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Análise de conteúdo das entrevistas com os alunos gestores

No documento universidade do vale do itajaí - Univali (páginas 163-170)

4.2 Análise dos dados da pesquisa: etapa qualitativa

4.2.2 Análise de conteúdo das entrevistas com os alunos gestores

Tabela 31 – Perfil dos superiores entrevistados.

Superior

entrevistado Gênero Idade Tempo no

cargo Formação

S1 Feminino 36 4 anos Especialização

S2 Masculino 37 10 anos Especialização

S3 Masculino 42 8 anos Graduação

S4 Feminino 53 20 anos Especialização

S5 Feminino 25 4 anos Especialização

Fonte: Dados da pesquisa.

Os superiores possuem formação bem diversificada e alguns têm mais do que uma especialização, somente um possui apenas graduação. As empresas em que trabalham pertencem ao ramo bancário, construção civil e têxtil, são empresas de médio e grande porte, que possuem destaque no contexto onde atuam.

A1 - Usar do seu conhecimento para atingir os objetivos, alcançar metas, de realizar coisas que precisam ser feitas para o desenvolvimento do dia a dia do profissional.

A2 - é fazer determinada tarefa de forma satisfatória, que é o saber fazer, como fazer e como agir.

A3 - além das experiências que você está adquirindo dentro da empresa, [...] você tem que tomar decisões assertivas, várias coisas que acabam abrangendo a necessidade do teu cargo

A4 - o entendimento de competência, eu acho que ele abrange, além do que a gente conhece, mas também da forma como a gente aplica isso, é exatamente a essência do que eu preciso pra fazer bem um serviço, fazer uma atividade que me traga resultados

As declarações indicam que, em determinado momento, o indivíduo mobilizará recursos para a obtenção de um resultado. Isto é alinhado ao dizer de Fernandes (2004, p. 41), o qual chama atenção para dois aspectos intrínsecos à competência: “algo que o indivíduo necessita ter para um desempenho competente – ‘suficiente conhecimento, julgamento, habilidade ou força’ – e a efetiva aplicação destas capacidades para ‘resolver qualquer assunto’”.

Competências foi relacionada ao comportamento, a ideia de que o profissional necessita desempenhar suas atividades em conjunto com os colegas, e assim precisa manter boas relações, respeitar os outros, ter postura, estar receptivo, mas também manifestar suas ideias. Estas características foram destacadas como ética e de valores, autodesenvolvimento, relacionamento interpessoal por Bitencourt e Klein (2007), como competência social por Godoy e Forte (2007) e Godoy e Antonello (2009) e, como habilidade relacional por Lombardi et al. (2011).

Conexo a isto, houve comentários dos alunos gestores sobre a exigência em saber se comunicar, indicando ser fundamental para se integrar na equipe de trabalho, apresentar ideias, implementar soluções e se desenvolver. Estas características apoiam o autodesenvolvimento, o aprimoramento profissional e do trabalho, sinalizam afinidades para o futuro delineamento de metacompetência comportamental e de adaptação.

A2 - eu diria que as principais competências são essas: de relacionamento interpessoal, identificar necessidades, lidar com pessoas e a visão sistêmica, visão de um todo

A3 - são comunicação, desenvolvimento, ajudar as pessoas se autodesenvolver, ajudar as pessoas a conseguir atingir os objetivos propostos pela organização

A5 - autodesenvolvimento [...] o funcionário tem que chegar e saber que tem a função, mas que ele pode ir além daquilo, que ele pode.

A noção de competências retratadas pelos alunos são ligadas a racionalidade exigida pela profissão, o que envolve saber o que é necessário saber, quando aplicar e o empenho em buscar atender as demandas identificadas. É relacionado ao desenvolvimento, pensar de forma racional, de ter iniciativa, em se empenhar de maneira autônoma. O elemento que permeia o desenvolvimento de competências é a capacidade de aprender e a inclinação do indivíduo em aplicar seus conhecimentos em determinada situação (FLEURY; FLEURY, 2001b; YEO, 2003;

CAMPOS et al., 2009).

