3.1 AMBIENTE: UNDERGROUND X MAINSTREAM
3.1.4 Comprando privilégios
Perdemos liberdade ao obter um pouco de segurança e perdemos segurança quando temos liberdade.
Nessa angústia contemporânea frente a segurança e a liberdade, sempre existem situações que nos obrigam a escolher entre o que deveríamos fazer e o que desejamos fazer.
Houve uma situação em que comprei ingresso para um festival durante o dia e ganhei o sorteio para outro à noite, no mesmo dia. E como comentam Vieira e Stengel (2012), o sujeito descentrado desliza por múltiplas identidades que para Hall (2003), flexibiliza-se por meio de diferentes divisões e incompatibilidades sociais resultando em identidades abertas, fragmentadas e contraditórias.
[...] Esperei na rótula, fora do parque onde ocorreu a festa. Havia uma fila de carros em ambos os sentidos até onde a vista alcançava. A polícia estava no canteiro da rótula. Meu amigo nunca chegaria. Não rápido. Usei minhas últimas forças e machucados para chegar até ele. Andei uns 3km contra a maré de carros que ia em direção ao festival. Desci a rampa de acesso da rodovia e encontrei ele parado me aguardando (havia mandado uma mensagem antes), olhei para os dois lados e pulei a mureta central da rodovia.[...] (fragmentos de Diário de campo, Festival 2).
Esse misto de ansiedade e ação me fez perceber o sentido da "particpante". Eu corri. E como Bauman (1998) aponta a fluidez identitária me fez, naquele momento, uma colecionadora de experiências e sensações". A segurança mudou de "algo pode me acontecer"
para "vou na próxima festa e vou agora" e como afirma Fridman (1999), a sensação nunca experimentada antes estava presente e mais intensa do que as que eu conhecia, estava participando muito mais do que observando.
pessoas. Em suma, quem possui mais condições financeiras acaba tendo a possibilidade de comprar os privilégios oferecidos pelo mercado de eventos sendo também, como indica Castells (1972) uma reprodução escancarada dos processos de acumulação praticados pelo capitalismo.
A separação de público torna-se evidente quando me deparo com os acessos diferentes para cada modalidade de ingresso: Pista (em muitas situações sem pulseira), Pista VIP, Camarote e Backstage (além de estar escrito na pulseira o seu lugar no ambiente, a cor também é diferente para auxiliar os seguranças nas entradas das áreas que correspondem a sua compra de ingresso). Além disso, as áreas físicas são separadas por grades, por áreas elevadas com mesas e poltronas e garçons exclusivos. Cada casa ou evento possui suas próprias regras, logo, é difícil definir um padrão de distribuição de pessoas em cada local.
[...] Os portões eram identificados conforme o ingresso adquirido. Após passar pela entrada que indicava o ingresso que comprei, no caso eu comprei Pista VIP, que permite que a pessoa fique em frente ao palco principal (uma pista privilegiada mais próxima ao DJ e separada pela pista comum por uma grade). Logo estava em frente ao palco principal, onde tinha acesso aos camarotes que continham sofás pretos de couro, mesas de centro e uma vela em cima de cada mesa. Cada camarote era capaz de receber até 8 pessoas e identificação de reserva. Os camarotes eram elevados, cerca de 5 degraus em relação ao chão em relação aos demais frequentadores com ingresso Pista e Pista VIP. Poderia transitar pelo local, mas não poderia ocupar os espaços reservados sem a pulseira certa [...] (Fragmento de Diário de campo, Festival 2).
