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Observamos situações na narrativa nas quais Maria é depositária das vontades da mãe, a extensão de seus desejos e, consequentemente, dos desejos de seu pai.

Além disso, é possível identificar o controle da mãe sobre a filha, como se esta fosse apenas um objeto daquela, não possuindo aspirações nem subjetividade ou identidade própria.

Na leitura do folheto camiliano, podemos refletir: existiam impulsos agressivos e destrutivos nessa relação, mesmo que ocultos? A mãe ouvia Maria José, apenas o que seu marido havia exigido antes de sua morte ou, ainda, as supostas vontades dos céus, que eram da sua interpretação do que era divino e sagrado? Será que o Deus de Agostinho e Matilde abençoava aquela forma rígida e egoísta de educar os filhos?

Será que o cerceamento da liberdade de Maria pela mãe, sobretudo, para a salvação da alma do marido, não alimentou o avesso dos dogmas religiosos de amor e santidade e, no primeiro momento de felicidade que Maria teve, real ou imaginário, com o aparecimento de José Maria, tudo desmoronou? Camilo deixa estas e muitas outras perguntas no ar e é através das atitudes das suas personagens (sobretudo, de Maria) e da relação entre elas é que vamos tentar respondê-las.

De acordo com Oliveira (2009), crises conflituosas podem surgir a partir de expectativas não supridas em uma relação e a maneira como essas questões serão enfrentadas pode influenciar o desfecho, pois muitas relações não suportam crises.

É importante a compreensão de que idealizar expectativas sobre alguém torna a relação muito difícil, pois, além da exigência da perfeição do outro, exige-se a perfeição de si também, e isso pode gerar conflitos. Na vida de Matilde e Maria José, observamos esses padrões, principalmente os que envolvem aspectos religiosos, segundo os quais a pureza ou a “perfeição divina” seriam o objetivo final para elas ou, mais precisamente, para Matilde. Muitas vezes, os pais depositam expectativas em relação a seus filhos, que não passam de desejos pessoais e vontades próprias, fazendo com que o outro (o filho) seja passivo e impossibilitado de ter desejos e sonhos.

contraditórios à proteção, como ansiedade, insegurança, estresse e medo (DE MATOS et al., 2017). Desse modo, há a possibilidade de acontecer uma ruptura significativa e o ato homicida acabar sendo uma das consequências, com os pais ou filhos sendo os autores responsáveis pela morte intencional do outro.

Pinheiro (2010) retoma a reflexão de Freud, que, sustentado na doutrina cristã, afirma que o crime de parricídio, a morte dos pais provocada pelos filhos, seria o mais antigo crime da humanidade:

Se o filho de Deus teve de sacrificar sua vida para redimir a humanidade do pecado original, e esse pecado foi uma ofensa ao Deus-Pai, segundo a regra de Talião, do pagamento com igual moeda, o pecado foi então uma morte, um assassinato do Pai. Daí se concluir que a primeira proibição feita pela consciência foi: não matarás.

(PINHEIRO, 2010, p. 3).

Não há dúvida de que o maior dos crimes é matar um semelhante e, quando esse ser humano é o pai ou, principalmente, a mãe, não há justificativa e perdão. São crimes, como mostramos nos capítulos anteriores, de grande impacto e inaceitáveis, existindo uma resistência da sociedade em lidar com esse tipo de temática, principalmente por violar princípios básicos, biológicos, morais, éticos, sociais e, também, religiosos, pois estaria contra a preservação da “sagrada família”. Apesar de serem questões que são evitadas, despertam o interesse, e Camilo Castelo Branco sabia disso.

De acordo com Baxter et al. (2002, Apud PINHEIRO, 2010, p. 2), há um repúdio a esse tema, que, ao mesmo tempo, desperta muita curiosidade, suscitando resistências e medos, mas também conteúdos que podem estar recalcados, pois, havendo um reconhecimento da existência de “pulsões parricidas em nossa intimidade torna-se fator de embate interno e produtor de mal-estar, pois convocaremos nossos hóspedes desconhecidos”. Além disso, isso quebra padrões de idealização construídos em torno do ambiente familiar, onde há supostamente a prevalência de amor, proteção e confiança.

Negar o assassinato dos pais pelos próprios filhos está relacionado a convenções sociais, que pregam que o amor entre os membros de uma família deve estar acima de tudo. É um assunto que gera dor e repulsa, mas, apesar desse ideal

de amor incondicional, existem diferentes fundamentações religiosas e mitológicas sobre esses crimes (WINNICOTT, 1998). De tal modo, mesmo não sendo tão comuns, tais crimes sempre tiveram espaço reservado no desenvolvimento histórico da civilização.

