3.6 ETNOGRAFIA, EXPERIMENTOS E EXPERIÊNCIAS
3.6.1 Participação e efeitos de drogas lícitas e ilícitas
O consumo de drogas lícitas e ilícitas faz parte da história da humanidade. O uso ritualístico é o que melhor retrata as condições e motivações desse consumo. Que faz com que sociedade modifique suas substâncias, ao longo das décadas, em busca de sensações diferentes e intensas. O retrato representativo de consumo inicia-se nos anos 60 pelos hippies e sua busca por novas sensações e interioridade humana e perdura por meio da promessa de esquecer inseguranças e fugir da realidade (PARROTT, et. al. 2004; PRATTA; SANTOS, 2007; BUCHER, 2002).
Reluto para escrever sobre esse assunto, pois compreendi com a imersão no campo que drogas lícitas (álcool e cigarro) são símbolos de poder, nem que seja apenas o poder segurar algo na mão. É parte do modus operandi dos festivais mainstream (e de todas as festas). Também compreendi que o uso de substância lícitas ou ilícitas é uma forma de deturpar a realidade, fugir da rotina, poder ser e agir por algumas horas fora das amarras sociais e morais.
Sempre terá alguém que vai passar mal por exagerar no uso do álcool ou outra substância. Logo no início do estudo, no Festival 2, me deparei com essa situação, eu a vivi como relato no diário de campo do Festival 7 e tive um amigo na mesma situação no Festival 11, tanto que acabei indo para casa sozinha.
Ao sentar para tomar água percebi dois rapazes, um deles após trocar algumas palavras tinha vinte anos e havia acabado de passar no vestibular. O rapaz estava com o primo muito mal, que sentou ao meu lado, pelo que disse era álcool, aparentemente acredito que era somente álcool... pois não havia nenhum sinal físico que identificasse qualquer outra coisa. Como eram primos, sugeri que o levasse ao ambulatório, eles foram. Cena clássica de toda balada: alguém sendo carregado e arrastando os pés pelo caminho (fragmento de diário, Festival 2).
[...]. No dia seguinte, quando consegui contato com meu amigo ele me informou que por ter feito esquenta (bebido) antes da festa e bebido mais um pouco durante a festa ele acabou passando mal. (Fragmentos de diário, Festival 11).
Os organizadores dos eventos possuem áreas e profissionais à disposição para as pessoas que passam mal e, em casos mais graves, é chamado o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).
O consumo de álcool como símbolo de poder e suas consequências estão relacionados com as normas e crenças sociais. Por um lado, tem-se os aspectos morais que o condenam, por outro as atividades sociais e culturais que o enaltecem. Na pós-modernidade o consumo é
entendido como símbolo de status valorizando a ligação entre os efeitos e o prazer de conquistá-los gole a gole (PEREIRA, 2003).
A criação de diferentes valores de ingressos e formas de ocupar o ambiente nos festivais fazem com que o indivíduo que está na pista olhe para os camarotes e backstages.
Nesses locais existem garçons que servem as mesas com baldes com gelo e bebidas. É possível associar quem está ocupando esses lugares com dinheiro, influência e poder. Essa diferenciação entre o público torna-se uma espécie de publicidade e incentivo ao consumo, especialmente de álcool e cigarro, influenciando e persuadindo as pessoas para que se comportem de determinada maneira (MONTEIRO e SANTOS, 2001).
O cigarro é outra droga lícita que permeia a cena musical eletrônica. Vargas, Barbosa e Tavares (2014) apontam que, ao longo do tempo, o cigarro nas propagandas, cinema e em programas televisivos têm sido uma forma de consumo simbólico de sensações. As imagens seduzem o fumante oferecendo a ilusão de que, ao consumir cigarro, ele estará sentindo e vivendo como alguém com status, poder e aceitabilidade social.
Barata (2003) relembra que os comerciais de cigarro foram banidos da mídia e outdoors. Estes, associavam-se às imagens de rebeldia, sensualidade e poder. Ainda que, com campanhas e estudos comprovando que fumar é um hábito ruim para a saúde. Imagens de pessoas fumando são muito presentes, pois as pessoas representam essa noção em ambientes de socialização.
A sociedade do consumo é feita de indivíduos que desejam ser socialmente aceitos e respeitados em suas subjetividades. O desejo de pertencimento interfere nas escolhas e no comportamento. Utilizando-se das poucas formas possíveis para chegar aos indivíduos, tendo em vista as campanhas mundiais contra o cigarro, ainda é possível ampliar o mercado consumidor pelos seus processos de construção identitária e pela vulnerabilidade coletiva, resultado da globalização e da liquidez das relações interpessoais (BAUMAN, 1999, 2001;
SANTOS, 2010).
