3.4 SOCIABILIDADE
3.4.11 Partilha de momentos e sensações
são definidos os encontros. O medo de circular entre estranhos pelas ruas dá lugar a algo raro:
o tempo atencioso que as pessoas dispõem aos que chegam à cena e essa sensação ainda me era estranha no Festival 11, quando conversava com a moça da empresa que gerenciou a venda e retirada de ingresso. O sorriso dela foi o primeiro que recebemos, seguido pelo comentário "Cada pessoa que aparece é um sorriso, as fantasias estão muito criativas".
Remover o escudo de proteção é difícil, mas necessário para a vivência completa, para também ser uma pessoa com atenção dedicada diante de uma multidão que busca liberdade em um ambiente utópico. Utópico até a entrada, depois não mais: é realidade.
Mais pessoas iam dançando sozinhas ou em grupos (notável presença argentina e uruguaia).
Após ser confundida com uma estrangeira e descobrir que ambos éramos do mesmo estado e região, criou-se o vínculo. Dançamos juntos por muito tempo, sem conversas, apenas a energia do ambiente. Em certo momento, descrito no fragmento de diário do Festival 2: " [...]
sentei-me antes do último DJ tocar em um canto, no chão, meu novo companheiro sentou-se ao meu lado.... Esticamos as pernas, estava ficando cansada. Peguei o telefone dele, afinal iríamos a mais festas juntos [...]".
A identificação dos sujeitos e a empatia desenvolvem vínculos afetivos e emoções positivas. Tal qual ocorreu no Festival 2, meu novo contato tinha algo em comum comigo (o gosto pela música eletrônica) havia reciprocidade e a escolha de que manteríamos contato. As características que fazem com que uma pessoa se identifique com outra desencadeia o processo de empatia. (RICOTTA, 2002; VANDENBERGUE, 2006). Como no Festival 5, a moça que fazia a segurança me identificou de outras festas e ainda que ela estivesse fazendo a revista corporal e de pertences, falava de quais características fazem com que ela me reconheça: "[...] "Você sempre vem diferente, maquiagem diferente e gosto das suas roupas"
[...]" (fragmentos de diário, Festival 5). Independentemente de quem fosse ela, acabei sorrindo e agradecendo. E contei para ela onde comprava as roupas que pareciam caras, mas não eram.
No mundo das multidões e individualidades, alguém olhou além de "apenas uma pessoa para revistar". A empatia foi na hora. E eu que ia nas festas com aquele olhar de "sou apenas alguém na multidão", percebi que tinha que modificar meu conceito. Na multidão há diferentes pessoas, mundos e fugas.
A empatia faz com que possamos nos colocar mentalmente no lugar de outra pessoa.
Mas e se fosse ao contrário? Se pudesse compartilhar meu momento de felicidade? Abreu (2011) em seu trabalho de pesquisa entrevista um rapaz que salienta a partilha dos momentos, desse traço que liga as pessoas através de um sentimento comum. Outra de suas entrevistadas fala que algumas pessoas passeiam pela margem da festa agindo como observadores. Assim, visualizava meu amigo durante o Festival 5: A música estava empolgante, o calor havia sido aplacado pela chuva, pessoas dançavam e sorriam e ele estava preocupado em não molhar a roupa às quatro e meia da madrugada, ou seja, quase fim de festa. Em um ápice de consciência observadora-participante, questionei-me não como pesquisadora, mas como pesquisadora quais eram as regras a serem obedecidas ou transgredidas e dado o momento descontraído corri na direção dele e o abracei. Pronto: Agora não havia desculpa para não dançar na chuva. Ele abriu um sorriso e estava indo, pelo menos até sermos abordados por um trio masculino que começou a socializar conosco.
No Festival 7, ao encontrarmos um lugar para aguardar as apresentações, conforme fragmentos de diário de campo:"[...] iniciei a festa conversando com três rapazes, que estavam empolgados com o festival e com a quantidade de atrações. Um deles me disse que era do Rio Grande do Sul e era DJ também, explicou-me que esperava muito daquela noite, afinal haviam muitas atrações [...]". O copo de vodca indicava que eles estavam lá para se divertir.
Mas não eram meros frequentadores, eram DJ's também e por esse motivo tinham níveis de exigência maiores em termos de qualidade musical. Eles eram parte do meu público pesquisado, davam um alinhamento descritivo da observação e possibilitavam a apreensão de detalhes sobre a complexidade do campo que estava sendo estudado (NEVES, 2009).
