Vale mencionar também que Joaquim de Albuquerque Barros destaca que a sociedade romana atribui uma série de acepções diferentes para a ideia de moralidade338: i) a relação das ações do homem com a lei que lhe serve como norma; ii) um juízo de valor sobre como as ações podem ser boas ou más, justas ou injustas; iii) um juízo de valor sobre como as pessoas podem ser virtuosas ou viciosas, boas ou más; iv) um complexo de regras destinadas a regular as ações; v) o complexo das ações ou o caráter nacional de um povo, conforme as regras da moral, o que a aproxima da ideia de boni mores. Além disso, o jus naturale no Direito Romano, o que seria equivalente ao Direito Natural, tinha o peso no sistema de ser o complexo das concepções jurídicas adequadas à noção do justo339.
Tais ilações são de grande relevância para expor que a busca em uma moralidade ou em critérios fornecidos pelo Direito Natural para encontrar a solução de problemas na ordem jurídica não se mostra uma iniciativa inovadora. Pelo contrário, se uma sociedade complexa como a romana se utilizava de tais ferramentas para a solução de problemas que surgiam no ordenamento jurídico é sinal de que elas podem ser resgatadas e servir de fundamento para a solução de novos problemas que não foram inicialmente previstos pelo ordenamento, tais como os decorrentes da interferência da inteligência artificial na autonomia privada.
Ainda sobre a autonomia privada no Direito Romano, é possível afirmar que, apesar de ter sido pouco tratada de forma teórica no Direito Romano, trata-se de um instituto que era posto em prática com base no status dos sujeitos de direito340. Isto é, a depender do papel que o sujeito de direito exerce em determinada situação, seria possível delimitar o grau de liberdade que tal sujeito possui para a prática de determinados atos vinculados ao papel que ele está a desempenhar341.
No direito das obrigações, Luís Rodolfo Argüello expõe que a ideia de contrato não se limitava à concepção de acordo de vontades, mas somente aqueles que a própria lei
338GUIMARÃES, Joaquim de Albuquerque Barros. Elementos de Direito Romano. Recife: Typografia do Jornal do Recife,1883,pp.40-41.
339GUIMARÃES, Joaquim de Albuquerque Barros. Elementos de Direito Romano. Recife: Typografia do Jornal do Recife,1883,p.48.
340BALDUS, Christian. Autonomia privada romana. Revista dos Tribunais, v. 904, São Paulo, fev, 2011,versão digital.
341JakobFortunatStagl destaca que os meios idôneos de manutenção ou melhora de classe social de um indivíduo eram o nascimento e o casamento, portanto as áreas de direito que ganhavam mais relevância social eram o direito de família e sucessões. (STAGL, JakobFortunat. Autonomía Privada y Ley Pública em Roma.Revista General de Derecho Romano, n. 27, Madrid, Diciembre, 2016,p.12.)
BALDUS, Christian. Autonomia privada romana. Revista dos Tribunais, v. 904, São Paulo, fev, 2011,versão digital.
atribui expressamente os efeitos de obrigações civis342, exigindo uma fórmula específica com nomenclatura própria para cada acordo343. Tal circunstância leva ao raciocínio de que, na ótica romana, a autonomia privada era um ponto global de equilíbrio de interesses pré- determinados de acordo com o papel decorrente do status que o indivíduo desempenha de forma situada, mas não como um caminho em busca de interesses individuais e nem um instrumento de correção inspirado na equidade344. Nesse sentido, Felipe Frank expõe que a
“autonomia, portanto, era um conceito relativo ao todo, à política, alheio à noção de individualidade, de vontade do sujeito, e isso perdurou por praticamente toda a Idade Média”345.
Esse retorno superficial ao Direito Romano, portanto, serve para demonstrar que a autonomia privada, enquanto importante instrumento do ordenamento jurídico não está restrita à concepção da modernidade derivada do individualismo jurídico decorrente dos movimentos políticos do século XVIII346. Assim, a autonomia privada não pode ser vista como uma contraposição ao regime de legalidade e indisponibilidade do interesse público, conforme era proposto pela Revolução Francesa347.
Trata-se de uma noção de grande importância porque representa um freio à ideia de que a autonomia privada só está ligada à liberdade do indivíduo de praticar o ato que bem entender na persecução de qualquer finalidade permitida pelo ordenamento jurídico. E, além disso, reconhece que é possível estipular quais são as liberdades que o sujeito de direito pode praticar a depender do papel situacionado que ele pretende exercer.
Então, por exemplo, é possível admitir que, a partir do momento em que um indivíduo sujeita sua manifestação de vontade ao crivo da interferência de um algoritmo de inteligência artificial, nem sempre tal conduta será considerada adequada a depender do nível de interferência da sugestão do algoritmo e da importância que a escolha proferida pela manifestação de vontade possui para o indivíduo. O raciocínio dos romanos quanto à autonomia privada também permite estipular que as prerrogativas decorrentes da autonomia
342ARGÜELLO, Luís Rodolfo. Manual de Derecho Romano. Buenos Aires: Editorial Astrea de Alfredo y Ricardo Depalma, 1998,p. 297.
343PETIT, Eugène. Tratado Elemental de Derecho Romano. Ciudad de México: Editorial Porrúa, 2007, p. 317.
344BALDUS, Christian. Autonomia privada romana. Revista dos Tribunais, v. 904, São Paulo, fev, 2011,versão digital.
345 FRANK, Felipe. A consolidação da autonomia da vontade como cânone do direito privado moderno: o caso do Code Napoleônico de 1804. Civilistica.com. Rio de Janeiro, a. 11, n. 1, 2022, p. 03
346 D’AQUINO, Lúcia Souza. O interesse individual e coletivo no cumprimento do contrato: da autonomia privada à função social. Revista do Programade Pós-Graduação em Direito da UFBA. v. 27. n. 01, Salvador, 2017, p. 203.
347 RIBEIRO, Marcus Vinícius Magalhães Cecilio; AYLON, LisleneLedier. O princípio da autonomia privada e seus contornos hodiernos. Revista Eletrônica da Faculdade de Direito de Franca. v. 14. n. 1, São Paulo, jun.
2019, p. 361.
privada do indivíduo que faz uso da inteligência artificial são diferentes do titular do algoritmo de inteligência artificial que fornece sua tecnologia para servir aos interesses de um usuário.
Tais diferenciações e adequações na aplicação da autonomia privada vai depender de um olhar mais detalhado para a situação do caso concreto, o que permite também uma análise casuística da matéria, bem como a aplicação de usos e costumes como uma linha auxiliar para definir quais liberdades estão de acordo com os preceitos do ordenamento jurídico brasileiro e quais representam situações abusivas que não estão em conformidade com o Direito Privadobrasileiro.