Há uma terceira modalidade, ainda, proposta por ele como não para de se escrever, que se situa ao lado da necessidade. O que se dá entre o para de não se escrever ao não para de se escrever é um encontro "o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o traço do seu exílio, não como sujeito, mas como falante, do seu exílio da relação sexual"20 (1972-73/2008, p. 156)
Podemos extrair disso, segundo Miller (2000), que "o amor quer dizer que a relação com o Outro não está estabelecida por qualquer instinto. Ela não é direta, mas sim mediada pelo sintoma. O parceiro fundamental do sujeito, então, não é o Outro, mas algo dele mesmo, seu objeto a, seu mais-de-gozar e fundamentalmente sintoma" (p. 156). Com isso, podemos entender o medo que muitas pessoas têm da solidão, não da solidão propriamente dita, mas da sua versão sem o Outro para encarnar. Um passo a frente, como dissemos no tópico 2.11, o medo da perda de amor é o medo de ficar a sós... com o Supereu. A solidão, nesse sentido, é uma ilusão.
O ser falante não consegue ficar sozinho porque está sempre acompanhado do Outro.
Que a relação sexual não exista, já que não há proporção entre os sexos, não impossibilita que relações sexuais existam; aliás, para Lacan "são só o que existe"
(1971-72/2012, p. 26), pois é a impossibilidade que está no fundamento dessas possibilidades de relações. Em suas palavras: "a ausência da relação sexual obviamente não impede, muito longe disso, tal ligação, mas lhe dá suas condições" (p. 19). Ele aposta em seu aforisma, a não existência da relação sexual, afirmando que ela não pode ser escrita. Assim, Lacan destacará um impossível de escrever – que não cessa de não se escrever (Real). Como já apontamos, homem, mulher, criança, Deus, isso tudo existe como significante, e isso é tudo. Mas há algo para além disso que não existe e que retorna articulado ao Real.
O real pode se definir como o impossível, é como ele se revela no assentamento do discurso lógico. Esse impossível, esse real, deve ser privilegiado por nós.
Nós quem? Os analistas. Isto porque ele é o paradigma do que questiona o que pode sair da linguagem. Da linguagem saem certos tipos de discursos que defini respectivamente como instauradores de um tipo de vínculo social muito preciso. Mas quando interrogamos a linguagem sobre o que ela funda como discurso, é impressionante que só podemos fazê-lo fomentando a sombra de uma linguagem que ultrapassaria a si mesma, que seria uma metalinguagem, e, como assinalei muitas vezes, ela só pode sê-lo ao se reduzir em sua função, isto é, ao gerar um discurso já particularizado."
(LACAN,1971-72/2012, p. 40).
Há algo, então, que pode sair da linguagem, coloca Lacan, apontando um para além dela. Assim como a demanda não alcança o desejo21, para falar a condição é de que algo não seja dito. Há sempre algo que não se escreve para o ser falante, que fica fora da linguagem, o real. É também Lacan quem afirma que a psicanálise é
"a demarcação do que se compreende de obscurecido, do que se obscurece como compreensão, em virtude de um significante que marcou o corpo". (LACAN,1971- 72/2012, p. 145). Os poetas, que tanto Freud quanto Lacan nos indicam antecipar algo da psicanálise, demonstram muito bem a clareza que a obscuridade da linguagem transmite.
Clarice Liscpector22, no conto O ovo e a galinha, escreve: "Tomo o maior cuidado em entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu entender é
21 Como discorremos na parte 1.5, "Desejo e demanda".
22 Vale destacar que, segundo Moser (2011), Clarice Lispector nunca estudou Psicanálise, embora tenha feito análise, de acordo com o livro Clarice, uma biografia (2009).
porque estou errando. Entender é a prova do erro" (1985, p. 50). Encontramos essa advertência ao equívoco da compreensão no Seminário 1 de Lacan: "uma das coisas que mais devemos evitar é compreender muito, compreender mais do que existe no discurso do sujeito. Interpretar e imaginar que se compreende, não é de modo algum a mesma coisa. É exatamente o contrário." (1953-54/2009, p. 102) É a dignidade que a psicanálise dá para o impossível de ser dito que, paradoxalmente, acaba por valorizar aquilo que pode ser dito, daí o dito lacaniano de extrair da psicanálise "a ética do Bem-dizer". (1974/2003, p. 539) Trata-se de poder dizer sobre o impossível de dizer, trata-se de bem dizer sobre o desejo.
Em análise o que se aprende é que há algo que não cessa de escapar, o que serve como mola propulsora para o desejo. Os encontros amorosos bem demonstram esse amuro23, na medida em que o amor não salva ninguém da solidão, ideia essa que sustenta essa tese. Ao amar, o que se escreve é a inexistência da relação sexual. No amor, o que (não) se escreve é a solidão. Isso porque os amantes não cessam de ter notícias de que cada um deles está sozinho em si. Por outro lado, podemos pensar que ao escrever, o que não se escreve, embora se transmita, é que há algo que não pode ser escrito. No texto Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein, Lacan afirma que a escritora francesa Marguerite Duras "revela saber sem mim aquilo que ensino" (1965/2003, p. 200), demonstrando a intimidade com o real que os artistas têm. Esse saber que Lacan atribui à Marguerite, podemos encontrar em várias escritoras. Wislawa Szymborska, renomada escritora polonesa, escreveu um poema intitulado As três palavras mais estranhas (2011) que bem demonstra um impossível que se transmite pela linguagem:
Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser.
Embora não se possa dizer tudo, é possível dizer que não se pode dizer tudo.
As palavras bordejam um impossível, trabalho que os poetas revelam com maestria.
No encontro amoroso há a transmissão de uma solidão, porque os amantes não
23 Como nos referimos na parte 3.2.
deixam de ter notícias de um desencontro, que não acaba com o ímpar que cada um é. Dito de outro modo, talvez possamos afirmar que há algo que se transmite, mas não se escreve: eis a solidão, a inexistência da relação sexual.
Um significante não significa a si mesmo, é preciso um outro significante para dar significação ao primeiro. Um significante nos remete a outro significante, nos ensina Lacan. Para Lacan (1971-72/2012, p. 48), "Um discurso é aquilo cujo sentido permanece velado. Na verdade, o que o constitui é obra da ausência de sentido.
Não há discurso que não tenha que receber seu sentido de outro". O que se transmite, substancialmente na linguagem, é um impossível, pois "tudo que se escreve reforça o muro" (p. 73). Assim, quanto mais se escreve, mais se escreve que há algo que não pode se escrever. O amor, na medida em que não elimina a diferença sexual, mas ao contrário, a presentifica, remete os amantes à solidão: de não serem plenamente entendidos, ouvidos, amparados, amados. A experiência amorosa leva o sujeito à constatação da falta, que dá notícias da solidão. Pode-se considerar, então, que o amor depende da solidão, uma vez que a solidão endereça os sujeitos aos encontros amorosos, ainda que desencontrados.