4.4 CAPACIDADE DINÂMICA
4.4.2 Capacidade Adaptativa
“Os resultados das avaliações internas e externas subsidiam, em conjunto com os demais processos avaliativos, as ações de melhoria no âmbito dos cursos de graduação e pós-graduação e, consequentemente, na universidade. Estas avaliações possibilitam aprofundar os olhares da Autoavaliação Institucional realizada pela CPA e contribui para a qualificação contínua, especialmente a que diz respeito aos processos de ensino e aprendizagem.”(UE-E)
No caso da Unisul, pressupõe a habilidade de desenvolvimento de projetos, ou de relatórios de avaliações. Os relatórios produzidos pelas comissões de avaliação designados pelo INEP (como por exemplo a CPA) para fins de Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento são, também, instrumentos utilizados para produção de planos de ações decorrentes da análise dos pontos destacados pelas referidas comissões.
“... houve muitos documentos institucionais que foram consultados para gerar os textos que seriam incluídos no sistema e-mec. O principal deles era o PDI, porque no PDI está aquilo que a universidade se propõe a fazer, e para atender aos critérios no e-mec, nós tínhamos que dizer como a Unisul faz o que está planejado lá.” (UE-E)
As análises dos documentos institucionais foram efetuadas pelas Gerências dos Campi da Universidade juntamente com o Núcleo Docente Estruturante (dos cursos), as Assistentes Pedagógicas (dos Campus) e as Congregações dos cursos e, posteriormente, são divulgados aos estudantes.
Para Danneels (2002) uma teoria da renovação estratégica deve reconhecer que a manutenção da adaptabilidade requer tanto a exploração das competências existentes quanto exploração de novas competências. Um sistema de aprendizagem adaptativo, ou uma adaptabilidade organizacional, baseia-se teoricamente em três características de análise:
Práticas de gestão; Exploration; e Explotation.
Quanto às práticas de gestão, entende-se que a adaptabilidade de sistemas de gestão e novas práticas de gestão incentivam as pessoas a desafiar as tradições obsoletas permitindo que a organização possa responder rapidamente às mudanças no mercado e evoluir (WANG;
AHMED, 2007; TAYLOR; HELFAT, 2009; HELFAT, PETERAF, 2014). As práticas de gestão podem ser categorizadas, em termos analíticos por: novas práticas de gestão, adaptabilidade de sistemas de gestão e respostas as mudanças do mercado.
Quanto as novas práticas de gestão destacam-se dois pontos. O primeiro é que não houve envolvimento de todas as áreas da universidade na tomada de decisão para migração. O segundo é o envolvimento dos coordenadores na alteração dos projetos pedagógicos. Ambos serão descritos abaixo.
No que tange ao envolvimento das áreas, constatou-se que não houve envolvimento das áreas na tomada de decisão para migração, os entrevistados abaixo destacam que a decisão ficou em nível de reitoria.
“...a decisão foi tomada em nível de reitoria, e daí isso depois veio para os coordenadores de curso como uma nova regulamentação para avaliação dos cursos.” (UE-K)
“...não posso te dizer como foi esta decisão em relação ao ProIes II, porque ficou muito mais a nível de gestão, fundação e com o próprio (nome suprimido) como pró-reitor, porque é uma questão de como nós iriamos pagar isso ao longo desse período. Então, querendo ou não, isso então ficou muito mais a nível financeiro...” (UE-B)
No que se refere ao envolvimento dos coordenadores, os mesmos não foram envolvidos no processo de tomada de decisão, apenas referendaram a decisão numa das reuniões do
conselho universitário, como já explicitado anteriormente. Já na alteração dos projetos pedagógicos dos cursos, houve total envolvimento dos coordenadores. Foram envolvidos na revisão dos projetos pedagógicos de cursos, visando atender a algumas questões exigidas pela federalização. Como por exemplo, as temáticas transversais de educação étnico racial, direitos humanos, e todas aquelas impostas pela legislação.
