hoje, com os métodos de reprodução e fertilização em laboratório, fica cada vez mais evidente a radical diferença que há entre uma mulher e uma mãe, ainda que hajam muitas aproximações entre ambas. No entanto, ao invés dessa separação mãe-mulher promover apaziguamentos, ela acaba por produzir novas modalidades de mal-estar. No tempo de Freud era claro que o destino de uma mulher seria se tornar mãe, e pagava-se o preço disso. Nos dias de hoje, as mulheres precisam se haver com essa pergunta: quero ser mãe? O que abre brechas para uma série de auto exigências. O mercado vende a ideia de que é possível ser mãe, mulher, bonita e relaxada. Mas o cotidiano das mulheres lhes expõe a castração, escancara a impossibilidade de abarcar todas as possibilidades do mundo. Qualquer que seja a escolha que se fizer é sempre a consequência de uma perda. No entanto, quanto mais opções se tem, mais renúncias é preciso fazer. Os imperativos superegoicos do lado masculino parecem se localizar no campo do trabalho, enquanto que os imperativos superegoicos do lado feminino parecem se espalhar para todas as áreas da vida. Para pensar essas diferenças precisaremos fazer um percurso pela constituição da feminilidade de acordo com as investigações freudiana e lacaniana.
Por muitos anos o criador da psicanálise considerou a feminilidade paralelamente à masculinidade. Um importante ponto de virada da primeira para a segunda tópica freudiana foi o avanço que Freud faz na análise da relação entre mãe e filha.
Enquanto na primeira tópica freudiana há uma tentativa de equivalência entre a passagem pelo Complexo de Édipo feita pelo menino e pela menina, na segunda tópica a grande descoberta que Freud faz é o reconhecimento da fase pré-edípica como fundamental para a menina.
Antes de entrar no Complexo de Édipo a menina vive uma relação de amor com sua mãe, segundo Freud, tão ou mais intensa do que a que ela viverá posteriormente com seu pai – uma vez que a mãe é o primeiro objeto de amor tanto para os meninos quanto para as meninas, período que chamou de pré-edípico ou minoico- micênico, numa referência às civilizações de Minos e de Micenas, anteriores à civilização grega clássica, que nos brindará com a peça de Sófocles, Édipo-rei. O amor que uma menina vive com sua mãe poderia ser chamado de homossexual, se não fosse o fato de no início todo bebê, menino ou menina, ocupar um lugar fálico para sua mãe. No início não há diferença sexual, todos os seres são completos e fálicos, portanto, a menina "é um menino", no sentido de que ocupa uma posição fálica para a mãe.
A entrada no Complexo de Édipo da menina dar-se-á por uma profunda decepção que ela terá em relação à mãe, ao perceber-se castrada como ela, entrando no Complexo de Édipo por consequência a esse sentimento de hostilidade pela mãe, que desemboca num imenso amor ao pai, reconhecido por ela como portador do falo. Essa história pré-edípica, segundo Freud, ficará sob um forte efeito do recalque, podendo ser trabalhada apenas em análises mais profundas.
Em Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos, texto inaugural acerca da descoberta freudiana do tempo pré-edípico, Freud afirma, se referindo a essas análises mais profundas:
[...] uma análise da primeira infância como essa é lenta, trabalhosa e coloca exigências ao médico e ao paciente, cujo cumprimento nem sempre a prática satisfaz. Além disso, ela nos leva em regiões escuras, dentro das quais sempre nos faltam os indicadores de caminho. Penso mesmo que podemos garantir aos analistas que, nas próximas décadas, seu trabalho científico não correrá o risco de ser mecanizado e sem interesse (FREUD,1925/2020a, p. 259).
Vale dizer que, de fato, quase dez décadas depois, o trabalho dos psicanalistas continua muito profícuo! Nesse texto Freud demonstra um profundo entusiasmo em relação a essa descoberta valiosa, que coloca a constituição da feminilidade de forma radicalmente diferente da masculinidade. Enquanto para os meninos o Complexo de Édipo seria uma elaboração da ameaça de castração, para as meninas seria uma formação secundária, um refúgio à vivência pré-edípica.
Zalcberg se debruça em seu livro A relação mãe e filha (2003) nessa temática freudiana, estudando os motivos que tem uma menina para se afastar da mãe e mudar de objeto em direção ao pai. Mas o que diferencia a menina do menino, já que sabemos não ser literalmente o órgão anatômico? Voltamos, então, à pergunta tão fundamental para articularmos o amor ao feminino. O que Freud chama de homem e mulher? Não se trata de responder essa pergunta, mas é preciso fazê-la.
Para avançar, retomemos a observação freudiana que destaca a descoberta da ciência da existência de sinais de bissexualidade tanto nos homens quanto nas mulheres, visto que
[...] algumas partes do aparelho sexual masculino se acham igualmente no corpo da fêmea, ainda que em estado atrofiado, e o mesmo acontece no macho [...] como se o indivíduo não fosse homem ou mulher, mas sempre as duas coisas, apenas um tanto mais de uma que da outra (FREUD, 1933/2010, p. 265).
Freud entende, então, que a proporção em que masculino e feminino se misturam, varia a cada caso. Faz-se fundamental destacar esse trecho a fim de não cairmos na superficialidade de fazer equivaler o masculino à presença dos genes sexuais XY e o feminino ao XX, uma vez que, para o psicanalista vienense, não há anatomia que garanta uma posição sexuada do sujeito, ainda que a anatomia conduza a um destino. Já vimos que tanto Freud quanto Lacan nos ensinam que não há inscrição para a diferença sexual no inconsciente, o que nos leva a entender que o que faz com que a menina tão primariamente hostilize a mãe, é menos a sua anatomia e mais uma posição de identificação com a posição de faltante que a mãe ocupa para ela.
Ainda no texto Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos, Freud retoma a teoria da bissexualidade psíquica, escrevendo que
"em razão de sua constituição bissexual e da herança cruzada [...] a pura masculinidade e a pura feminilidade são construções teóricas de um conteúdo incerto" (1925/2020a, p. 271). Ele então atribui à feminilidade a qualidade de enigma, afirmando que o
entendimento sobre a fase pré-edípica da menina tem, como já apontamos antes, "o efeito de surpresa semelhante à descoberta, em outro campo, da civilização minoico- micênica por trás da grega" (1931/2020, p. 287). Contudo, se a feminilidade faz enigma à psicanálise, não é pelo que o Complexo de Édipo permite que se inscreva no psiquismo, mas por aquilo que não se inscreve. É nesse ponto que algo de opaco no feminino se revela – como nebuloso. Para além disso, vale destacar que Freud era um homem escutando mulheres e ele mesmo ressalta a importância de considerarmos esse ponto. Nas palavras dele, sobre essa obscuridade da primeira ligação da menina com sua mãe:
Mas talvez essa impressão tenha surgido do fato de que as mulheres em análise comigo podiam se aferrar à mesma ligação com o pai, à qual tinham se refugiado ao sair da fase anterior em questão. Parece, realmente, que analistas mulheres, como Jeanne Lampl-de Groot e Helene Deutsch, puderam perceber esses fatos de maneira mais fácil e clara, porque as pessoas em tratamento com elas tiveram o auxílio da transferência sobre um substituto adequado da mãe (1931/2020, p. 289).
Freud reconhece aí que o fato de que ele fosse um homem escutando, não passava ileso ao movimento transferencial. Para além disso, hoje podemos colocar em questão os limites que Freud poderia ter em sua escuta sobre a feminilidade. No texto de posfácio do livro Amor, sexualidade e feminilidade (2020), que reúne os principais textos de Freud sobre esses temas, Maria Rita Kehl escreve: "mesmo a obra freudiana, com toda a coragem investigativa de seu autor, sofreu aqui e ali das limitações morais e ideológicas da época em que foi escrita" (p. 366).
Se por um lado esses limites do pai da psicanálise se escancaram quando o lemos discorrendo sobre "a rigidez psíquica e imutabilidade" (1933/2020, p. 341) das mulheres de trinta anos, por outro lado é interessante destacar que quando Freud coloca a sexualidade feminina como enigmática, o desejo das mulheres enquanto turvos, ele parece estar menos se referindo às suas limitações enquanto um homem de seu tempo (ainda que estivesse a frente do seu tempo também) e mais a um para além do falo que localizava em sua investigação. Ele mesmo afirma: "Parte daquilo que nós, homens, chamamos 'o enigma da mulher' talvez resulte dessa expressão da bissexualidade na vida feminina" (p. 288). A bissexualidade na vida de uma mulher ficaria resolvida se houvesse duas libidos: enquanto uma se satisfizesse pelos caminhos da feminilidade, a outra libido se satisfaria pelos caminhos da
masculinidade. Contudo, a teoria freudiana é enfática ao apontar que só há uma libido, a masculina (fálica, portanto).
Podemos pensar que essa experiência de amor primeiro que uma menina vive com sua mãe e que depois a levará a se refugiar no pai, de certo modo se manterá tão viva na feminilidade, que faz certo enigma àqueles que recalcam essa expressão afetiva maior – a fim de se desemaranhar do Complexo de Édipo, os ditos homens.
Enquanto o menino entra no Complexo de Édipo por amor à mãe e sai dele sob o risco de perder o pênis, visto que a passagem pelo Complexo de Édipo lhe transmite o saber do risco que corre ao se identificar ao falo (pois o risco da identificação é a sua perda), a menina tem no Complexo de Édipo o seu porto seguro. Ela entra nele por amor ao pai (um amor que é consequência de um refúgio que ela encontra para o rompimento com a mãe) e não tem o motivo principal para sair, visto que, já estando castrada, não corre o risco de sê-lo. Ele, o menino, sai no momento lógico em que ela adentra a vivência edípica. Na constituição da masculinidade, portanto, há a identificação ao falo e suas medidas para não perdê-la. Na constituição da feminilidade, diferentemente, há, além da construção da feminilidade que o Complexo de Édipo oferece parcialmente, também os resíduos de sua vida pré-edípica, vivida pela menina como um tempo de masculinidade.