dessa metáfora. O professor dessa disciplina, que está alegremente cumprindo sua função, atua trazendo entretenimento e divertimento para os alunos (que podem aqui ser entendidos como os visitantes do parque de diversão), ou seja, ele atua como um tipo de recreador. Os visitantes do parque/alunos, consequentemente, são referidos como participantes ativos, motivados e alegres.
Nota-se que não há em nenhuma dessas ocorrências uma concepção de aula como algo difícil e penoso, do contrário, valoriza-se a leveza e o prazer de aprender e de se divertir.
A seguir será apresentado um caso de metáfora deliberada cujo sentido contrasta profundamente com a metáfora apresentada nesta sessão. Trataremos da metáfora que caracteriza a aula de inglês e o professor de inglês. Para esse caso específico, não surgiu uma verbalização metafórica de forma tão explícita nas entrevistas, entretanto, foi possível formular uma metáfora baseando-nos nas marcações das entrevistas onde havia referência a “professor de inglês” e também por meio da observação do contraste entre AULA DE EDUCAÇÃO FÍSICA e AULA DE INGLÊS.
Ao buscar no dicionário o sentido de purgatório, um conceito pertencente à liturgia cristã, encontramos ao menos três definições: 1.“lugar ou estado em que as almas daqueles que morreram com pecados leves ficam para pôr termo à sua purificação antes de chegar ao paraíso”; 2. “lugar onde há muito sofrimento” e 3. “pena para expiação de qualquer delito cometido.” (PURGATÓRIO, 2022, grifo nosso). Analisando essas três definições, notamos que algo em comum entre elas é o reforço da noção de sofrimento que aqui é entendido como uma forma de “purificação”. Juntando as três definições obtemos como resultado a ideia de que o sofrimento é uma “expiação” necessária devido aos “pecados” ou “delitos” cometidos em vida dos quais o pecador deve se redimir após a sua morte.
É interessante observar como a simbologia cristã tem uma relação bastante próxima com o sofrimento de forma que a construção de suas doutrinas se fundamentam na história da perseguição, prisão, humilhação e morte de Cristo, o mártir das religiões cristãs (SILVA, 2014).
Não é à toa que a cruz, instrumento de tortura e local onde Cristo perdeu sua vida tenha se tornado o principal símbolo dessas crenças, sendo capaz de ativar toda sua história, doutrina, além de sentimentos, dogmas, noções de moralidade e comportamento, notando-se, assim, a natureza metonímica desse símbolo que remete a toda essa construção cultural de origem judaico- cristã.
A associação entre um conceito relativo à prática religiosa e à prática do educador pode não ser acidental, uma vez que, como vimos no capítulo 1, na seção 1.1, a educação formal na América Latina é instituída por meio de ações missionárias, em especial pela ação de padres da Ordem Jesuíta. Devido a isso, é concebível pensar uma noção de PROFESSOR que resgata em partes o modelo missionário que pertence não diretamente ao MCI PROFESSOR, mas integra o MCI relacionado a igreja católica. Entretanto, nota-se uma prevalência de atributos negativos sendo transferidos do conceito de MISSIONÁRIO para o conceito de PROFESSOR DE INGLÊS, já que é enfatizada a dificuldade, ligada ao sofrimento da árdua tarefa do professor, algo que pode ser identificado na seguinte fala: “: me sinto realizada apesar de eu brincar muito, dizer que eu sou sofressora que eu ( ) é, atualmente, eu sofro, mas eu gosto do que eu faço” (E5/p. 28/linhas: 18- 19). Curiosamente essas ativações com avaliação negativa não estão presentes na construção de
PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA, que parece, na verdade, ser percebido como um conceito em oposição, ainda que tanto o professor de inglês quanto o professor de educação física sejam categorizados como professores especialistas e provavelmente, por esse motivo, não sejam
compreendidos como os profissionais mais próximos do estereótipo no contexto do Ensino Fundamental 1.
Dito isso, a seguir, serão listados os excertos contendo as ocorrências destacadas para a discussão que se seguirá com relação a metáfora não deliberada aula de inglês é purgatório.
Observando como é conceptualizada a aula de inglês, será possível, posteriormente, pensar como se constitui o PROFESSOR DE INGLÊS dentro dessa forma específica de compreender a sua atuação na escola.