“E daí a própria capacitação, dos coordenadores de compreender o instrumento, de compreender como somos avaliados, de que forma somos avaliados, que nós temos um critério de análise. E o avaliador também vai estabelecer quanto aos critérios do conselho, a partir do critério de análise deles. E de que forma o coordenador vai colocar lá dentro daquela caixinha um texto que dê conta de tudo aquilo que o avaliador está pedindo. E daí a gente sempre colocava que num primeiro momento é uma questão textual, mas que o que realmente vai contar é a visita inloco do avaliador. E por isso que eu digo que é dinâmico, assim como as capacidades elas são dinâmicas, porque a gente está trabalhando a medida que o processo vai caminhando, a gente tá caminhando junto com o processo. No ano passado (2016) foi o momento da inclusão dos dados no sistema (e-mec).” (UE-B)
“...o que acaba gerando novas rotinas, ai você passa a ter um olhar muito mais técnico, muito mais metodológico, do processo do que se havia até então.” (UE-B)
Além disso, as práticas de gestão também foram destacadas no item de governança dinâmica, em especial nos processos de liderança. No que se refere a novas práticas, há um destaque aos grupos de trabalho e o planejamento da nova gestão da universidade, com novas estruturas para 2017.
A adaptabilidade de sistemas de gestão é categorizada pelo processo de aprendizagem contínua e pelo acúmulo de conhecimento nas áreas.
No que se refere ao processo de aprendizagem contínua. O projeto de migração, preparou toda a área interna para o sistema federal. Destaca-se aqui uma ação da capacidade para adaptação da universidade, o alinhamento interno necessário para conhecer as necessidades impostas pela regulamentação. Ao escolher a metodologia para o desenvolvimento do projeto de migração, desenhou-se uma nova visão para os processos avaliativos, pois além de ser coerente com os processos e critérios avaliativos do INEP/MEC, ela propicia uma inter-relação de elementos isolados para uma maior compreensão do todo.
“Existiu um alinhamento institucional tentando suprir as necessidades que a universidade tinha em virtude das pressões do ambiente.” (UE-K)
“...iniciou com as pessoas, estudando e entendendo o que era isso de fato, você começa a baixar o grau de especulação e ansiedade e começa a gestar este processo. Primeiro com o estudo dos documentos e segundo com uma sensibilização e com formação. Então eu acho que a Unisul, primeiro ela buscou conhecer, e depois a capacitar as pessoas nas suas áreas.” (UE- A)
No que tange ao acúmulo de conhecimento nas áreas, a aprendizagem nos processos adaptativos influencia também o desenvolvimento da organização. Desta forma Sambamurthy, Bharadwaj e Grover (2003) afirmam que enquanto os processos de construção de capacidade e ação empreendedora descrevem a sequência de desdobramento dos efeitos de competência para ações, a adaptação descreve a sequência do aprendizado por ação.
Assim, na Unisul verificou-se esta descrição do aprendizado por ação. Assim, o entrevistado havia aprendido sobre o tema e expôs o seu conhecimento como forma de aprendizado aos demais integrantes.
“A área de ensino, por exemplo, fez todo um processo de formação de professores nesta perspectiva, eu dei várias
palestras no nosso programa de formação continuada sobre o assunto.” (UE-C)
“No Profoco (Programa de Formação Continuada da Unisul) existiram palestras de pessoas que estavam coordenando o processo, abordando os temas que estávamos estudando para o processo de migração e avaliação de cursos.” (UE-G)
Quanto as respostas a mudanças do mercado, tem-se como fator analítico Adaptabilidade nos processos de gestão (desafiar tradições obsoletas). Assim, a capacidade adaptativa é compreendida por autores como a habilidade da empresa em identificar e capitalizar as oportunidades emergentes de mercado (WANG, AHMED, 2007; REIS, BORINI, FLORIANI, 2012). Esta capacidade reforça ainda a habilidade da universidade em se adaptar a tempo, e por meio da flexibilização dos recursos e alinhamento de seus recursos com as mudanças necessárias.
A capacidade de adaptação se manifesta também através da flexibilidade estratégica, flexibilidade inerente dos recursos disponíveis. O desenvolvimento da capacidade de adaptação é, muitas vezes, acompanhado pela evolução de formas organizacionais (WANG, AHMED, 2007). Percebeu-se na universidade uma pré-disposição a flexibilização, como destacado nas falas a seguir.
“Na medida que as coisas vão acontecendo, a gente vai se adaptando.”(UE-J)
“... eu acho que sim, eu acho que a unisul sim, as pessoas são abertas para mudança...” (UE-A)
“Com certeza, [...] quando eu vou capacitar um coordenador, consequentemente ele vai levar isso, para os seus professores, para sua congregação, para os seus NDE e para seus discentes.”