Em festivais ou festas onde as pessoas são classificadas de acordo com o valor do ingresso que compraram, sabemos que existem diferenças entre os lugares. No Fragmento de Diário acima, observo os privilégios e ambientes conforme o valor do meu ingresso. Não foi o mais simples, mas não foi um camarote fechado e elevado, tampouco um backstage próximo ao DJ e as pessoas mais influentes da festa. Não era meramente "Pista", mas me fez desejar mais. O consumo e sua cultura explora a identidade e faz com que desejemos ser únicos, especiais, diferentes causando certo mal-estar e insegurança. Sentimento de incerteza e a percepção de que poderíamos ter mais, merecíamos mais. O estilo de vida que temos, e que podemos ter, desenvolve padrões de consumo como forma de expressão corporal e distinção social. (FREIRE FILHO, 2003; BAUMAN, 2003)
Explorar o ambiente físico corrobora o processo de imersão tão importante para a etnografia. Mais do que apenas isso: faz com que o trabalho tenha sentido para o pesquisador.
Mapear mentalmente cada aspecto como o chão, a decoração, a existência de determinadas delimitações e os serviços oferecidos no evento faz com que o conteúdo seja significativo para o sujeito e para o objeto. Para Dejours (1987), o sujeito passa a visualizar-se no o campo
de modo prático, desenvolvendo noções de evolução e aperfeiçoamento e culminando na identificação com aquilo que está pesquisando. O significado do objeto vem através das representações simbólicas, como por exemplo: o conforto proporcionado através dos ambientes organizados para que os frequentadores sentem e descansem quando necessário (DEJOURS, 1992). Embora muitas pessoas não analisem esses aspectos quando frequentam os eventos, o sentido simbólico está no espaço desenvolvido para o bem-estar do participante da festa. Ambos significados são indissociáveis. Tolfo e Piccinini (2007, p. 44) salientam que
"toda atividade contém os dois termos. O investimento no indivíduo só pode renovar-se graças ao investimento no objeto e vice-versa". O investimento da organização em mesas de madeira envernizadas, poltronas de couro pretas e um suporte com uma vela aromática acesa demonstram a relação entre a importância do investimento no objeto para alcançar o público.
Nesse ambiente, de fuga da realidade e de individualismo, pode-se afirmar a existência de benefícios simbólicos como a busca de diferenciação e prestígio (para quem paga por isso) e o consumo que produz emoções positivas para os frequentadores no ambiente (PIACENTINI; MAILER, 2004; OUCHI, 2000; CRUZ et. al., 2006).
Um dos produtos que visivelmente trazem essa sensação aos frequentadores é a mesa na pista, pois ela vem com uma cota de consumação. Conforme fragmento de diário da Festival 3: "Existem aproximadamente umas quatro mesas na área da pista VIP. As mesas são coladas ao palco principal, onde fica a cabine do DJ". Além de proporcionar uma certa proximidade com o artista, existe o consumo do produto (normalmente vodca) e da experiência com benefícios simbólicos denotando que "nossa “individualidade” e nossa identidade são moldadas dentro de escolhas e estruturas coletivas mais amplas" (FREIRE FILHO, 2003).
Nesse ponto, começo a questionar sobre individualidade e narcisismo. Seria apenas individualidade, preservação da própria liberdade diante da liberdade de escolha ou narcisismo? (BAUMAN, 2004; LASCH, 1983).
Seja individualismo ou narcisismo, o papel da publicidade para a criação de valores traz à tona consumidores insatisfeitos, entediados e ansiosos, onde o consumo é a resposta para a ilusão de bem-estar e prosperidade (LASCH, 1983). Em um pequeno fragmento de Diário do Festival 7, consigo envolver a idéia que desejo expressar: "[...] Cada camarote numerado contava com um segurança e o garçom era dividido para cada dois camarotes[...].
Após o show de luzes coloridas da atração principal, muita fumaça e gelo seco que foi se dissipando fiquei observando a pista [...]". Ainda que em posição privilegiada, as pessoas estavam desanimadas ou alteradas demais para aproveitar aquele acontecimento. Em
consonância com Lasch (1983), elas tinham conforto, uma visão maravilhosa do palco, mas estavam sentadas e sonolentas. Comprar o camarote com direito a metade do valor em consumação não atendeu a necessidade dessas pessoas e trouxe a percepção de uma ilusão de grandeza e poder que acabaram por deixar o mundo ao redor indiferente àquela oportunidade diferenciada. Afinal, a pista estava mais animada.
Dois dias antes da festa um amigo comentou que quando quisesse poderia falar com a amiga dele, que é promoter da casa, caso desejasse ir e que poderia levar alguém.[...]. Ele confirmou nossos nomes para ela.[...]me apresentou a amiga e o noivo dela e entramos pela entrada VIP, sem filas e sem custos. (fragmento de diário, Festival 5).
Não posso negar que a oportunidade de estar em um camarote numerado como na Festival 5 e ter conseguido uma cortesia para a Festival 9 aconteceu graças a promoter da casa, pois tínhamos amigos em comum. Precisei estar na companhia dela e em uma sala sofisticada e dedicada aos que compram mesas, camarotes e backstages. A pessoalidade mostrou-se importante.
"Lá estávamos esperando ela [...]. Entrei com ela pela sala VIP com meu acompanhante, sem filas, recebemos as pulseiras para o camarote numerado, n. 46, com ótima visão para o DJ e a pista. [...]. Fui rapidamente revistada corporalmente e estava na casa". (fragmentos de diário de campo, Festival 5).
[...]Indo para a pista VIP percebi o privilégio de ser a convidada da promoter, ela tinha uma mesa dessa vez, na pista VIP. E muito rodeada de pessoas, especialmente conterrâneos dela e amigos de longa data.[...] (fragmentos de diário de campo, Festival 9).
O que prefiro chamar de rede de contatos, Certeau (2003) prefere chamar de trampolinagem. Conceito que descreve pessoas que jogam ou fingem jogar o jogo doo outro para obter aquilo que deseja. Em um ambiente de grande ostentação esse conceito é cabível e pode ser explorado.
Quando as entradas de eventos ficam entre R$ 60,00 - R$ 300,00 reais por ingresso individual, os camarotes têm valores estimados entre R$ 3000,00 - R$ 8.000 reais (com direito a 10-20 acompanhantes e metade do valor em consumação) e o Backstage (com direito entre 10-20 pessoas) varia entre R$ 7.000,00 - R$ 15.000,00) torna-se compreensível que as pessoas optem por alguma alternativa "viável". Como em um jogo teatral de encontros humanos e atitudes aceitáveis, essa "transgressão" é praticada sem pudor de modo sociável e entre elites: a trampolinagem é mascarada sob eufemismos (SOUZA FILHO, 2002). Após conversar com minha co-orientadora e ter a percepção desse conceito, pensei em testá-lo.
Tinha um dos melhores ingressos individuais dos Festival: o backstage. "[...] ficamos próximos de um dos backstages privados, sem invadir espaço, afinal eles pagaram bem para estar lá [...]" (fragmentos de diário, Festival 11). Como eu, meu amigo e dois conhecidos de outros festivais estávamos dançando e cantando, logo um dos rapazes ergueu a faixa de isolamento e nos convidou para entrar. Eles tinham em torno de R$ 5000,00 reais em consumação. O dinheiro comprou o lugar, mas não a animação.
Quando vou em festivais como esses, em que as bebidas, a entrada e a alimentação são caras e encontro pessoas que aderiram a cena eletrônica mainstream, mas sei que elas não possuem condições para pagar por tudo, a trampolinagem faz sentido para ambas as partes. é sutil, tenaz e resistente às estratégias de ação da alteração das regras do espaço, no caso o dinheiro e status de algumas pessoas (CERTEAU, 2003). Quem está do lado de fora imagina que dentro dessas festas existam jovens de classe alta e média alta. O que é um engano, pois o ambiente é misto. As pessoas se movimentam entre as sociedades de pequena escala e, conforme Rechenberg (2007), estruturam suas relações cotidianas de acordo com seus interesses. Isso implica em constante renovação de vínculos e laços de sociabilidade. A maioria se vale da lei da meia entrada (que vale somente para ingressos pista) e, com o tempo, acabam conhecendo pessoas da casa, tornando-se promoter para apenas participar das festas.