para que o aprendizado realmente aconteça. São encontradas reflexões e sugestões nesse sentido em Tomlinson (2013) Richards e Rodgers (2014), Oliveira (2014; 2017), Shin e Crandall (2014), entre outros.
Diante do exposto, nota-se o evidente contraste entre a conceptualização de aula de Educação Física e aula de Inglês. No primeiro caso, vê-se uma construção tomando como domínio-fonte PARQUE DE DIVERSÕES, possibilitando a percepção da aula de educação física como algo divertido e leve. Já no segundo caso, aula de inglês, percebe-se que há o resgate de um sentido penoso de sofrimento que pode ser relacionado ao domínio-fonte PURGATÓRIO, pertencente ao MCI de RELIGIÃO CRISTÃ, conectado ao conceito de IGREJA CATÓLICA. Em sequência, na seção 4.7, apresentaremos a proposta para o MCI professor conectando todos os modelos analisados neste capítulo.
armazenadas na memória quanto as informações perceptuais ligadas à própria forma de interação do corpo com o mundo. Mas reconhecemos também a forma de organização e ativação de informação que é específica da espécie humana, razão pela qual devemos considerar o processo de categorização da informação como princípio básico da cognição, além dos diversos processos cognitivos que atuam na construção de sentidos (como processos metafóricos e metonímicos) e das especificidades do contexto como a cultura a que pertence o conceptualizador.
Com o intuito de identificar o contexto cultural que, em resumo, é entendido aqui como o conhecimento compartilhado pelos falantes de uma comunidade, foi feito, no capítulo 1, o levantamento do processo histórico por qual passa a estrutura social na qual se constitui o objeto de análise. Tomamos esse conhecimento compartilhado como um elemento estruturante da visão projetada da realidade (JAKENDOFF, 1983) de forma geral que também influencia a visão da comunidade de falantes sobre a categoria em análise. Com isso, podemos supor que a constituição da categoria PROFESSOR tenha sofrido mudanças devido à influência dos diferentes movimentos de estruturação e reestruturação do ensino, da instituição escolar assim como da profissão do magistério.
Ainda que a reformulação do sistema educacional não seja algo tão imediato quanto a divisão por períodos históricos apresentada aqui faz parecer, optamos por essa organização de forma a facilitar a compreensão do leitor. Temos ciência de que há diversos momentos de intercessão em que é possível observar características de um movimento político-filosófico em declínio, enquanto já despontam algumas propriedades de uma nova estrutura social. Ribeiro (1981), cuja obra serviu de principal sustentáculo para esta introdução histórica, estabelece uma divisão em oito períodos, entretanto, optamos por limitar a uma compartimentação em quatro blocos tratando do período jesuítico durante a fase colonial; do período pombalino, ainda durante a fase colonial; do período imperial e do período de estabelecimento da república, momento em que se concretiza o processo de feminização. Esse recorte escolhido justifica-se porque são esses períodos que melhor expressam as transições de modelos de PROFESSOR.
Os períodos selecionados apontam para conhecimentos que dizem respeito não apenas à passagem de uma estrutura educacional para outra, ou de um movimento político-social para outro, mas também de uma reformulação da estrutura cognitiva, linguística e cultural. Nota-se, por exemplo, que no início do estabelecimento do que se conhece hoje como educação formal havia a presença exclusiva de homens atuando no campo educacional, todos pertencentes a uma
ordem religiosa como a Ordem Jesuíta. No entanto, já no último período republicano observa-se uma completa renovação do perfil do profissional do magistério com o crescente aumento da presença de mulheres atuando como professoras aliada à queda no número de homens atuantes no magistério.
A renovação do perfil desse profissional gera fortes implicações sobre a percepção da sua identidade e sobre as expectativas sociais que lhe são projetadas. Devido a isso, o que certamente ocorre durante essa renovação é a reestruturação da categoria PROFESSOR, que passa de uma conceituação prototípica fundamentada principalmente na noção de missionarismo para um modelo de atuação profissional que quase se confunde com a concepção de maternidade. Os modelos de professor que se desenvolvem ao longo dos séculos surgiram em resposta a pressões de caráter político-social, o que revela, novamente, como a questão da conceptualização não se restringe ao plano da linguagem ou da cognição, pois envolve também o contexto histórico, político e social. A seguir, apresentamos uma representação, em forma de diagrama, do modelo cognitivo idealizado de PROFESSOR emergente dos dados analisados.
Figura 12 – Modelo Cognitivo Idealizado da categoria PROFESSOR
Fonte: A autora, 2023.
Lembremos que, por meio da estruturação de MCIs, o conceptualizador é capaz de formular noções sobre a realidade, porém, não necessariamente, essas noções correspondem à realidade, uma vez que um MCI, por ser uma estrutura idealizada, é uma criação humana que pode “se adequar ao mundo de diversas formas: perfeitamente bem, muito bem, bem, um pouco mal, muito mal, ou de jeito nenhum” (FERRARI, 2011, p. 55). Consequentemente, nota-se que um MCI, nessa dinâmica, pode produzir efeitos prototípicos ao cabo que serve de fundamentação para julgar a adequação de um objeto, indivíduo, evento etc. ao seu MCI estruturante, mas os efeitos prototípicos também surgem da combinação de modelos mais complexos como ocorre na construção da categoria PROFESSOR, que possui, além do seu sentido base relacionado ao frame
EDUCAÇÃO/ENSINO, algumas conexões a frames não relacionados ao tema educação e/ou ensino.
No esquema da Figura 12, destacamos o item central em que se aglutinam todos os modelos identificados nas análises. Sem considerar os modelos metafóricos emergentes, podemos dizer que o sentido desse conceito depende das “cenas” estruturadas pelo frame
EDUCAÇÃO/ENSINO cujos aspectos estruturantes devem envolver itens presentes nesse frame cujos membros serão itens como professor, aluno, escola, material didático, métodos de ensino, diretor, coordenador, disciplina (português, história, ciências etc.), instrução, escrita, leitura, material escolar. Segundo a concepção da LC, entendemos que o acesso a esse frame permite ao conceptualizador interpretar não apenas cada um desses itens isoladamente como os papéis dos participantes (professor, coordenador, aluno, diretor) mas também relações entre esses participantes e os objetos que compõem o frame.
Entretanto, pelo menos no contexto em que o estudo foi realizado, o esquema não é composto apenas pelo frame EDUCAÇÃO e, na verdade, notamos que certos modelos metafóricos emergentes apresentam uma alta recorrência nos dados de forma que eles, que também são apoiados por processos metonímicos, possuem um papel fundamental na construção da categoria em estudo. Dentre esses modelos complementares, o mais recorrente foi o modelo metafórico identificado, aqui, como FAMÍLIA. Ele se conecta ao modelo central por meio da construção metafórica PROFESSOR É MEMBRO DA FAMÍLIA e é composto por elementos como o papel (mãe, pai, tio, tia, avó, avô, filho, filha etc.) dos participantes, as atividades e relações entre os participantes que envolvem especialmente as noções de afeto e cuidado. Contudo, notamos que as ocorrências dessa construção metafórica acessam, na maior parte das vezes, uma estrutura de origem histórica e social na qual é estabelecida uma divisão de tarefas familiares fundamentada no gênero dos indivíduos. Por meio dessa divisão de tarefas, fica determinado o papel de cada gênero e, devido a isso, observamos ativações de sentidos reforçando, nessa estrutura, o que é compreendido como „feminino‟ e „masculino‟.
A separação entre os gêneros é marcada por meio de ativações de sentidos construídos em um modelo de contraste e incompatibilidade entre eles (emocional-racional, quente-frio, proximidade-distanciamento, mente-coração). O resultado dessa construção tende a ser a naturalização de uma construção conceptual de PROFESSOR mais prototipicamente percebida como feminina, uma vez que os sentidos de afeto, cuidado e a ativação do conceito EMOÇÃO (em contraste à RAZÃO) são destacados como os elementos primordiais da atuação do professor, e esses elementos são constantemente definidos como estruturantes da categoria MULHER. Nota-se, concomitantemente, a ativação de processamento metonímico responsável por causar a perspectivação de certos aspectos da categoria MULHER, realçando e idealizando a questão da maternalidade e da afetividade, enquanto ignora outras características estruturantes dela. Tal
perspectivação não afeta apenas a categoria MULHER, mas, ao ser acessada no processamento metafórico de PROFESSOR É MEMBRO DA FAMÍLIA, pode resultar em um efeito prototípico que dá origem à metáfora conceptual PROFESSORA É MÃE.
Outro modelo metafórico que compõe o MCI é ativado pela metáfora conceptual PROFESSOR É PROFISSIONAL DE SAÚDE, cuja ativação depende do frame SAÚDE. Esse frame é composto por elementos como as especialidades de profissionais da saúde (médico, psicólogo, enfermeiro etc.), instrumentos específicos da sua atuação (estetoscópio, termômetro etc.), doenças e suas sintomatologias (tosse, alergia), local de atuação (clínica, hospital), sua área de estudo e formação especializada (Psicologia, Medicina, Enfermagem), atividades típicas da sua atuação profissional (fazer laudo, diagnosticar, cuidar, tratar doenças, receitar remédios, etc.).
Porém, quem também integra esse frame é o participante que recebe o cuidado (médico), participante que é chamado nesse contexto de „paciente‟. Um fato interessante de observar nessa nomenclatura é como ela já deixa visível a estruturação dos papeis dos participantes, visto que estabelece o “paciente” como o beneficiário da ação de outro participante (médico, psicólogo, enfermeiro) que é responsável pelo papel ativo da construção.
Além desses modelos, o MCI é composto também pelo modelo metafórico operário, que se estabelece por meio da metáfora conceptual PROFESSOR É OPERÁRIO. Essa construção metafórica representa uma visão prototípica de trabalho que tem origem na revolução industrial, como foi exposto na seção 4.1, e, por isso, se relaciona à ideia de trabalho realizado em fábricas que se desenvolve sobre a concepção taylorista da eficiência de produção fundamentada na divisão de tarefas para otimização do tempo. Nesse modelo podemos ativar itens como trabalhador, empregador, local de trabalho, carga horária, remuneração, produto, técnica e há um destaque especial para a otimização do tempo, visto que é esperado que a produção ocorra no menor tempo possível e com qualidade. Com a ativação desse modelo, o professor é visto como um operário que precisa dar conta de diversas tarefas em um tempo bastante limitado, porém, nessa construção observamos um efeito sobre a percepção da educação como um processo de produção e do aluno como um produto dessa ação.
O modelo SACERDOTE, que também é metafórico e se estabelece pela ativação do MCI
RELIGIÃO, mas especialmente pelas cenas ativadas pelo frame IGREJA CATÓLICA, tem origem na própria história do estabelecimento do que conhecemos como educação formal no Brasil, visto que essa modalidade de ensino tem início com a colonização do continente americano iniciada no
século XVI cujos atores principais foram os padres que acompanhavam os colonos portugueses.
Um dos principais agentes desse período foi a Ordem Jesuíta, e sua atuação influencia até hoje a nossa percepção do que é ser professor, visto que há certa idealização da profissão que a vê como um tipo de missão, como se fosse um sacerdócio. O professor, nesse modelo, seria um sacerdote que se entrega completamente à sua missão sem esperar por isso uma remuneração adequada, já que uma missão é um trabalho voluntário para a qual o sacerdote dedica toda a sua vida com afinco.
Esse modelo traz um destaque para a noção de sofrimento, algo que é muito constante no dogmatismo cristão por entender a realidade dentro de uma divisão binarista composta pelo mundo físico (ligado ao corpo e à experiência terrena) e o mundo espiritual (ligada à alma e à experiência com o divino). Nessa concepção determina-se que a alma seria uma instância superior, já que é por meio dela que se atinge a salvação, logo a experiência terrena é compreendida como um estágio de transição em que o indivíduo deve passar por diversas provações, pois assim será merecedor do acesso à instância superior da existência que só é alcançada após a sua morte, na vida eterna. Uma consequência da ativação desse modelo tem relação com a idealização da atuação profissional docente, que é resultado da constante romantização e da naturalização de situações em que o profissional precisa extrapolar todos os seus limites (físicos, emocionais, financeiros) para cumprir o que ele entende como a sua missão na terra, que ele precisa cumprir com amor, sem medir esforços.
Podemos encontrar um exemplo desse modelo de forma caricata em uma produção cinematográfica, que se anuncia como uma narrativa baseada em uma história real de uma professora americana. O filme, que se chama Escritores da liberdade73 (2007), conta a história da professora recém formada Erin Gruwell que, em início de carreira, recebe sua primeira turma de ensino médio, em uma escola localizada em um bairro periférico da Califórnia onde prevalece uma realidade de violência e desigualdade social. Tomada por seu idealismo, a professora então decide pôr em prática um modelo de ensino não tradicional que aos poucos conquista os alunos, mas gera desconfiança por parte de seus colegas professores que atuam na mesma escola que ela.
Entretanto, conforme a narrativa avança, o filme mostra como a atuação de Erin está longe de uma atuação profissional, pois a personagem decide abdicar da sua própria vida para dedicar-se completamente ao seu “trabalho”. Para mencionar algumas atitudes de Erin que são mais
73 Título original: Freedom writers.
marcantes, uma delas é a sua decisão de obter um novo emprego em horário noturno (seu horário de descanso) com o único objetivo de conseguir renda extra para adquirir material para suas aulas e promover atividades culturais para seus alunos. Uma outra atitude da personagem que chama atenção é o fato de que ela negligencia completamente seus relacionamentos uma vez que toda a sua atenção está na escola e nos seus alunos.
