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O realismo experiencialista

Fica evidente, portanto, como, a construção do significado envolve a interface entre cognição, língua e contexto, que tem como uma de suas facetas a cultura a partir da qual os comunicadores compreendem a realidade e a comunicam. Segundo Kövecses (2011, p. 740),

“nós temos uma cultura (seja ela pequena ou grande) quando um grupo de pessoas vivendo em um ambiente social, histórico e físico dão sentido às suas experiências de uma maneira mais ou menos unificada20”. Porém, note que a cultura, aqui, é entendida como um fenômeno intrinsecamente semiótico, sendo, portanto, o significado reconhecido como o elemento central e comum a todos os três níveis (cognição, língua, cultura) de articulação conceptual e perceptual.

Logo, considerando tais pressupostos, buscaremos neste capítulo aprofundar conceitualmente as noções relacionadas à fundamentação teórica com a qual nos alinhamos. Com esse objetivo em mente, abordaremos alguns pressupostos centrais da LC começando pelo realismo objetivista e suas implicações sobre a questão da língua e do significado (2.1). A seguir, serão apresentados outros pressupostos teóricos e categorias de análise da LC que são importantes para as análises propostas aqui, a saber, categorização (2.2), frames e modelos cognitivos idealizados (2.3), metáforas conceptuais, metáfora deliberada e metonímias conceptuais (2.4). Todos eles são conceitos fundamentados no paradigma do realismo experiencialista.

que significa, como se houvesse uma realidade objetivamente dada a partir da qual construíssemos os conceitos, restando a nós, falantes, recorrer à representação mental do mundo para darmos sentido à experiência por meio da linguagem.

Fundamentada nessa noção de realidade objetiva, a concepção de racionalidade assevera que o pensamento racional equivale à manipulação de símbolos abstratos detentores de sentido devido a sua correspondência com a realidade objetiva (LAKOFF, 1990). É por meio dessa concepção que se estabelece a noção de racionalidade transcendental que, para filósofos racionalistas como Kant (MAGALHÃES, 2017), estaria associada à razão pura pelo fato de ser anterior à experiência humana. A ideia de transcendência significa, então, que a racionalidade não estaria contaminada pelas nossas percepções de forma que o acesso à verdade, segundo essa perspectiva, ocorreria por meio da abstração, da busca por relações lógicas e princípios que revelem juízos puros, de uma significação universal. Tal interpretação deixa evidente como nossa experiência e nossos sentidos ligados ao corpo são encarados com certa desconfiança, pois são percebidos como enganosos e suscetíveis ao erro, motivo pelo qual são considerados empecilhos ao pensamento racional.

Além da racionalidade transcendente, a questão da formulação das categorias com as quais o mundo estaria organizado possui uma lógica própria para o objetivismo realista.

Agrupam-se em categorias membros que possuem certas propriedades em comum, dessa forma, por meio do compartilhamento de “condições necessárias e suficientes21” (EVANS; GREEN, 2006, p. 168, tradução nossa) se definiriam as categorias de coisas no mundo. Em uma categoria A, por exemplo, estariam incluídos os membros possuidores de todas aquelas propriedades definidoras da categoria; e, estariam excluídos dela, os itens que não possuem tais propriedades.

Assim, é constituído o modelo clássico de categorização baseado no pensamento aristotélico, entendendo que “a linguagem é a expressão de tudo o que é” (NEVES, 1981, p. 57), ou seja, que a linguagem expressa a realidade como ela realmente é e que as categorias utilizadas linguisticamente seriam uma expressão da própria organização do mundo.

Notamos, nessa lógica, uma postura antiempirista, uma negação dos sentidos constituídos pelo corpo, uma vez que somente por via da racionalidade seria possível obter conhecimento verdadeiro, ainda que a mente seja vista como uma mera “máquina abstrata” responsável pela manipulação dos símbolos correspondentes às coisas no mundo (LAKOFF, 1990, p. xiii). Desse

21 No original: necessary and sufficient conditions.

modo, se “saber é representar adequadamente o que está fora da mente22” (RORTY, 1979, p. 3, tradução nossa), é necessário que a mente, por conseguinte, apreenda o significado se baseando na relação entre os símbolos e as coisas no mundo. Em outras palavras, o mundo com o qual nos deparamos possuiria sua própria lógica, uma forma de organização que acessamos por meio da nossa mente, porém, a mente só acessaria essa organização racionalmente ao alijar-se das influências corporais: percepções, sentimentos e todos os sentidos ligados à nossa experiência humana estariam supostamente nos impedindo de alcançar a verdade transcendental, os conceitos puros e/ou a verdade universal.

