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Acessibilidade: Ingressos e redes sociais

No documento Priscila Cembranel.pdf - Univali (páginas 49-52)

3.1 AMBIENTE: UNDERGROUND X MAINSTREAM

3.1.1 Acessibilidade: Ingressos e redes sociais

O que antes acontecia nas raves, em lugares retirados, passou a contar com a organização dos festivais, produtoras, parcerias entre marcas, promoter's, sites elaborados, muita publicidade. Tudo isso acaba por trazer os eventos para os centros ou club's. O ambiente não perde sua ligação com a natureza, mas a torna sofisticada.

As redes sociais virtuais, em especial o Facebook, colaborou para a comercialização da cena da música eletrônica. Para os entrevistados de Polinarov (2012), a possibilidade de saber o que ocorre na cena eletrônica, as festas, a integração e popularização da música e club's e os aspectos de divulgação são os principais aliados dos Festivais. Em seu estudo, Polinarov (2012) constata que 37% dos entrevistados na cena eletrônica, ou seja, frequentadores, produtores, club's e DJ's, utilizam a rede para divulgação de eventos. O que torna as redes sociais ferramentas importantes para a cena. A obtenção e divulgação de informações passam por espécies de filtros pelos quais os usuários possuem interesse (ZAGO, 2011).

Além de divulgar eventos, possibilitar a interação entre as pessoas com interesse nos mesmos ainda existe um mecanismo de atratividade para o público: Sorteios. Considerando que o brasileiro um usuário investe uma média 9,2 horas mensais utilizando o Facebook (BARIFOUSE, 2013), é inegável que somos usuários assíduos das redes.

O fato de podermos criar eventos e convidar pessoas não passa despercebido pelas empresas que produzem grandes festivais e que também possuem um perfil na rede. De acordo com Amante (2014), existe um calendário que emite alertas sobre os eventos que marcamos como de interesse e que permite convidar amigos para participarem do mesmo.

Tudo isso na ótica do imediatismo, de acordo com Bauman (2003), informa, diminui

distâncias, gera ansiedade e resultados presentes que são justamente a idéia dos organizadores dos eventos.

Nesse jogo de simultaneidade e hiperconexão, as empresas informam como serão os Festivais que estão sendo organizados, anunciam lentamente cada atração, na maioria das vezes, o usuário já comprou o ingresso antes mesmo de saber que artistas fariam parte do line- up12. Todos os que confirmam interesse ou presença virtualmente recebem atualizações e entre elas, sorteios por meio de aplicativos, pela agilidade de "x" pessoas mandarem mensagem inbox para a página e ganhar instantaneamente ingressos, ou ainda, se utilizar de fotos ou frases dos usuários que receberem mais curtidas dos amigos para dar ingressos e outras cortesias para a festa.

Durante o período de campo etnográfico, ganhei cinco entradas nesses esquemas para pessoas sempre conectadas nas redes sociais virtuais. O primeiro foi na Festival 3 compartilhando uma postagem em modo público, o resultado está na Figura 4.

[...] Me indicaram a entrada com sala VIP. Então a entrada foi fácil e sem filas, pois era um ingresso camarote diferente da fila para os ingressos comprados, por exemplo, que normalmente são retirados na bilheteria com o comprovante de compra pelo site. [...] verificaram nossos nomes na lista e imprimiram os ingressos.

Estávamos em uma sala bem iluminada, com belos lustres, espelhos e ornamentos.

Após esse processo ganhamos as pulseiras e nos dirigimos para a área de entrada do evento. Antes de entrar passamos pela revista corporal e nos foram solicitados ingressos e documentos [...] (fragmento de diário, Festival 3).

Figura 4: Publicação feita pela página do Club: Resultado do Sorteio.

O Ingresso da Festa 4 surgiu na linha do tempo do club pedindo para o primeiro que curtir a página de uma gravadora e depois mandar uma mensagem inbox, que foi respondida com a solicitação dos dados das pessoas que comporiam a lista e no dia seguinte confirmando que os nomes já estavam no sistema (Figura 5).

[...]Quatro ingressos para as vinte (80 ingressos pista gratuitos) [...]. Ganhei quatro ingressos: 1 masculino e 3 femininos. Acabei usando 1 masculino e um feminino somente. [...]. Neste dia foram sorteados dois pistas VIPS via Facebook, dois

12 Line-up ou line é um termo em inglês que significa "enfileirar ou alinhar. Nos festivais, esse termo é utilizado para designar quem vai tocar e quando. Exemplo: Artista "X" toca às 2h. Artista "Y" toca às 4h.

ingressos backstages, 4 ingressos com direito a uma garrafa de vodca e um camarote com direito a 15 pessoas mais mil reais em consumação na casa para quem ganhasse o camarote. Para ganhar o camarote fizeram uma votação entre cinco escolhidos (que foram sorteados) e quem recebesse mais curtidas, ganharia o camarote (fragmentos de Diário, festa 4).

Figura 5: A comunicação com a gravadora e os ingressos.

Para a Festa 7 consegui novamente ser uma das primeiras vinte pessoas a mandar uma mensagem inbox para a página de uma revista especializada em música eletrônica. No entanto, neste mesmo dia recebi o convite de um amigo e de uma promoter do evento para ir na festa, mas no camarote dela (Figura 6).

Figura 6: Ingressos ganhos e pulseira do camarote numerado.

A Festa 8 seguiu o mesmo padrão, conforme fragmento de diário de campo e Figura 7.

[...] Os ingressos foram obtidos através de uma gravadora, as primeiras vinte pessoas que mandassem uma mensagem inbox no Facebook levariam um par de ingressos.

"Eu vou na FESTA 8" garantiu o meu par de ingressos duas semanas antes da festa.

Enviei o nome, telefone e e-mail pelo inbox na página do Facebook mesmo. Era só retirar o ingresso na bilheteria no dia [...].

Figura 7: Ingresso ganho e retirado na bilheteria para a Festa 8.

"A cibercultura viabiliza novos processos colaborativos de produção e compartilhamentos de informação, mudando as formações socioculturais, políticas e econômicas" (LIMA; SANTINI, 2009). Toda essa informação em tempo real, compartilhada, salva e alimentada através da facilitação da obtenção de ingressos, sorteios e aumento da rede de contatos e interesses para ganhar ingressos corrobora a idéia dos autores (op.cit):

reorientamos nossas redes de relacionamentos, nossos interesses para sermos privilegiados e, assim, acabamos difundindo amplamente informações e dando a visibilidade que as organizadoras dos festivais desejam quando escolhem estratégias como essa. Nesse ponto, torna-se clara uma das desvantagens da massificação da música eletrônica: a exposição das pessoas que a frequentam, a banalização da música eletrônica que se tornou totalmente comercial, a divulgação da cena mainstream e o excesso de postagens e marcações nas redes sociais virtuais (POLINAROV, 2012; SÁ e DE MARCHI, 2005; GARSON, 2009;

FONTANARI, 2003). Ainda existia a comercialização de ingressos nas redes sociais dos eventos, o que possibilitou a venda do ingresso do segundo dia da Festa 1 que acabei não desejando ir.

No documento Priscila Cembranel.pdf - Univali (páginas 49-52)