A5 - pró-atividade é uma delas e eu digo que realmente uma das coisas que me deixa mais feliz é isso, que eu sou uma pessoa que vou atrás e estou sempre buscando coisas novas e as minhas competências são boas, mas assim, uma das coisas que eu mais prezo pra ser um administrador competente, seria cada vez mais estar me informando, cada vez mais me graduando, cada vez mais dentro do mercado, buscando realmente ser cada vez melhor, com mais conhecimento, mais coisas diferentes.

Para desenvolver as competências necessárias os alunos manifestaram a importância da adaptação, de ter um comportamento adequado, se integrar.

Referem-se à capacidade de adotar medidas adequadas, comportamentos observáveis em situações de trabalho (CHEETHAM; CHIVERS, 1996). O Administrador é visto como alguém que deve saber conduzir pessoas, que tenha facilidade de manter comunicação com o grupo, uma pessoa atualizada, que tenha flexibilidade e se adapte para resolver problemas. São características condizentes as competências sociais de uma organização, em que Zarifian (2001) vincula o saber ser, sendo constituído por atitudes que sustentam os comportamentos das pessoas.

A1 - a gente trabalha com pessoas e precisa muito do comportamento humano, então, sempre se buscam coisas do dia a dia […] Até nas dificuldades dos trabalhos em grupo a gente acaba aprendendo a como lidar com pessoas e com os conflitos de equipe.

A2 - Basicamente essa competência de lidar com pessoas, dia-a-dia de pessoas... comportamental.

As principais competências ou as mais importantes no julgamento dos alunos se revelam como metacompetências, em que se destaca a multifuncionalidade e transdisciplinaridade para se atingir objetivos distintos e em situações

desconhecidas (SCHAEPER, 2009). Os alunos entendem que o gestor precisa resolver problemas e isto, além de conter o novo e o complexo, envolve a “visão sistêmica, visão do todo” (A2). É necessário ter considerações do sistema organizacional a fim de idealizar soluções de forma estratégica, “reconhecer e definir problemas, equacionar soluções, pensar estrategicamente” (BRASIL, 2005).

A1 - ter uma visão ampla da administração em si, de uma empresa e de tudo o que envolve, a gestão de pessoas, as estratégias, para que eu possa ter uma visão certa… para melhorar, agregar… e me sair melhor como profissional.

A2 - eu diria que as principais competências são essas: de relacionamento interpessoal, identificar necessidades, lidar com pessoas e a visão sistêmica, visão de um todo

A4 - Resolver problemas, tomar decisões assertivas, então são vários pontos.

Permeando todo este contexto comportamental, de adaptação e solução de problemas, em que foi destacado a comunicação, saber se relacionar, fazer bem feito e atingir resultados considerando aspectos estratégicos, é possível identificar a integração entre as competências organizacionais e individuais. Os gestores em suas ações empregam suas competências que demonstram, de maneira agregada, as competências organizacionais. Pois as tarefas a serem executadas nas organizações, segundo Nordhaug (1998), não se limitam a expressar os recursos humanos necessários ou a quantidades de funcionários a serem contratados, pois dando cabo das tarefas não são empregados em si, mas funcionários que detêm certas competências que lhe permitirão a execução delas e que facilitam o desenvolvimento de trabalho satisfatório. Um elemento que contextualiza esta situação é a colocação de uma aluna gestora ao expressar que a conduta do indivíduo, suas atitudes, a forma como resolve as situações na organização demonstram sua inclinação ética, que lhe são próprias. Ao mesmo tempo, representa o posicionamento da organização.

A4 - Eu considero a ética primordial, sempre considerei em toda a minha vida, não só desde o cargo de gestora, mas acho que desde que eu me conheço por gente, eu acho que ética é primordial pra qualquer pessoa.

A competência ética ou valores é tratada por Cheetham e Chivers (1996) e diz respeito em possuir apropriados valores pessoais e profissionais e a habilidade para fazer julgamentos baseados em situações relacionadas com o trabalho. “Refere-se à

aplicação eficaz e apropriada de valores em ambientes profissionais” (CHEETHAM;

CHIVERS, 1996, p. 25).

