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De modo bem simplificado, pode-se dizer que uma atividade profissional se fundamenta em um tipo de transação em que um trabalhador oferece sua mão-de-obra para um empregador com o intuito de receber, em troca, uma remuneração pelo serviço executado. Desconsiderando as particularidades de cada campo profissional, ou ainda as diversas variáveis que existem dentro de uma mesma profissão, identificamos elementos básicos que podem compor o domínio de atividade profissional como, por exemplo, o empregador, o empregado, determinada atividade laboral, remuneração, carga horária, instrumentos de trabalho, um local onde se executa a atividade laboral, divisões de tarefas que geralmente resultam em hierarquização de funções ou ainda a subsistência do trabalhador como sendo uma das principais motivações para a realização da atividade.

Dessa forma, é possível ativar o frame PROFISSÃO por meio de qualquer um dos elementos constituintes (compensação, área de atuação, tempo, empregador, local de trabalho etc.). Nos excertos destacados abaixo encontram-se casos em que o conceito PROFESSOR se fundamenta no frame PROFISSÃO, ainda que eles não representem a maioria das menções encontradas nas entrevistas.

(1) a gente precisa pagar as contas, então surgiu a oportunidade de fazer um concurso (...) (E1/p. 2/linha: 30- 31).

(2) então quer dizer (.) você tem que gostar (.) primeiro. mas se você não gostar, você tem que ter uma boa técnica, ( ) ah tem que amar, não, não, não. camarada, não gostava mas eu precisava ganhar dinheiro.

(E4/p. 23/linha: 219-222)

(3) (...) você queira. porque vo- sua mãe t- tá pensando assim, na minha falta (.) minha filha é professora?

entendeu o raciocínio da sua mãe. tá, é isso que ela pensou hh não é é, ela não tá querendo fazer maldadezinha com com a filhinha não, ela tá pensando que pelo menos você tem uma profissão? você tem uma profissão. (E4/p. 23/linha: 230-234)

(4) isso, isso, isso (.) então eu acho que o professor se ele veio por profissão, ou por q- não sei, tem que ser um bom profissional. e tem que estar sim se capacitando sim (E4/p. 25/linha: 284-285)

Observamos no excerto 1 como o Entrevistado 1 se refere à questão financeira como motivação para a iniciação na carreira docente, algo que é evidenciado na expressão “pagar as contas”, indicando uma aproximação da prática docente com a noção de que é uma atividade realizada em troca de uma compensação financeira como qualquer outra prática profissional.

Além dessa, no excerto 2, há menção à motivação do profissional relacionada à questão financeira em “ganhar dinheiro”. Tais expressões nas falas de E1 e E4 denotam que um trabalhador estaria executando sua função, primordialmente, em troca de salário para sua subsistência, mesmo que, segundo a fala do Entrevistado 4, no excerto 3, haja indicação da presença de afetividade, quando afirma que é importante, mas não essencial, gostar de atuar como professor.

Nos excertos 3 e 4, o entrevistado enfatiza novamente a relação do magistério com a noção de atividade profissional, como a própria repetição do termo “profissão” e a variação dele

profissional” demonstra. Com o termo “capacitando”, presente no excerto 4, há também uma ativação de conceitos relacionados ao frame PROFISSÃO, mas com foco na preparação desse profissional. O excerto 3 apresenta ainda um incentivo para novos ingressantes na carreira, apontando para necessidade de possuir uma fonte de renda, sendo o magistério uma forma válida de obtê-la. É importante destacar que tais expressões não são identificadas como metafóricas, haja vista que o magistério é, de fato, uma atividade profissional e, com isso, é esperada que haja essa compensação pela realização da atividade, além do preparo do profissional para realizá-la.

Contudo, é plausível admitir que haja uma outra classificação de “trabalho” ou “atividade profissional”, uma definição do que prototipicamente reconheçamos como tal, uma ideia que vem de encontro à noção de categorização estruturada por Eleanor Rosch já tratada no capítulo de fundamentação teórica (2.2). Nesse sentido, podemos considerar certas atividades mais prototípicas e, portanto, mais facilmente reconhecidas como trabalho, enquanto, por outro lado, pode haver uma certa dificuldade em reconhecer e tratar como trabalho atividades que estejam muito distantes desse modelo prototípico. É o que acontece, por exemplo, com as novas profissões que surgem devido ao advento tecnológico e aos avanços da comunicação via digital em que muitos trabalhadores passam a atuar profissionalmente de forma virtual, sem que haja, necessariamente, uma relação entre um empregador e empregado, nem mesmo um local de

deslocamento para o qual o trabalhador se direciona, sendo sua residência o próprio local de trabalho, o seu celular o principal (talvez o único) equipamento utilizado para a produção laboral.

