que acaba por torná-lo menos interessante para todos, inclusive para si mesmo.
Ferreira (2000, p. 189), no livro Humana, demasiado humana, aponta um escrito de Lou Andreas-Salomé:
[...] só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro.
A psicanálise, longe de trabalhar para que se feche o inconsciente, para que o sujeito se fixe na fantasia de completude pela via do amor, trabalhará em prol da abertura do inconsciente, de que entre um e outro não haja um fechamento, mas um resto. "O resto é sempre, no destino humano, fecundo" (LACAN, 1964/1985, p. 129).
O amor, então, exclusivamente enquanto restabelecimento narcísico, mantém-se no campo do narcisismo e nesse sentido, é o avesso do amor. Badiou sustenta que
"no amor é que o sujeito vai além dele mesmo, além do narcisismo. No sexo, ele está, no fim das contas, em relação consigo mesmo, com a mediação do outro"
(2009/2013, p. 18). O amor precisará de algo a mais para sair do narcisismo.
Para Lacan (1953-54/2009, p. 360):
O amor, não mais como paixão, mas como dom ativo, visa sempre, para além da cativação imaginária, o ser do sujeito amado, a sua particularidade.
É por isso que pode aceitar dele até muito longe as fraquezas e os rodeios, pode mesmo admitir os erros, mas há um ponto em que para, um ponto que só se situa a partir do ser – quando o ser amado vai muito longe na traição de si mesmo.
O amante tende a trair a si, a trair o seu desejo, por medo de perder o amor do outro. Esse medo da perda de amor não se dá apenas nas relações eróticas, mas muito antes, especialmente na constituição do seu psiquismo pela via do Supereu. Por isso vamos dar um passo a frente nesse tema.
Diferentemente de outros teóricos que defendem que há uma bondade inata ao ser humano, a tese de Freud é de que na vida humana a agressividade é substancial desde o início. Em O mal-estar na cultura, Freud escreve que "a inclinação à agressão é uma predisposição pulsional originária e autônoma do ser humano e retorno à ideia de que a cultura encontra nela o seu obstáculo mais poderoso"
(1930/2020, p. 375).
Lemos aí um destaque de Freud à importância de considerar essa predisposição à agressividade. Assim, Freud segue em seu texto afirmando que para entrar na cultura precisamos inibir essa tendência à agressão, mas como consequência, ela acaba retornando para o próprio Eu, através do Supereu. Se por um lado é o medo da perda do amor do outro que nos leva a inibir nossa agressividade, por outro lado, nesse caso, a pulsão de agressão passa a se dirigir também para si mesmo, para além do outro. Ao invés da agressividade ser satisfeita no mundo externo, ela se satisfaz dirigindo-se a si, através de uma cisão do Eu em duas partes: Eu e Supereu.
Isso acontece em dois momentos.
No primeiro momento a autoridade está no outro, de cujo amor dependemos.
Por nascermos em absoluta condição de desamparo, o amor do outro é indispensável a cada um de nós que chega ao mundo. Assim, ser amado, inicialmente, é uma questão de sobrevivência.
Se ele perde o amor do outro, de quem é dependente, então ele também perde a proteção contra diversas espécies de perigo, expondo-se sobretudo ao perigo desse outro superpotente lhe provar sua superioridade na forma de punição. O mal é, portanto, inicialmente, aquilo através do qual somos ameaçados com a perda do amor; por medo dessa perda, temos, necessariamente, de evitá-lo (FREUD, 1930/2020, p. 378).
Dessa citação podemos destacar dois pontos: 1) O desamor do outro recai sobre nós, então, como uma ameaça à existência; 2) O que consideramos "bom" ou
"mau" tem relação com o que supomos do que esse outro espera de nós.
