1.3 A situação da infância no Brasil republicano
1.3.1 Chacina Fundacional e “cidadania regulada”
então), os movimentos políticos abolicionistas que adquiriram efervescência no decorrer das décadas, a inserção agroexportadora do Brasil com o capital internacional na égide fabril e o próprio movimento de expansão do capital em larga escala necessitando de trabalho livre para o processo de valorização.
A reprodução do capital em escala crescentemente ampliada, que paulatinamente iria incluir uma gama variada de atividades tanto rurais como urbanas, ao necessitar de braços iria colocar a necessidade do trabalho livre, não só porque os escravos escasseavam, mas, sobretudo pela necessidade de se desvencilhar da imobilização e esterilização dos recursos inerentes à aquisição e manutenção do trabalhador cativo. Tal processo, a seu turno, não poderia deixar de se introjetar na cultura cafeeira, principalmente nas áreas novas, em que investimentos de vulto eram necessários até o momento de realização das primeiras colheitas. (KOWARICK 1994, p.74)
Vale destacar que já no final do penúltimo século, a classe dominante brasileira optou por recrutar26 em regime que se assemelhava a uma semiescravidão uma enorme quantidade de trabalhadores pauperizados oriundos do continente europeu. As elites brasileiras optaram por esses trabalhadores nas atividades mais rentáveis em detrimento do elemento nacional- os “vadios” e os ex-escravos- que ficou relegado às atividades menos rentáveis relegado às mais variadas situações de abandono, violência e miséria.
Euclides da Cunha (2002) descreve em 1903 com precisão cirúrgica o extermínio provocado pelo Estado brasileiro, através de seu Exército, contra a população pauperizada do Arraial de Canudos, dentre eles inúmeras crianças. Povoado este que havia se deslocado para o sertão tentar fundar um tipo de sociedade, longe das opressões republicanas. Assim foi também no Paraná da
“Guerra do Contestado”(1912-1916) em que foram contabilizados milhares de mortos pelas soluções bélicas do estado brasileiro. Tais chacinas conformam a tendência da violência do Estado brasileiro contra as populações mais pobres, marcando a chacina fundacional de nossa república.
Rizzini (2011) resgata alguns elementos imprescindíveis para a compreensão da questão da criança no Brasil que se gestaram nos idos da Primeira República, as tais raízes históricas das políticas para infância no Brasil. Segundo ela, a partir do final do séc. XIX foi cultuada uma ideologia de (re) formar o Brasil que tinha na figura da criança como elemento que simbolizava o futuro do país. A população de zero a 19 anos mais que quadriplicou, saltando de 4,5 milhão em 1872 para 17,2 mi em 1920, representando proporcionalmente de 46% a 56% em relação a população total.
Esse percurso delimita a dicotomia que vai basilar o tratamento da questão da infância pobre no Brasil: o abandono (‘material e moralmente abandonada’) e a delinquência (‘que deve ser afastada do caminho que conduz às escolas do crime’). Sob o viés ambivalente de defesa da sociedade e da criança, as autoridades da época definiam as metas para infância através de quatro ordens de funções: prevenção (vigiar a criança evitando sua degeneração), educação (moldar a criança pobre para a disciplina do bem-viver dos hábitos do trabalho), recuperação (reabilitar o menor vicioso retirando-o da criminalidade e reabilitando ao trabalho) e repressão (conter através da força o menor delinquente a fim de evitar danos à sociedade) (RIZZINI, 2011, p.26).
As ideias que ilustram a representação da infância brasileira na realidade republicana ressoam a ideologia europeia da segunda metade do séc.XIX, fase da gênese do capitalismo
26É importante frisar, como demonstra Kowarick (1994) que o Estado teve um fator decisivo na importação de mão-de- obra, sobretudo a italiana, financiando seu deslocamento e construção de moradias, proporcionando aos mesmos endividamentos quase que impossíveis de serem sanados.
monopolista, no trato da “questão social”. Podemos destacar a emergência das ciências sociais como a psicologia, antropologia, sociologia e suas representações acerca do desenvolvimento infantil e, sobretudo as ideias eugenistas e higienistas de aparato médico-jurista (RIZZINI, 2011, p.26).