Com a expressão “a mente é o espelho da natureza” (LAKOFF, 1990), podemos sintetizar o modo de pensar o significado na visão objetivista, um modelo epistemológico do qual discordamos e do qual buscaremos nos distanciar. Lakoff (1990), em sua crítica ao realismo objetivista, observa como, nesse modelo, a agência do comunicador aparenta estar completamente ausente. Comprovamos isso observando a forma como a mente é caracterizada, já que, embora exista o trabalho de produção das representações das coisas, seres e relações do mundo, ela estaria em uma posição de mera reprodutora da realidade externa ao sujeito comunicador, dessa forma, a realidade não depende em nada desse corpo humano para se constituir.

Assim, sob a égide da objetividade, uma postura filosófica tal qual a apresentada acima, foi possível formular um resistente sistema de pensamento que se presume verdadeiro mesmo havendo uma crescente exposição de evidências empíricas sugerindo o contrário. Mark Johnson (1987) apelida de “visão de deus” essa noção de verdade, supostamente independente da percepção humana; e capaz de revelar o que a realidade é em sua essência. Para o autor, o funcionamento dessa lógica é como descrito abaixo:

O mundo se consiste de objetos que possuem propriedades e encontram-se em diversas relações independentes da compreensão humana. O mundo é o que é, não importando qualquer crença que uma pessoa tenha sobre ele e existe uma

"visão de deus” acerca do que o mundo realmente é. Em outras palavras, existe uma estrutura racional da realidade, independente das crenças de qualquer pessoa em particular e o pensamento racional espelha essa estrutura racional23 (JOHNSON, 1987, P. ix-x, tradução nossa)

22 No original: “To know is to represent accurately what is outside the mind”.

23 No original: But Objectivism is not merely an abstruse philosopher's project; it plays an important role in all our lives. In its nonsophisticated manifestation, as a set of shared commonplaces in our culture, it takes the following general form: The world consists of objects that have properties and stand in various relationships independent of

Dessa forma, para o realismo objetivista, a construção do significado fica completamente condicionada à representação da realidade externa ao falante, sendo, ainda, necessário assumir a existência de alguma forma de ordenação lógica do mundo “a priori”, do contrário, os símbolos utilizados na comunicação poderiam não fazer sentido aos comunicadores. Devido a isso, o conhecimento e a racionalidade são compreendidos como “descorporificados”, ou seja, são alheios ao sujeito significador, pois o sentido atribuído aos conceitos e às palavras nada teriam a ver com a natureza física, social ou cognitiva do ser humano. Conceitos e palavras devem ter, assim, um sentido primário que se conecta ao ser, objeto, relação que está sendo representada simbolicamente.

Nesse modelo epistemológico prevalece a “visão de dicionário”, postulando a separação rígida entre o conhecimento linguístico, como o conhecimento relacionado ao significado das palavras, e o conhecimento de mundo, vinculado às normas sociais e à própria vivência do interlocutor. Tal postura é condizente com a perspectiva modular de cognição, um paradigma admitido inclusive por abordagens mentalistas da linguagem, dentre as quais se inclui a gramática gerativa de Noam Chomsky com sua visão componencial das estruturas linguísticas fundamentais.

Assim como no Gerativismo Chomskiniano, a Linguística Cognitiva está firmada em uma base cognitivista, atribuindo um papel central à cognição na construção de significados. Devido a isso, linguistas de ambas as áreas, considerando que “a linguagem é o espelho da mente”

(CHOMSKY, 1957), buscam compreender processos mentais envolvidos na atividade comunicativa. No entanto, as concordâncias entre as áreas se encerram logo que se observa a forma como a mente é descrita pelas duas especialidades, especialmente no que diz respeito à ideia de modularidade. Esse é um dos fatores de maior discordância; isso porque, diferente do pensamento gerativista, a Linguística Cognitiva, considerando evidências de estudos em Psicologia Cognitiva, defende a hipótese da não-modularidade mental, segundo a qual “a linguagem é parte integrante da cognição (e não um módulo separado) e se fundamenta em processos cognitivos, sociointeracionais e culturais”. A vista disso, defendemos que ela “deve ser human understanding. The world is as it is, no matter what any person happens to believe about it, and there is one correct "God's-Eye-View" about what the world really is like. In other words, there is a rational structure to reality, independent of the beliefs of any particular people, and correct reason mirrors this rational Structure.

estudada no seu uso e no contexto da conceptualização, do processamento mental, da interação e da experiência social e cultural” (SILVA, 2004, p. 2).

