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Amor e sono: mais notícias do amor

processo excitatório num órgão, e seu alvo imediato consiste na supressão desse estímulo orgânico" (1905/1996, p. 159).

Ao discorrer sobre a sexualidade infantil, Freud, ao invés de considerar como exceção o que encontra, toma como norma, se referindo à "normatividade da pulsão sexual na infância" (1905/1996, p. 163). O primeiro encontro com uma fonte de prazer, a boca, já aparece como indestrutível, posteriormente. Nosso autor se refere ao "chuchar" da criança como sendo o "sugar com deleite". Para ele, a criança encontra uma satisfação sexual na sucção, que vai para além de sua necessidade de nutrição, e tem desde já um efeito no sono que perdurar-se-á posteriormente.

Nas palavras dele, em nota de rodapé: "Já aqui se manifesta o que tem validade para toda a vida: que a satisfação sexual é o melhor dos soníferos. A maioria dos casos de insônia remonta à insatisfação sexual" (1905/1996, nota nº 2, p. 169).

Uma vez que somos seres pulsionais e não de instinto, e como já dissemos, não chegamos ao mundo sequer sabendo sobreviver, o adormecimento, assim como a alimentação, não são atos que fazemos sem algum trabalho psíquico. Freud liga o adormecimento à satisfação sexual, desde o início da vida. Um bebê irá dormir bem se tiver saciado sua fome, mesmo que esse sono não dure muito. Na vida dos adultos, ainda será no campo da saciedade que se encontrará a mola propulsora para o adormecimento. Há uma intimidade entre o sono e o amor que no interessa estudar.

Em A insustentável leveza do ser, um romance que demonstra diferenças importantes no campo masculino e feminino do amor, Milan Kundera (1984, p. 15- 16) escreve:

O sono compartilhado era o corpo de delito do amor. Com as outras mulheres ele nunca dormia. [...] Portanto, qual não foi sua surpresa quando acordou com Tereza segurando firmemente sua mão! Olhou-a e custou a compreender o que estava acontecendo. Evocou as horas que tinham se passado e acreditou respirar o perfume de uma felicidade desconhecida. [...] Tomas pensava: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes, mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher).

Vemos uma diferença apontada por Kundera entre satisfações encontradas em atos sexuais (nesse sentido, "fazer amor" é entendido como o ato sexual em si) e o amor que se enlaça a uma pessoa apenas, pelo desejo de dormir junto. Se dormir, por um lado, é algo que se faz sozinho no corpo, assim como as outras atividades das pulsões de autoconservação (comer, urinar, defecar), por outro lado, comer e dormir são bem atividades que um casal se propõe a fazer juntos. É frequente que quando as pessoas estão em um relacionamento com uma certa estabilidade, elas comam e durmam juntas com tamanha frequência, que acabem até por engordar juntas. Nesse ponto, vemos o quanto o amor e o sexo não só não são a mesma coisa, como muitas vezes até mesmo se opõem. Lacan afirma, em seu seminário 20, que "quando a gente ama, não se trata de sexo" (1972-73/2008, p. 31).

Em Psicologia de grupo e análise do ego Freud escreve que é "o destino do amor sensual extinguir-se quando se satisfaz; para que possa durar, desde o início tem de estar mesclado com componentes puramente afetuosos – isto é, que se acham inibidos em seus objetivos – ou deve, ele próprio, sofrer uma transformação desse tipo" (1921/1996, p. 125). Pode-se depreender daí que a pulsão sexual, uma vez satisfeita, precisa se ligar a algo além dela para prorrogar a existência de algo.

O adormecimento apontaria para esse mais além da satisfação sexual.

Em Introdução ao narcisismo, Freud destaca que o estado de sono "também significa uma retração narcísica das posições da libido para a própria pessoa, mais precisamente para o desejo de dormir" (1914/2010, p. 26). A proposta freudiana, portanto, é que para dormir, a libido de objeto se enfraquece, em prol da libido do Eu, que precisa satisfazer-se. Podemos pensar a partir desse ponto, que o desejo de "dormir juntos" tenta incluir o outro em si, estando nesse sentido, no campo do amor.

Enquanto o amor aspira o Um, a pulsão separa, secciona, dá notícias do autoerotismo e de um tempo anterior ao momento de júbilo do estádio do espelho. A pulsão refere-se sempre a um corpo despedaçado, recortado por zonas erógenas.