A proximidade entre os valores pessoais e profissionais, refletidos nas competências individuais e organizacionais é destacada por Fleury e Fleury (2001a), os quais apontam a relação direta entre o desenvolvimento das competências organizacionais e o desenvolvimento das competências individuais e destacam a importância das condições dadas pelo contexto.

A importância da competência comportamental, e sua classificação como metacompetência também pode ser amparada por Barth et al. (2007), quando os autores alegam a necessidade de reorientação dos processos de aprendizagem para que viabilizem o desenvolvimento da personalidade, permitindo ao indivíduo assumir responsabilidades, tomar decisões pautadas em padrões éticos e considerando o valor das consequências.

A aprendizagem das competências e das metacompetências foram descritas com forte indicação da necessidade da prática, de integrar a realidade da vida profissional. Os alunos gestores entendem que para a boa formação do profissional Administrador é necessário experimentar realizações da vida real, sentir como é resolver problemas próprios do dia-dia das organizações. Destacaram atividades em que era solicitado organizar empresas, montar um negócio e realizar as atividades que haviam planejado, isto envolvendo todas as disciplinas.

A1 - a gente trabalha com pessoas e precisa muito do comportamento humano, então, sempre se buscam coisas do dia a dia…

A1 - Só a teoria não adianta; tem que haver a prática para presenciá-la.

Quanto mais próximo da realidade melhor.

A2 - “isso eu posso aplicar lá”, porque foram coisas mais práticas, por exemplo, no sétimo semestre a gente teve que fazer um plano de negócios, abrir uma empresa, então envolveu todos os conhecimentos que a gente adquiriu até o sétimo semestre.

A4 - eu gostei muito da questão dos interdisciplinares, que te remetiam muito à prática e igualmente na empresa.

Nas declarações dos alunos gestores se insere a perspectiva de Schaeper (2009) para a aprendizagem de metacompetências, o qual indica processos de aprendizagem implícitos, caracterizados por configurações didáticas de ação integradora, como aprendizagem baseada em problemas, aprendizagem baseada

em projetos, casos para ensino ou que tenham o aluno como centro e de maneira ativa, pressupondo um aprendiz autônomo, utilizando problemas autênticos e que promovam a organização da aprendizagem com interação social, permitindo contato com várias perspectivas sobre o assunto. Ao vivenciarem experiências de gestão por meio da aprendizagem ativa, os alunos consideraram válido para absorver o conhecimento.

A2 - São poucas matérias durante o curso que são assim [...] as vezes é muito maçante, muita teoria, muita teoria, prova, trabalho e acabou ali, as vezes não tem o envolvimento do aluno. Então acho que tem que partir do aluno buscar alguma coisa daquela matéria, talvez fora, talvez trocando uma ideia com o professor em outra ocasião, ou buscando algum material e trazer pra sala, porque simplesmente só estando ali na sala de aula ouvindo aquilo não vai ser suficiente pra absorver o conhecimento.

A4 - A gente fez isso muito na prática, como foi o caso do interdisciplinar do restaurante. Eu nunca montei restaurante na minha vida, eu não sabia nem por onde começar. A gente começou fazer esse trabalho com vários professores no interdisciplinar e fizemos, colocamos, montamos uma cantina italiana e foi uma loucura, mas a gente passou por uma experiência muito bacana, muito válida.

Nestas situações se reconhece a conexão entre aprendizagem ativa e a aprendizagem gerencial, pois os alunos são responsáveis pela sua própria aprendizagem e chamados a participar, sendo estimulados a fazer as coisas e pensar sobre o que estão fazendo (CUI, 2013). Como forma de estimular o aluno ao senso de responsabilidade, interação, autodesenvolvimento e link com o ambiente profissional, a aprendizagem ativa apresenta-se com formato distinto, explorando competências em âmbito individual, social e organizacional.

