Nas seções anteriores apontamos a existência de uma vinculação entre a atividade profissional do professor e da professora com a noção de cuidado. De acordo com as análises realizadas em 4.2 e 4.2.1, essa expressão de cuidado aponta para a ativação do domínio FAMÍLIA
na estruturação da categoria PROFESSOR, uma vez que a relação entre aluno e professor se balizaria pelo modelo de relação que corresponde mais a uma relação familiar do que profissional. Nesta seção, a ideia de cuidado será novamente apontada como uma base para a construção da categoria em estudo, porém, desta vez, ela se relaciona a um outro MCI.
Trataremos aqui da ativação do MCI SAÚDE, porém com especial destaque para o frame
PROFISSIONAL DE SAÚDE em virtude da identificação de ocorrências fundamentadas na metáfora conceptual PROFESSOR É PROFISSIONAL DE SAÚDE.
Em sua apresentação de metáforas da escola, Sardinha (2007) deixa-nos uma espécie de inventário de metáforas que, segundo ele, estariam relacionadas à educação, ao ensino, à escola e ao professor. Dentre os achados apresentados no seu texto, encontra-se a metáfora ENSINAR É UMA OUTRA PROFISSÃO por meio da qual o autor demonstra que a concepção de professor pode ser estruturada metaforicamente tendo outras profissões coo fonte. Para exemplificar, Sardinha menciona a identificação de profissões como juiz, visto que “o professor deseja ser justo e imparcial” (SARDINHA, 2007, p. 65) e padre, porque, para esses conceptualizadores, “o professor seria sábio e agradável [como um padre]” (SARDINHA, 2007, p. 65). Notamos que a metáfora identificada por Sardinha se assemelha à metáfora que é tema desta seção, entretanto, em nossos dados nos chama atenção o fato de que todas as profissões identificadas como fonte têm relação com a ideia de cuidado e chama mais atenção ainda o fato de que elas integram apenas a área da saúde (médico, psicólogo etc.), motivo pelo qual identificamos a fonte da concepção metafórica como PROFISSIONAL DE SAÚDE.
Portanto, trazemos aqui uma concepção de cuidado que se relaciona ao MCI SAÚDE cuja concepção deve incluir frames como PROFISSIONAL DE SAÚDE, DOENÇA, ESPECIALIDADES DA MEDICINA, INSTRUMENTOS MÉDICOS etc. Buscando pela entrada „cuidado‟ no dicionário online de Português, obtemos como retorno sentidos relacionados a “demonstração de afeto”, “aplicação e capricho para realizar algo”, “dever de arcar com os seus próprios comportamentos ou com as ações de outrem; responsabilidade: cuidados médicos” (CUIDADO, 2023) e, ao compará-las nota-se que, somente quando se especifica o MCI SAÚDE, o item lexical „cuidado‟ será compreendido como atividades relacionadas à atividade profissional de médicos ou enfermeiros, por exemplo, motivo pelo qual acreditamos que esse sentido é menos prototípico.
Pelo fato de o sentido mais prototípico de cuidado não se relacionar com saúde, como observamos, é necessário especificar o MCI para possibilitar a desambiguação e identificação do
sentido que é intencionado nesse caso. O dicionário Priberam realiza essa identificação ao evocar o MCI SAÚDE por meio da especificação “medicina”, mas, além disso, apresenta definições de itens lexicais específicos de saúde que ativam diretamente o MCI desejado: “cuidados continuados”, “cuidados de saúde”, “cuidados intensivos”, “cuidados paliativos”. Diante disso, notamos que „cuidado‟ pode ser compreendido como expressão de afeto, quando relacionado à demonstração de zelo, atenção e responsabilização de um indivíduo com relação ao beneficiário desse zelo, atenção e responsabilização, e a cuidados médicos, quando o sentido pretendido ativa itens relacionados, por exemplo, a doença e tratamento. Ambos os sentidos de „cuidado‟ estão presentes nas falas dos participantes, dessa forma, é necessário observar se há ativação do MCI
SAÚDE para que uma ocorrência seja considerada, de fato, relacionada a cuidado médico.
Apesar da polissemia observada em „cuidado‟, como será demonstrado nas análises, não houve dificuldade na diferenciação entre os sentidos de cuidado como afeto e cuidado como saúde, especialmente porque são muito claras quando as ativações de conceitos estão no MCI
SAÚDE, visto que precisam ativar frames como doença ou especialidade médica que não fazem parte do MCI RELAÇÃO FAMILIAR. Dito isso, a seguir apresentaremos as ocorrências 22 a 28 que foram selecionadas para as análises desta seção, nelas apresentaremos a relação existente entre o MCI SAÚDE e a atividade do profissional de magistério, relação constituída por meio da metáfora conceptual PROFESSOR É PROFISSIONAL DE SAÚDE.
