1.3 ELEMENTOS FORMADORES DA RESPONSABILIDADE CIVIL
1.3.4 C ULPA
O elemento culpa será o último elemento formador da Responsabilidade Civil a ser estudada.
A exigência da culpa como pressuposto da Responsabilidade Civil representou, na lição de Gagliano [2006, p. 121], um grande avanço na história da civilização, onde a resposta ao mal causado era difusa, passando-se a exigir um elemento subjetivo que pudesse viabilizar a imputação psicológica do dano ao seu agente.
Um dos pressupostos para caracterizar a Responsabilidade pela reparação do dano, segundo Rodrigues [2001, p. 16], é a culpa ou dolo do agente que causou o prejuízo. De modo que, para que a Responsabilidade se caracterize, mister se faz a prova de que o comportamento do agente causador do dano tenha sido doloso ou pelo menos culposo.
Dispõe Diniz [2006, p. 42] que a regra básica é que a obrigação de indenizar, pela prática de atos ilícitos, advém da culpa.
Em sentido amplo, Venosa [2003, p. 23] ensina que culpa é a inobservância de um dever que o agente devia conhecer e observar.
E acrescenta:
A culpa é a falta de diligência na observância da norma de conduta, isto é, o desprezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado não objetivado, mas previsível, desde que o agente se detivesse na consideração das conseqüências eventuais de sua atitude.
No ordenamento jurídico brasileiro, segundo Diniz [2006, p.
44], vigora a regra geral de que o dever ressarcitório pela prática de atos ilícitos decorre de culpa. Portanto, o ato ilícito qualifica-se pela culpa. Não havendo culpa, não haverá, em regra, qualquer responsabilidade.
Nesse sentido, extrai-se da jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS CAUSADOS POR ACIDENTE NO TRÂNSITO - ADOLESCENTE QUE ATRAVESSA RODOVIA FEDERAL, NO PERÍODO NOTURNO - MOTORISTA DE ÔNIBUS QUE NÃO CONSEGUE EVITAR O ATROPELAMENTO - OMISSÃO DE SOCORRO NÃO CONFIGURADA - DESEJO DE ESPERA POR ATENDIMENTO ESPECIALIZADO - AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE CULPA DO PREPOSTO DA EMPRESA DE TRANSPORTE DE PASSAGEIROS - REQUISITOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL NÃO EVIDENCIADOS - INTELIGÊNCIA DO ART. 159 DO CÓDIGO CIVIL DE 1916, APLICÁVEL À ESPÉCIE - ÔNUS DA PROVA QUE INCUMBIA AO AUTOR - ART. 333, I, DO CPC - DESPROVIMENTO DO RECURSO. Em rodovias estaduais e federais, cuja velocidade é superior à empregada nas estradas urbanas, o dever de diligência cumpre ao pedestre, que deve tomar um extremo cuidado ao atravessá-las, estando afastada a previsibilidade por parte do motorista e, por conseqüência, a sua culpabilidade, sobretudo quando observa as normas básicas de trânsito. (Apelação Cível Nº. 2005.019505-0 de Balneário Camboriú. Des. Relator: Sérgio Izidoro Heil. Data da Decisão:
30/09/2005).
Sendo assim, a culpa é um dos pressupostos da Responsabilidade Civil, pois somente haverá obrigação de ressarcir se o sujeito tiver procedido com culpa.
Sobre o elemento culpa, eis o que apregoa Gonçalves [2007, p. 295]:
Para que haja obrigação de indenizar, não basta que o autor de fato danoso tenha procedido ilicitamente, violando um direito de outrem ou infringindo uma norma jurídica. É essencial que ele tenha agido com culpa: por ação ou omissão voluntária, por negligência ou imprudência, como se expressamente se exige no art. 186 do Código Civil.
