Sobre os artigos acima transcritos, Venosa [2003, p. 112]
destaca que tanto com relação às mercadorias, quanto aos Passageiros e proprietários lindeiros, foi estabelecida a responsabilidade objetiva da estrada, somente elidida se provada a culpa exclusiva da vítima, bem como caso fortuito ou força maior.
O autor continua ensinando quando diz que as maiores preocupações diziam respeito a incêndios que ocorriam com freqüência nas propriedades marginais. O diploma previu, portanto, os danos aos Passageiros e às coisas transportadas, bem como aos terceiros proprietários marginais da estrada.
No mesmo sentido, Gonçalves [2007, p. 201] enfatiza que a Responsabilidade do Transportador é objetiva. No direito brasileiro, a fonte dessa Responsabilidade encontra-se no Decreto nº. 2.681 de 07 de dezembro de 1912, que regula a Responsabilidade Civil das estradas de ferro.
E acrescenta:
Tal diploma, considerado avançado para a época em que foi promulgado, destinava-se a regular tão somente a responsabilidade civil das ferrovias. Entretanto, por uma ampliação jurisprudencial, teve sua aplicação estendida a qualquer outro tipo de transporte: ônibus, táxis, lotações, automóveis, etc.
Da mesma forma entende Venosa [2003, p. 112], quando instrui que esse diploma legal [...] estatuiu, na verdade, a responsabilidade objetiva das estradas de ferro.
O Decreto nº. 2.681 contem em si, segundo Gonçalves [2007, p. 201], a obrigação de o Transportador levar, são e salvo, o Passageiro até o local de seu destino, obrigação essa apenas elidível pelo caso de caso fortuito, força maior e culpa exclusiva (não concorrente) da vítima.
Vê-se então que a principal obrigação do Transportador é de conduzir o Passageiro até seu lugar de destino livre de qualquer acontecimento que lhe acarrete prejuízo.
Sobre o que fora exposto, eis julgado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:
RESPONSABILIDADE CIVIL. CONTRATO DE TRANSPORTE.
ACIDENTE DE TRANSITO. Aquele que contrata a condução de passageiros, mediante paga, tem o dever de conduzi-los, indenes, ao destino. Responsabilidade objetiva. Decreto n. 2681/1912. A indenização deve abranger os danos materiais provados, os lucros cessantes e o dano moral, tudo na medida dos prejuízos da parte. Laudo pericial, base segura para o arbitramento da pensão vitalícia. Apelos improvidos. (Apelação Cível nº. 599116597, DECIMA SEGUNDA CAMARA CIVEL, TJRS, RELATOR: DES.
ANA MARIA NEDEL SCALZILLI, JULGADO EM 17/08/2000). E ainda:
A responsabilidade do transportador é objetiva, pois a obrigação por ele assumida é de resultado, isto é, de transportar o passageiro são e salvo a seu destino, como prevê o Dec. - lei 2.681/12. Assim, o transportador é responsável pelo acidente sofrido por viajante que caiu ao descer do coletivo, desequilibrando-se em virtude de tumulto decorrente da existência de vários passageiros junto à porta. (Ap. nº 624.990-3, 6ª Câmara, rel. Juiz Carlos Roberto Gonçalves, j. em 22.08.95, RT 728/262). E quanto sua aplicação estendida, Venosa [2003, p. 113]
destaca que em linhas gerais, assim como em relação às ferrovias, os princípios do velho Decreto nº. 2.681/12 continuam sendo aplicáveis a toda modalidade de transporte terrestre, inclusive táxis.
Nesse sentido, extrai-se da jurisprudência:
ACIDENTE DE TRÂNSITO. DANOS MORAIS E MATERIAIS.
PERDA DE DOIS DEDOS. DEBILIDADE PERMANENTE DO MEMBRO E FUNÇÃO. Permissionária do serviço público.
Responsabilidade objetiva. arts. 17 e 21 da lei 2.681/1912 e parágrafo 6º, art. 37 da Constituição Federal, Decreto 2.681/1912.
Caso Fortuito e Força Maior não configurada - culpa da ré -.
Obrigação de fazer o Passageiro chegar incólume ao destino.
Ônibus que transporta crianças, e vem a capotar contra o meio fio, causando a mutilação de dois dedos da mão esquerda de passageira adolescente. Para a vítima o seu prejuízo se resolve através da responsabilidade objetiva e presumida do Transportador, permissionário do serviço público. (APELAÇÃO CÍVEL 5009798. DF. Em: 19/04/1999, 2ª Turma Cível Relator:
NANCY ANDRIGHI Publicação no DJ: 16/06/1999 Pág.: 39).
Como visto, foi o Decreto nº. 2.681/12 o marco inicial que incumbiu ao Transportador o dever de transportar o Passageiro até seu destino final são e salvo, pois sua Responsabilidade é objetiva.
Eis que surge, conforme ensina Rodrigues [2002, p. 160], outras duas hipóteses de Responsabilidade sem culpa trazidas pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº. 8.078/90), em seus artigos 12 e 14.
Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
Vasta é a jurisprudência que se apóia no Código de Defesa do Consumidor para aplicar a Responsabilidade ao prestador de serviços.
Colhe-se da jurisprudência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais:
DIREITO CIVIL - DANO MORAL E MATERIAL - SERVIÇO DE
TRANSPORTE - EXTRAVIO DE BAGAGEM -
RESPONSABILIDADE OBJETIVA. A responsabilidade do transportador é objetiva, nos termos do art. 14 do CDC,
respondendo, independentemente de culpa, pela reparação dos danos que eventualmente causar pela falha na prestação de seus serviços; Verificado o evento danoso, surge a necessidade da reparação, não havendo que se cogitar da prova do prejuízo, quando presentes os pressupostos legais da responsabilidade civil; É cabível condenação a título de dano moral em face de extravio de bagagem, haja vista o sentimento de desconforto do passageiro diante da situação humilhante e vexatória de chegar ao local do destino sem os pertences necessários para usufruir a viagem programada. (AP. CÍVEL N° 1.0024.05.803177-4 /001 - COMARCA DE BELO HORIZONTE – MG - RELATOR: EXMO.
SR. DES. MOTA E SILVA. D. J. 06/12/2007).
No mesmo sentido, extrai-se da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça:
A responsabilidade civil é objetiva nas relações de consumo decorrentes de prestação de serviço, conforme o art. 14, do CDC.
Diante disso, para sua ocorrência, é necessária a demonstração da conduta ilícita e do nexo de causalidade, já que o dano é considerado in re ipsa. Assim, provada a negligência do prestador de serviço, este deve ser responsabilizado. (REsp. nº 712708, Rel. Min. Carlos Alberto Direito , DJ. 28.10.2005).
Diante desse breve histórico, conclui-se que o Passageiro está muito bem amparado pelo direito, pois raras são as hipóteses em que o prestador de serviços não fica obrigado a reparar o dano, além do que, sua atividade é baseada, segundo os doutrinadores, na teoria do risco.
A partir daí estudar-se-á a Responsabilidade Civil nos Contratos de transporte rodoviário de pessoas.
3.2 RESPONSABILIDADE CIVIL NO TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE