobre visões, não sobre análise.
O que é chamado de mundo das redes, todavia, não é o mundo físico que pode ser visto, mas um multiverso de conexões que não se vê, ao qual só se pode ter acesso por meio da ciência ou da imaginação. Ainda que apoiadas em conhecimentos fornecidos pela ciência das redes, as presentes explorações são, em grande parte, imaginativas.
Pois bem, redes são sistemas de nodos e conexões. No caso das redes sociais, tais nodos são pessoas e as conexões são relações
entre essas pessoas. As relações em questão são caracterizadas pela possibilidade de uma pessoa emitir ou receber mensagens de outra pessoa. Quando isso acontece de fato dize-se que uma conexão foi estabelecida.
No entanto, isso é menos trivial do que parece. A velocidade de propagação da mensagem depende do meio. Com a transmissão eletromagnética de mensagens em velocidades próximas à velocidade da luz, as distâncias foram praticamente anuladas em escala planetária e não se presta atenção na variável temporal envolvida.
Não seria a mesma coisa se a comunicação estivesse ocorrendo por rádio com um nodo de rede situado, por exemplo, em uma estação espacial na órbita de Júpiter. Haveria um delay de, pelo menos, trinta e poucos minutos entre a emissão e a recepção.
Assim como não era a mesma coisa no chamado “network da Filadélfia”, engajado na formulação da Declaração de Independência dos Estados Unidos, do qual participavam pessoas espalhadas em onze localidades distantes do comitê redator. No primeiro semestre de 1776, uma carta, contendo uma sugestão para a declaração, enviada por Oliver Wolcott, de Connecticut, levou quanto tempo para chegar às mãos de Thomas Jefferson, na Virgínia? Cartas que seguiam por correio a cavalo, que não deviam percorrer mais do que 60 km por dia, mensagens de New Hampshire ou da Geórgia, de Delaware ou de Nova York, levavam dias para chegar ao seu destino.
Ora, uma conexão é uma mensagem fluindo, desde o momento em que foi emitida. Isso coloca uma questão interessante: uma pessoa que envia uma mensagem para uma pessoa desconhecida cria uma conexão que não havia? Quando a transmissão da mensagem não é em tempo real (quer dizer, muito rápida para a distância entre os nodos), como é que o tempo deve ser considerado? No caso do “network da Filadélfia”, em que
momento se estabelecia a conexão: quando as cartas eram enviadas, quando estavam no meio do caminho ou quando chegavam ao destinatário? Era relevante que o emitente ficasse sabendo quando ela chegou? Para a conexão ser transitiva, seria necessário que o emitente recebesse uma resposta? Em suma, quando Oliver Wolcott, de Connecticut, Josiah Barlett, de New Hampshire, George Walton, da Geórgia, Caesar Rodney, de Delaware, ou Lewis Morris, de Nova York, poderiam dizer que estavam conectados à rede da Filadélfia?
Para contornar tais dificuldades seria melhor definir que uma conexão é um caminho que não existe sem o “caminhante”. O
“caminhante” é a mensagem. Uma rua é conexão quando as pessoas passam por ela. Cada pessoa que transita (a pé, a cavalo, de carroça ou de automóvel) é uma mensagem que foi de um nodo a outro. Um cabo de fibra óptica só é conexão – quer dizer, só conecta de fato – quando alguma mensagem está fluindo por ele. De qualquer modo, o que se transmite é sempre um padrão (nos termos da Teoria da Informação, um padrão é uma mensagem), seja esse padrão transmitido como uma sensação tátil, um sabor, um odor, um som, um raio de luz. Não importa se o código está se propagando por um meio sólido ou fluido, um gás ou uma mistura de gases (como a voz se propagando pelo ar) ou, ainda pelo vácuo (como as ondas eletromagnéticas).
Tudo isso é para deixar claro que as redes não são estruturas fixas, mas sistemas de fluições.
Aqui já há muita coisa em que se pensar. Geralmente se é levado a tomar a rede pela sua representação gráfica (o grafo, com vértices ligados por arestas). Sem querer, pensa-se, então, que as arestas são estruturas fixas, como a malha viária de uma cidade. Ocorre que, na realidade, uma aresta desenhada como uma linha de pontos co-presentes em um grafo, não tem seus pontos no mesmo tempo. Ela é uma trajetória, um rastro
de fluição e não um caminho físico. Quando a mensagem enviada do nodo A para o nodo B chegar ao seu destinatário, não existirá mais nada, fisicamente falando. Apenas uma representação imaginária.
FIG. 1.1 | Rede com 4 nodos
Se, por exemplo, uma pessoa representada pelo nodo A (na FIG.
1.1) falecesse antes de sua mensagem chegar ao nodo B, como seria possível continuar representando-a por um ponto no grafo?
E se a posição relativa do nodo A em relação aos outros nodos da rede (ou seja, suas conexões com os nodos C e D) se modificassem enquanto a mensagem enviada do nodo A ao B estivesse a caminho?
Isso é relevante porquanto uma conexão, uma vez estabelecida, ativa um circuito e modifica a morfologia e a dinâmica da rede como um todo. E, além disso, porque, de um modo ou de outro, esse processo ocorre o tempo todo em redes sociais que conectam um grande número de pessoas.
Diz-se freqüentemente que os grafos das redes são instantâneos.
Na verdade, não são. Em uma representação instantânea, a rigor, não apareceriam as conexões e sim os trânsitos daquele momento (FIG. 1.2). Poderia ser, talvez, mais ou menos, como uma foto de um espalhamento de partículas, mas, novamente, tal representação não seria ótima, porquanto não existem, no caso, as partículas, a menos que se queira considerar a existência de algum bóson – como um fóton –, quer dizer, uma partícula mensageira do campo eletromagnético.
FIG. 1.2 | Espalhamento de partículas
Para representar graficamente redes, entretanto, não há muito como fugir dos grafos que enfatizam a estrutura, ou seja, o mapa do tráfego de mensagens, conquanto freqüentemente se
inclua nesse mapa as conexões reais e as potenciais, aquelas que poderiam acontecer em virtude de fatores que não são representáveis graficamente, como o conhecimento e a amizade no caso das redes sociais e/ou pela existência de um meio de comunicação fisicamente estabelecido, como uma linha telefônica ou um cabo de fibra ótica de uma rede local de computadores.
O problema é que a utilização do recurso dos grafos, não raro, leva a uma estática de redes e não a uma dinâmica, restringindo, assim, o poder da análise dos fenômenos que ocorrem em redes muito complexas, como as redes sociais.
É claro que nem toda rede é uma rede social. Existem muitos tipos de redes, entre os quais os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural, por exemplo, que conecta os neurônios no cérebro dos animais, ou a teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas, conectando microorganismos, plantas e animais e outros elementos naturais) e a rede social (embora existam também redes de máquinas – como a rede mundial de computadores, a Internet – que são redes sociais, visto que conectam pessoas). Há uma homologia entre esses diversos padrões organizativos, de sorte que, estudando-os, pode-se iluminar a compreensão do multiverso das conexões ocultas que configuram o que é chamado de social.