2.2 Os pilares do mundo hiperconectado
2.2.3 Machine Learning
José Vida Fernándezexplica que a inteligência artificial pode se basear em uma espécie de aprendizado automático, conhecido como machinelearning, que pode ser resumido como a possibilidade de realizar tarefas complexas a partir de grandes quantidades de dados sem ter sido programada para isso de forma específica62. Assim, o machinelearningconsiste numa habilidade integrada a alguns sistemas de inteligência artificial diferenciando-os pela possibilidade de adquirir conhecimento próprio a partir de dados não processados63.
Entretanto, é importante esclarecer que o campo da inteligência artificial nem sempre foi associado ao machinelearning. Kai-Fu Lee bem explica que haviam dois tipos de abordagem: i) baseada em regras; ii) baseada nas redes neurais; a primeira com programadores que tentavam ensinar os computadores a executar tarefas seguindo regras lógicas e pré-determinadas e a segunda sendo uma tentativa de reconstruir as “redes neurais”
do cérebro humano a partir de camadas de “neurônios” artificiais que recebem e transmitem informações, método este que se baseia justamente no machinelearning64.
Ao contrário da abordagem baseada em regras, os construtores de redes neurais em geral não fornecem às redes regras a serem seguidas na tomada de decisões. Eles simplesmente inserem muitos exemplos de um determinado fenômeno – imagens, jogos de xadrez, sons – nas redes neurais e permitem que as próprias redes identifiquem padrões dentro dos dados. Em outras palavras, quanto menos interferência humana, melhor.65
Tal guinada em prol do uso do machinelearning ocorreu de maneira intensa apenas nas duas últimas décadas. Para ilustrar essa mudança, Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier detalham que nos anos 2000, pesquisadores da Microsoft estavam a procura de uma maneira de melhorar o verificador gramatical do programa “Word” e continuavam incertos sobre qual seria o melhor método para alcançar esse objetivo, então decidiram analisar o que aconteceria se simplesmente alimentassem os bancos de dados existentes com
62FERNÁNDEZ, José Vida. Los retos de laregulación de lainteligencia artificial: algunasaportaciones desde la perspectiva europea. In: MANÃS, José LuisPiñar, QUADRA-SALCEDO, Tomás de la, CASTILLO, Fernández del. Sociedad Digital y Derecho. Madrid:Ministerio de Industria, Comercio y Turismo,p. 207.
63HARTMANN PEIXOTO, Fabiano; SILVA, Roberta Zumblick Martins da. Inteligência Artificial e Direito.vol 1. Curitiba: Alteridade, 2019, p. 89.
64LEE, Kai-Fu. Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019, p.20.
65LEE, Kai-Fu. Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019, p.21.
os métodos que já estavam sendo utilizados66. Todos os algoritmos, sem exceção, melhoraram sua performance à medida que tinham acesso a mais dados. Esse avanço no uso do machinelearning ocorreu a partir da descoberta, em meados dos anos 2000, de um novo modo de treinar as camadas das redes neurais artificiais67: criação de comandos para os algoritmos usarem gigantescas quantidades de dados em um domínio específico para apresentar uma decisão a partir do reconhecimento de padrões para otimizar um resultado desejado68.
Ao tratar do assunto, Paulo Victor Alfeo Reis explica que a grande vantagem do machinelearning é poupar o trabalho dos programadores que ficariam dispensados de elaborar grandes códigos e rotinas com instruções específicas para a máquina, pois o algoritmo, no aprendizado de máquina, é treinado para aprender sozinho69. Antes do desenvolvimento do machinelearning isto não era possível, pois a máquina só tinha a capacidade de fornecer uma resposta a partir de uma programação pré-estabelecida através de comandos previamente conhecidos, só que não conseguia entregar um resultado eficiente quando passava a lidar com situações desconhecidas70.
Para elucidar ainda mais esse tipo de raciocínio, David Sumpter explica como foi o treinamento de um algoritmo desenvolvido pelos programadores do Google para que um computador aprendesse, através de machinelearning, a jogar um clássico jogo de arcade chamado Space Invaders:
Com configurações aleatórias, a rede neural perde vários jogos, mas de vez em quando ela atira “acidentalmente” em um alienígena e marca pontos. O processo de treinamento examina essa longa lista de capturas de tela (entradas), movimentos do joystick (ações) e pontuações (saídas), e determina se as ações realizadas aumentaram ou diminuíram a pontuação da rede neural. A rede é, então, atualizada de modo que as conexões que geram pontos são fortalecidas e aquelas que resultam em perda de uma vida são enfraquecidas. Após semanas de treinamento em alguns dos computadores mais rápidos do mundo, a rede neural consegue associar padrões específicos de tela às ações do joystick que geram a maior pontuação.71
66 MAYER-SCHÖNBERGER, Viktor e CUKIER, Kenneth. Big Data. New York: First Mariner Books, 2014, p. 36.
67LEE, Kai-Fu. Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019, p.22.
68LEE, Kai-Fu. Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019, p.23.
69REIS, Paulo Victor Alfeo. Algoritmos e o Direito. São Paulo: Almedina, 2020, p. 136.
70 OLIVEIRA, Carla. Aprendizado de máquina e modulação do comportamento humano. In: SOUZA, Joyce, AVELINO, Rodolfo e SILVEIRA, Sérgio Amadeu (org.). A Sociedade de controle: manipulação e modulação nas redes digitais. São Paulo: Hedra, 2018, p. 75.
71SUMPTER, David. Dominados pelos números. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019, p. 234.
Em outras palavras, o algoritmo utilizado no machinelearning não é criado para solucionar uma tarefa específica, mas sim para que a inteligência artificial possa aprender por conta própria a resolver os problemas propostos e, até mesmo, chegar a resultados não previstos pelos seus desenvolvedores. Sobre o assunto, Fabiano Hartmann Peixoto e Roberta Zumblick Martins da Silva explicam que o machinelearning pode ser dividido em:
supervisionado, não supervisionado e por reforço.
Os algoritmos de aprendizagem supervisionada se caracterizam por utilizarem um banco de dados com “elementos anotados”. Isto é, cada dado já foi previamente associado a uma classificação ou etiqueta que vai permitir um reconhecimento de padrões, a exemplo de um banco de dados de imagens de plantas em que cada imagem já está previamente rotulada pela espécie a que pertence72. O que diferencia para os algoritmos de aprendizagem não supervisionada é justamente a possibilidade de o sistema de inteligência artificial trabalhar com um banco de dados sem a necessidade de “elementos anotados” por um ser humano, o que aproxima o tipo de raciocínio com a forma como os humanos aprende e garante uma maior abrangência de aplicação73.
Por fim, a aprendizagem por reforço está associada a um processo de aprendizagem da máquina a partir da interação com o mundo real e não a um banco de dados pré-definido:
Em vez de teorizar sobre como as pessoas aprendem, adota-se a perspectiva de um pesquisador de IA. Explorando-se situações idealizadas de aprendizagem para se avaliar a efetividade de uma série de métodos, explorando concepções que resolvam problemas com interesse científico ou econômico, avaliando essas concepções por análises matemáticas e experimentos computacionais.74
Isto é, o sistema de inteligência artificial vai ter também a capacidade de interagir com o mundo real para colher e alimentar um banco de dados próprio e, depois, a partir da aprendizagem não supervisionada chegar a decisões dotadas de um maior grau de subjetividade. Este é o tipo de inteligência artificial que está associada, por exemplo, ao
72HARTMANN PEIXOTO, Fabiano; SILVA, Roberta Zumblick Martins da. Inteligência Artificial e Direito.vol 1. Curitiba: Alteridade, 2019, p. 91.
73HARTMANN PEIXOTO, Fabiano; SILVA, Roberta Zumblick Martins da. Inteligência Artificial e Direito.vol 1. Curitiba: Alteridade, 2019, p. 94.
74HARTMANN PEIXOTO, Fabiano; SILVA, Roberta Zumblick Martins da. Inteligência Artificial e Direito.vol 1. Curitiba: Alteridade, 2019, p. 95.
desenvolvimento de veículos com direção automatizada. Neste caso, os algoritmos estão sendo treinados para “ver” o mundo por meio do reconhecimento de padrões nos pixels de câmeras instaladas nos automóveis e relacionando-os com o que encontram pelo caminho (sinais de parada, por exemplo) para tomar decisões, como frear um carro, afim de levar o passageiro para seu destino no menor tempo possível (resultado desejado)75.
CathyO’Neil bem explica que esse processamento dos dados por meio do machinelearning faz com que as máquinas, aos poucos, moldem os dados colhidos dos seres humanos e os transformem em dados novos, ou seja, pesquisam pelos nossos hábitos, esperanças, medos e desejos e, acopladas a algoritmos de inteligência artificial para encontrar padrões, os desenvolvem, e depois os devolvem para o mundo real para continuar analisando as consequências dos resultados apresentados com os seres humanos e com outras máquinas76.
A partir desse raciocínio não é difícil perceber a complexidade que um mundo hiperconectado apresenta, pois a programação de algoritmos de inteligência artificial associados ao machinelearning termina por permitir que as máquinas apresentem recomendações de tomadas de decisão que não foram originalmente programadas para alcançar e que influenciam na vida de sujeitos de direito, restando até o questionamento se seria possível a existência de um ato jurídico praticado por uma máquina sem uma prévia manifestação de vontade e outras dúvidas correlacionadas.