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Nós jazemos no seio de uma inteligência transbordante.

Ralph Waldo Emerson Em Self-reliance, Essays: First series (1841).

Nos últimos anos, uma mudança significativa na visão sobre a sociedade está ocorrendo. É como se, de repente, um véu tivesse sido retirado da frente dos olhos e agora fosse possível divisar uma estrutura e uma dinâmica – na verdade, vários mundos de fluxos luminosos e intermitentes – que revelasse a existência de conexões não enxergadas anteriormente (FIG. 2.1).

Essa mudança vem mostrando que aquilo que se chamava de sociedade não era exatamente o que, até então, julgava-se que estava sendo percebido. Ou seja, não era apenas um conjunto de indivíduos humanos distribuídos em um território e constituído com base em algumas relações recorrentes, normas e instituições, historicamente estabelecidas. Era isso, sim, mas muito mais do que isso.

Descobriu-se que o social não se refere propriamente a um conjunto de seres humanos e sim a um conjunto de relações.

Que essas relações são conexões. Que as conexões são caminhos pelos quais mensagens podem trafegar. Que padrões são mensagens e podem ser transmitidos como tal. Que os comportamentos dos indivíduos são condicionados, ao mesmo tempo, tanto por sua forma peculiar de interagir com outros

seres humanos – emitir, processar e receber mensagens – quanto pela configuração e pelo funcionamento geral da teia de conexões em que esse indivíduo está inserido. O que aponta para um imbricamento, inescapável, entre o indivíduo (possuidor de um fluxo próprio de experiências intransferíveis) e o coletivo (os fluxos das conexões com as experiências de outros indivíduos, que o atingem continuamente).

FIG. 2.1 | Fluxos luminosos e intermitentes

Essa teia de conexões é a rede social. Descobriu-se, assim, que o que era chamado de social nada mais era do que a rede social.

Isso é tão surpreendente que não é fácil captar todo sentido e imaginar as múltiplas conseqüências desse novo modo de ver.

Recorrendo-se a uma metáfora, é como se existisse de fato aquela The Matrix dos filmes dos irmãos Wachowski, não na forma de um mainframe controlado pelo elegante senhor de barba branca – o Arquiteto (representado pelo ator Helmut Bakaitis) que contracena com Neo (Keanu Reeves) em Matrix Reloaded – e sim como uma network, uma teia invisível, móvel, pulsante de conexões entre indivíduos e grupos em uma sociedade. Trata-se apenas de uma imagem, em certo sentido invertida: enquanto na Matrix (do filme) o objetivo é o controle, na rede social o tema é regulação. Sim, sob certas condições, pode-se ter, na rede social, o fenômeno da auto-regulação.

Invadida, porém, por padrões de organização hierárquicos e perturbada por modos de regulação autocráticos, a rede tem sua estrutura deformada e seu funcionamento alterado – geralmente pelo bloqueamento de fluxos – com conseqüências perversas para o que chamamos de qualidade de vida e de convivência social (FIG. 2.2).

Ainda é difícil avaliar todos os impactos que terá essa mudança de compreensão sobre a sociedade. Um dos impactos da descoberta das redes sociais recai sobre nossa visão do desenvolvimento. Pela primeira vez está sendo possível estabelecer uma relação intrínseca entre desenvolvimento e democracia. Essa relação só se tornou perceptível – e capaz de ser justificada teoricamente – com o surgimento da idéia de capital social.

Todavia o que chamamos de capital social – um recurso para o desenvolvimento, aventado recentemente para explicar por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes cooperativos favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar suas condições de convivência social – nada mais é do que a rede social. A constatação de que o capital social é produzido

em maior escala em ambientes democráticos tem inspirado uma outra idéia seminal: a de que a democracia é uma espécie de

“metabolismo” próprio da (ou mais adequado à) rede social.

FIG. 2.2 | Matrix: um programa de controle rodando

Do ponto de vista do capital social, quer dizer, dessa nova variável que passou a ser considerada – ao lado dos fatores econômicos já conhecidos (o capital financeiro e o capital físico, ou seja, a renda ou o produto e a riqueza) e dos fatores extra- econômicos que também passaram a ser levados em conta (como o capital humano e o capital natural) – desenvolvimento é o mesmo que sustentabilidade.

Sustentabilidade é o grande tema contemporâneo. A investigação dos mecanismos ou processos de sustentabilidade revelou o papel das redes sociais. Somente redes podem ser sustentáveis porque apenas redes conseguem mudar programas de adaptação mantendo seu próprio padrão de identidade, ou seja, aquilo que permanece invariante em sua forma de se configurar ou de fluir. Ora, isso significa conservação da adaptação: só é sustentável o que consegue mudar de acordo com a mudança de circunstâncias, mantendo uma congruência dinâmica com o meio, mas conservando, porém, aquilo que o caracteriza.