No Festival 7 ainda, trocamos de ambiente. Fomos para uma área coberta, pois estava frio. Lá, se apresentavam DJ's iniciantes e o espaço era uma parceria com uma escola para DJ's. O estilo musical era o deep house, ambiente mais escuro e intimista. " [...] começamos a dançar, mas logo um grupo de pessoas, entre homens e mulheres se aproximaram e começaram a dançar conosco [...]". (Fragmentos de diário, Festival 7). As idas regulares ao campo foram proporcionando o acesso às pessoas (MAGNANI, 2002).
[...] Nesse processo comecei a conversar com um rapaz carioca, que não entendi o nome, 21 anos, e que prontamente me apresentou sua turma, encheu o copo de vodca e energético e me fez um convite "tenho haxixe no carro, você quer vir?".
Minha amiga ficou assustada com a quantidade de bebida que ele jogou no meu copo. [...] - saí do ambiente e quando o encontrei em frente a pista - o rapaz disse que estava guardando o haxixe para fumar depois, para acalmar e que ainda estava convidada [...] (fragmentos de diário, Festival 7).
Sabia que para ser reconhecida como "amiga" e poder acessar o mundo das pessoas que queria pesquisar, deveria encontrar uma oportunidade de aproximação (MAGNANI, 2005). Nesse caso, a bebida que foi colocada no meu copo por ele, enquanto o garçom da casa segurava o balde com gelo, no qual ficaria a garrafa recém-aberta. Já estava bebendo vodca antes, então encher o meu copo foi como, ele falou no meu ouvido, "boas vindas 'do grupo' ao estilo carioca". Agradeci.
Pela peculiar vivência em festivais, soube através da literatura que a minha forma de agir tinha uma nomenclatura: modelo de ator - utilizado na fenomenologia para confirmar ou falsear hipóteses. Que são formuladas a partir da compreensão do cotidiano que está sendo compartilhado e na habilidade de tecer uma biografia para a situação (QUEIROZ, 2007). Na minha situação limitava-se a isso: sorrir, dizer que "vou depois, ainda é cedo" e agir como se tudo fosse natural, usual. E é um recurso muito interessante, pois a minha postura receptiva construía a aproximação, neste caso através da dança e a possibilitação das conversas e
indagações. O curioso é que raramente se precisa falar muito com alguém em um festival para que essa pessoa desnude sua alma e fale o que usou e vai usar (MAGNANI, 2005).
No Festival 9, ficamos na companhia da promoter e seus convidados. Dentre eles havia uma moça deslumbrante com o namorado. Fomos apresentadas e comecei a acompanhar os passos de dança dela. Em menos de 5 minutos, ela falou que tinha tomado uma bala. "Aproveita para dançar!" - Foi a única resposta que me veio à mente. Essa situação me remete a Oliveira (2006) na sua obra "O trabalho do Antropólogo: olhar, ouvir e escrever", no meu caso escrever é substituído por transcrever o que gravei, filmei e fotografei. Ainda assim, a transcrição no dia seguinte remetia a memória ao dia anterior, uma presentificação do passado para a compreensão e interpretação dos dados. Essa parte irei apresentar na íntegra, pois ao transcrever meu diário, pude realmente re-sentir e re-significar:
[...] Ela me abraçou "Como você é linda, que lindo esse desenho no rosto, você faz algum desenho no meu rosto? Tenho maquiagem na bolsa". Ela foi me puxando pelo braço até o banheiro e queria que eu desenhasse algo no rosto dela. Foi então que a irmã dela me disse para não fazer isso, pois a mãe dela era evangélica e sequer fazia idéia de que ela estava naquela festa. Expliquei que era só maquiagem, aí ela disse que não tinha problema. Acabei pensando sobre como os pais não conhecem os filhos ou não desejam conhecer eles. Ela estava se divertindo muito, tinha um namorado que estava com ela e uma rede de amigos para acompanhá-la. Fomos ao banheiro, ela estava saltitante [...] (fragmentos de diário, Festival 9).
Acresço ainda que, naquele momento, estava às margens da festa, senti que minha transição foi de participante à observadora. Embora estivesse no mundo daquela pessoa, não estava em um processo de partilha ou troca, como sugere Abreu (2011), e sim de total contemplação daquela moça e sua experiência libertadora, protegida por familiares e amigos, transcendendo e transbordando energia e receptividade para com as pessoas ao seu redor.