sua mãe, que a lança no Complexo de Édipo sem resolvê-la de todo, será a fonte de uma exigência superegoica irrepresentável e ilimitada. Não é difícil de entender por que tantas mulheres têm verdadeiro pavor de ficarem sozinhas com seu Supereu, e, na tentativa de incluir um terceiro, por vezes, mantêm-se em relações com parcerias devastadoras, inclusive com homens que encarnam o Supereu delas. É válido lembrar que quanto mais se atende às exigências superegoicas mais ditador o Supereu se torna. O que Lacan chamará de gozo feminino será justamente o gozo não-todo fálico, que não se deixou apreender pelo Complexo de Édipo e que por isso fica sem o freio do falo, excessivo.
Para a psicanalista Leda Guimarães (2014, p. 36)12
O grande desafio subjetivo para as mulheres, quando são tomadas pelo apaixonamento, consiste no fato de que a aceleração erotomaníaca, que é própria a esse gozo tende muito facilmente a adquirir um caráter imperativo do qual as mulheres já não têm controle, um imperativo que se impõe sobre muitas mulheres, fazendo com que se dirijam ao parceiro exigindo que ele diga incessantemente que as ama, que olhe para elas, que lhes telefone etc. Tal estado de aflição indica precisamente a presença do imperativo do supereu infiltrado nesse modo de gozo.
A tese sustentada por Lêda Guimarães no livro Gozos da mulher é de que o Supereu pode se infiltrar no gozo feminino, levando as mulheres a acordar a vertente erotomaníaca de seu modo de amar, que propicia vivências de devastação.
A autora destaca que o medo de perder o amor é tamanho, em certos relacionamentos, que se transformam na mulher que o homem deseja. "Assim, acabam se curvando às demandas, às exigências dele, e muitas vezes se entregam a esse servilismo de modo incondicional, entregando sua vida, suas posses, seu ser, seu corpo e sua existência à mortificação" (2014, p. 131) A devastação e a erotomania tocam no campo dessa falta de limites que concerne ao gozo feminino.
Meu corpo no seu Corpo eu, no meu corpo Deixa! Eu me deixo Anoiteça e amanheça (Marisa Monte, em Beija eu)
Encontramos em Lacan a observação de que "se a posição do sexo difere quanto ao objeto, é por toda a distância que separa a forma fetichista da forma erotomaníaca do amor. Devemos encontrar seu destaque na mais comum das vivências." (LACAN, 1960/1998, p. 742). O psicanalista francês situará o amor feminino ao lado da psicose, uma vez que o pareia com a erotomania, uma das formas do delírio psicótico. Já o amor masculino, ele aproxima da perversão, pois o fetichismo é um dos modos de gozo do perverso. Podemos entender essa divisão no campo do amor como efeito das diferenças no modo de experienciar o gozo. Enquanto o gozo fálico é recortado, localizado, podendo fetichizar a mulher, o gozo feminino fica fora dos limites fálicos, assemelhando-se, por vezes, à loucura psicótica.
Assim como vimos que o tempo pré-edípico se infiltra no Complexo de Édipo da menina e posteriormente se alastra por toda a sua vida, podemos pensar que a forma erotômana do amor pode ser resultado da sensação de não ter sido adequadamente amada pela mãe, interpretação neurótica para sua falta. Dito de outro modo, uma menina pode até tardiamente responsabilizar sua mãe por sua falta fálica, e na tentativa de resolver pelos caminhos do falo aquilo que escapou ao falo, pode se fixar em uma demanda infinita de ser amada pelo outro. Enquanto na erotomania psicótica o sujeito tem certeza de ser amado pelo outro, na forma erotômana de amar, o sujeito demanda, incessantemente, provas de amor desse outro.
Soler afirma que "esse é o ponto de homologia que faz do amor uma loucura, a partir do momento em que se "acredita nela", tal como o sujeito psicótico, que, além de crer em suas vozes, fia-se nelas" (2003, p. 184). O amor pode ser um grande perigo para uma mulher, que deposita todas as suas esperanças na fantasia amorosa.
Para Zalcberg (2008, p. 141), "se não há limite para as concessões que uma mulher está disposta a fazer pelo homem, trata-se de um sacrifício que não tem nada de incondicional. Seu sacrifício é a condição para que ela obtenha o amor que a identifica como mulher e que traz limite para o seu gozo". No entanto, essa tentativa de se identificar pelo amor é sempre não-toda, por isso impossível.
Já do lado masculino, o gozo tem valor identificatório. "Por isso os homens se vangloriam de seus desempenhos, sempre fálicos, e se reconhecem como sendo
mais homens quanto mais acumulam gozo fálico" (SOLER, 2003, p. 57). É curioso verificar que na nossa língua, ao falarmos de uma mulher fálica dizemos que ela é
"um mulherão", passando para o masculino. Para Soler (2003. p. 57), ainda:
Em todos os níveis, da política, da profissão ou do dinheiro, o homem se certifica de ser homem pela apropriação fálica. O mesmo não acontece com a mulher. O gozo fálico, o do poder, no amor ou em outros campos, certamente não lhe está proibido. Podemos até dizer que lhe é mais acessível. É patente que a chamada liberação das mulheres lhes dá um acesso cada vez maior a todas as formas desse gozo. Só que se sair tão bem quanto os homens, não faz uma mulher.
Pelo fato de o gozo feminino não oferecer identificação à mulher, o amor aparece como uma tentativa de suplência à inexistência do significante da feminilidade. Soler (2003) afirma que "na impossibilidade de ser A mulher, resta ser
"uma" mulher, a eleita de um homem" (p. 57). Nessa convicção de que resolverá os imbróglios de sua sexualidade não-toda munida de seu pé no campo fálico, muitas mulheres se arrasam no campo do amor, o que levou Lacan a afirmar que um homem pode ser uma devastação para uma mulher.
Ainda segundo Lacan (1960/1998, p. 739):
[...] convém indagar se a mediação fálica drena tudo o que pode se manifestar de pulsional na mulher, notadamente toda a corrente do instinto materno. Por que não dizer aqui que o fato de que tudo o que é analisável é sexual não implica que tudo o que é sexual seja acessível à análise?.
Vemos aí que a mediação fálica não tem acesso a toda a vida pulsional da mulher, o que, em termos freudianos, trabalhamos ao constatar que a passagem pelo Complexo de Édipo deixa um resto substancial na menina, efeito de sua relação de amor tão primordial com a mãe. Dissertando sobre a devastação, Lacan (1973/2003) afirma: "que constitui, na mulher, em sua maioria, a relação com a mãe, de quem, como mulher, ela realmente parece esperar mais substância que do pai"
(p. 465). Podemos concluir, então, que na vertente erotomaníaca o sujeito mulher espera resolver pelo amor aquilo que excedeu à drenagem fálica, o que pode levar ao pior.
No entanto, ter um pé no falo é condição para poder bailar com o Outro no além do falo, pois se não é assim, estamos no campo da psicose. Dizer que o amor é feminino tem relação com o lado direito da fórmula da sexuação, tem relação com aquilo que não se resolve pelas avenidas do Complexo de Édipo, muito mais do que
tem relação com as mulheres. É em decorrência dessa dissimetria nas modalidades de gozo, que não se complementam, que Lacan afirma que "a relação sexual não existe".