(UE-B)
Outro item a ser analisado é o exploration, ou seja, a utilização dos recursos e vantagens da organização, que em muitos casos formam um acúmulo de capacidades organizacionais (TALLMAN, FLADMOE-LINDQUIST, 2002; FERREIRA, 2005; O’REILLY III;
TUSHMAN, 2011; RAHMANDAD, 2012). O exploration pode ser analisado como habilidades desenvolvidas nas pessoas e capacitações.
As habilidades desenvolvidas nas pessoas são percebidas quando os cadastros dos cursos de graduação passaram a ser realizados pelo setor de reconhecimento de cursos da universidade, por compreender que as pessoas estavam qualificadas para responder ao processo de migração.
No que se refere a quando os cadastros dos cursos de graduação passaram a ser realizados pelo setor de reconhecimento de cursos da universidade, o desenvolvimento de competências ou a capacidade da universidade para integrar, desenvolver e reconfigurar competências internas e externas foram identificadas pelas práticas de gestão e de governança dinâmica. Foram também criados fóruns de discussão, em especial no momento de preenchimento do sistema e-mec, quando surgiam varias dúvidas.
“Eu acho que a migração veio como uma oportunidade para o desenvolvimento de novas competências, é um gatilho para isso, porque você passa muito mais por necessidades técnicas e muito menos por necessidades comportamentais, vamos falar assim. O que acaba por gerar novas rotinas, ai você passa a ter um olhar muito mais técnico, muito mais metodológico, do processo do que se havia até então, e isso requer competências, capacidades mais aguçadas para isso.”(UE-A)
“... alguns processos são mais lentos, o próprio envolvimento de determinar quem vai coordenar o que, ou isso fica com responsabilidade de quem. Porque assim, é um processo de toda uma instituição, não é um processo específico de uma pró- reitoria. Então, isso tem que estar muito bem alinhado com todos.”(UE-B)
Wang e Ahmed (2007) apontam que a capacidade de se adaptar às mudanças ambientais e alinhar os recursos internos com a demanda externa é fundamental para a empresa evoluir e sobreviver. A Unisul possuiu capacidade para adaptar a mudança ambiental provocada pelo ProIes II e o processo migratório, pois alinhou os recursos internos por meio dos grupos de trabalho para fazer frente a demanda externa, conforme descrito no item de governança dinâmica.
“...a Unisul agiu desta forma, primeiro ela buscou conhecer, foi formado um comitê, com várias frentes, e depois a capacitar as pessoas nas suas áreas.”(UE-A)
“...quando a gente aderiu ao edital de 2014, aí que foi montado o GT (Grupo de Trabalho)...” (UE-B)
“...foram criados cinco grupos de trabalhos...” (UE-E)
No que tange ao grande número de pessoas qualificadas para responder ao processo de migração, na Unisul já foi possível identificar ações de capacidades dinâmicas desenvolvidas, em especial as de absorção e adaptação, os maiores exemplos surgiram após a abertura do sistema e-mec, quando os cadastros dos cursos de graduação passaram a ser realizados pelo setor de reconhecimento de cursos da universidade. O favorecimento disto se deu em função do grande número de pessoas que formam um acúmulo de capacidades organizacionais.
“Fui em congregações, fui em reuniões de UNAs, fui demonstrar o que era o sistema federal. A área da pesquisa, que você bem conhece, ela fez um trabalho sobre a importância da produção acadêmica, então tudo isso na perspectiva desse movimento de federalização. Por outro lado, a qualificação de alguns programas nossos regulatórios, por exemplo, o programa de educação ambiental, o programa de direitos humanos, o programa de acessibilidade, e outros programas que estão nos processos regulatórios do sistema federal.” (UE- C)
“...já preenchemos a primeira etapa, agora temos que fazer uma de visita in-loco. Então assim, aos poucos, a medida que as coisas vão acontecendo, é que essas capacidades elas vão sendo transformadas...” (UE-B)
“Passamos por um processo grande de aprendizagem, hoje estamos mais preparados para responder ao MEC do que antes.”(UE-I)
“Fomos aprendendo com o passar do tempo, hoje já temos uma bagagem que não tínhamos em 2014.”(UE-E)
Quanto as capacitações, identificou-se a oferta de diferentes capacitações e a formação para os níveis técnicos e docentes.
No que tange a oferta de diferentes capacitações, a busca, pela prospecção de novos conhecimentos (exploration) está também relacionada com o acesso a novos conhecimentos, ao desenvolvimento de novos recursos e as capacitações. Na universidade houve a necessidade de capacitação de coordenadores. Foi desenvolvido neles a capacidade de utilizar conhecimentos da universidade para responder rapidamente ao processo de mudança.