(40) É muito difícil. É muito difícil porque:: além de ser uma outra língua em que as crianças não têm domínio (.) >é< o professor de inglês ele entra numa escola pra ensinar língua sendo que as crianças não: tem ainda domínio nem sobre a língua pátria delas né? Então como alfabetizar as crianças ( ) como ensinar inglês pra crianças que ainda não estão alfabetizadas. (E1/p. 5/linhas: 141-144)
(41) Eu acredito que assim: você tenha muita dificuldade mesmo com as coisas mais simples não digo é: uma criança conhecer uma palavra é: são as cores os números as letras (a complementar) mas::: entender o contexto das coisas. Seja um diálogo o::u porque que isso é assim (.) porque – hum não sei se você tá conseguindo entender (.) (E1/p. 5/linhas: 145-148)
(42) mas é assim EU (.) não conseguiria me enxergar como professor de inglês numa escola de ensino fundamental onde as crianças não são alfabetizadas. Então eu acredito que (.) ser professor de inglês no ensino fundamental (.) seja: uma tarefa extremamente árdua e complicada. Não acre-, eu não enxergo NENHUM tipo de facilidade. (E1/p. 5-6/linhas: 148-152)
(43) padecer hh porque as crianças não entendem porcaria nenhuma hh você fala assim, eles ficam olhando pra sua cara hh ah, não. você tá num ano que nunca viu inglês na vida, né. o bichinho mal sabe falar o português hh eles ficam assim olhando pra tua cara. e diz, que que é isso que ela tá falando hh aí até eles começarem a aprender, você padece não hh. (E5/p. 32/linhas: 140-143)
(44) entendeu. porque eu quero ver tudo rápido. aí por isso que eu disse padecer. porque demora pra você ter um resultado hh (E5/p. 33/linhas: 156-157)
(45) é desafiador. porque tem aluno que fala, pra que que eu vou aprender isso. eu cansei de ouvir. eu cansei de ouvir. pra mim, eu não vou usar. eu falo, vai usar sim, você não assiste filme, você não ouve músicas internacionais (.) então você vai usar sim (.) (E8/p. 39/linhas: 187-189)
(46) eu acho difícil. muito difícil. porque assim difícil lidar com o português muito difícil lidar com o inglês (.) é assim eu acho que eles não têm muita vontade (.) de querer assim. eu gostava bastante né eu tirava falando de mim agora eu tirava notas boas e a professora até deixava eu usar o dicionário mas (.) eu sempre tive muita facilidade. mas eu gostava (.) (porque) quando você gosta é uma coisa. aqui eu não sei se eles gostam mas (.) eu acho muito difícil sua função sua profissão eu acho. (E2/p. 8/linhas: 77-82)
A tônica que prevalece nas falas destacadas acima aponta para a dificuldade de ensinar a disciplina (língua inglesa) no contexto em questão (escola municipal de Fundamental 1). À primeira vista, se nota a repetição de um determinado tipo de léxico que reforça o sentido de dificuldade (“difícil”, “dificuldade”, “desafiador”, “NENHUM tipo de facilidade”) cuja a intenção é explicitar a complexidade da tarefa a cargo desse professor. Uma leitura de todas as
ocorrências revela que em nenhuma delas esse tema (dificuldade, sofrimento) deixa de estar presente. Ademais, a fala do Entrevistado 1 no excerto 41 conjectura que talvez o professor de inglês “tenha muita dificuldade mesmo com as coisas mais simples”.
Em alguns dos excertos encontramos também possíveis justificativas para tamanha dificuldade. Uma dessas justificativas fica aparente no excerto 40 em que o Entrevistado 1 questiona “como ensinar inglês pra crianças que ainda não estão alfabetizadas”, dando a entender que essa dificuldade estaria relacionada ao fato de esses alunos ainda não dominarem as habilidades de leitura e escrita. O mesmo argumento aparece no excerto 42 quando o Entrevistado 1 declara que “não conseguiria me enxergar como professor de inglês numa escola de ensino fundamental onde as crianças não são alfabetizadas.” e é intensificado no excerto 43, pois o conceptualizador E5 alega que, além de não ser alfabetizado, “o bichinho mal sabe falar o português hh”. É possível que a mesma ideia esteja presente no excerto 40, porém não está claro se o entrevistado referia-se somente à modalidade escrita da língua, que muitas das crianças realmente ainda não dominam, pois estão em processo de alfabetização, ou se sua fala também englobaria o domínio da oralidade quando diz que “o professor de inglês ele entra numa escola pra ensinar língua sendo que as crianças não: tem ainda domínio nem sobre a língua pátria delas né?”.
Dessa forma, percebemos que tais falas evidenciam uma noção de língua que influencia tanto o ensino da língua materna quanto o ensino da língua adicional. Isso porque há uma compreensão de língua sob a ótica da normatividade linguística, em que se defende uma variante prestigiosa de determinada língua, atribuindo-lhe, assim, um status de superioridade em relação às outras variantes existentes. Essa variante de prestígio, entretanto, não é dominada pelos estudantes como percebemos pela alegação de que eles não falam português ainda que essa seja sua primeira língua. Portanto, nota-se aqui a valorização de uma norma da língua portuguesa, a norma culta; variação esta que, curiosamente, não é seguida à risca por nenhum falante de português por mais culto ou “bem-educado” que seja (BAGNO, 2007). Apenas para citar um exemplo de como os falantes da língua portuguesa não se guiam pelas determinações da norma culta podemos lembrar que o pronome “você” não poderia ser utilizado como pronome pessoal do caso reto como na frase “(...) você tem que fazer do seu jeito (...)” (E1), porém esse é um uso tão natural no português do Brasil que nunca nos questionamos a respeito dele. O desvio acontece porque o termo “você” é considerado, pela norma culta, como um pronome de tratamento e, por
isso, deveria ser utilizado da mesma forma que “senhor”, “senhora”, “vossa senhoria”, “vossa excelência” etc., que são termos utilizados para se referir a um interlocutor em terceira pessoa como um sinal de respeito a ele ou ela.