Gomide (2010) explica que, na maioria das vezes, esses crimes acontecem em famílias monoparentais, em que aquele que ficou com a obrigação do cuidado não consegue estabelecer um equilíbrio, o que pode gerar relações hostis e abusivas.

Podemos relacionar esse aspecto à própria história de Maria José e Matilde, constituída na maior parte do tempo somente por ela e pela mãe, com um aparente equilíbrio, carinho, harmonia e amor, porém, ao mesmo tempo, com certo abuso emocional, extremo exclusivismo e dependência psicológica, desiquilibrando o vínculo entre ambas. Agostinho não estava fisicamente presente para estabelecer esse equilíbrio, mas estava espiritualmente presente para impor seus mandamentos.

Num estudo realizado por D´Orban e O´Connor (1989, Apud VALENÇA et al., 2009) com dezessete casos de matricídio, as mães foram descritas como dominadoras e autoritárias. Seria o caso de Matilde? No mesmo estudo, 65% dos sujeitos que cometeram matricídios possuíam um diagnóstico de transtorno psicótico primário (importante ponto que retomaremos no final). Assim, é possível observar que houve diretamente uma associação entre a sintomatologia psicótica e o matricídio.

Romero et al. (2020) corroboram essa ideia ao explicar que os sujeitos que matam os próprios pais são frequentemente diagnosticados com algum tipo de transtorno.

No entanto, não temos como propósito trazer nesta pesquisa informações sobre diagnósticos médicos. Faremos apenas reflexões acerca da personagem Maria José, sobretudo, para tentar compreender sua mente criminosa e os motivos que a levaram a cometer tão desprezível ato.

Outro ponto defendido por Wertham (1941, Apud TECHE, 2014, p. 39) é que o matricida geralmente tem “um relacionamento de excessivo apego e hostilidade com a mãe, são dependentes emocionalmente ou financeiramente e moram a sós, sem a figura paterna. Segundo o autor, os conflitos serão resolvidos somente com um ato violento”. É o que acontece na narrativa de Camilo Castelo Branco. Para Green (1981, Apud TECHE, 2014, p. 2), “os matricidas eram passivos e dependentes emocionalmente com fortes sentimentos de inferioridade sexual e social, enquanto as mães, eram dominantes e possessivas”. Parece ser o caso de Maria, uma mulher solteira aos vinte e nove anos, cuja vida ainda era controlada pela mãe.

Em uma primeira leitura da narrativa camiliana, somos impulsionados a conhecer apenas o crime cometido por Maria José, da maneira como ele é mostrado pelo narrador, formando nossos julgamentos, unicamente, a partir do seu ponto de vista, ou seja, somente aquilo que reforça o seu argumento, sempre permeado de um caráter extremamente religioso e, provavelmente, escondendo aquilo que não lhe interessa e que não quer que o leitor saiba.

Camilo, habilmente, nos conduz pelo caminho que ele quer, que não necessariamente reproduz de maneira fiel o que aconteceu, uma vez que o folheto é uma ficção. Em nenhum momento, por exemplo, questionam-se as atitudes da mãe, somente as de Maria. Seu foco é o crime, o mais terrível dos crimes, e sua intenção, ao menos a expressa (não a implícita), é castigar a assassina para que isso sirva de exemplo.

Se Maria e sua mãe se amavam tanto e era uma relação de causar inveja, como isso foi acontecer? Como uma mulher, que durante seus vinte e nove anos foi um exemplo de filha, foi capaz de matar e esquartejar a própria mãe? Será que Maria sempre foi má e ninguém percebeu? Ou será que, devido à relação familiar que vivia, essa maldade foi acionada ou adquirida? Seria uma moça frágil que apenas queria viver, finalmente, seu primeiro amor? Que almejava realizar, pelo menos uma vez, um desejo só seu? Ou seria uma moça perigosa, psicopata? Possuía um transtorno mental que só agora fez com que ela entrasse em surto e matasse sua mãe? São questões a ser apontadas mais adiante.

Pinheiro (2010) afirma que, quando começou a pesquisar sobre o tema do parricídio, pensou que iria encontrar um eixo psíquico comum, porém chegou à conclusão de que havia uma pluralidade de casos, nos quais cada história tinha seus aspectos singulares, impossibilitando a generalização de apenas um tipo de personalidade dos criminosos.