A culpa, na lição de Gomes [2001, p. 34], é dividida em culpa lato sensu e culpa strictu sensu. A culpa em lato sensu compreende o dolo, que é a intenção de realizar um ilícito, a conduta do agente é dirigida voluntariamente para a prática do dano; e a culpa em strictu sensu, onde o dano é produzido por o sujeito não ter se conduzido de forma diligente.
Nesse mesmo sentido, Venosa [2003. p. 23] discorre que a noção de culpa em sentido estrito é a conduta voluntária contraria ao dever de cuidado imposto pelo Direito, com a produção de um evento danoso involuntário, porém previsto ou previsível.
Diante do exposto, pode-se dizer que o dolo consiste na vontade de cometer uma violação de direito, e a culpa, na falta de diligência.
A culpa em sentido estrito abrange a imprudência, a negligência e a imperícia. Para tanto, eis o conceito de Gonçalves, [2007, p. 298- 299] para essas três categorias:
A imprudência é conduta positiva, consistente em uma ação da qual o agente deveria abster-se, ou em uma conduta precipitada.
A negligência consiste em uma conduta omissiva por não tomar as precauções necessárias ao praticar uma ação. A imperícia é a incapacidade técnica para o exercício de uma determinada função, profissão ou arte.
Sobre o elemento culpa, de um modo geral, têm-se os breves dizeres de Venosa [2003, p. 25], que a culpa, sob os princípios consagrados da negligência, imprudência e imperícia contém uma conduta voluntária, mas com resultado involuntário, a previsão ou a previsibilidade e a falta de cuidado devido, cautela ou atenção.
Ainda sobre o elemento culpa, o evento danoso pode derivar de culpa concorrente, o que, para Rodrigues [2001, p. 165], a Responsabilidade se atenua, pois o evento danoso defluiu tanto de sua culpa – do agente – quanto da culpa da vítima.
A culpa concorrente é aspecto que interessa na fixação da indenização. Venosa, [2003, p. 28] leciona que, constatado que ambos partícipes agiram com culpa, ocorre a compensação. Cuida-se, portanto, de imputação de culpa a vítima, que também concorre para o evento.
Sobre o tema, o Código Civil traz dispositivo expresso a respeito:
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano. Nesse sentido, extrai-se da jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:
APELAÇÃO CÍVEL. REPARAÇÃO DE DANOS. ACIDENTE DE CIRCULAÇÃO. ABALROAMENTO DE VEÍCULO QUE INICIAVA CONVERSÃO DE MANOBRA À ESQUERDA, SEM AS DEVIDAS CAUTELAS. EXCESSO DE VELOCIDADE, TODAVIA, DO
SEGUNDO VEÍCULO. CULPA CONCORRENTE
CARACTERIZADA. Responsabilidade civil. Ação de reparação de dano causado em acidente de veículos. Motoristas que em via urbana fazem manobras de conversão à esquerda e de ultrapassagem sem observância das regras de trânsito.
Concorrência de culpa. É de ser reconhecida concorrência de culpas dos condutores quando o acidente de veículos ocorre por inobservância das regras de conversão à esquerda e de ultrapassagem do Código Nacional de Trânsito. (Apelação cível
Nº. 98.017039-7 de Lauro Müller. Des. Relator: Vanderlei Romer.
Data da Decisão: 15/03/2001).
Desta forma, havendo concorrência de culpas para o evento danoso, a Responsabilidade deve ser dividida.
Nesse sentido, Stoco [2007, p. 144], destaca que:
A melhor doutrina é a que propõe a partilha dos prejuízos em partes iguais se forem iguais as culpas ou não for possível provar o grau de culpabilidade [...]; em partes proporcionais aos seus graus de culpa, quando estas forem desiguais.
Com o elemento culpa, encerra-se por aqui o estudo dos elementos formadores da Responsabilidade Civil. Entretanto, eis que surgem outros temas que mereçam abrigo neste trabalho, é o caso da Responsabilidade Contratual e Extracontratual, que seguem no item a seguir.