A1 - Nos últimos semestres, onde a gente vê praticamente de tudo, com uma visão geral, de gestão, mais ampla eu acho que o final é o que mais me proporcionou um conhecimento de que realmente eu aprendi muita coisa. Naquele momento eu vi como sabia bastante coisa. Como é diferente do começo. Ali eu vi que dava para ter uma visão diferente da empresa. 6º, 7º e 8º semestres. Quando começamos a praticar certas experiências, em equipes, com exercício de liderança…

A2 - tivemos bastante teoria, mas também bastante visita à empresas, onde o professor fazia links “olha, isso aqui é tal coisa” sabe, a visualização da teoria “isso aqui é merchandising, isso aqui é promoção”, então diversificava as formas de passar para o aluno e curiosamente a gente sempre vem trocando ideias entre os alunos e são coisas que a gente lembra, então é possível aliar a teoria com a prática nesse caso.

A3 - tem professor que tem vivência de empresa, de organizações, então ele consegue, de uma forma mais fácil, entender o que o aluno está falando e fazer um link para o aluno. Quando o professor é muito teórico fica um pouco difícil, tem uma dificuldade maior, porque você fala, mas ele às vezes não entende o que você está querendo dizer, aí fica um pouco mais difícil

De acordo com as citações dos alunos gestores o uso da aprendizagem ativa demonstra ser adequado para suprir a integração da teoria com a prática. Estes procedimentos se tornam mais evidentes nos semestres finais, momento em que os alunos possuem maior entendimento das organizações e das funções do Administrador. Nas falas dos alunos é possível perceber a responsabilidade do professor por conduzir as atividades e contextualizar com suas experiências profissionais as práticas que estão sendo realizadas no ensino formal.

Diante destas colocações, é oportuno para o professor de Administração que utiliza a aprendizagem ativa em suas aulas considerar as indicações de Auster e Wylie (2006) para aplicar com sucesso a aprendizagem ativa: definição de contexto, preparação de classe, entrega de classe e melhoria contínua (buscar e usar o feedback sobre a abordagem).

O feedback é citado por Gilis et al. (2008) como critério para desenvolver o ensino centrado no estudante, o que é indicado pela aprendizagem ativa, e ainda envolve objetivos e atividades de aprendizagem, como compor tarefas, problemas e exercícios apropriados e considerando o contexto profissional real dos alunos. Esta relação é verificada na aprendizagem do aluno gestor em seu trabalho, o que nos mostra a proximidade do desenvolvimento de metacompetências, via aprendizagem ativa, com a aprendizagem gerencial.

A1 - A gente tem feedback frequentemente, acompanhando a evolução.

Mas dá para perceber, pois se a gente para para pensar, a diferença de quando eu entrei para agora teve uma grande evolução. Até, se comparar com as pessoas novas que entram, você percebe que tem uma bagagem e uma desenvoltura melhor

A2 - constante conversa também com a minha superior para dar um feedback a ela sobre a equipe e também receber um [...] da visão dela também sobre mim

A3 - se eu não estiver vivenciando lá (empresa) não adianta aprender aqui, e se eu não uso lá [...] se você ver lá e depois executar aqui, você não esquece.

A5 - Eu tive uma pessoa que me ensinou muito bem, que foi meu antigo coordenador. Ele ficou ao meu lado e me dizia “você vai fazer assim, assim e assim”. [...] Porque eu acho que o melhor jeito da gente aprender é a gente fazer, então não tem mistério, eu vou pegar um papel e uma caneta e eu vou escrever, mas se eu fizer pra ti, como você vai fazer da próxima vez?

Então tem que praticar mesmo.

A evolução referida pela aluna A1 “você percebe que tem uma bagagem e uma desenvoltura melhor”, ao se comparar com os novos colegas; e o ambiente de ensino dito pela aluna A5 “eu tive uma pessoa que me ensinou muito bem, que foi meu antigo coordenador”, expressam que a aprendizagem gerencial é um processo que ocorre ao longo da trajetória profissional, que deriva e depende de um contexto social particular (MORAES; SILVA; CUNHA, 2004, p. 17).

No documento universidade do vale do itajaí - Univali (páginas 163-170)