Este movimento que propunha a análise da sociedade a partir de um viés da medicina considera a absorção de hábitos higiênicos como recurso principal de desenvolvimento, pairando sob uma perspectiva moralizadora, individualista e controladora das famílias menos abastadas, estigmatizando os sujeitos pela sua condição de pobreza, desconsiderando todas as contradições históricas inerentes à sociedade capitalista. No período também ganhou força às idéias do criminologista italiano Cesare Lombroso, relacionando certas características físicas à possibilidade de cometimento de delitos.(RIZZINI, 2011; MALAGUTI BATISTA, 2003)
Ressalte-se que tais ideias tiveram êxito no final do século XIX e início do Século XX, observam-se no cenário contemporâneo movimentos de retomada desses paradigmas pelas forças conservadoras dominantes, atravessando seu discurso ideológico. Sobre ideologia, cabem algumas contribuições de Chauí (2003, p.21):
Realizar a lógica do poder fazendo com que as divisões e as diferenças apareçam como simples diversidade das condições de vida de cada um e a multiplicidades das instituições (...) apareça como um conjunto de esferas identificadas umas as outras, harmoniosa e funcionalmente entrelaçada condição para um poder unitário se exerça sobre a totalidade do social (...) o discurso do poder já precisa ser um discurso ideológico, na medida em que este se caracteriza, justamente, pelo ocultamento da divisão, da diferença e da contradição.
O arcabouço ideológico higienista predominou o início do século XX, difundindo muitas de suas perspectivas na primeira legislação específica sobre crianças e adolescentes no Brasil: O Código de Menores de 1927. Porém, cabem registrar, algumas medidas que precederam o código como a criação da Escola Correcional 15 de Novembro para atender os adolescentes envolvidos em atos considerados ilícitos em 1903. Vinte anos depois, se autorizou a criação do Primeiro Juizado de Menores e no ano seguinte o Conselho de Assistência e Proteção aos Menores e o Abrigo de Menores.
O Código de Menores de 1927 (Decreto n° 17.943-A, de 12 de outubro de 1927), redigido por Mello Mattos estabelecia ao mesmo tempo a questão dos cuidados com a higiene de crianças e a vigilância pública sobre a infância, galgando ao Juiz de Menores a suspensão do Pátrio Poder e ações destinadas aos abandonados, delinquentes” ou possíveis candidato a sê-lo.
Em relação aos delitos cometidos, a legislação determinava que os menores de quatorze anos não fossem submetidos ao processo penal e entre 16 e 18, o “menor” seria encaminhado à
prisão de adultos em lugares separados destes e um caráter de responsabilização dos pais de adolescentes em “situação irregular”.
Rizzini (2005) analisando o surgimento das instituições destinadas à internação de “menores delinquentes” observa o caráter patológico atribuídos a esses sujeitos. Nesses estabelecimentos havia a prática de realização de testes de QI como forma de rotular o “menor” e justificar através do aparato penal seu aprisionamento: “os especialistas revelaram (...) que a grande massa desses meninos era composta por ‘subnormais’ de inteligência. A cada diagnóstico, uma sentença”
(RIZZINI, 2005, p.23).
Outra contribuição interessante sobre o tratamento à infância pobre nas primeiras décadas do século XX está contida de modo breve em Malaguti Batista (2003). A questão do “abandono” era tratada pela internação em abrigos e asilos, recorrentemente superlotados ou pela instituição da
“soldada” que consistia em uma família abrigar em sua residência meninas entre 12 e 18 anos cujo tratamento contém alguns exemplos de violência sexual e física. Já o Juizado de Menores tinha como demanda julgar pobres e negros acusados de crime contra propriedade.
Uma síntese desse tratamento é o questionário padrão do Judiciário que recolhia as informações dos “menores delinquentes”: “algum ascendente ou colateral é, ou foi, alienado, deficiente mental, epilético, vicioso ou delinquente? (...) Com quem costuma se ajuntar-se? Seus camaradas são mais idiosos, vadios, mendigos, libertinos, delinquentes?” (MALAGUTI BATISTA, 2003, p.69).
Destaca-se que embora apresente o caráter do sujeito em formação como objeto do direito e represente perspectivas conservadoras em sua gênese, o Código Mello Mattos representou a primeira preocupação legal no que se refere a uma legislação específica para infância. Tanto é que muitos setores da burguesia nacional da época demonstraram contrariedade ao Código especialmente no que concerne à regularização do trabalho autorizando-o a partir dos 12 anos se estivesse freqüentando o ensino primário, senão aos catorze anos.
No cenário Internacional, merece destaque nesse período, a criação do Comitê de Proteção da Infância em 1919 através da Sociedade das Nações, também conhecida como Liga das Nações, de certo modo, um embrião da ONU -Organização das Nações Unidas, instituição criada em 45 pelos países “vencedores” da Segunda Guerra Mundial com o escopo de organizar a Paz em âmbito mundial. O Comitê diz que os Estados Nacionais não sejam os únicos soberanos no que diz respeito aos direitos da criança.
O legado do referido Comitê diz respeito que foi a partir dele que em 1924 foi adotada a Declaração de Genebra sobre os Direitos da Criança. Esta declaração é considerada a primeira normativa internacional no que diz respeito à defesa dos direitos da criança, embora, não tivesse o impacto mundial necessário ao reconhecimento da proteção de tais direitos, muito em parte relacionados ao momento histórico por que passava, além do próprio enfraquecimento da Liga das Nações, extinta em 42 às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Há que se destacar que o movimento da luta de classes no Brasil atingiu patamares próprios na primeira república com a emergência da classe trabalhadora. A eclosão das greves como instrumento de luta por melhores condições de sobrevivência, o avanço das ideias anarquistas e a fundação do Partido Comunista Brasileiro em 1922 conformam novos status a correlação de forças entre as classes sociais no país, cuja forte repressão dos aparelhos de coerção do Estado foi a tônica adotada. Célebre, e por que não dizer trágica, é frase do ex-presidente Washington Luiz: “questão social é caso de polícia”.
Após um contexto de crise do padrão de acumulação do capital, deflagrada mundialmente com a queda da bolsa de Nova Iorque em 1929, a economia e a política brasileira passaram por um período de transição especialmente com a crise do café27, principal produto de exportação do mercado brasileiro, ocasionando uma mudança na correlação de forças no bojo das classes dominantes no país.
Em 1930, com o enfraquecimento político e econômico das oligarquias cafeeiras, e apoiado por outros setores da burguesia, bem como de setores militares médios e base sociais populares, Getúlio Vargas chega ao poder, dando um novo (re) significado à formação sócio- histórica brasileira. Assim, de acordo com Behring & Boschetti (2006, p.105):
O movimento de 1930 não foi a Revolução Burguesa no Brasil, com o incremento da indústria como interpretam muitos intelectuais e historiadores, mas foi sem dúvida um momento de inflexão no longo processo de constituição de relações sociais tipicamente capitalistas no Brasil. Vargas esteve à frente de uma ampla coalizão de forças em que impulsionou profundas mudanças no Estado e na sociedade brasileira.
Ressalta-se que em anos anteriores à mudança política de 30, o país vivia momentos de tensão e redefinições na questão social brasileira, como a efervescência do movimento operário, conforme dito, e as crescentes reivindicações de setores burgueses contra a hegemonia política do setor cafeeiro. No tabuleiro dos jogos do poder, há que se destacar o alijamento da classe trabalhadora das decisões centrais desse processo de ruptura. Emblemática no sentido de sintetizar
27 Para se ter uma ideia, que em meados da década de 20, a produção do café para exportação era responsável pro cerca de 70% do Produto Interno Bruto brasileiro.