Sustentabilidade, em outras palavras, é uma função de auto- regulação da rede social.

No princípio era a rede...

No principio era a rede. O que é chamado de social refere-se à rede social. A configuração e a dinâmica de sua rede social é o que podem explicar, em um nível mais profundo, os fenômenos que acontecem em uma sociedade. Uma sociedade só é distinguível de outra porque sua rede social é diferente da rede social da outra sociedade. A identidade de uma sociedade pode ser compreendida, nesse nível de profundidade, por padrões de tessitura social e de fluxos recorrentes ou circuitos ativados.

Embora a rede seja móvel, embora os fluxos que a percorrem sejam diferentes em cada instante, existem padrões, invariantes que são próprios de uma particular coletividade. O retrato desses padrões é a impressão digital de uma sociedade. Aquilo que permanece constante na configuração e na dinâmica de uma rede social é a “carteira de identidade” da sociedade onde essa rede foi observada.

Assim como a teia da vida que liga os elementos de um ecossistema é invisível aos olhos, também o é a teia social que

estabelece as conexões entre as pessoas e os grupos em uma sociedade. São essas conexões que caracterizam os padrões de convivência social. Anisotropias criadas nesse tecido social, singularidades geradas nesse espaço, condicionam fluxos, constroem caminhos preferenciais para esses fluxos. Perturbações introduzidas nesse espaço vão percorrer o sistema seguindo caminhos construídos por repetição, pré-cursos que foram sulcados pelo trânsito diferencial de mensagens. O software modifica o hardware. A dinâmica da rede constrói sua configuração. Um caminho muito trilhado é um canal com mais capacidade. Redes de conversações acionadas com grande freqüência são como ruas que ligam bairros construídos em uma cidade. Tornam-se padrões invariantes na geografia urbana (FIG. 2.3). O sistema que resulta dessas múltiplas anisotropias conforma a identidade de um espaço social, quer dizer, uma rede social particular, identificável.

A analogia da rede social com a cidade tem muito poder heurístico. Mas é mais do que isso: as cidades ou, em termos ainda mais genéricos, as localidades também são redes socioterritoriais. As cidades são resultados do comportamento coletivo. Elas se auto-organizam, mesmo as que foram planejadas se reorganizam, tornando-se, todas, autoplanejadas, bottom up. Mas elas só podem fazer isso porque têm artérias, canais, circuitos ligando suas várias localidades (regiões administrativas, bairros, ruas, praças, outros equipamentos e casas). Por esses canais fluem padrões. Assim, entre os múltiplos caminhos percorridos, firmam-se como principais aqueles mais trafegados.

Tal ocorre com a rede social que está por trás da rede urbana.

Mais do que isso: tal só ocorre no espaço urbano (territorial) porque ocorre no espaço das conexões entre pessoas e grupos (social). Isso é a localidade do ponto de vista da rede.

FIG. 2.3 | Uma cidade como rede

O que usualmente é chamado de social se aplica a coletividades de seres humanos. Quando alguém se refere ao social, pensa em coleção de indivíduos. Levam-se em conta, por certo, as interações entre os indivíduos. Mas estudam-se os fenômenos da interação sem, contudo, ver a estrutura e a dinâmica da interação em seu espaço e tempo próprios. Isso porque não se vêem as conexões por meio das quais as interações se processam.

São essas conexões, esses caminhos múltiplos, que constituem a rede social.

A rede é invisível aos olhos, pois as conexões são ocultas. Mas há um espaço e um tempo das conexões. É um espaço-tempo

de fluxos, como percebeu Castells. É um multiverso de relações e não de objetos.

A metáfora do filme The Matrix serve como modelo sugestivo.

Com a diferença, como já se observou, de que a Matrix existe não como no filme, quer dizer, não como mainframe e sim como rede. Se fosse possível perceber o que está “por trás” de uma sociedade e o que produz os fenômenos que aparecem (ou que são encarados) como fenômenos sociais, ver-se-ia alguma coisa como aquela tela do filme, com os sinais verdes em cascata:

uma figuração do programa “rodando” (FIG. 2.2).

Há um programa rodando. Um programa emergente. Um programa que vai se construindo e reconstruindo. Um programa adaptativo. Quando se vê um caminho ser trilhado por muitas pessoas no espaço físico, é porque esse caminho já existe prefigurado no espaço de conexões. Só é possível transitar por esses “dutos”. Fora deles, não pode haver tráfego, pois não há espaço (de conexões) nem tempo (idem) fora deles e, assim, não pode haver movimento, isto é, trânsito de mensagens e padrões (um padrão, como dizia Norbert Wiener, também “é uma mensagem e pode ser transmitido como tal”).