Em relação à língua adicional não é de se estranhar a percepção de que exista uma enorme dificuldade no seu ensino-aprendizagem neste contexto, considerando que a própria língua materna do estudante já é definida como um objeto distante e ininteligível a ele. Se já há essa percepção de distância entre o aluno e a sua primeira língua, ao pensar a relação dele com a língua adicional não haverá possibilidade de se imaginar qualquer forma de facilidade ou que haja divertimento nas tarefas. No trabalho com a língua adicional presume-se, então, que haverá espaço apenas para um processo duro e penoso. Uma consequência disso é que certamente não se imagina que o estudo da língua adicional possa gerar uma forte motivação nos estudantes, uma conclusão a que chega o Entrevistado 2 ao afirmar acreditar que os alunos “não têm muita vontade” (excerto 46), isso porque o inglês seria algo complexo demais para os estudantes ou que seu aprendizado esteja muito além das suas habilidades.
E como pensar o professor de inglês dentro dessa forma de conceptualizar o ensino da língua adicional? A resposta, consoante a percepção de um labor extremamente árduo, considerado quase uma forma de penitência, pode ser encontrada na fala do Entrevistado 5 quando este compara nos excertos 43 e 44 o trabalho do professor de inglês a um tipo de morte.
Note que o conceptualizador, ao utilizar os termos “padece” e “padecer”, busca justificar a sua opinião acerca da situação dificultosa do professor de língua adicional. Alguns dos sentidos listados no dicionário online para o verbete “padecer” são: “Sofrer de dores físicas ou morais;
estar doente”; “Ser alvo de maus-tratos”; “Ter dificuldades ou estar infeliz” ou ainda “Perder a vida por condenação à morte”, sendo que nenhum desses sentidos se aplicam de forma literal ao uso empregado pelo Entrevistado 5, mas nota-se que há uma compreensão da atuação do professor de inglês fundamentada em uma trajetória de sofrimento e morte.
O professor de inglês, portanto, é conceptualizado como uma pessoa que passa por diversos momentos de provação, configurando-se como um penitente. Sua tarefa se assimilaria às diversas dificuldades que o penitente vivencia ao subir o monte do Purgatório passando, como descreve o poeta Dante Alighieri, “por estrada tão árdua e temerosa” (ALIGHIERI, 2003, p. 17) na qual ele se submete a diversos tipos de castigos ao longo do caminho para o alto do monte.
Abaixo encontra-se uma imagem ilustrativa retirada da própria obra “Purgatório” de Alighieri em
que se observam as almas penitentes curvadas ao carregar o peso de uma enorme pedra nas costas. Acompanhando a imagem encontra-se uma frase que sintetiza bem o que ocorre na cena, nela lê-se: “(...) as almas sob o peso andavam (...)”.
Figura 11 - Ilustração do Purgatório segundo Dante Alighieri
Fonte: ALIGHIERI, 2003, p. 99.
Assim, ao tomar a construção metafórica aula de inglês é purgatório para compreender como o profissional que trabalha com a língua adicional é percebido segundo os participantes da pesquisa é possível pensar em uma segunda metáfora cuja verbalização seria professor de inglês é penitente. Contudo, é importante esclarecer que essas são metáforas que tecem o sentido revelado nos excertos apresentados nesta seção, mas elas não representam a postura defendida por educadores de referência no ensino de inglês como língua adicional ou a prática de grande parte dos professores que ensinam línguas em escolas, cursos livres, empresas etc. Com relação ao ensino de língua adicional, diversos educadores consideram o engajamento (engagement) (SCRIVENER, 2010) como um fator determinante para o sucesso no processo de ensino- aprendizagem, sendo assim, é necessário que o professor de línguas se enriqueça com um aparato didático variado e que trabalhe com recursos, temas e práticas capazes de engajar os estudantes
para que o aprendizado realmente aconteça. São encontradas reflexões e sugestões nesse sentido em Tomlinson (2013) Richards e Rodgers (2014), Oliveira (2014; 2017), Shin e Crandall (2014), entre outros.
Diante do exposto, nota-se o evidente contraste entre a conceptualização de aula de Educação Física e aula de Inglês. No primeiro caso, vê-se uma construção tomando como domínio-fonte PARQUE DE DIVERSÕES, possibilitando a percepção da aula de educação física como algo divertido e leve. Já no segundo caso, aula de inglês, percebe-se que há o resgate de um sentido penoso de sofrimento que pode ser relacionado ao domínio-fonte PURGATÓRIO, pertencente ao MCI de RELIGIÃO CRISTÃ, conectado ao conceito de IGREJA CATÓLICA. Em sequência, na seção 4.7, apresentaremos a proposta para o MCI professor conectando todos os modelos analisados neste capítulo.