No início da narrativa de Camilo, temos a impressão de uma mulher forte, ativa, trabalhadora e tranquila, porém entendemos que Maria se apresenta por meio da voz do narrador, sob o ponto de vista de sua mãe, das pessoas que a observam e até mesmo do último desejo de seu pai. Em todo o percurso da história, ela se submete à vontade dos pais, a uma rotina de trabalho e oração, saindo da submissão por meio da paixão e do desejo por um homem.

Maria se apaixona pela primeira vez, aos vinte e nove anos, por José Maria. O moço, de acordo com ela, “não era mau rapaz, e que a não buscava para maus fins”

(CASTELO BRANCO, 1991, p. 9), pois seu desejo seria a união pelo casamento.

Assim, pede sua mão à Matilde, que não se opõe; pelo contrário, “lhe disse que se ele fazia pela vida e era amigo do trabalho, que ela não se lhe dava que sua filha casasse, e quanto mais que isso eram coisas que estavam à vontade de sua filha, e não à sua, porque não era ela a que casava” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 9). Nesse trecho, Matilde aparenta valorizar a vontade da filha, quase de uma forma desinteressada.

Mas, com a sua experiência, a matriarca percebe que José só estava enganando Maria: “a infeliz mãe pressentiu a desonra de sua filha e já não lhe podia valer” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 11); portanto, passa a repreender a filha, procurando impor a sua vontade de impedir a relação. Contudo, o desejo tão sonhado, idealizado e reprimido por Maria agora estava sendo concretizado e, mesmo sem casamento, já havia perdido a sua virgindade: “o valer-me era a tempo, agora que eu sou dele como se fosse sua mulher, hei de ser com ele desgraçada até a morte. Sabe que mais? Se casar, casou; se não casar é o mesmo: eu gosto e ele gosta...”

(CASTELO BRANCO, 1991, p. 12).

Matilde suplica a Maria para deixar o amante “por alma de teu pai que está na presença de Deus a pedir o teu perdão” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 11). Mas perdão do quê? O que Maria tinha feito de tão errado? Desobedeceu aos preceitos morais e religiosos impostos pela crença fanática de seus pais? Amou outra pessoa que não fosse sua mãe e seu pai?

Como Maria não obedece ao pedido de sua mãe, a única alternativa de Matilde é a ameaça: “Se de hora em diante aqui tornar a ver José Maria hei de queixar-me à administração do conselho que esse homem vem a minha casa contra a minha vontade” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 13). Como explicamos anteriormente, essa ameaça, considerando a vida pregressa e os maus antecedentes de José Maria, é o aparente estopim para que o rapaz induza Maria a matar sua mãe, pois, consoante a narrativa, após saber da ameaça desta, ele começa a persuadir a amante.

Mais adiante, temos a seguinte prece de Matilde: “dizia a velha no profundo de seu coração, oh meu Deus, mudai as tenções de minha filha, mostrai-lhe a verdade de minhas palavras, e fazei que ela conheça o caminho da perdição, onde a sua má estrela a lançou” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 14). A mãe faz menção ao sagrado, segundo o qual o caminho da perdição é a conduta de Maria, que não estava de acordo com os preceitos morais e religiosos nos quais a mãe, o pai e aparentemente o narrador acreditavam.

Vemos os aspectos religiosos sendo mais uma vez ressaltados com primazia, mas precisamos lembrar que essa narrativa se passa em Lisboa no século XIX.

Portugal é um país de maioria católica e, no Oitocentos, a Igreja ainda influenciava grande parte da sociedade. Com isso, existia uma tendência de que os acontecimentos fossem interpretados como se constituíssem manifestações divinas, com a compreensão dos fenômenos só podendo ocorrer por meio da fé, acima da inteligência, lógica e ciência (FAVORETO, 2009).

Nesse cenário, a situação começa a sair do controle quando Maria, em meio a uma intensa discussão com sua mãe por causa de José, diz que não aturava mais as reclamações de Matilde e que, “se quer estar comigo, há de ver, ouvir e calar, que é a regra de bem viver, se não quiser a rua é larga, o mundo é grande” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 12-13). Ser expulsa de sua casa está além de todos os limites de Matilde, que não admite que a filha a afronte de maneira tão incisiva. Então, cheia de raiva, a viúva diz à filha: “se eu até aqui te tratei como mãe carinhosa, de hoje em diante hei de ser mãe como deve ser” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 13).

A relação entre mãe e filha estava rompida a partir daquele momento. Maria decide afrontar Matilde e assume todos os riscos e consequências para levar adiante sua paixão; nesse enredo, o prelúdio do crime vai se desenhando diante dos nossos olhos. Com as ameaças da genitora, Maria “riu-se de escárnio, e ao mesmo tempo estava com ódio a sua mãe” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 14).