Sobre o tema, eis julgado do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:
VÍTIMA QUE ESTAVA DE CARONA NO VEÍCULO - TRANSPORTE GRATUITO - NECESSIDADE DE CULPA GRAVE OU DOLO PARA O CAUSADOR DO DANO SER RESPONSÁVEL CIVILMENTE PELOS DANOS CAUSADOS - ALTA VELOCIDADE EMPREENDIDA PELO CONDUTOR - INFORMAÇÃO DO BOLETIM DE OCORRÊNCIA CORROBORADA PELA PROVA TESTEMUNHAL - REQUERIDO QUE DEVE RESPONDER PELOS DANOS. No transporte desinteressado, de simples CORTESIA, o Transportador só será civilmente responsável por danos causados ao transportado quando incorrer em dolo ou culpa grave. - Súmula 145 do Superior Tribunal de Justiça -.
(Apelação Cível nº. 1999.018573-7. Relator: Sérgio Roberto Baasch Luz. Data: 13/12/2005).
Em se tratando de transporte gratuito, caso ocorra algum acidente de trânsito e, restando caracterizado o dolo ou culpa grave do autor, eis que surge o dever de indenizar.
Extrai-se da jurisprudência do Tribunal de Justiça de São Paulo:
RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRÂNSITO.
TRANSPORTE DE CORTESIA. EMBRIAGUEZ. Caracterizada culpa grave, é devida a indenização à vítima, mesmo em se tratando de transporte gratuito ou de cortesia. (Ap. Cível nº.
947325100. Relator(a): Jayter Cortez Junior. Órgão julgador: 32ª Câmara do SEXTO Grupo (Extinto 2° TAC). Data do jul gamento:
24/08/2007. Data de registro: 27/08/2007). E ainda:
RESPONSABILIDADE CIVIL ACIDENTE DE TRANSITO.
TRANSPORTE GRATUITO. Demonstrado o excesso de velocidade e a ingestão de bebida alcoólica resta caracterizada a culpa gravíssima do condutor do veículo necessária para ensejar a obrigação de indenizar. Sentença mantida. (Ap. Cível nº.
940894200. Relator(a): Rubens Cury. Órgão julgador: 8ª Câmara (Extinto 1° TAC). Data do julgamento: 29/11/2000. D ata de registro: 05/12/2000).
Desta forma, incorrendo culpa grave ou dolo, responderá o autor que, mesmo dando uma simples carona a alguém, será responsabilizado caso provoque danos ao transportado.
Conforme leciona Venosa [2003, p. 118], a discussão que preocupa a doutrina é fixar a natureza jurídica desse transporte, se contratual ou extracontratual.
Na observação de Rodrigues [2002, p. 105], a Responsabilidade do Transportador gratuito é contratual, pois trata-se de um Contrato benéfico, em que o Transportador, por mera cortesia, propõe-se a fazer doação de um serviço ao Passageiro, que o aceita.
Para Diniz [2006, p. 485], o Contrato de Transporte na condução de pessoas por mera amizade ou cortesia, sem caráter obrigatório, o Transportador terá responsabilidade extracontratual.
Eis o que dispõe o artigo 392 do Código Civil:
Art. 392. Nos Contratos benéficos, responde por simples culpa o contratante, a quem o Contrato aproveite, e por dolo aquele a quem não favoreça. Nos Contratos onerosos, responde cada uma das partes por culpa, salvo as exceções previstas em lei.
Sobre o artigo acima transcrito, Venosa [2003, p. 118]
exemplifica discorrendo que, se o motorista que concede carona imprime velocidade excessiva ao veículo e assume o risco pelo dano ou joga o auto propositalmente contra outro, aflora o dever de indenizar. Acidentes de trânsito comezinhos nos quais não se nota exacerbação de culpa implicam exoneração do dever de indenizar.
Da mesma forma leciona Rodrigues [2002, p. 106] ao dizer que, todavia, em caso de culpa leve ou levíssima, e aplicando-se a regra do art.
392 do Código Civil, o Transportador que conduz gratuitamente seu Passageiro não está sujeito a reparar.