as ideias das elites nativas foi a declaração do político mineiro Antônio Carlos tempos anteriores ao golpe de 30: “Façamos a revolução antes que o povo a faça” (COUTINHO 2011)
Após uma tentativa de frustrada de retomada do poder pelos liberais paulistas eclodindo na guerra civil como ficou conhecida a Revolução Constitucionalista de 1932, dois anos depois foi promulgada uma nova Constituição, no qual, dentre outros, se mantém um cunho higienista e moralizador no tocante ao atendimento à juventude brasileira28. Assim, ficou estabelecido no art.138 que:
Incumbe à União, Estados e Municípios, assegurar amparo aos desvalidos, criando serviços sociais, cuja orientação procurarão coordenar; estimular a educação eugênica; amparar a maternidade e a infância; socorrer as famílias de prole numerosa; proteger a juventude contra toda exploração, bem como o abandono físico, moral e intelectual; adotar medidas legislativas e administrativas tendentes e restringir a mortalidade, as morbidades infantis e de higiene social que impeçam a propagação das doenças transmissíveis; cuidar da higiene mental e incentivar a luta contra os venenos sociais. (grifos meus) (BRASIL, 1934)
Os primeiros anos do Governo Vargas foram marcados por disputas de hegemonia de diversos grupos sociais e um processo de modernização conservadora com a industrialização do país. Todavia, a radicalização de setores do movimento tenentista com o crescimento do movimento fascista brasileiro e os avanços das ideias comunistas, alterou o contexto do “pacto” da conjunção de diversos atores sociais no poder estabelecido. Assim, neste contexto, é instaurado um golpe de Estado em 1937 sob o argumento da manutenção da “segurança nacional”, perdurando quase uma década.
A forma de dominação e manutenção do poder nesta ditadura condensava elementos políticos, ideológicos como o populismo, mandonismo e paternalismo, através de concessão e privilégios, combinados com assistencialismo e repressão. Nesse período, foram criadas diversas instituições, proporcionando o processo de implementação da política social no país. Assim, destacam-se as criações do Ministério do Trabalho em 1930 e dois anos depois a Carteira de Trabalho, símbolo da cidadania brasileira a partir daquele período, cujo mecanismo ideológico conservador perdura a atualidade.
Clássica abordagem faz Santos (1979) sobre a condição de cidadão das classes subalternas à posse da Carteira de Trabalho, o qual denomina de cidadania regulada:
28 Jorge Amado (2009) publica em 1937 o romance “Capitães de Areia”, um clássico de nossa literatura que aborda a situação de violência sofrida pela infância pobre, como tortura e perseguição policial, residente nas ruas do centro histórico de Salvador dos anos 30.
Por cidadania regulada entendo o conceito de cidadania cujas raízes encontram-se, não em um código de valores políticos, mas em um sistema de estratificação ocupacional, e que, ademais, tal sistema de estratificação profissional é definido por norma legal. Em outras palavras, são cidadãos todos aqueles membros da comunidade que se encontram localizados em qualquer uma das ocupações reconhecidas e definidas em lei. (SANTOS, 1979, p.75)
Cabe destacar nesse período, a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 30, a promulgação da Consolidação das Leis Trabalhistas em 43 e a Legião Brasileira de Assistência em 42. Esta instituição, implementada para atender às famílias dos praças que serviam na 2ª Guerra Mundial, de caráter filantrópico, assistencialista, dirigida pela Primeira Dama Darcy Vargas, constituindo, o que muitos autores denominam de processo de primeiro-damismo das políticas de assistência social no país, perdurando até os dias pós - Sistema Único de Assistência Social. O cunho Católico ainda permanecia como predominante nas políticas de atenção á infância nesse período.
Em 1941, foi criado o SAM - Sistema Nacional de Assistência aos Menores, vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores sob o escopo de extirpar a ameaça de meninos perigosos e suspeitos, cuja ação repressiva se tornava um componente do cotidiano destas instituições. O Departamento Nacional da Criança também surgiu nesse período, cuja fonte de preocupação eram as mulheres que cuidavam de crianças consideradas “causadoras” de doenças pela falta de condições higiênicas.
Ressalta-se nesse período, a ampliação das condições e direitos sociais da classe trabalhadora sob um viés conservador e repressivo em um contexto de supressão de direitos civis e políticos, o que muitos autores denominam de inversão da ordem dos direitos, se considerarmos as concepções clássicas. Tais aspectos, de certo modo, contribuem para o processo de atrofia da cidadania por estas terras e reflete a dinâmica de autoritarismo, favor e tutela com que se opera a política e direitos sociais do país, em particular de crianças e adolescentes oriundos das camadas empobrecidas.