A associação entre o tabagismo e consumo abusivo e/ou dependência alcoólica é uma condição clássica, marcada pela potenciação de um hábito sobre o outro. [...]
Além da associação com o tabaco, o consumo de álcool apresenta-se também associado a outras drogas ilícitas (FERREIRA et. al., 2013, p. 3415).
Figura 40: Eventos e as parcerias com marcas de bebidas e cigarro.
O consumo de álcool e cigarro são um fenômeno de socialização graças à cultura e á publicidade. Os locais fornecem bebidas e cigarros nos festivais de música eletrônica. Os eventos são, muitas vezes, parceiros de marcas de bebidas e cigarros e tem suas marcas expostas em meio à decoração. Como é possível observar na Figura 40, três locais diferentes, três formas de exposição diferentes. A associação de álcool e cigarro também é relatada em fragmentos de diário de campo:
[...] consumo de cerveja e cigarro que tinha um local próprio para venda (ambulantes que ao comprar um maço tiravam uma foto do comprador com uma plaquinha com frases sarcásticas) ( fragmento de diário, Festival 2).
[...] Muita bebida, em especial duas marcas parceiras do evento eram maioria e muitos fumantes ( fragmento de diário, Festival 3).
[...] Pegou um cigarro e começou a fumar. Eles haviam pedido mais uma garrafa de vodca. Já estava sofrendo para tomar o resto do que tinha no copo (fragmento de diário, Festival 7).
[...] E a vodca estava disponível sempre em duas garrafas com muito gelo, era só servir. (Fragmentos de diário, Festival 11).
O estímulo para beber pode vir em forma de influência familiar ou de aquisições de valores de um grupo de referência. No caso da Figura 41, o grupo de amigos comprou o
"espaço" privilegiado para ficar durante a festa perto da cabine do DJ e com direito a um valor considerável de consumação (parte do valor pago pelo espaço era reservado para consumo de bebidas). Era só pedir ao garçom ou ir ao bar apresentando a pulseira com código de barras e pegar o que quisesse beber.
Figura 41: A mesa do backstage no final da festa.
O uso do álcool e cigarro entra no conceito de droga lícita, portanto é normal e até desejável que parcerias existam, considerando que o consumo gera renda para os organizadores e a sensação de sociabilidade e/ou status para os frequentadores.
Ambas as substância (álcool e cigarro) permeiam os ambientes de lazer e entretenimento e podem ser consideradas, de algum modo, como de uso recreativo. Conforme Collins (1999), as drogas sintéticas, como ecstasy e o LSD eram comuns nos eventos de música eletrônica ingleses como parte de rituais nos finais de semana e lazer nos anos 90.
Essas substâncias, passaram a ser gradativamente proibidas. Mas, ainda que na ilegalidade, seu uso não foi modificado, apenas camuflado.
Como pesquisadora não sei prever ou sequer imaginar a quantidade ou as variações de drogas que surgem periodicamente. Durante a imersão em campo, algumas substâncias eram evidentes, outras ficaram somente na dúvida: "O que seria isso?". A ilegalidade traz o risco de se adquirir produtos que sequer se pode imaginar a composição, logo é difícil julgar aquilo que não existe regulamentação.
A maconha não é a substância de maior detaque nos festivais. Ela é usada ou no início da festa ou no final, pelos seus efeitos relaxantes e calmantes, como saliento nos fragmentos de diário do Festival 2: "A princípio fiquei um tempo na pista principal, onde foi possível perceber o consumo de maconha". Também existe o consumo intermediário: quando o usuário utiliza algo "mais forte" e deseja se acalmar, ele vai utilizar a maconha e, se perceber que perde "energia", retorna a utilizar algo que o deixe mais estimulado.
Hall e Degenhardt (2009) comentam que a maconha provoca um efeito euforizante (“barato” ou “viagem”), e é acompanhado por sensação de bem-estar, aumento da sociabilidade e diminuição da ansiedade, do estado de alerta e da irritabilidade. O cigarro de maconha, assim como cigarro "lícito" são os cheiros predominantes no ambiente. No entanto,
muitas vezes, por falta de conhecimento, as pessoas confundem os cheiros, já que existem marcas de cigarro "lícito" que a fumaça residual é muito similar ao cheiro da maconha.
