Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegar a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato.
(Ana Martins Marques, em Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano.)
Uma das vertentes contemporâneas d'A mulher é a figura da 'mulher independente'. Há um imperativo superegóico que leva as mulheres a acreditarem que devem ser felizes sozinhas, nomeando como independência o que outrora já se chamou de completude ou de "solteirona".
Não podemos deixar de constatar o quanto o ideal de independência da mulher em relação ao homem – descartar os homens é cada vez mais possível para a mulher em nossos dias – tornou-se um imperativo superegóico que obriga a mulher a se sentir ou dizer "liberada". A clínica, contudo, nos mostra que angústia, inibição, sintoma estão à espreita, sob um modo bem feminino. É porque ao pretender se passar de toda mediação do homem, uma mulher pode não só estar abrindo mão de aspectos de sua feminilidade como também estar sujeita a ser invadida pelo ilimitado de seu gozo. Não podemos deixar de notar certa inquietude quanto às mulheres modernas (ZALCBERG; AB'SABER; ALONSO, 2008).
O mercado oferece às mulheres infinitos objetos para que sua relação alienante com o objeto não se interrompa. Porém, essa ansiedade e esse desespero pelos objetos podem ser pensados como a marca de uma tristeza. Zalcberg destaca que os números crescentes de casos de anorexia, bulimia, toxicomania, alcoolismo são testemunhos da existência de sujeitos que se orientam por um empuxo a um gozo numa forma que prescinde do Outro, no qual, entretanto, se goza de modo solitário, sem espaço para o desejo. Nas palavras de Zalcberg, em um debate sobre o feminino (AB'SÁBER; ALONSO; ZALCBERG, 2008): "É um aspecto particularmente enfatizado por Lacan em seu seminário sobre a angústia: que o gozo deve ceder
espaço para o desejo. O amor tem essa importante função, a de favorecer a substituição do gozo pelo desejo" .
No seminário 10, sobre A angústia, Lacan (1962-63/2005) nos anuncia que a angústia é consequência da falta da falta, ou seja, não é a separação o fator desencadeante da angústia, mas a alienação.8 O que se evidencia a partir do que Lacan nos ensina nesse seminário é que se é o amor que permite ao gozo condescender ao desejo, sem o amor, a pulsão de morte revela sua força através do gozo.
Com frequência se atribui os cuidados com o corpo, que por vezes tornam-se uma obsessão, ao narcisismo feminino, à necessidade que uma mulher tem de ser amada como restituição a sua perda fálica infantil. Contudo, se faz importante considerar os efeitos que o empuxo ao gozo ofertado pelo discurso capitalista causa no Supereu feminino. Como Lacan apontou, o Supereu é imperativo de gozo e o amor acaba sendo mais uma das exigências superegoicas que parecem possíveis de serem "compradas". São inúmeros os aplicativos de relacionamentos, onde há uma oferta ilimitada de pessoas que se oferecem como mercadorias umas às outras.
A clínica nos demonstra a dificuldades que muitos sujeitos têm de fazer um corte nesse "looping" dos aplicativos, onde a pessoa "perfeita" para o amor parece existir e estar à disposição dentre aquelas opções. Como vimos, nas mulheres, o Supereu permanece ligado à mãe extremamente voraz, e que tal voracidade encontra ainda mais forças no capitalismo, instrumentalizando as mulheres para vivenciar o que Lacan nomeou como devastação.
Para Manso de Barros (20121, p. 10-11): "o mercado no sistema capitalista tira proveito da posição feminina, incompleta, protetora de seu centro gozoso, seu pudor, sua decência como se ela estivesse restrita apenas à posição do escravo de quem o senhor capitalista retira seu gozo". A imensa insatisfação com a imagem corporal, característica comum dentre as mulheres, ocorre porque a beleza, em vez de ser um complemento ao ser feminino, acaba sendo tomada pela vertente superegóico, transformando-se em um compromisso obrigatório. Se na constituição do Eu Ideal da mulher houve uma falha, o Ideal do Eu será perturbado por suas consequências, visto que, parte de um desdobramento do Eu Ideal e articula-se aos ideais culturais.
8 Como vimos no primeiro capítulo, na parte 1.13.
Assim, "a beleza toma o lugar de um representante fálico, dando à mulher bela uma posição de identificação ao falo, tornando-a poderosa e destacável entre as outras mulheres. Ser bela velaria ser castrada, ser não toda submetida à castração"
(MANSO DE BARROS, 2012a, p. 4). A beleza, portanto, tem um lugar de destaque como obturador da incompletude em nossa cultura.
Soler (2003, p. 122) nos adverte:
No discurso capitalista apareceu uma nova transformação: nossos corpos são inspecionados pela grande máquina de produzir. [...] Em todos os níveis do trabalho social, os corpos já instrumentalizados, são instrumentos eles mesmos. Quem não percebe, aliás, que são mantidos tal como se faz com as máquinas: check-ups, regimes, ginástica, estética…? Nem tudo aí deve ser imputado ao narcisismo.
Pode-se pensar que quanto mais o discurso capitalista vende a imagem de que A mulher existe, mais incita as mulheres a um detrimento de si mesmas, numa tentativa de esvaziar o Outro. Se por um lado há toda uma imensa indústria de fabricação de corpos femininos pelas cirurgias plásticas e filtros incontáveis para as redes sociais, por outro lado há uma incessante busca por dar consistência a esses corpos. Nesse ponto podemos entender a voracidade dos paparazzis, que hoje em dia são apenas transeuntes, pois estamos todos com um gadget à mão, em busca de estrias, rugas, celulites nos corpos e até mesmo em "flagrantes" de traições em relacionamentos de mulheres famosas e idealizadas. Podemos pensar que ao se encontrar com a falta no Outro, se pode colocar uma barra sobre ele, produzindo efeitos de castração, e consequentemente, de alívio. Vemos um movimento recente entre as mulheres nas redes sociais, especialmente entre "mulheres famosas", atrizes e blogueiras, ao uso das redes sem filtros, na tentativa de humanizar os corpos femininos, que ficam tão substancialmente alterados com o excesso de procedimentos e filtros.
Recentemente, na Noruega uma lei entrou em vigor exigindo que influenciadores digitais informem nas publicidades as alterações e edições que fizeram na imagem.
Trata-se de uma medida, de acordo com o governo norueguês de reduzir a pressão que as imagens idealizadas provocam, o que em termos psicanalíticos pode ser lido como uma tentativa de reduzir a voracidade superegoica que é propiciada por essas imagens (BBC, 07/07/2021).
É certo que essas medidas governamentais não devem acabar com o problema, já que se trata do modo como cada uma lida com seu Supereu, mas podem atenuar
a voracidade com a qual o capitalismo faz acordar o Supereu e o manipula. Cada sujeito responde de modo singular a essa voracidade, alguns são mais permeáveis a esses imperativos de gozo e outros menos. Havendo uma deficiência no período inicial da vida9, essa situação poderá se repetir na forma como uma mulher se coloca frente a esses padrões: por mais que ela se esforce, os resultados serão sempre insuficientes, frente à falta de investimento narcísico que o agente materno inscreveu em seu corpo.
Caberá à mãe reinvestir seu próprio narcisismo primário, ao qual ela mesma já renunciou, no corpo de sua filha, de modo a auxiliá-la na construção do narcisismo primário dela. Entretanto, pelo fato da imagem da mãe não possibilitar uma identificação que seja "toda" para a filha, algo do seu narcisismo, de sua feminilidade precisará de outras elaborações, para além das inscrições que a mãe poderá lhe oferecer.
Portanto, é de extrema importância destacar que não se trata de rechaçar as tentativas femininas de elaborar a castração por meio de adornos e substitutos fálicos, muitos deles, oferecidos, inclusive, pelo capitalismo. Porém, à medida que essas tentativas sucumbem a imperativos superegoicos, a vertente mortífera da pulsão revela-se devastadora.
O aforisma lacaniano que afirma a inexistência d'A mulher é também um convite a cada mulher a inventar/construir sua feminilidade, tarefa esta que não se restringirá exclusivamente a um ou a outro modo de gozar. Para Cardoza e Ribeiro (2013, p. 587): "ocupar lugares fálicos faz das mulheres sujeitos, mas não as aproxima do feminino. Ao final, ficamos sem saber se esse ganho das mulheres é em pujança de feminino ou não passa de uma máscara imperativa masculina".
Vemos aí a problemática com o falo novamente. A clínica psicanalítica mostra que ser bem-sucedida, "toda fálica" no campo do trabalho, por exemplo, não facilita as coisas no campo do amor, feminino. Será que na atualidade poderíamos pensar que o discurso do "seja feliz sozinha" apareceria como um rechaço ao amor? Se a via possível para escapar do gozo é o desejo, e o capitalismo seria um empuxo-ao- gozo, pode-se dizer que uma saída possível seja a insistência no desejo. Podemos
9 É válido destacar que essa deficiência no primeiro tempo da vida não é nada difícil de encontrar em um país onde há tantas pessoas em situação de pobreza e miséria, ampliadas com a situação de pandemia onde muitos foram abandonados à própria sorte pelo governo. As próximas gerações pagarão um preço altíssimo pelo descaso de quem deveria protegê-los.
dizer que o tratamento psicanalítico aponta para uma descapitalização do sujeito, no sentido de incluir uma negativa, de marcar a falta, o que tem efeitos de retirar o sujeito do lugar de puro objeto a ser devorado pelo Outro do capitalismo. É por isso que a psicanálise está do lado do amor, está do lado do feminino.