Sendo a linguagem parte integrante da cognição e sofrendo influência do corpo e da nossa experiência em um determinado tempo/espaço socialmente constituído, entendemos que o significado é enciclopédico. Afirmar que a estrutura semântica é enciclopédica por natureza é reconhecer que “palavras não representam organizados pacotes de significado (a visão de dicionário), mas servem de pontos de acesso para o vasto repertório de conhecimento relacionado a um determinado conceito ou domínio conceitual24. (EVANS; GREEN, 2006, p. 160, tradução nossa). Dessa forma, concebe-se que os usuários da língua precisam acessar uma grande variedade de conhecimentos para construir o significado, inclusive conhecimentos de natureza sociocultural, ou seja, conhecimento pragmático.

A LC é uma área de estudo com muitas bifurcações, diversas possíveis linhas de investigação, porém, há dois compromissos com os quais qualquer cientista da Linguística Cognitiva deve se preocupar. O primeiro deles é o compromisso com a generalização, pois, diferente de outras áreas dos estudos de linguagem, a LC defende que os mesmos princípios modeladores da cognição atuam na estruturação da linguagem e na constituição dos significados.

O segundo compromisso diz respeito à interdisciplinaridade da área, algo inevitável quando se assume a generalização dos seus princípios. Reconhecendo a natureza cognitiva da linguagem, esperamos que estejam atuando sobre a organização da linguagem diversos princípios cognitivos, biológicos e sociais, dessa forma, é imprescindível o diálogo com outras áreas de estudo como a Psicologia, a Inteligência Artificial e as Neurociências.

Conforme explicitado até aqui, a Linguística Cognitiva refuta a tese do realismo objetivista, segundo a qual uma ordem lógica emana da própria realidade e nada teria a ver com a natureza do corpo e da mente humana que se utilizaria de símbolos representativos dessa realidade previamente dada para se comunicar. Além do mais, a LC também rejeita a hipótese da modularidade mental devido à emergência de evidências indicando a generalização de processos cognitivos e a forma como a linguagem pode nos permitir o acesso a essa estrutura mental.

Consideramos, assim, que a análise dos padrões linguísticos nos possibilita acessar e

24 No original: “The third central principle of cognitive semantics holds that semantic structure is encyclopaedic in nature. This means that words do not represent neatly packaged bundles of meaning (the dictionary view), but serve as „points of access‟ to vast repositories of knowledge relating to a particular concept or conceptual domain (e.g.

Langacker 1987)”.

compreender detalhes da estruturação conceptual. Essa estruturação encontra-se armazenada na nossa mente e é com ela que regulamos ação e pensamento. Nessa perspectiva, o que nos interessa não é a descrição linguística por si mesma, mas sim a estrutura conceptual que organiza e estrutura a linguagem, além de nossas ideias, pensamentos e ações, reconhecendo, portanto, a primazia das construções conceituais com as quais significamos o mundo e nós mesmos.

Portanto, considerando o papel da cognição para a construção de sentidos, julgamos relevante compreender como se estrutura a categoria conceptual PROFESSOR, que é ponto central deste estudo, uma vez que a partir desse entendimento será possível observar de que forma a profissão é percebida e vivenciada pelos conceptualizadores. As análises empreendidas sob a ótica da LC, potencialmente, podem revelar não apenas as bases fundamentais da conceptualização como também certas expectativas sociais que fazem parte da sua estrutura, haja vista a nossa defesa da não separação entre conhecimento linguístico e conhecimento pragmático, algo que vai ao encontro da tese do conhecimento enciclopédico apresentado acima. É importante ressaltar ainda a escolha dos participantes da pesquisa como um dos fatores de maior relevância, visto que, ao selecionarmos professores como grupo de interesse, podemos investigar como a categoria é estruturada pelos próprios indivíduos que são por ela definidos, ou seja, serão professores os definidores da sua própria atividade profissional. A seguir, apresentaremos com mais profundidade o conceito de categorização com o intuito de explicitar a função dessa operação cognitiva para a estruturação conceptual.