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Ritual: o DJ como Xamã

No documento Priscila Cembranel.pdf - Univali (páginas 140-143)

3.5 DO RITUAL AO CONSUMO DE EXPERIÊNCIA

3.5.5 Ritual, Festivais Mainstream e DJ's

3.5.5.1 Ritual: o DJ como Xamã

Em entrevista a Coscarelli (2015) a dupla de DJ's suecos Axwell /\ Ingrosso salientam a importância de suas personalidades para as performances no palco. Além de bons produtores musicais faltava o elemento que garantiria seus espaços no segmento mainstream.

Ainda que criticados, são ao mesmo tempo ovacionados por seu contato com o público regado a pirotecnia, luzes e telões orquestrados de acordo com seus sets musicais.

Cada DJ possui sua forma de chamar a atenção e cativar o público com músicas e espetáculos memoráveis que trazem aos frequentadores diferentes e intensas reações. Esse show, que vai além da educação musical do público, não só encanta como também inspira as pessoas nessa experiência vivenciada em algumas horas de festival. Essa dinâmica de pista envolvendo aspectos do pop e do rock foram deixando as cabines de lado e evidenciando-se como verdadeiros shows de intensidade.

Concertos intensos de música eletrônica, impulsionados pelos efeitos especiais e guiados pelos DJ's. Garcia (2014) retrata os artistas como "personas" que ocupam grandes palcos e investem pesado nos efeitos sensoriais capazes, segundo este, de derreterem o cérebro. A música nesses casos trata da experimentação e espontaneidade do contexto no qual a música é sentida. A histeria de um público mainstream está justamente em seus DJ's que utilizam sons considerados underground misturados às músicas conhecidas pelo público (pop e rock, por exemplo).

O xamã não é definido por sua "potência" xamânica ou espiritual, ele é reconhecido através de suas habilidades, qualidades e capacidades únicas (VIVEIROS DE CASTRO,

1986; 2004). E o DJ pode e percebe o poder que exerce sobre os frequentadores dos festivais.

São tratados como verdadeiras estrelas da música e verdadeiros guias. Bullen (2010) reafirma a habilidade de colocar-se em situações onde condições são pensadas e ritualizadas de acordo com a busca de vivência desejada através dos sinais captados que tornam distintas as formas de organização da cultura mainstream. Isso pode ser observado no Festival 4, onde no diário de campo comento sobre o trabalho de um dos artistas: "[...] sua música é ousada e usa, inclusive, técnicas de scratch (vinil) e isso contribuiu ainda mais para a agitação das pessoas".

Também se evidencia no Festival 10: "A agitação acaba voltando. Nessa hora a pista VIP e a pista estavam lotadas para o DJ seguinte que foi recebido pelas pessoas com óculos escuros, vi também moças em cima dos ombros de alguns rapazes. A proximidade do palco era disputada".

O xamã é capaz de dividir a experiência de um indivíduo em um antes simples e puro, e um depois simbolizado pelo ponto de reencontro consigo mesmo. Esse momento de reencontro traz à tona a percepção da modificação. O indivíduo que retorna não é o mesmo, está diferente. (DELEUZE, 1999).

A fuga da realidade é o êxtase quando pensamos em música eletrônica, o xamã (ou DJ) pode estar consciente ou não disso. No entanto, suas habilidades, a forma como conduz a platéia é capaz de induzir uma experiência que proporciona o êxtase. A abertura do Festival 6 é uma forma de exemplificar essa idéia:

O artista entrou com a camisa do Brasil o que fez as pessoas gritarem muito, muita euforia. Para todos os lados onde pude olhar, quando ele começou a tocar, a ansiedade das pessoas se transformou em dança, gritos e pulos desordenados [...].

Dançamos, rimos e ficamos bem na frente (junto a grade), como em um culto, onde o DJ dita as regras. Ele pedia para erguer os braços para um lado e depois o outro e todo mundo acabava fazendo. A pista ia fervendo e cada vez as coisas pareciam mais desconexas com o mundo real. (fragmentos de diário, Festival 6).