“...trabalho sobre a importância da produção acadêmica, [...]
programa de educação ambiental, o programa de direitos humanos, o programa de acessibilidade, e outros programas que estão nos processos regulatórios do sistema federal.”(UE- C)
“...esse contato com as outras instituições foi super importante, fez com nós tivéssemos ter uma boa relação com a Univali, para tentar entender como é que foi o processo deles (UE-E).
Quanto a formação para os níveis técnicos e docentes, Hodgkinson e Healey (2011) alegam que quando a mudança ameaça as rotinas enraizadas dos gestores e colaboradores, uma
resistência considerável pode se reproduzir em todos os níveis da organização. É difícil imaginar um processo de mudanças adaptativas, sem algum envolvimento dos gestores do topo da organização.
Além disso, como um produto de adaptação estratégica, os gestores de topo podem ter de desempenhar um papel decisivo na superação da resistência organizacional à um processo de mudança (HELFAT, PETERAF, 2014). Na Unisul o pró-reitor de ensino foi pessoalmente capacitar coordenadores e professores sobre as mudanças provenientes do processo de migração, assim desempenhou papel na possível resistência que este processo de mudança poderia gerar.
“...eu dei várias palestras no nosso programa de formação continuada sobre o assunto.” (UE-C)
“...o pró-reitor (como líder do processo) participou do Profoco conscientizando os colaboradores sobre a importância deste processo e seus efeitos.” (UE-G)
O explotation corresponde ao acesso a novos conhecimentos, ao desenvolvimento de novos recursos, informações e capacitações, diminuindo as tensões entre as estruturas (TALLMAN, FLADMOE-LINDQUIST, 2002; FERREIRA, 2005; O’REILLY III;
TUSHMAN, 2011; RAHMANDAD, 2012). Assim, percebe-se a utilização de recursos e habilidades em atividades da universidade. Na Unisul, procurou-se auxílio junto a outras universidades comunitária, em especial a Univali e a Unesc, conforme já descrito anteriormente, que já haviam passado pelo processo, bem como a Acafe.
A exploração de conhecimento existente (explotation) relacionada a capacidade de adaptação, está presente na utilização dos recursos que, em muitos casos, constituem o que a teoria conhece por knowledge-based-capabilities (conhecimento baseado em competência e habilidade). Assim, a Unisul procurou, neste processo, a formação de competência nas possas envolvidas, de tal forma que elas fossem capazes de utilizar os recursos existentes e promover a adaptação aos fatores ambientais.
“... esse contato com as outras instituições, fez com que agente pudesse ter uma boa conversa com a Univali...” (UE-B)
“...na câmara de ensino de graduação da Acafe, nós tivemos uma apresentação da experiência da Unesc e da Univali...” (UE-C)
Adaptações se referem ao fato de que as organizações aprendem com o tempo e com a experiência. A adaptação é um processo virtuoso de feedback e experiência através do qual o sucesso das ações revitaliza as capacidades dinâmicas.
Uma característica que se destaca na pesquisa de campo realizada na Unisul, é a utilização dos recursos existentes. Há uma sintonia evidente nos documentos institucionais, entre as premissas e as novas atitudes da gestão para 2017. Percebe-se uma gestão sintonizada com as novas demandas e com a velocidade com que ocorrem as mudanças no ambiente.
Para o conselho universitário, formados pelos coordenadores de cursos, as mudanças propostas para 2017 farão uma universidade com uma estrutura mais clara e simples o que deverá facilitar os trâmites interno, desburocratizando processos. Percebeu-se que, para que os objetivos propostos pela gestão sejam plenamente atingidos, é necessário conhecer os atores e os seus papeis para assim ter ainda mais celeridade nos processos.
A adaptabilidade é mensurada por Wang e Ahmed (2007), que avaliam se a empresa apresenta sistemas de gestão que incentivam as pessoas a desafiar as tradições obsoletas, e novas práticas, permitindo com isto que a empresa possa responder rapidamente às mudanças no mercado e evoluir. Na Unisul novas práticas surgiram, tais como: formação de grupos de trabalho para estudar a migração, levantamento de questões documentais nos campis, análise de como outras universidades preencheram os documentos legais, capacitação dos coordenadores de curso, entre outros.