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Ter nascido me estragou a saúde (Clarice Lispector, em Antes tudo era perfeito)

Nesse ponto do trabalho, já sabemos que uma mãe também é um significante, assim como Lacan nos aponta que são: "mulher", "homem", "criança". Não se trata de um significante qualquer, mas de um muito específico, já que, como o dito popular aponta "mãe só tem uma". Uma mãe não é aquela que necessariamente pariu uma criança, ou que doou seus óvulos, ou que amamentará o bebê ou que grudará na criança. Uma mãe é uma função, nos ensina a psicanálise, que será ocupada por aquela que primeiro amará a criança. Uma mãe é, então, um duplo portal: para a vida e para o amor. É a mãe quem traz seu filho à vida, para além da existência, já que é a mãe que, investindo libido no corpinho de seu filho, o erotiza e inscreve nele a alegria de viver.

Para Lacan: "É a partir do significante que o sujeito se reconhece como sendo isto ou aquilo" (1955-56/2002, p. 205). Ainda que uma mãe seja um significante, e que nós sejamos seres de linguagem, entretanto, ninguém escapa à estranheza causada pela sexualidade humana que "vida" e "morte" inscrevem em cada um.

Sobre isso, Lacan comenta no Seminário 3:

Há, contudo, uma coisa que escapa à trama simbólica, é a procriação em sua raiz essencial – que um ser nasça de outro. A questão de saber o que liga dois seres no aparecimento da vida não se põe para o sujeito senão a partir do momento em que esteja no simbólico, realizado como homem ou como mulher, e mesmo que um acidente o impeça de ter acesso a isso [...]

Nada explica tampouco que seja preciso que seres morram para que outros nasçam. Há uma relação essencial entre a reprodução assexuada e a aparição da morte, dizem os biólogos, e se for verdade, isso mostra que também eles giram em torno da mesma questão. A questão de saber o que liga dois seres no aparecimento da vida não se põe para o sujeito senão a partir de quando ele está no simbólico, realizado como homem ou como mulher, mas na medida em que um acidente o impeça de aceder até aí (LACAN,1955-56/2002, p. 205).

Se uma mãe transmite a vida por intermédio do seu corpo, transmite também a morte, já que não há uma sem a outra. Vida e morte, ou seja, tudo o que diz respeito à existência de alguém, passa pela conta da mãe, de um modo ou de outro.

Há, com efeito, algo de radicalmente inassimilável ao significante. É, simplesmente, a existência singular do sujeito. Por que será que ele está aí?

De onde ele sai? Que está fazendo ali? Por que vai desaparecer? O significante é incapaz de dar-lhe a resposta, pela simples razão de que ele o coloca justamente além da morte. O significante o considera como morto, ele o imortaliza por essência (LACAN, 1955-56/2002, p. 205).

Se é a mãe quem nos traz à vida, é a ela que recairá a culpa, de algum modo, sobre os infortúnios que a vida causa, embora, pela via do amor, possa ser ela a responsável primeira por nos ligar ao desejo de viver. Um analisante que escutei há alguns anos, em uma fase de uma imensa tristeza e de falta de sentido que atribuía à vida por seu sofrimento obsessivo, certa vez confessou que só não acabava com a sua própria vida para não acabar com a vida da mãe. Ora, ainda que tudo ruísse, o amor que a mãe inscreveu nele e com o qual ele respondeu a ela, estava em plena operação significante. Por amor à mãe, vivia, ainda que a duras penas.

A menina, diferente do menino, terá que se haver com esse "portal" para a vida que é a mãe, alojado em seu próprio corpo. Podemos pensar que os emaranhados da relação mãe e filha, as exigências excessivas que a menina faz em relação à mãe, têm a ver com esse "sem sentido" que o corpo feminino carrega. A dissimetria apontada por Lacan, a partir de sua leitura de Freud, não se trata de uma dissimetria reduzida ao campo da anatomia, mas em relação aos efeitos que a dissimetria anatômica produz em termos de Real, Simbólico e Imaginário. Lacan destaca que "a razão da dissimetria se situa essencialmente ao nível simbólico, que ela depende do significante" (1955-56/2002, p. 201). A constituição da feminilidade passa pelo constante encontro com esse sem sentido que o corpo feminino abriga, ainda que

uma mulher decida que não queira ou que não possa ter filhos. O fato de poder dar à luz a alguém, mortal: talvez seja isso que uma menina não perdoe em sua mãe, ainda que não o faça.