(22) então a gente tem que ser psicóloga, tem que ser orientadora (.) tem que ser tudo. tem que: até médica, você tem que observar (.) tossiu ontem, a amanda. Amanda você tá bem. quando eu olhei nos olhinhos dela, tava cheio de lágrimas. tia, é porque eu tô, eu tenho crise de alergia, mas a minha mãe mandou eu vir pra escola ( E8/p. 38/linhas: 157-160).
(23) aí eu tive que chamar a mãe. aí infelizmente ela não pode ficar, tem que falar com aquele jeitinho, entendeu.
com cuidado. e: e hoje ela já não veio. e ela não tava bem realmente (.) então é alergia apenas? tudo bem, mas porque a mãe não observou (.) né. então a gente tem que ser tudo. médica inclusive. (E8/p. 39/linhas:
161- 164)
(24) enfermeira, se cair a gente tem que cuidar e tem que levar. é desse jeito. (E8/p. 39/linha: 166)
(25) tanto (.) tanto graficozinho do Joãozinho (.) pra fazer do Joãozinho hh que no final das contas, eu quase que não conheço o Joãozinho (.) porque eu conheço só porque a professora tá falando, mas eu não consigo chegar no Joãozinho pra diagnosticar o Joãozinho porque eu fico só preenchendo papel só pro Joãozinho. e conhecer o Joãozinho de verdade eu não conheço. (E4/p. 27/linhas: 336-340)
(26) apesar de eu ter o conhecimento da área de psicologia eu acho que assim já foram muitos anos atrás e as vão se vão se alternando vão se alterando, então a gente tem que buscar essa parte então eu até mudei a minha maneira de de: alfabetizar mesmo que eu já usei assim várias técnicas que eu aprendi na graduação de psicologia, eu acrescentei, eu agreguei outras que eu aprendi que você pode até não só buscar o ensinar de uma forma só a a alfabetização, você pode ensinar até duas dois métodos (...) (E8/p.
13/linhas 125-131)
(27) a maioria né (.) elas não têm aquele olhar do familiar a maioria e: alguns até possuem laudos outros não (.) os que não tem laudos nós sabemos que é prejudicial porque já se perdeu um tempo ali né (.). (E2/p.
8/linhas: 68-70)
(28) tenho uma turma, tenho um método e eu tive que aprender com eles e: eu consegui, eu alfabetizei um um menino que não falava e escutava muito pouco, acho que ou pouco ou escutava quase nada mesmo porque (.) depois eu descobri que ele teve meningite. então e- quer dizer ele não escutava (.). (E4/p. 21/linhas:
165-168)
(29) tem o laudo a criança? (E4/p. 21/linha: 171)
(30) essas crianças elas (.) a maioria né (.) elas não têm aquele olhar do familiar a maioria e: alguns até possuem laudos outros não (.) os que não tem laudos nós sabemos que é prejudicial porque já se perdeu um tempo ali né (.) a criança às vezes tá no quinto ano e não tem laudo e a gente sabe que tem algum problema ali.
alguma (.) (E2/p. 8/linhas: 68-72)
(31) aí o cachorro morreu, a gente já entrar (.) né, no ramo da psicologia que: não faz parte da gente, né, mas: a gente né, ( ) cada dia a gente faz um pouquinho de cada né. não, né, embora a gente não seja formado pra isso, né. mas infelizmente a gente vai dando um jeitinho aqui, outro acolá. e dá certo né. (E7/p.
45/linhas: 86-88)
(32) e ( ) antigamente a gente falava assim, nossa ( ) até eu falei assim, ontem eu atendi duas criança autista (...) (E4/p. 25/l. 286-287)
Um dos frames relacionados ao MCI SAÚDE mais recorrentes nos dados e destacados nos excertos é ESPECIALIDADE MÉDICA. Ele pode se referir a diversas áreas da Medicina assim como aos profissionais que atuam nas especialidades. Com relação a esse frame, destacamos as seguintes ocorrências que trazem formas de identificação de um profissional: “psicóloga”
(excerto 22), “médica” (excerto 22), “médica” (excerto 23), “enfermeira” (excerto 24); e uma das ocorrências identificando a área de atuação de um especialista : “psicologia” (excerto 26).
Note que, em suas falas, os conceptualizadores se identificam como um especialista, como neste trecho do excerto 22: “então a gente tem que ser psicóloga, tem que ser orientadora (.) tem que ser tudo. tem que: até médica”; ou no excerto 24 em que o conceptualizador se identifica como
“enfermeira” também como uma forma de pensar o que é ser professor.