Ao final da narrativa cinematográfica, fica a sensação de que as atitudes da professora geraram resultados bastante positivos muito além do esperado, logo, o sentimento é de uma missão cumprida, o que geralmente causa no espectador do filme uma forte reação emocional e de aprovação. Contudo, uma outra relação existente entre a narrativa do filme e o modelo metafórico PROFESSOR É SACERDOTE, que fundamenta essa construção de PROFESSOR
romantizada, geralmente não é percebida sem uma análise mais profunda. Trata-se da postura motivada pelo complexo do salvador branco, um conceito cunhado por Cole (2012) para denunciar uma prática bastante comum na indústria do cinema (mas também na vida real) que tem a ver com o padrão de enaltecimento de pessoas brancas sob a alegação de que estariam resgatando e salvando pessoas pertencentes a grupos desfavorecidos (não brancos), algo que certamente lhes rende muitos aplausos. Como evidenciado na seção 4.1, essa postura era um mote da Companhia de Jesus e também de outros grupos religiosos que chegaram na América com o intuito de “resgatar” as almas dos nativos e supostamente trazer a salvação para os não cristãos, ainda que, na realidade, a colonização tenha sido a causa do genocídio de diversas das etnias indígenas, muitas das quais foram extintas devido à extrema violência da prática colonial europeia.
Por fim, o último modelo do MCI, o modelo recreador, foi observado apenas na metáfora situada Aula de educação física é parque de diversão, que foi tema da seção 4.5. Esse modelo tem relação com o frame ENTRETENIMENTO e pode ativar elementos como brinquedos, jogos, desafios, prêmios, crianças, fantasias, personagens, diversão. O professor dentro dessa construção conceptual é um agente responsável pela promoção desse entretenimento, devido a isso, ele é identificado por meio da metáfora situada Professor é recreador. Apesar de esse não ter sido um modelo tão recorrente nos dados, foi importante destacá-lo devido a forma como ele contrasta com os demais modelos do MCI, mas em especial com o modelo SACERDOTE, que está presente na fundamentação do sentido para professor de inglês.
Nota-se que, embora um MCI necessite de “estruturas de conhecimento armazenadas na memória de longo prazo” (FERRARI, 2011, p. 53), não são apenas os frames factuais que o compõem pois, como foi observado no caso do MCI PROFESSOR, ele pode apresentar um conjunto de modelos distintos, alguns dos quais são estruturados por meio de projeções metafóricas e/ou metonímicas. Dessa forma, a categoria PROFESSOR investigada neste estudo apresenta uma estrutura complexa em que observamos a interação entre elementos pertencentes a categorias distintas que não necessariamente estão em consonância. Devido a isso, notamos, por exemplo, como os modelos SACERDOTE e RECREADOR são até contraditórios, considerando que, no primeiro, há uma ativação da ideia de sofrimento, enquanto, no segundo, ativamos apenas itens relacionados à diversão ou à categoria ENTRETENIMENTO.
Assim, considerando que os “MCIs guiam processos cognitivos como os que ocorrem na categorização e na racionalização74” (EVANS; GREEN, 2006, p. 270, tradução nossa), concluímos que o estudo dessas estruturas pode, de fato, revelar não apenas os aspectos do funcionamento linguístico, como também os padrões de pensamento que sofrem influência da estrutura corporal, cognitiva e contextual. É por esse motivo que a proposta deste estudo buscou, além de observar a materialidade discursiva por meio do léxico, compreender o porquê de determinadas escolhas discursivas, especialmente ao identificarmos padrões entre diferentes conceptualizadores, e por meio de quais processos cognitivos essas escolhas foram capazes de produzir os sentidos identificados nas análises. Dito isso, podemos sintetizar os achados analisados neste capítulo no capítulo de considerações finais.
74 No original: ICMs guide cognitive processes like categorisation and reasoning.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para compreender a natureza do significado, ao contrário do que se acreditava, é necessário considerar, além de linguagem e pensamento, a estrutura do corpo, o seu modo de funcionamento e as suas interações com o meio físico e cultural. Essa é uma alegação fundamentada na descoberta da “cognição corporificada”, noção a partir da qual se verifica a
“importância da experiência humana, a centralidade do corpo humano, além da organização e estrutura da cognição específica da espécie, tudo isso influenciando a natureza da nossa experiência75” (EVANS; GREEN, 2006, p. 44, tradução nossa) e, consequentemente, influenciando a constituição do significado.