Se pensamos com Freud que o desejo de ser mãe seria o caminho para a feminilidade "normal", encontramos com o grande enigma que é esse portal chamado mãe. Se desviarmos do caminho da maternidade para pensar a assunção de seu sexo, encontramos com o aforisma lacaniano de que "A mulher não existe". Serge André, em seu já clássico livro O que quer uma mulher? (1986/2011, p. 229), aponta:

No que se refere à menina, este desenvolvimento, ainda que abra uma saída para a dependência materna, está na origem de uma profunda insatisfação:

tudo o que lhe é significado aqui como ponto de referência se situa, com efeito, no registro fálico e deixa à sombra o que constituiria a feminilidade.

Cada vez que uma menina endereça a sua mãe sua questão sobre a feminilidade, só pode obter com isso, portanto, respostas fálicas, que denunciam o impossível de responder essa questão. André (1986/2011, p. 230) segue escrevendo:

Lacan nos ensinou que uma identificação imaginária só se fixa como semelhança do sujeito se puder se apoiar sobre um traço simbólico, "traço unário", como ele o chama, espécie de significante mínimo que o sujeito apanha do Outro para arrimar sua identidade. Ora, a mãe não pode em caso algum oferecer à filha um traço unário que suporte sua identidade de menina, pelo motivo de que o significante da feminina não existe..

Será com a radicalidade dessa falta de um significante que responda à menina o que é uma mulher que ela terá que se confrontar. Para Lacan: "Não há, propriamente, diremos nós, simbolização do sexo da mulher como tal [...] o imaginário fornece apenas uma ausência, ali onde alhures há um símbolo muito prevalente" (1955- 56/2002, p. 201). A ausência que verificamos na mulher, então, não é anatômica, mas é significante. Como consequência, a menina identifica-se à posição fálica do pai. Lacan destaca não a mãe como sendo uma "pedra no meio do caminho", mas sim o pai. Em suas palavras:

Para a mulher, a realização de seu sexo não se faz pelo complexo de Édipo de uma forma simétrica à do homem, não pela identificação com a mãe, mas ao contrário pela identificação com o objeto paterno, o que lhe destina um desvio suplementar. Freud jamais largou essa concepção, o que quer que se tenha feito desde então, especialmente das mulheres, para restabelecer a simetria. Mas a desvantagem em que se acha a mulher quanto ao acesso à identidade de seu próprio sexo quanto à sexualização como tal, na histeria transforma-se numa vantagem, graças à sua identificação imaginária com o

pai, que lhe é perfeitamente acessível, em virtude especialmente de sua posição na composição do Édipo (1955-56/2002, p. 197).

A dificuldade da menina, portanto, não estaria em seu gozo para além do fálico, mas suas dificuldades estariam presentes justamente na própria lógica fálica, da qual não pode se livrar. Podemos pensar, então, que não é do feminino, propriamente dito que se sofre, mas das trapalhadas com o falo. Nesse sentido, podemos pensar a constituição do menino, do homem, como ainda mais problemática, uma vez que ele não tem "folga" do falo, já que é todo recoberto por ele. Nesse sentido podemos entender por que Lacan escreve no parágrafo em seguida ao que citamos acima:

"Para o homem, em compensação, o caminho será mais complexo" (1955-56/2002, p. 197). Todavia, esse tema não será aprofundado nessa pesquisa.

A saída para os impasses com o falo, para uma mulher, estaria no fato de que o falo não é tudo para ela, que pode servir-se com maior "facilidade" do gozo não- todo. Já aquele que se situa inteiramente do lado do falo, haverá que desbravar um caminho para atravessar a fórmula da sexuação até chegar em seu a, pela via da fantasia amorosa.