Nesse primeiro tempo, no qual o desamor do outro chega como ameaça à existência, a criança só se sentirá mal se for descoberta fazendo aquilo que os pais a proíbem. Enquanto ela não é pega, se satisfaz em seu ato – seu único medo é o de ser descoberta. É em um segundo momento que essa autoridade externa será introjetada em seu Eu, como Supereu, e então, a criança já não tem mais como fugir ou se esconder dessa autoridade, que passa a viver nela mesma. Isso levará uma pessoa a sentir-se mal, com frequência, por ter pensado ou desejado algo, mesmo sem fazer esse algo. Não faz diferença ao Supereu se o ato foi ou não cometido,
uma vez que ele é onipotente, onipresente, onisciente, tal como a ideia de Deus.
Mais do que isso, o Supereu quererá que o Eu seja punido por seus supostos pecados. Se o desejo é o que escapa à demanda, pode-se pensar que o movimento do desejo pode ser lido pelo sujeito como "errado", já que escapa à demanda do outro, facilitando os desvios que os neuróticos frequentemente fazem para não saber do desejo, sendo maciçamente cobrados pelo Supereu, entretanto.
O Supereu é a parte do Eu que se torna excessivamente exigente. O Eu, dócil, crê que atendendo às exigências do Supereu irá amansá-lo, mas acaba por jogar gasolina na fogueira. Quanto mais o Eu atende às exigências do Supereu, mais ferozes elas se tornam. Isso porque "a renúncia pulsional (que nos é imposta de fora) cria a consciência moral, que então exige mais uma renúncia pulsional"
(FREUD, 1930/2020, p. 384). Dito de outro modo, quanto mais aceitamos renunciar a uma satisfação pulsional no mundo externo, mais a inibimos para o próprio Eu através do Supereu. Podemos dizer que não há renúncia pulsional verdadeira, há deslocamento da satisfação pulsional do mundo externo para o Eu. A agressividade pulsional se satisfaz, de todo o modo: no objeto ou no Eu.
No entanto, no último capítulo desse texto, Freud faz sobressair a ideia de que o sentimento de culpa com frequência é inconsciente, levando os indivíduos a raramente poderem reconhecê-lo. Isso não quer dizer que o sentimento de culpa não tenha consequências, pelo contrário, ele aparece com certa estranheza ao indivíduo, vindo à luz "como um mal-estar, como uma insatisfação para a qual procuramos outras motivações" (FREUD, 1930/2020, p. 392).
Freud afirma em seu texto que o sentimento de culpa inconsciente é o problema mais importante do desenvolvimento da cultura, e sublinha que as religiões costumam justamente prometer libertar seus pecadores dessa culpa que lhes fica estranhamente familiar. O sofrimento neurótico encontra sua satisfação inconsciente nesse ponto. Para o psicanalista vienense "talvez toda neurose oculte um montante de sentimento de culpa inconsciente que, por sua vez, consolida os sintomas, e seus componentes agressivos, em sentimento de culpa" (1930/2020, p. 396). A constituição do psiquismo, então, se dá pautada de modo contínuo entre essa tensão de satisfazer o princípio de prazer e encontrar a felicidade, versus renunciar às satisfações pulsionais para manter-se ligado ao outro e com isso perder uma quota de amor-próprio.
Ainda no texto O Mal-estar na cultura, Freud considera não apenas a constituição psíquica de cada indivíduo, mas também o próprio andamento da cultura,
que fica submetida a essa tensão contínua. "Assim como o planeta ainda orbita em torno de seu corpo central enquanto executa uma rotação sobre seu próprio eixo, assim também o ser humano individual participa no desenvolvimento da humanidade, enquanto segue seu próprio caminho na vida" (1930/2020, p. 399). Há uma constante luta entre o egoísmo e o altruísmo, entre a libido do Eu e a libido narcísica, entre Eros e Tânatos, entre pulsão de vida e pulsão de morte. Se cada ser falante lida com essa tensão individualmente, a cultura também a vive.
Na primeira tópica formulada por Freud, o Supereu era visto como um organizador da psique, herdeiro da passagem pelo Complexo de Édipo. Já no texto O mal-estar na cultura temos clareza de que a pulsão de morte se entranha no Eu pela via do Supereu, podendo levar o sujeito ao ilimitado de suas autoexigências.