Um modelo de trabalho altamente disseminado tem origem nos Estados Unidos por volta de 1930, durante o que ficou conhecido como Revolução Industrial. O modelo em questão tem como princípio a divisão de tarefas, fundamentando-se na observação dos pretensos benefícios do trabalho especializado e na promessa de “desenvolver métodos e ferramentas capazes de permitir que trabalhadores produzam significativamente mais com menos esforço físico”

(TANENBAUM, 2022, n.p). Durante a revolução industrial ocorreram consideráveis transformações nas relações de trabalho e produção. Uma das maiores mudanças tem relação com o desenvolvimento de um modelo de trabalho que ficou conhecido como Taylorismo, pois recebe como alcunha o nome de um dos principais idealizadores, Frederick W. Taylor51. Podemos mencionar como componentes desse modelo noções de padronização e controle de qualidade, além do desenvolvimento de maquinário e métodos, tudo isso servindo ao propósito de promover um maior fluxo de produção, ou seja, para produzir em maior quantidade e de forma mais eficiente, dessa forma, ao mesmo tempo, reduzindo-se o tempo e o custo de produção.

Tomando o modelo de trabalho Taylorista como domínio-fonte de uma metáfora, seria possível mapear essa estrutura conceptual, que remete à fábrica, para o domínio-alvo, assim, constituindo a metáfora não ESCOLA É FÁBRICA. Oxford et al (1998 apud SARDINHA, 2007) foi capaz de identificar em narrativas de alunos a conceptualização do professor e de sua atividade apoiada na metáfora PROFESSOR É OPERÁRIO, uma vez que percebe como as queixas de estudantes em relação a “ensinar correndo” para dar conta de um programa e/ou de inúmeras tarefas se assimilam à concepção da linha de produção, em que operários estão em constante pressão para realizar a entrega de diversas tarefas com qualidade no menor tempo possível. Em decorrência do foco na produção, esse modelo tem como característica determinante um distanciamento de qualquer relação a afetividade, dessa forma, ao realizar o mapeamento, nota-se uma objetificação de alunos que acabam sendo encarados como meros produtos sendo manipulados pelo professor/operário. Veremos abaixo como esse modelo aparece nos dados coletados.

51 Frederick Taylor foi um economista e engenheiro mecânico estadunidense que desenvolveu teorias e técnica com o objetivo de garantir o maior proveito do trabalho de forma a gerar maior riqueza. A sua principal preocupação recaía sobre a organização e divisão de funções dos trabalhadores, pois, para ele, esse seria o fator determinante para o sucesso da empresa (RIBEIRO, 2015).

(5) os pais que tentaram ser professor (.) agora eu acho que vai valorizar mais o professor, porque não é só isso, passar dever lá e toma, não é. é muito mais do que isso. entendeu. então quer dizer (.) você tem que gostar (.) primeiro. mas se você não gostar, você tem que ter uma boas técnica. (E4/Linha: 239-244).

(6) ser professor é (.) ah eu acho que isso aí é muito romântico. ser professor é estudar e: e: dar saber o que que vai acontecer, o que ( ) os percalços e as alegrias e: tem não ( ) não difere de outra profissão. cada uma no seu sentido mas no no final é: os objetivos são de qualidade de qualquer profissão. todo mundo quer fazer o máximo com qualidade. (E6/Linha 48-52).

(7) então a gente tem que aceitar. então a gente tem que fazer trabalho remoto, tem que alfabetizar no 5°

ano, né. a gente tem que dar conta do aluno que tá na sala, você tem que fazer planejamento, você tem que, é: preencher esses documentos que que a secretaria de educação inventa. entendeu. você tem que correr risco de pegar um covid (.) né hh. tudo isso e sorrindo. e sorrindo né. sem descer do salto.

(E8/Linha 96-100)

Nas ocorrências destacadas acima encontram-se indícios de conceptualizações remetendo à ideia de atividade profissional, ainda que essa forma de conceptualizar PROFESSOR não tenha se confirmado como algo recorrente e, portanto, não se aproxime do modelo prototípico identificado nas falas dos entrevistados. Podemos observar, por exemplo, no excerto 5, como o professor está sendo qualificado como um profissional, segundo o conceptualizador, não muito diferente de qualquer outro. Também se nota nesse trecho uma comparação entre “pais” e “professores”, comparação essa utilizada para reforçar a distinção entre um grupo e o outro, uma vez que os

“pais” estariam teoricamente cumprindo a função de professores mesmo não estando habilitados para tal. Isso ocorreu porque, durante o período pandêmico havia uma situação emergencial em que todos os alunos precisavam estudar remotamente em suas casas, assim, com a comparação, deduzimos que a intenção do entrevistado seja contestar a tese da afetividade como fator determinante para a competência profissional do professor e, devido a isso, “pais” não poderiam cumprir essa função de forma adequada, apenas os professores poderiam.