Os contextos e relações surgem associados ao uso de substâncias psicoativas como o uso de estimulantes e alucinógenos em eventos de música eletrônica. (CARVALHO, 2007). O famoso vilão dos festivais eletrônicos atende por ecstasy ou "bala". O ecstasy (MDMA:3,4 Methylenedioxymethamphetamine) tem a capacidade de desinibir socialmente, gerar empatia e desenvolver novos níveis de ligação emocional (RUSHKOFF, 1997). De acordo com Peter, Kok e Schaalma (2008), o uso de ecstasy é motivado pela curiosidade dos efeitos que a substância provoca. Para Parker (2005), o poliuso de substâncias psicoativas em contextos recreativos está em constante crescimento.
Freud (1929-1930/1996) afirma que a busca de formas para evitar o sofrimento abrange também as substâncias capazes de provocar sensações prazerosas, alterando a sensibilidade para que este receba apenas impulsos agradáveis. A possibilidade de prazer imediato é uma forma de aliviar as preocupações e afastar as pressões da realidade, criando um mundo próprio, independe dos danos causados.
A música somada às substâncias proporciona o desligamento do mundo real e um mergulho em sensações prazerosas (ROCHA, 2006). Coutinho (2006) afirma que todos os tipos de substâncias são válidos, no entanto, o ecstasy o mais popular em relação aos valores expressos simbolicamente e a energia expressa nas performances. No começo da pesquisa, foi surpreendente a facilidade com que as pessoas perguntam sobre "bala" umas para as outras, como assinalo nos fragmentos do diário de campo do Festival 1: " No caminho até a área da pista, duas pessoas perguntaram se tínhamos balas para vender. Tudo isso enquanto tentávamos segurar o moço que queria nadar [...]".
Almeida e Silva (2000) salientam que os usuários de ecstasy sentem imediatamente (4- 8 horas) os primeiros efeitos: abertura mental, empatia, felicidade, bom humor, sensualidade e excitabilidade sexual (de onde vem o apelido da droga: pílula do amor), autoconfiança e despreocupação. Também são pontuados pelos autores os efeitos tardios: agitação, taquicardia, bruxismo, sudorese, psicose e tensão muscular. O uso de ecstasy é de fácil percepção e as pessoas falam sem problemas sobre ele, como saliento em alguns fragmentos de diário dos Festivais 2, 7 e 11.
No meio da multidão dava para perceber claramente alguns comportamentos das pessoas, ranger dos dentes, suor, inquietude, mesmo sem música. (fragmentos de diário, Festival 2).
[...] Logo atrás de mim estavam dois rapazes um deles pediu se o outro gostaria de uma bala e ele respondeu dizendo: "deixa pra depois, quero fritar muito depois"
(fragmentos de diário, Festival 7).
E a amiga dele estava usando [ecstasy] pela primeira vez. Sim. Ela estava muito elétrica e muito agitada. Mas feliz. (Fragmentos de diário, Festival 11).
Gahlinger (2004) pontua algo que se faz pertinente. Os frequentadores dos festivais atualmente são parte da geração que foi educada sobre drogas como heroína, cocaína e metanfetamina. E, muitas vezes, ao consumir ecstasy (MDMA), não sabem que este é um derivado da metanfetamina (MD) tendo uma falsa ilusão de segurança. Entre os efeitos do ecstasy, o bruxismo é reduzido pelo consumo dos pirulitos, balas, chicletes e outras guloseimas. Chew (2009) e Neves (2010) também salientam o consumo de pirulitos como uma evidência óbvia do uso de ecstasy. Menciono o fato de que as pessoas mastigavam palitos de pirulito no diário de campo do Festival 2 e o fato de um frequentador ter derrubado vários do bolso no Festival 11. Na Figura 42, um vendedor caminhava na pista oferecendo pirulitos, balas, chicletes, cigarro.
Consumo de cerveja e refrigerantes, pirulitos, em torno de umas 6 pessoas pude observar que mastigavam o palito de pirulito. [...] Essa pausa entre apresentações servia para tomar água, buscar bebida, ou trocar o palito de pirulito roído fora e pegar um pirulito novo (fragmentos de diário, Festival 2).
O homem fantasiado de árabe procurava desesperado a última bala (ecstasy) em um dos diversos bolsos nas calças. Ele estava tão injuriado que começou a atirar todos os pirulitos que tinha nos bolsos no chão. Calmamente juntei os pirulitos e distribuí entre os demais. Ele nem lembrou de pirulitos. Mas da bala ele ainda estava atrás.
Até que alguém ofereceu uma a ele. Pronto acalmou (fragmentos de diário, Festival 11).
Figura 42: Vendedor de guloseimas no Festival 11.
Moro (2006) descreve, como resultado do consumo de ecstasy, a elevação da temperatura corporal acentuada pela intensa atividade física nos festivais, resultando em
sudorese e consumo intenso de água. Em alguns casos, chega a ocorrer intoxicação hídrica.
Quando as pupilas dilatam e o bruxismo torna-se incontrolável, o consumo de quantidades grandes de água se fazem importantes, bem como o consumo de alimentos doces (COUTINHO, 2006).
Carregar uma garrafa de água na mão é uma prática visível e comum nas festas de música eletrônica. Tanto para quem consome ecstasy, como para as pessoas que apenas dançam até a exaustão do corpo. Água é uma das coisas mais vendidas nos festivais.
A presença no campo também me possibilitou o conhecimento de consumo do GHB (Gamma-hidroxibutirato ou ecstasy líquido) associado ao ecstasy, como meio de relaxar a musculatura que fica tensa (um dos efeitos colaterais do ecstasy). O GHB é um solvente, apresenta-se na forma de sal (ou pó) ou líquido químico mais espesso que a água. Pode ser obtido facilmente ou produzido de forma caseira (MORO, 2006). Nas festas, observei que ele era diluído em água. Muitas vezes essa água era colorida. Muitas vezes passa despercebido por ser inodoro e seu sabor facilmente disfarçado por bebidas fortes, doces ou cítricas.
Algumas gotas e, em minutos, é possível sentir os efeitos anestésicos e sedativos (NOVO, 2010), como saliento no diário de campo do Festival 1 e do Festival 12.
[...] malhados e muita disposição pra dançar, pingavam suor e tomavam muita água com algumas gotas de GHB e ecstasy [...]. Enquanto estavam sob efeito das drogas, todas essas pessoas, sem distinção dançavam sem parar e de forma muito agitada, na medida que os efeitos iam passando elas se acalmavam e quando estavam praticamente paradas retomavam o uso para continuar dançando. Muita água com gotas de GHB era consumida por todos, sem distinção (fragmento de diário, Festival 1).
[...] fala de um amigo que já entrou que não bebe, mas gosta de bala e doce e usa GHB para evitar as dores no corpo no final da festa. Também fala da maconha muito usada para acalmar, no final dos festivais (fragmento de diário, Festival 12).
Acerca do consumo de drogas, Vargas (2006) explica o significado do uso no Ocidente como uma crise de sentido advinda dos acelerados processos técnicos e sociais pós- modernos. Esses processos trazem a perda de referência simbólica que orientam as pessoas frente a realidade. Becker (2008) faz uma análise sociológica clássica que considera o uso habitual de drogas um processo interativo de aprendizado e inserção em grupos sociais (tribos) sendo prática acusada de transgressora e fracassada em relação a obediência às regras sociais. Esse aspecto de transgressão ficou evidente na criteriosa revista feita individualmente e aos pertences carregados, nesse momento vi a apreensão de dois frequentadores na portaria do Festival 1.
Mesmo com todo o controle, algumas pessoas conseguem passar pela segurança utilizando-se de truques e escondendo seus entorpecentes em locais diversificados. Como um frasco de adoçante para GHB ou popularmente chamada de "Gisele". Para Vargas (2006), os indivíduos calculam suas ações para maximizar os benefícios e diminuir os prejuízos, ignorando as emoções. O autor também salienta que a irracionalidade do consumo e seus riscos, por ser considerado ilegal, tem sua condição inspirada no alheamento das verdadeiras condições de existência (fuga da realidade). No Festival 1, a fuga da realidade havia começado antes para alguns, as três pessoas que estavam comigo já tinham tomado algum tipo de entorpecente. Quando conseguimos passar pela revista um dos rapazes disse que já sentia os efeitos da droga como passagem do diário de campo do Festival 1:
Após cada uso de drogas entre elas: cocaína, ecstasy, LSD e GHB, as pessoas iam se empolgando mais. De meia em meia hora algo era consumido, de forma coletiva, cada um possuía algo diferente, alguns rapazes tinham cocaína, outros ecstasy, duas moças tinha LSD. E tudo era dividido entre o grupo. (Fragmento de diário, Festival 1).