Comparando o sentido base desses termos com o seu sentido contextual, verifica-se que eles divergem, especialmente porque os conceptualizadores não são, de fato, médicos, enfermeiros ou psicólogos, são professores e, portanto, a ativação dos termos relacionados à especialidade médica são usados metaforicamente. A intenção dos falantes é, com isso, definir
PROFESSOR em termos de psicólogo, médico ou enfermeiro, o que significa que os participantes transferem determinados atributos pertencentes ao sentido de PROFISSIONAL DE SAÚDE para
PROFESSOR. Dessa forma, podemos pensar em construções metafóricas mais específicas provenientes da metáfora principal, podemos pensar, por exemplo, em PROFESSOR É PSICÓLOGO,
PROFESSOR É MÉDICO e PROFESSOR É ENFERMEIRO.
O MCI EDUCAÇÃO, em que se inclui a categoria PROFESSOR, pode ativar diversos frames e conceitos como ESCOLA, SALA DE AULA, MATERIAL ESCOLAR etc. Note que nenhum conceito relacionado à saúde integra este MCI, então, é somente através da transferência realizada pelo processamento metafórico que o MCI SAÚDE pode estar de alguma forma relacionado ao MCI
EDUCAÇÃO. Nos excertos encontramos ainda outras ativações pertencentes ao MCI saúde, que estão presentes nos seguintes recortes: “tossiu”, "alergia", “se cair a gente tem que cuidar”,
“diagnosticar”, “conhecimento da área de psicologia”, “eu já usei assim várias técnicas que eu aprendi na graduação de psicologia” e “atendi duas criança autista”.
Dentre esses destaques, observamos que os sentidos de “tossiu”, “alergia” não são metafóricos, visto que tanto no contexto quanto no sentido base, essas palavras referem-se a demonstrações de determinada reação corporal que pode estar relacionada a doenças ou não. Por outro lado, no uso de “diagnosticar” pode ser identificado como metafórico, pois o sentido base dessa palavra tem a ver com a realização de “exames, buscando encontrar a razão e a natureza de uma afecção, de uma doença, geralmente através da descrição dos seus sintomas”
(DIAGNOSTICAR, 2023), algo que é da natureza da atividade médica e não docente, assim, nota-se a transferência de atributos já que o professor percebe que o aluno deve ser cuidado também da forma que um médico cuida de um paciente. É por esse motivo que o professor observa quando o aluno “tossiu” ou quando tem alguma outra sintomatologia. Da mesma forma, identificamos na fala “atendi duas criança autista”, o termo „atendi‟ como metafórico, uma vez que essa é uma atividade relacionada à profissão do médico e não do professor.
Por fim, nos sentidos contextuais ativados por “conhecimento da área de psicologia” e
“eu já usei assim várias técnicas que eu aprendi na graduação de psicologia”, nota-se que o participante se refere ao real uso de um conhecimento técnico da área de Psicologia, área em que o coneptualizador possui formação (além da área do magistério). Por tratar-se de um uso literal, logo, não se diferenciando o sentido do uso no contexto e o sentido base, conclui-se que não é uma construção metafórica, ainda que seja possível perceber como esse e os demais excertos estejam construindo uma concepção de professor que se estrutura metaforicamente por meio da metáfora PROFESSOR É PROFISSIONAL DE SAÚDE.
Diante disso, espera-se que o profissional docente seja capaz de ter certas atitudes (como diagnosticar, examinar) e, além disso, na fala “se cair a gente tem que cuidar”, que não é metafórica, pois aciona a ideia de que no caso, por exemplo, de algum estudante se acidentar é
necessário que o professor assuma uma postura de cuidado e que, da forma como faria um enfermeiro, tenha uma resposta imediata para a situação. Assim, fica evidente que não se espera apenas uma atitude de professor, mas sim respostas práticas e imediatas em relação às questões de saúde, resultando em uma concepção de PROFESSOR na qual o conceptualizador percebe a atuação docente como um tipo de atividade médica, ainda que, para isso, o professor geralmente não tenha nem a formação nem a experiência adequada. Entretanto, percebe-se como essa conceptualização permite a ativação do frame SAÚDE para pensar tanto o professor como o espaço em que ele atua, ou seja, a escola. O aluno nessa configuração é percebido como um paciente, e o ensino seria similar a uma forma de tratamento médico como é possível observar na representação dos mapeamentos apresentados na figura 9.
Figura 9- Representação dos mapeamentos metafóricos de ESCOLA É HOSPITAL
Fonte: A autora, 2023.
Com a metáfora PROFESSOR É PROFISSIONAL DE SAÚDE, em que notamos a ativação do MCI SAÚDE, percebemos como uma metáfora é capaz de definir certas expectativas sobre o modelo de atuação docente. A seguir, será apresentada outra metáfora, mas, dessa vez a metáfora se aplica apenas a uma disciplina específica: Educação Física. A partir dessa metáfora, discutiremos as implicações sobre o sentido pensado para a prática da disciplina em questão, como sobre as implicações sobre o sentido construído para PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA.