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Embora o momento de afastamento da mãe como primeiro objeto de amor seja superado pela menina, o ressentimento direcionado à figura materna não é completamente esquecido, visto que a mulher vivencia em alguns momentos da vida uma posição reivindicadora em relação à mãe. (SANTOS; RADAELLI, 2016, p. 383).

De acordo com Piazzeta, “o próprio corpo, ou o corpo do ente amado, sofre um violento ataque. É a forma encontrada para acabar com o dilema e libertar-se do outro [...], pela aniquilação do outro na própria vítima, o que configuraria o homicídio”

(PIAZZETA, 2020, p. 143). Ademais, para Santos e Radaelli (2016, 143), a mulher que fica presa na ligação inicial com a mãe sente-se responsável por esta e, por isso, não pode permitir que ela sofra, precisando satisfazer todos os seus desejos, mesmo que isso signifique renunciar aos seus, sentindo-se sufocada a todo momento, pois precisa reprimir suas vontades e manter-se conectada à sua mãe, como Maria fez até, possivelmente, não suportar mais.

XIX, em Portugal, uma moça “pura”, religiosa e, a princípio, obediente se relaciona com um homem desconhecido, chegando a dar início aos preparativos para um casamento?

Então, qual seria a verdade sobre Maria José e José Maria? Qual era a real ligação entre eles? Existiu ou não um relacionamento, um romance entre Maria e José? Será que José Maria não seria uma face da própria Maria José, aquele Outro que Freud define como alguém que não conhecemos, que precisa ficar escondido embaixo dos desejos de seus pais e das imposições morais e religiosas, para não magoar nem eles, nem a Deus, mas que agora estava sendo ouvido e visto por Maria, que não queria mais negá-lo ou sufocá-lo?

Callil (1987, Apud OLIVEIRA, 2009) afirma que escolher um companheiro envolve aspectos psicológicos e inconscientes, nos quais a individualidade se faz presente, e, na maioria das vezes, o que se busca é uma complementaridade da personalidade de cada parceiro envolvido nessa relação. Podemos pensar que talvez fosse isso que faltava para Maria José: a outra parte dela que se mantinha encoberta, presa e que agora estava conseguindo se libertar, sentir e expressar o que sempre desejou, mas ocultava.

Maria não sabia quem realmente era, talvez não tenha tido tempo nem liberdade para isso. Não tinha consciência dos seus sonhos e, trazendo José Maria para a realidade criada, conseguiria realmente se permitir ser vista por si e pelos outros. Essa talvez seja uma das possibilidades de interpretação.

A leitura da narrativa de Camilo, especialmente do julgamento na terceira edição, mobiliza em nós, leitores, momentos de confusão e desconfiança, a partir de um discurso estranho e até mesmo delirante que parece dominar todas as falas de Maria, com idas e vindas, certezas e incertezas, confissões e negações.

No início do seu interrogatório, a ré é inquirida se sabia de que era acusada, que lhe imputavam a morte de sua mãe, e responde: “que fui eu só que a matei”

(CASTELO BRANCO, 1991, p. 48). Quando o juiz pergunta qual teria sido o motivo, ela responde que foi “por causa de José Maria” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 48).

Adiante, quando perguntada sobre o esquartejamento do corpo da mãe, responde que foi ela quem esquartejou, “porque o corpo inteiro pesava muito, para mais facilmente o levar para fora de casa” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 50). Sobre a desfiguração do rosto da mãe depois de morta, informa que foi “para a não conhecerem” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 51).

Não há dúvida de que Maria José é a assassina de sua mãe, pois o narrador nos conta isso com detalhas sombrios antes mesmo do início do relato – já no título do folheto. A questão que fica, ainda, é: por quê? Teria sido por José Maria mesmo?

Maria demonstra muita frieza e indiferença a toda a situação do assassinato e esquartejamento de sua mãe, quando o juiz pergunta por que havia cometido tal ato bárbaro; essa insensibilidade se sobressai quando ela responde simplesmente que

“não foi barbaridade” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 51). Será que isso se “justificaria”

porque Maria acreditava que a realização de um desejo seu, há tempo sufocado, não seria tão ruim assim? Ora, se a única maneira de realizar esse desejo era matando sua mãe, isso “explicaria” seu crime, e não seria uma “barbaridade” para ela, apenas sua libertação.

As pessoas presentes no julgamento ficam perplexas, espantadas diante das respostas da acusada; aliás, o narrador por três vezes enfatiza: “Sinais de horror no auditório” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 50-51). Maria apresenta uma aparente confusão mental, como já mostramos, com respostas incoerentes e sem sentido, a cada momento descrevendo fatos estranhos e contraditórios.

Quando novamente é questionada sobre quem frequentava a sua casa, inexplicavelmente responde que “uma criança de três anos” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 52). Mas quem seria essa criança que, nas suas lembranças, frequentava sua casa? Quando é interrogada sobre quem seria e de onde viria essa criança, Maria surpreende novamente, afirmando que não sabia e que a criança vinha “de fora da terra” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 52). Essa resposta impressiona até mesmo os jurados, tanto que um deles questiona: “uma criança de três anos ia e vinha só de fora da terra?” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 52), ao que ela responde: “Sim, senhor”

(CASTELO BRANCO, 1991, p. 52). Seria uma simples e objetiva mentira para confundir o júri ou ela realmente acreditava ter recebido a visita dessa criança? Seria fruto de invenção ou de alucinação?

Após o debate (entre o representante do Ministério Público e o advogado de defesa), o juiz pergunta se Maria gostaria de alegar mais alguma coisa em sua defesa e ela declara: “quem matou minha mãe, foi o José Maria” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 55). Explica ao juiz que ele “é um homem da outra banda, que vende na praça: ia muitas vezes a minha casa, e tinha questões com minha mãe, porque lhe tinha pedido metade da herança, e como ela recusasse, na manhã do dia 12 deu-lhe uma facada com que a matou, e safou-se” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 55).

Nesse trecho do interrogatório, já não podemos alegar que há surpresa na contradição do discurso de Maria, que confessa e retrata sua confissão mais de uma vez. O novo aqui não é a alternância de quem matou (Maria José e José Maria quase se confundem), mas o motivo, o porquê de ter matado: José não teria cometido um homicídio, um crime contra a vida, e, sim, um latrocínio, um crime contra o patrimônio, tendo matado para subtrair a herança.

Esse é o encerramento do plenário, isto é, quando o juiz pergunta sobre todas as contradições, Maria declara: “O José Maria foi quem a matou, e eu esquartejei-a;

levando ele parte do dinheiro que eu tinha num pé de uma meia, prometendo depois dar-mo” (CASTELO BRANCO, 1991, p. 55).

Após tantas incoerências, é inevitável não imaginarmos que o narrador estava a descrever duas personalidades de uma só pessoa. Talvez onde enxergamos contradições, haja na verdade, por parte da própria Maria José, uma dúvida: quem matou e quem esquartejou, ela mesmo ou o homem fruto da sua imaginação?