Em princípio pode haver “dutos” entre cada elemento da sociedade, ou seja, entre cada par de indivíduos ou grupos de indivíduos (organizações, em um sentido amplo) e entre cada par indivíduo-grupo. As combinações possíveis são muito numerosas e crescem exponencialmente com o número de nodos, pois desenham caminhos que podem passar várias vezes por um mesmo nodo. Os fluxos são estímulos que escorrem pelas conexões mais ativadas, percorrendo circuitos que passam por numerosos nodos e pares de nodos mais de uma vez.

A ativação desses caminhos se dá pela recorrência: quanto mais trafegados forem, mais se tornarão preferenciais para o trânsito.

Isso é chamado de pré-curso. Um pré-curso é um sulco antecipatório, por onde escorrerão as coisas que ainda virão.

Não é por acaso que o número (e o tipo) de eventos no espaço- tempo de conexões (ou melhor, dos fluxos) é sempre caracteristicamente limitado, ou melhor, padronizado para cada sociedade em particular. Alguns caminhos costumeiros, algumas pessoas notórias, algumas configurações de relações recorrentes (que aparecem como festas típicas de uma cidade, por exemplo) são sempre celebrados, em detrimento de outros que, por mais que se tente promovê-los, não adquirirão igual visibilidade. É a sociedade construindo (e mantendo) sua identidade e, inevitável e simultaneamente, inventando sua tradição (sua capacidade de repetir o passado) e trancando seu futuro. Cada localidade tem potencial para ativar novos circuitos. Em princípio, todo local tem vocação para se tornar global, ou seja, para se tornar qualquer outro local. No entanto, se não mantivesse um mesmo padrão, uma localidade não poderia ser reconhecida como tal, em seus elementos distintivos. De certo modo — e isso pode ser apenas uma outra maneira de olhar, mas também pode ser mais do que isso – são os futuros disponíveis que distinguem uma localidade de outra e não o seu passado.

Ainda não se conhece a estrutura nem as leis que regem o espaço-tempo dos fluxos. Sabe-se, entretanto, que as conexões são móveis, que não são contínuas mesmo quando recorrentes, senão intermitentes (a rede pulsa). Sabe-se também que quanto maior a tessitura de uma rede menor o mundo (social) que ela gera e que isso não é função direta do número de seus nodos.

Muitos nodos e poucas conexões geram um mundo socialmente maior do que poucos nodos com muitas conexões. Uma cidade sumeriana como Lagash era muitas vezes maior (em termos de comprimento de corrente, extensão característica de caminho, grau de separação, conectividade, enfim, de capacidade de um

nodo chegar a outro nodo qualquer) do que a Nova York dos dias atuais.

Sabe-se que quanto maior a tramatura (desse tecido) do mundo social, maior sua capacidade de gerar programas adaptativos e de auto-organização e mais liberdade ela terá para inventar futuro. Liberdade é sempre poder (sobre si) e sempre o contrário de poder (sob ou sobre os outros). Múltiplos caminhos (= redes) ampliam a liberdade e o poder sobre si; caminhos únicos (=

hierarquia) reduzem a liberdade e ampliam o poder sob ou sobre os outros.

Talvez haja alguma coisa como um “gene social”, um “meme coletivo”, um programa básico de adaptação (que roda na rede) que se reproduza por imitação, passando de uma localidade a outra. Uma evidência disso é a incrível capacidade de contágio das cidades. Surgida uma cidade em um mundo de aldeias pré- urbanas, ela se espalha, copia-se em várias outras. Realizações de uma cidade são sempre imitadas por outras cidades. O atual reflorescimento das cidades-pólo no mundo do século 21 (as cidades-Estado transnacionais e as cidades-tecnológicas) está mudando a economia e a geopolítica do planeta, passando por cima de fronteiras e de outras restrições impostas pelo velho Estado-nação. Não é improvável que isso tenha começado com um programa que foi gerado em algum lugar e está se espalhando.

Outra evidência são as configurações culturais que se reproduzem:

os modelos teogônicos da Mesopotâmia do IV milênio (o panteão dos doze deuses, por exemplo) foram copiados por praticamente todas as civilizações do III e do II milênios a. E. C.

Não se sabe como ocorre tal processo, mas a capacidade de gerar padrões replicáveis de comportamento depende da tramatura do tecido social. Quanto menor o mundo em termos sociais, mais capaz ele será de gerar e exportar seus próprios padrões.

No documento Escola de Redes - (www.pgcl.uenf.br). (páginas 81-91)