Nesse sentido, extrai-se do Tribunal de Justiça de São Paulo:
RESPONSABILIDADE CIVIL - Acidente de trânsito - Transporte gratuito desinteressado - Transportador só será civilmente responsável quando atuar com dolo ou culpa grave, inocorrente na espécie - Súmula n.° 145 do STJ - Ação improcede nte - Recurso improvido. (Ap. Cível nº. 766169000. Relator(a):
Benedicto Jorge Farah. Órgão julgador: 6ª Câmara (Extinto 1°
TAC). Data do julgamento: 30/03/1999. Data de registro:
12/05/1999).
Assim também entende o Tribunal de Justiça de Santa Catarina:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRÂNSITO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. CARONA. TRANSPORTE GRATUITO. ENUNCIADO N.
145 DA SÚMULA DO STJ. RESPONSABILIZAÇÃO DO CONDUTOR. DOLO OU CULPA GRAVE AUSENTES. ÔNUS DA PROVA INOBSERVADO. RECURSO DESPROVIDO. Daquele que oferece carona a outrem, modalidade de transporte gratuito, não se pode exigir mais do que o dever ordinário de cautela na direção de veículo automotor. Eventual responsabilidade por acidente de trânsito exsurge tão-somente quando evidenciado que o condutor agiu com dolo ou com culpa grave dirigido à ocorrência do infortúnio, a teor do que dispõe o enunciado n. 145 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça. (Apelação Cível nº. 2008.018390- 6. Relator: Henry Petry Junior. Data: 12/08/2008).
Restando comprovado que o agente causador do dano não agiu com dolo ou culpa grave, fica este desobrigado a indenizar a vítima.
No entanto, caso o transporte gratuito auferir vantagens a quem o faça, pois como bem ensina Venosa [2003, p. 121], há situações nas quais apenas aparentemente a relação jurídica é gratuita. E segue exemplificando:
Não se pode ser considerado gratuito o transporte de clientes realizado por estabelecimento comercial para fomentar seus negócios; não é gratuito o transporte de Passageiros feito por
empresa aéreo para ao aeroporto e vice versa. Nesses casos, o intuito do lucro é evidente, e o transporte integra o negócio da enpresa.
Na lição de Gonçalves [2007, p. 226], não se pode afirmar que o transporte é totalmente gratuito quando o Transportador, embora nada cobrando, tem algum interesse no transporte do Passageiro. É o que ocorre com o vendedor de automóveis, que conduz o comprador para lhe mostrar as qualidades do veículo; com o corretor de imóveis, que leva o interessado a visitar diversas casas e terrenos à venda, etc.
Nessa mesma linha de raciocínio, Stoco [2007, p. 435] aduz que não se considera gratuito o transporte feito pelos empregadores, quando conduzem seus empregados ao local de trabalho.
Nesse caso, Stoco [2004, p. 420] emprega o parágrafo único do artigo 736 do Código Civil, o qual reza:
Art. 736. [...]
Parágrafo único. Não se considera gratuito o transporte quando, embora feito sem remuneração, o Transportador auferir vantagens indiretas.
Nesse sentido, assim tem entendido o Tribunal de Justiça de Santa Catarina:
RESPONSABILIDADE CIVIL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - ACIDENTE DE TRABALHO - TRANSPORTE GRATUITO DE EMPREGADOS APÓS SERÃO - INTERESSE DA EMPRESA - VEÍCULO SEM CONDIÇÕES DE SEGURANÇA - CULPA DEMONSTRADA - RESPONSABILIDADE DA EMPRESA - DEVER DE INDENIZAR. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.
No caso do transporte gratuito, de favor, existindo interesse no transporte, por parte da empresa, esta assume a responsabilidade sobre eventual acontecimento danoso provocado por seu empregado. (Apelação Cível nº. 2001.018665-9. Relator: Dionizio Jenczak. Data: 21/05/2004).
Caso seja afastada a gratuidade do transporte, Venosa [2003, p. 121] apregoa que o negócio é considerado oneroso, e como tal vigora a culpa objetiva do Transportador em causa de dano comprovado ao Passageiro.
Ainda sobre transporte gratuito, ressalta-se o que prevê o artigo 39 da Lei nº. 10.741/03 – Estatuto do Idoso -, que assegura a gratuidade do transporte para pessoas com idade superior a 65 (sessenta e cinco) anos.
Art. 39. Aos maiores de 65 (sessenta e cinco) anos fica assegurada a gratuidade dos transportes coletivos públicos urbanos e semi-urbanos, [...].
Sobre este artigo 39 do Estatuto do Idoso, Coelho [2007, p.