Freud escreve: "Não há dúvida de que os estímulos produtores de prazer estão ligados a condições especiais que desconhecemos" (1905/1996, p. 172). Nesse sentido, podemos ler que a pulsão esburaca o narcisismo, uma vez que aparece como satisfação lá onde o Eu não a reconhece.

Em Lacan, encontramos a penúltima lição do Seminário 19 intitulada "O desejo de dormir". Nela, Lacan retorna à interpretação de sonhos, de Freud, e destaca que o desejo fundamental presente no sonho é o desejo de dormir. Freud já dizia, afinal de contas, que o sonho é o guardião do sono. "Quando Freud dizia que o sonho é a satisfação de um desejo, é uma satisfação em que sentido?", (1971-72/2012, p. 208) ele se pergunta. Além disso, faz um adendo: como é que essa satisfação causada pelo sonho seria sexual se a relação sexual não existe? Ao que ele mesmo responde: "A razão é simplesmente esta, e é tangível: o que Freud diz é que o único desejo fundamental no sono é o desejo de dormir. Isto os faz rir, porque vocês nunca o ouviram. Muito bem. Mas está em Freud" (p. 209).

Dormir é suspender o gozo, é estar o mais próximo possível da morte, ainda que com boa saúde. É um estado de suspensão da consciência, uma grande intimidade, quando acontece a dois. Nas palavras de Lacan: "Quando dormimos, a questão é justamente fazer com que esse corpo se enrole, forme uma bola. Dormir é não ser perturbado. O gozo, no entanto, é perturbador, mas, enfim, enquanto dorme, pode esperar não ser perturbado" (1971-72/2012, p. 209). O amor aparece aí na tentativa de apaziguar, ou mesmo de silenciar o gozo.

Em Cinco lições de psicanálise, Freud destaca que achamos a realidade insatisfatória e que por isso mantemos uma vida de fantasia, muito mais interessante, que pretende compensar as "deficiências da realidade" (1910/1996, p. 60).

O adormecimento não deixa de ser uma fuga da realidade, lá para onde todas as fantasias são possíveis de serem realizadas, no mundo onírico. A psicanálise, todavia, é um tratamento que nasce na contramão do adormecimento, uma vez que nasce justamente com o abandono da hipnose.

Marco Antônio Coutinho Jorge escreve no volume 2 de Fundamentos da Psicanálise: "A experiência analítica visa, em última instância, ao despertar. Despertar do sono no qual o sujeito se achava mergulhado e que dava algum sentido à sua

vida" (2010, p. 223). Freud afirma que o sonho é o guardião do sono, portanto, o sonho essencialmente para que possamos dormir, que possamos realizar nossos desejos sem sermos perturbados por esse incômodo que é a realidade. Lacan afirma em seu Seminário 2 (1954-55/2010, p. 315) que "a vida só pensa em descansar o mais possível enquanto espera a morte". Podemos considerar que dormir é a experiência mais perto que temos, em vida, da morte.

Para além desse aspecto do adormecimento como um modo de não ser perturbado, a literatura, o cinema e mesmo as passagens bíblicas nos demonstram que dormir ao lado de alguém é o maior sinal de entrega e confiança, a renúncia a qualquer defesa. Em Hamlet, vemos que seu pai é assassinado pelo irmão enquanto dormia ao lado da esposa, com a cumplicidade dela, com azeite fervente entornado sobre um de seus ouvidos. A história bíblica contida no Novo Testamento de Sansão e Dalila, conta que Dalila cortou os cabelos de Sansão, uma vez que descobriu que lá estava sua força, enquanto ele dormia em seu colo. Gillian Flynn, escritora americana contemporânea cujos livros orbitam em torno de histórias com mulheres perversas, escreve nos agradecimentos de seu livro Lugares escuros: "Finalmente, obrigada a meu brilhante, engraçado, de grande coração e supersensual marido Brett Nolan. O que dizer a um homem que sabe como penso e ainda dorme ao meu lado com as luzes apagadas?" (2014, p. 351). Dormir ao lado de alguém demonstra níveis de entrega, desamparo e vulnerabilidade atrozes!

Vemos, então, que o sono tem uma íntima ligação com o amor. Seja pela temporária satisfação do desejo, seja pela relação de confiança implicada ao dividir o sono com alguém, seja pelo silenciamento do mundo externo. Nesse sentido, o sono tem relação com o amor na medida em que há a pulsão de morte no meio do caminho.