Seguindo esse pressuposto, a Linguística Cognitiva ou, mais especificamente, a Semântica Cognitiva, área com a qual esta pesquisa se vincula, compreende o significado dentro de uma perspectiva experiencialista e, sendo assim, assume que o significado integra experiência corporal, mente e cultura. Em vista disso, os dualismos e as oposições persistentes entre, por exemplo, mente e cultura, corpo e cognição, razão e emoção, língua e conhecimento deixam de fazer sentido uma vez que a experiência humana não é vista de forma compartimentada e a função cognitiva, na verdade, “depende da interação cérebro-corpo76” (DAMÁSIO, 1994, p. 226, tradução nossa). Nessa concepção prevalece, então, a opção pelo empirismo, que deve, necessariamente, incluir a “dimensão perceptual básica, programação motora e as dimensões emocional, histórica, social e linguística77” (JOHNSON, 1987, p. xvi, tradução nossa), o que vai na contramão da noção apresentada, por exemplo, pelo pensamento do realismo objetivista que ainda assim dita parte das discussões em relação à compreensão do que é a linguagem e como ela se relaciona com a realidade externa ao falante.
Uma grande vantagem em estudar a linguagem na perspectiva da Semântica Cognitiva diz respeito ao fato de que ela reflete os padrões de pensamento de forma que entender o significado linguisticamente equivale a entender os padrões de conceptualização mentais. Em outras palavras, isso quer dizer que podemos investigar a estruturação da cognição observando como
75 No original: (...) the importance of human experience, the centrality of the human body, and human-specific cognitive structure and organisation, all of which affect the nature of our experience.
76 No original: depends on brain-body interactions.
77 No original: (...) basic perceptual, motor-program, emotional, historical, social, and linguistic dimensions.
esses padrões se refletem na linguagem, movimento esse que buscamos realizar por meio desta pesquisa. Aqui concebemos a linguagem como parte integrante da cognição, porém, sem deixar de lado a interface entre língua e cultura, especialmente porque, quando falamos de significado, falamos também de cultura que, em síntese, pode ser definida como uma atividade de construção de símbolos e de significados cooperativamente (KÖVECSES, 2010, p. 740). Cultura, portanto, é linguagem, é significado, ou seja, ela também integra os processos cognitivos de significação e, como tal, é um assunto que perpassa as reflexões propostas aqui.
Ainda que tanto o referencial teórico quanto os modelos de metodologia adotados tenham partido das abordagens em Semântica Cognitiva, nosso objeto de estudo possui um forte vínculo com áreas de estudo em Educação. Esse objeto de estudo - a categoria PROFESSOR - torna-se de interesse por ter sido identificado, no cotidiano escolar, certa hierarquização entre profissionais, o que poderia ser indício da existência de membros mais prototípicos e outros menos. Assim, buscamos compreender como se estrutura a categoria apontando o seu membro mais prototípico que reúne os atributos considerados centrais para a identificação imediata desse membro.
Com as análises empreendidas, buscamos compreender cenas da vivência cotidiana dos profissionais, desvendando articulações de sentido e atividades mentais envolvidas na constituição dos significados. Por conseguinte, a análise linguística serviu de acesso ao sistema conceptual, responsável pelo armazenamento dos padrões cognitivos que estruturam a nossa forma de pensar, agir e falar e que, devido a isso, são indispensáveis para dar sentido à nossa experiência. Dentro da abordagem empregada, nos apropriamos dos conceitos de frame e MCI (EVANS; GREEN, 2006; FERRARI, 2011; LAKOFF, 1990) que foram fundamentais para as análises visto que se tratam de elementos estruturantes do sistema conceptual. Além deles, também foram essenciais as noções de categorização, protótipo, metáfora conceptual, metáfora deliberada, metáfora não deliberada e metonímia conceptual (ROSCH, 1978; LAKOFF, 1990;
LAKOFF; JOHNSON, 2002; LITTLEMORE, 2015; KÖVECSES, 2020).
Retomando as questões de pesquisa que deram origem a esta investigação, buscamos aqui responder primeiramente: Quais estruturas e processos cognitivos fundamentam a conceptualização da categoria PROFESSOR nos dados analisados? Dessa forma, a pesquisa voltou- se para a categorização de PROFESSOR com o intuito de identificar, descrever e analisar os MCIs estruturantes. A segunda questão de pesquisa buscou apontar qual seria o protótipo da categoria
PROFESSOR no contexto investigado, para tanto, observando como se comportam os membros