O êxtase é descrito como o abandono do corpo pela alma ou sobrevivência subconsciente no homem moderno. O subconsciente carrega a mitologia e a riqueza mítica substituída pela modernidade e pelo laicismo (ELIADE, 1998). As pessoas encontram através da música, a possibilidade de viajar para essa realidade distinta de percepções proporcionadas pelos sentidos no ambiente musical. Ao chegar no backstage e ver as pessoas cansadas meu impulso foi de retornar para a pista no Festival 6 onde saliento: [...]. Desci pela mesma escada que subi. E pode soar estranho, mas quando pisei na pista voltou toda aquela sensação de

"amamos isso e estamos felizes". Logo, posso especular que ao perceber uma experiência positiva ao meu redor, retorno ao estado mental de alegria e euforia rapidamente.

O êxtase proporcionado pelo talento do xamã através da produção musical demonstra como o ritual transforma-se frente a cada indivíduo (GOW, 1995). Embora, pareça um aglomerado de pessoas, estas formam uma tribo onde cada um tem seus interesses, mas também onde a música é o gatilho para a união das pessoas. Como saliento no fragmento de diário do Festival 11: "E com um grande poder de persuasão. Ele iniciou o set dele e aquilo que parecia não poder ficar mais frenético, ficou".

Imerso no ambiente o frequentador se vê diante de um evento massivo, sensorialmente estimulado e inebriado podendo expressar algumas nuances de seu estado mental e encontrar outras pessoas com sensação similar, ou seja, uma sociabilidade atrelada ao consumo de experiência (ARBIB, 2001).

Voltamos para a pista e todos estavam uníssonos cantando e acompanhando a performance dos DJ's que na mesa da cabine tinham um cacho de bananas [...]. Os rapazes mostraram-se verdadeiros animadores. Pediam coreografia para o público e eram prontamente atendidos. As pessoas pareciam adestradas e o movimento novo, não parecia ser novo. Ou nunca havia visto uma apresentação deles, ou a galera estava em perfeita sincronia (fragmentos de diário da Festival 3).

A "cola" que garante essa identificação entre desconhecidos é o artista que orquestra uma platéia, que baseada nas músicas são capazes de se locomoverem dos mais diversos lugares do mundo, se necessário, para sentir a experiência que determinado artista é capaz de proporcionar.

[...] em um exercício coletivo, fomos todos nos deslocando para qualquer lugar onde seria possível ver o artista. (Fragmento de diário, Festival 6)

A atração seguinte inicia, "Olá Brasil" grita o DJ holandês que é recebido com gritos e muito aclamado [...]. O artista começa a pedir palmas, enquanto ele bate palmas acima da cabeça as pessoas repetem o gesto. Ele pergunta em inglês algumas coisas misturadas com a música na altura do som de sua voz e termina dizendo "Are you ready? Um, dois, três, Go!"[...] (fragmentos de diário, Festival 10)

Os fragmentos de diários dos Festivals 6 e 10, me fazem retornar ao início da pesquisa, quando repetia (para eu mesma) a fala de Barbosa Almeida (1999, p. 6) "quando ouvimos do interlocutor algo que parece obviamente um absurdo, [...] devemos adotar a hipótese provisória de que o interlocutor diz algo, sob a condição de que nos esforcemos para descobrir as condições sob as quais a fala do interlocutor faz sentido". Nas festas, como pesquisadora, compreendia amplamente as condições caóticas do ambiente, assim como todos os estímulos sensoriais e esforços do DJ para que as pessoas se sentissem em verdadeiro êxtase. Ele cumpria seu papel de xamã. Ele conduzia o ritual. Tendo ou não esse papel.

No documento Priscila Cembranel.pdf - Univali (páginas 140-143)