393], declina seus ensinamentos discorrendo que:
Igualmente não é gratuito o contrato de transporte por ônibus urbano e semi-urbano em que o passageiro está dispensado por lei de qualquer pagamento em razão da idade. Mesmo havendo a gratuidade do serviço, a empresa Transportadora continua auferindo as mesmas vantagens que a motivaram a se dedicar à prestação de serviço público, não se podendo falar então de contrato gratuito de transporte.
Assim como há o transporte gratuito feito por mera amizade ou cortesia, existe também, mas sem a anuência do Transportador, o transporte clandestino.
No transporte clandestino, o Transportador não tem conhecimento da existência de alguém ou de alguma mercadoria. Apregoa Venosa [2003, p. 121] que:
No transporte clandestino, o transportador não sabe que está levando alguém ou alguma mercadoria. Provada a clandestinidade, não há responsabilidade do transportador nem do prisma da responsabilidade contratual, nem do da responsabilidade aquiliana.
Sendo assim, a responsabilidade contratual do Transportador pressupõe a formação de um Contrato de Transporte, de modo que afasta essa responsabilidade quando se trata de um Passageiro clandestino.
Após tudo o que fora exposto, encerra-se aqui esta pesquisa, que tem por objetivo a contribuição para uma melhor compreensão sobre em quais circunstâncias deverá o Transportador ser obrigado a indenizar o Passageiro que obteve algum prejuízo, quando este se torna vítima decorrente de algum evento decorrente do Contrato de Transporte.
O presente trabalho teve como objetivo investigar, à luz da legislação, da doutrina e da jurisprudência, a Responsabilidade Civil do Transportador de Pessoas em Rodovias.
Para seu desenvolvimento lógico, o trabalho foi desenvolvido em três capítulos.
O primeiro capítulo tratou de abordar a Responsabilidade Civil num contexto geral, desde seu surgimento até os dias de hoje, estudou-se também seus elementos formadores e sua classificação em geral, bem como cuidou-se de estudar o surgimento da culpa; do dano, pois como visto, se faz necessário sua presença para surja o dever de indenizar; e também do nexo causal, que é o elemento que caracteriza o caminho percorrido desde a conduta do agente até o dano provocado.
O segundo capítulo cuidou de estudar o Contrato de Transporte de pessoas, dispondo os artigos da legislação que regem a relação entre Transportador e Passageiro, bem como dos direitos e deveres tanto do Transportador quanto do Passageiro.
Finalizando o trabalho, o terceiro capítulo estudou-se sobre o tema principal, da responsabilidade civil do Transportador em relação ao Passageiro, nunca esquecendo que o dever principal do Transportador é de conduzir o Passageiro são e salvo até deu destino. Demonstrou-se ainda que a responsabilidade do Transportador é objetiva, pois sua atividade se funda na teoria do risco, e para que surja o dever de indenizar, basta comprovar o dano e o nexo causal entre a ação e o dano experimentado pela vítima.
Quanto às indagações acerca da pesquisa, tornou-se evidenciado que, para haver o dever de ressarcir o dano experimentado pela vítima, deve-se comprovar que realmente houve o prejuízo e que este adveio de uma conduta do Transportador, pois, e tese, sua responsabilidade é objetiva.
Caso o evento danoso foi provocado por terceiro, o dever de ressarcir o prejuízo continua sendo do Transportador, pois sua responsabilidade não pode ser elidida por culpa de terceiro, e contra este cabe ação regressiva do Transportador.
No que se refere ao valor a ser indenizado, deve ser levado em conta de como ocorreu o fato. Caso tenha ocorrido o evento danoso sem qualquer participação da vítima, este deve ter ressarcido seu prejuízo em sua totalidade. No entanto, se o evento danoso adveio da participação de uma ação ou omisão da vítima, este será ressarcido na medida de sua participação.
Quanto as excludentes de responsabilidade, estas no campo do direito civil é bastante ampla, e podendo ser argüidas em muitas situações. No que se referem ao transporte de pessoas, as excludentes de responsabilidade são as da Responsabilidade Civil, porém, de forma reduzida, pois estas excludentes somente poderão ser argüidas quando ocorrer: culpa exclusiva (não concorrente) da vítima, o caso fortuito e a força maior. Somente nestes casos é que exonera o dever de indenizar por parte do Transportador.
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