Todavia, que o Supereu tenha essa versão mortífera isso não é tudo sobre ele, não se trata aqui de demonizarmos essa instância tão necessária ao psiquismo e à cultura, como é o Supereu. No início do texto que trabalhamos, ele afirma que "não saberia indicar uma necessidade tão intensa proveniente da infância quanto a de proteção paterna" (FREUD, 1930/2020, p. 316), destacando a importância que tem o fato de podermos internalizar essa proteção, determinante para a constituição do Supereu.
Uma questão brilha aqui: por que será que Freud dá tanta ênfase à proteção paterna e não à materna? Se o pai vem, logicamente, depois da mãe, talvez ele esteja se referindo aí a uma proteção já drenada de seus excessos pulsionais. Há, portanto, uma diferença que nos interessa: o Supereu como organizador para o sujeito e o Supereu impulsionado pela pulsão de morte, que pode levar a essas exigências sádicas e infinitas. Isso porque do amor...se diz que ele é infinito. Na Bíblia, em Coríntios (13:4-7) encontramos que o amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."
Esse "tudo", esse sem limite, flerta com a duplicação da falta, que é a falta da falta, à qual Lacan nos apontou como sendo a marca da angústia. Nas palavras dele:
Vocês não sabem que não é a nostalgia do seio materno que gera a angústia, mas a iminência dele? O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo. Não é, ao contrário do que se diz, o ritmo nem a alternância da presença-ausência da mãe. A prova disso é que a criança se compraz em renovar esse jogo de presença-ausência. A possibilidade da ausência, eis a segurança da presença. O que há de mais angustiante para a criança é, justamente, quando a relação com base na qual essa possibilidade se institui, pela falta que a transforma em desejo, é perturbada, e ela fica perturbada ao máximo quando não há possibilidade de falta [...] ([1962/63]/2005, p. 64).
Diante de uma mãe que não falta, a criança se angustia, pois fica à mercê de ser absorvida pelo Outro. Será preciso uma interdição, que será a interdição do incesto, para que uma lei se inscreva e separe a voracidade da mãe da criança, que sai munida de uma falta para viver outras relações. Para Freud: "Parece, isto sim, que a avidez da criança por seu primeiro alimento é insaciável, que ela nunca se refaz da perda do seio materno" (FREUD, 1930-36/2010a, p. 276). No entanto, com Lacan verificamos que ainda que essa demanda de amor tão ambiciosa seja feita da criança à mãe, será preciso que a mãe possa comparecer com sua falta para que o desejo possa aparecer.
Em Os divinos detalhes, encontramos em Miller (2011, p. 170-171):
Agora bem, em que sentido a demanda ao Outro, quando é demanda de amor, se diferencia da demanda de algo? Por um traço do que podemos dizer, se seguimos com Lacan, que é definitivo quanto ao amor, a saber, que a demanda de amor é demanda de nada. Se diferencia da demanda de algo por ser uma demanda – dirigida ao Outro – de nada [...] Se destaca então o amor como a demanda paradoxal do dom de nada.
Essa formulação nos ajuda a entender a afirmação lacaniana ([1960/61]/1992, p. 41), de que "amar é dar o que não se tem", pois a demanda de amor se dirige a um Outro, que está castrado. O que será que é ilimitado, então, tudo crê, tudo suporta: o amor ou o Supereu?
Para Allouch (2010, p. 87):
[...] quando um dos pais se imagina obrigado a amar incondicionalmente sua prole, regularmente acontece de, em reação, essa prole se comportar de maneira sempre mais tirânica. É que convém pôr um termo não no amor, mas em sua incondicionalidade. Ser amado incondicionalmente é sê-lo bem mal.
É preciso colocar um limite, então, na incondicionalidade do amor. O desejo aparecerá aí como efeito de uma moderação no gozo. Lacan colocará seu aforisma justamente no Seminário sobre a angústia: "somente o amor pode fazer o gozo condescender ao desejo" (LACAN, [1962/63]/2005, p. 197).