3.1 AMBIENTE: UNDERGROUND X MAINSTREAM
3.1.2 Segurança e filas
Figura 7: Ingresso ganho e retirado na bilheteria para a Festa 8.
"A cibercultura viabiliza novos processos colaborativos de produção e compartilhamentos de informação, mudando as formações socioculturais, políticas e econômicas" (LIMA; SANTINI, 2009). Toda essa informação em tempo real, compartilhada, salva e alimentada através da facilitação da obtenção de ingressos, sorteios e aumento da rede de contatos e interesses para ganhar ingressos corrobora a idéia dos autores (op.cit):
reorientamos nossas redes de relacionamentos, nossos interesses para sermos privilegiados e, assim, acabamos difundindo amplamente informações e dando a visibilidade que as organizadoras dos festivais desejam quando escolhem estratégias como essa. Nesse ponto, torna-se clara uma das desvantagens da massificação da música eletrônica: a exposição das pessoas que a frequentam, a banalização da música eletrônica que se tornou totalmente comercial, a divulgação da cena mainstream e o excesso de postagens e marcações nas redes sociais virtuais (POLINAROV, 2012; SÁ e DE MARCHI, 2005; GARSON, 2009;
FONTANARI, 2003). Ainda existia a comercialização de ingressos nas redes sociais dos eventos, o que possibilitou a venda do ingresso do segundo dia da Festa 1 que acabei não desejando ir.
existe a preocupação de que, pelo menos nas dependências do lugar da festa, seja possível sentir segurança.
Pode-se salientar a preocupação em manter o ambiente do evento livre de riscos, citados por Giulianotti e Klauser, (2009), como violência política ou terrorismo, violência entre expectadores, a violência urbana e a criminalidade local. O que nem sempre pode ser evitado, pois na entrada haviam pessoas combinando como passar pela segurança sem ser percebida a presença de drogas e também acabou ocorrendo uma apreensão feita pela polícia que fazia a segurança nos arredores do evento. Os autores (op cit.) comentam que, em megaeventos, é importante a tomada de precauções frente aos riscos inerentes de espaços onde há grande circulação de pessoas. O ambiente do evento e sua organização auxiliou na minha localização e orientação para os locais corretos de entrada.
As filas não são simples momentos de espera. Nos festivais elas são organizadas por gênero e normalmente são várias.
As situações de descontentamento associadas à realização de eventos, de acordo com Fidalgo (2009), são demasiadas: turistas, multidões, filas de espera, confusão e a falta ou dificuldade de estacionamento. Os festivais, independentes de serem ao ar livre ou nas dependências de club's, enfrentam o problema com filas. Como saliento nos diários de campo, foram muitas as vezes que acabei indo antes dos horários com maior movimento para evitá- las. As pessoas estão impacientes, mulheres reclamam de dor nos pés devido aos calçados desconfortáveis e todos repetem "vamos logo" e "que demora!". Ainda que não fosse possível evitar no meio da noite as filas para utilizar os banheiros ou até mesmo comprar algo para comer ou beber.
Para enobrecer a discussão sobre a questão das filas nas entradas dos festivais, nas rodovias que levam aos locais e nos estacionamentos utilizo como defesa a idéia de espaços vazios de Bauman (2001). Ao aguardar em uma fila, estamos em lugares desprovidos de significado, lugar que é vazio em seu propósito, logo, nos aborrecemos. Uma abordagem interessante sobre o significado dos espaços é a forma como Tuan (1983) define a transição entre os conceitos de espaço e lugar. Para ele o espaço transforma-se em lugar à medida que adquire definição e significado. O lugar relaciona-se com familiaridade e remetem a idéia de que o valor é atribuído pois se trata de onde são satisfeitas as necessidades das pessoas.
[...] fomos até a fila da bilheteria que estava lotada independente da quantidade de cabines atendendo a fila dava voltas. Após apresentar os documentos, os ingressos foram impressos rapidamente. Como a entrada foi modalidade pista acabei tendo que pegar a fila (enorme) para entrar.[...](Fragmento de Diário de Campo, Festival 4)
Tudo é instantâneo e, se não o for, causa-nos exaustão e desinteresse. Para Bauman (2001), a distância em tempo está desaparecendo ou diminuindo e uma das formas de não ter que lidar com a frustração do vazio, é escolher o melhor horário para ir e também para sair dos locais. Ir antes da abertura dos portões dos eventos e, para ir embora, ir antes da última atração terminar sua apresentação. Saliento esse comportamento no recorte do diário de campo (Festival 1): "Esperei até a última atração começar a tocar, nesse momento, comecei a olhar ao redor e senti que era hora de ir embora". [...].
Além disso, os comportamentos em relação às filas demonstram a dificuldade que existe em lidar com aquilo que não é imediato. Lampert (2005) afirma que é necessário atender uma demanda de sujeitos práticos e individualistas que preenchem suas necessidades e vazios com o imediatismo do consumo. Um exemplo: "[...] Estava clareando o dia e acabamos indo embora enquanto a fila para comprar água andava. Peguei a água que tinha deixado no carro e tomei [...]" (Fragmentos de Diário, Festival 4). Ao invés de enfrentar a fila para pegar uma água que eu já tinha comprado, aliás, ao olhar para o aglomerado de pessoas, preferi perder o dinheiro e ir embora para não ficar presa na fila de saída do estacionamento acabando por tomar a água que estava no carro faziam dois dias.
Do mesmo modo, em outra situação, ainda que tenha ganho os ingressos em um sorteio na internet, o tratamento não foi diferenciado. O evento teve divulgação, o público era grande e a festa acontecia em um club. Saliento novamente fragmentos do diário de campo:
"[...] a fila era imensa e foi demorado até conseguirmos retirar os ingressos. [...]. Assim que chegamos a área de festa percebi que a fila para buscar bebida também era extensa".
Tudo o que acontece no meio dessa multidão de pessoas que convergem em direção a um lugar é algo que fica vago nas lembranças. Abra parênteses, no entanto, para discordar sobre essa afirmação, em especial no Festival 12, pois, estava registrando tudo o que acontecia no ambiente com o óculosespião todas as interações. Ter essa ferramenta, foi uma vantagem para a pesquisa naquele dia. E me apoio na idéia de Baumgarten (2005) que ressalta a pós-modernidade como o privilégio dos desejos materializados pelo consumo como mecanismos de ativação da felicidade que não precisa mais ser impedida e nem adiada. Pois, segui prontamente as orientações dos organizadores das filas para que pudesse chegar mais rápido ao local que me proporcionaria satisfação e felicidade.
No Festival 12, a fila era organizada por grupos que recebiam um bilhete colorido e um número. Havia um painel e as pessoas se organizavam conforme a cor que ia sendo chamada. Para acalmar a ansiedade, as pessoas faziam o esquenta na fila mesmo, a fila andava
e a sacola com bebidas em consumo também. O meu comportamento não era exclusivo.
Todos estavam fazendo o mesmo. Somos apenas pessoas no piloto automático para se afastar do espaço vazio de significado e seguir as regras encurtaria o caminho.