Portanto, observa-se que o Entrevistado 5 (E5) faz referência ao necessário preparo que um professor precisa ter para executar sua atividade profissional de maneira apropriada. Para o entrevistado, é necessário ter “uma boa técnica”, o que não estaria relacionado à questão afetiva, já que você não precisa gostar e sim fazer o seu trabalho de forma efetiva. É possível relacionar essa noção à ideia de produção taylorista mencionada anteriormente, pois nota-se aqui uma fala de priorização de determinada técnica com intuito de atingir o ideal de qualidade e esse ideal teria relação com o manejo adequado das técnicas de produção e de gestão do trabalho.

Na fala do Entrevistado 6 (E6), destacamos ainda a palavra “romântico”, um uso que destoa do contexto, indicando possível presença de metaforicidade. No contexto em que é empregada, a palavra “romântico” é utilizada como forma de criticar uma postura sentimental, afetiva com a

qual se significa a profissão docente, visto que no seu sentido básico, a palavra relaciona-se com termos como “romance; poético; fantasioso” (ROMÂNTICO, 2022). Porém, esse é um sentido que pode remeter também ao frame RELIGIÃO, uma vez que a raiz do modelo educacional brasileiro se encontra na prática de ordens religiosas, especialmente na ordem jesuíta, cuja prática pedagógica se fundamenta no conceito de missionarismo. Uma missão denota a essa visão romântica visto que, dentro do frame RELIGIÃO, ela se refere à prática do missionário que se dedica a ela com devoção, com amor. Nesse tipo de prática nota-se a total entrega do missionário à sua ordem que o incube de tarefas que devem ser cumpridas por ele sem remuneração, de forma que, assim, ele possa provar a sua devoção. Entretanto, conclui-se que a fala do Entrevistado 6 traz um sentido divergente da postura “romântica” e então procura expor a rejeição dessa conceptualização, preferindo, ao invés disso, ativar o conceito de PROFISSÃO que, segundo ele, seria não-romântico, ou mais realista. As menções a “qualidade” e “fazer o máximo com qualidade”, também do Entrevistado 6, podem remeter diretamente à noção de produção, trazendo novamente uma característica do movimento taylorista que se pauta na produção em larga escala buscando uniformização, técnicas de produção e controle de qualidade de forma a reduzir custos e, consequentemente, aumentar os lucros.

Enquanto isso, a conceptualização destacada no excerto 7 apresenta uma repetição lexical que chama atenção, a locução verbal “tem que” com sete repetições em um espaço de quatro linhas, fato indicativo de que o autor está reforçando algo importante. As leituras desse trecho demonstram que o conceptualizador gostaria de enfatizar a sua indignação com o acúmulo de tarefas, algo que, se antes, já era uma realidade para educadores, após o início da pandemia, passou a ser algo ainda mais marcante. Observa-se que o dicionário apresenta como sentido básico dessa expressão verbal “o ato de ter obrigação ou necessidade de fazer alguma coisa”

(NEVES, 2022) e, no contexto textual, é esse mesmo sentido que está sendo ativado, entretanto, chama atenção a quantidade de repetições, sendo que cada uma adiciona uma nova tarefa que o falante teria de dar conta. Portanto, as tarefas variam e se acumulam: fazer trabalho remoto”,

“alfabetizar no quinto ano”, “dar conta do aluno que tá na sala”, “fazer planejamento”,

“preencher esses documentos que a secretaria de educação inventa”. Porém, a última delas, na verdade, denuncia uma postura crítica do falante pois, ao mencionar que uma das tarefas seria

“pegar um covid”, nota-se que ele pretende enfatizar a situação de risco em que os profissionais estão expostos, uma vez que abrir escola neste momento, significaria permitir a exposição tanto

de profissionais da escola, quanto de alunos e familiares de ambos os grupos ao mortal vírus da Covid-19, atualmente responsável pela morte de 690,677 brasileiros (BRASIL, 2022). Na figura 6, apresentamos uma representação dos mapeamentos identificados por meio das metáforas

ESCOLA É FÁBRICA em que se inclui a noção também metafórica PROFESSOR É OPERÁRIO.

Figura 6 - Representação dos mapeamentos metafóricos de ESCOLA É FÁBRICA

Fonte: A autora, 2023.

Em suma, é possível identificar em certos momentos o modelo de conceptualização do professor fundamentado na metáfora PROFESSOR É OPERÁRIO, entretanto, esse tipo de ocorrência é pouco presente nos dados, o que leva a crer que tal modelo esteja bem distante do modelo prototípico de PROFESSOR. Diferente deste, o modelo que apresentaremos a seguir é muito mais recorrente e pode ser observado em todas as entrevistas, uma vez que, ainda que a ocorrência seja em forma de crítica ou de negação, consideramos que há ativação e reforço de um frame (LAKOFF, 2014). Trataremos, na próxima seção, do modelo cognitivo que estrutura PROFESSOR

como um integrante da família de seu aluno.