[...]Em determinado ponto da noite ele disse “Estou muito pedrado, vou dar uma aliviada” (nas drogas). Parou por cerca de uma hora de usar qualquer coisa e só tomou água e um refrigerante. Mas retomou o uso de cocaína após esse tempo (fragmento de diário, Festival 1).
A cocaína também é uma substância comum de ser encontrada. Ela é inalada, normalmente na mão, canudinhos cortados, dentre outras formas, através de inaladores de congestão nasal. As pessoas podem comprar medicamentos não controlados, jogar o conteúdo fora e utilizarem a embalagem, que é discreta, ou comprarem na internet os frascos novos e vazios da cor que desejarem. Descobri conversando com alguns frequentadores que nem sempre se trata de cocaína e sim do descongestionante nasal. O produto abre as vias nasais e facilita a respiração dando a sensação de leveza, em especial se estiverem usando ecstasy.
A cocaína em pó branco é inodora, insolúvel em água e de gosto amargo. Considerada estimulante por suas ações no cérebro e de rápido efeito. Também provoca, assim como ecstasy e o LSD, dilatação das pupilas (NOVO, 2010). A sensibilidade musical e a diversidade trouxeram os jovens aos centros urbanos - onde haviam festas e danceterias - na década de 70, onde esses experienciaram o consumo de cocaína, considerada para poucos por ser cara e "cult". (CARMO, 2003; OLIVEIRA, 2007).
As melodias são aceleradas, rítmicas e constantes, trazendo um efeito misto entre percepção melódica-harmônica e o efeito hipnótico que captura o corpo devido às suas intensas vibrações. Para alguns frequentadores, o ápice é o consumo de alucinógenos (ROCHA, 2006). Uma frase do diário de campo do Festival 12 apreende essa ideia: "Teve
uma festa que fiquei parado a noite toda na caixa de som e olha, me sobe até um arrepio, fechava os olhos e o som parecia estar dentro da minha cabeça. Dancei quatro horas na melhor vibe que já tive".
No Festival 1, o efeito festival começava e as pessoas iam se agrupando e cada uma tinha algo a compartilhar algum entorpecente e o grupo foi se formando. As pessoas dançavam e suavam sem parar e ao observar os meninos parecidos fisicamente era possível perceber a euforia. A questão é: A euforia era toda deles, vinha das drogas ou ambas opções?
Outro ponto alto de consumo de entorpecentes que presenciei foi o de um homem de 35 anos que dançava de óculos escuros e concluiu que estava usando as drogas rápido e perdendo o controle. Ele, tomou um refrigerante, aguardou um tempo e depois continuou o consumo.
O homem de 40 anos usou todas as drogas disponíveis e em certo ponto precisava ser avisado de que tinha cocaína evidente no buço. Em alguns momentos ele tinha que limpar o nariz com uma toalha vermelha que tinha na mochila, devido ao uso excessivo de cocaína. Tossia muito em determinados momentos, até quase passar mal (vomitar), mas voltava ao normal logo em seguida e continuava usando as drogas intercaladas (fragmento de diário, Festival 1).
Um aspecto salientado por Rocha (2006) é que quase não existe "azaração", apenas pessoas que se aglomeram em grupos na busca primitiva da experiência primitiva com o objeto por meio da alucinação. O que explica o fato de moças unirem-se ao grupo no Festival 1, para partilhar entorpecentes. O ritual de dançar era mais importante naquele momento.
Rocha (2006) também comenta que atividade alucinógena química esgota os recursos físicos e torna o outro-semelhante um objeto indistinguível pela sensibilidade em seu estado normal, não sendo estranho o fato de a pessoa não lembrar o que fez enquanto esteve sob efeito do alucinógeno. Concordando com a premissa, diria que ver o cara de 40 anos se drogando e utilizando uma toalha vermelha para limpar o nariz, a tosse insistente e alguns momentos de mal-estar fazem jus ao quesito de esgotamento de recursos físicos, bem como a falta de noção de que ele tinha cocaína evidente no buço.
O uso de drogas remete a uma transformação social. São muitos os padrões de uso, mas o estado de alteração da consciência ainda é o mais citado. E por não serem considerados racionais durante a ação do entorpecente, a proibição é uma forma de proteger a sociedade de possíveis reações indesejáveis (TRIGUEIROS; CARVALHO, 2010; UNODC, 1997).
O LSD (dietilamida do ácido lisérgico) é utilizado pelos frequentadores que desejam sensações e visões coloridas, pois cheiros, cores e situações são modificados e o usuário cria delírios ou ilusões. Fisicamente, entre muitos aspectos, também aumentam a temperatura