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Violência na perspectiva de Clássicos do Pensamento Social

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 64-69)

2.1 Violência e “questão social”

2.1.2 Violência na perspectiva de Clássicos do Pensamento Social

Recorrendo aos clássicos do pensamento moderno, Sousa (2009) estabelece duas vertentes acerca da compreensão do fenômeno da violência: aquela relacionada a valores morais pautados em juízos de valor e aqueles voltados a uma compreensão a partir de construções sociais históricas. 42

No tocante aos chamados contratualistas, Thomas Hobbes vai desenvolver a tese de que a relação natural entre os homens é marcada por sua potencialidade conflitiva. Considerado por Bobbio (1980, p.97) como o maior filósofo político da Idade Moderna até Hegel, Hobbes entende que o estado de natureza se expressa na “guerra de todos contra todos” e que a discórdia entre os homens se daria em três esferas de natureza: a competição em que os homens lutariam violentamente entre si para obtenção do lucro; a desconfiança provocando falta de segurança entre os homens e na glória onde a disputa pela reputação se basearia. (RIBEIRO, 2006, p.56)

Nesta órbita, a violência é entendida como algo inerente à natureza humana inseridas nos quadros das paixões dos homens em sociedade. Assim, a passagem do estado natural para a sociedade civil passa necessariamente pela adoção de uma instância superior, com uso legítimo da força, que possa regular a conflitividade humana que é o Estado. Desse modo, o Estado, representado na metáfora do Leviatã, desempenharia o poder coercitivo utilizando suas instituições políticas e jurídicas, inclusive para prevenir ou coibir a violência entre os homens. Passa-se assim

42 Não pretendemos aqui esgotar ou aprofundar a reflexão dos clássicos sobre o tema da violência, apenas

metodologicamente problematizar as ideias mais gerais sobre o assunto, já que essas concepções estão dadas, ao nosso ver, de forma bastante expressiva nas visões de mundo contemporâneas.

da violência como aspecto da natureza humana para o algo de caráter de moralidade no estado civil.

(SOUSA, 2009)

Jean-Jacques Rousseau pode se apresentar como a essência da antítese do Hobbes.

Segundo o pensador genebrino, o estado de natureza não se caracterizaria pelo medo contraído das paixões individuais ou pela possessividade, mas um homem dotado de compaixão. O homem do estado de natureza se encontra na sua etapa das abstrações, das sensações, nas preocupações mecânicas presentes e imediatas, sendo a desigualdade entre eles gerada por sua condição natural ou física.

A passagem do estado de natureza segundo sua análise se daria a partir das atividades econômicas em que ocorreria a socialização. Por conseguinte, há um pessimismo em relação à sociedade de sua época (Séc. XVIII) fundada no contrato social extremamente injusto que legitima a opressão entre os homens. Fazendo uma evidente crítica à dominação econômica entre os homens a partir da propriedade privada com a passagem do estado natural se instaura a opressão entre os homens negando tal valor fundamental, sobretudo pela desigualdade derivada do acesso à propriedade.

Neste sentido, “o surgimento de ricos e pobres a partir da apropriação privada cristaliza o surgimento da violência entre os homens na história” (SOUSA, 2009, p.49-50). Assim, a violência não surge como algo natural, mas como resultado das desigualdades política e morais. Diante deste cenário, Jean-Jacques43 propõe uma nova moralidade humana que se daria através de um Contrato Social. Esse contrato teria como fundamento principal a igualdade entre os homens e a proteção de sua liberdade negando qualquer forma de escravidão, sendo que tais princípios devem reger a máquina política e ser legitimado pelo Estado a partir do entendimento que o poder emanado do povo deve reger a formação legislativa e ação soberana.

Immanuel Kant, por seu turno, vai desenvolver a sua teoria a partir da sua preocupação metafísica, de forma abstrata, a respeito do “dever ser” da humanidade em seu percurso para o alcance da liberdade. Para o filósofo prussiano, o estado de natureza representa a disputa pela mera satisfação das necessidades, faculdades e apetites materiais. A superação do estado de natureza se dá através da razão, ou o próprio estado racional (SOUSA, 2009).

43 As ideias do iluminista Rousseau serviram de inspiração para as bases da Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Embora as contradições da relação capital-trabalho não estivessem dão explícitas durante sua época e o pensador pareça até utópico em algumas de suas análises, Jean-Jacques elaborou uma crítica de profunda relevância da sociedade capitalista, buscando desvelar suas contradições justamente em um momento de apogeu de suas ideias (COUTINHO, 1996).

De acordo com esta linha de raciocínio, o fenômeno da violência faz parte da irracionalidade humana e que a moralidade racional deverá superá-la, alçada aí a uma perspectiva ética. Entretanto, Kant reconhece que a revolução burguesa representou um estágio de violência necessário para a instauração da sociedade civil, o que almejaria uma sociedade sem violência. O objetivo para o alcance da liberdade que seria a supremacia da razão deveria ocorrer na passagem das vontades individuais, pautadas por valores egoístas, para a vontade geral no campo da moralidade.

Para tanto, o Estado, amparado das leis racionais que substituiriam a violência, é o garantidor da racionalidade necessária à consolidação da sociedade civil. Para tal, o Estado pode para garantir essa racionalidade pode fazer uso da força de forma legítima para garantir a liberdade.

(SOUSA, 2009).

Cabe observar que a questão da violência para Kant é posta no campo ético e que mesmo por vezes podemos identificar certos graus de abstração em seu pensamento, suas ideias contribuem para dar um significado à justificativa do Estado, em particular o Estado burguês, como ente do uso legítimo da força.

Friedrich Hegel representa um clássico na filosofia moderna, tendo o seu pensamento diversos ecos na construção da sociedade burguesa que vemos hoje. Em oposição à perspectiva que define a violência como algo estranho ao sentido de humanidade, o filósofo alemão a entende como constitutiva do ser social atribuindo um sentido ontológico ao fenômeno tanto na sua manifestação quanto a seu enfrentamento (SOUSA, 2009).

Hegel vai introduzir em sua obra o método dialético de análise da realidade, isto é, uma interação dinâmica entre pensamento e realidade: se a realidade é contraditória, o pensamento acerca da mesma também se dá contraditório, sendo a dinamicidade do real a síntese dessa contradição. Porém ao contrário de Marx, Hegel vê a dialética de forma idealizada enquanto aquele entende o ser social a partir de suas condições matérias de existência. A unidade entre realidade e pensamento na perspectiva hegeliana pressupõe dar atributo ao pensamento racional e compreender a realidade como consequência do pensamento, sendo este tanto ontológico quanto histórico (SOUZA,2009). A essência da razão então comporia a passagem cronológica de sete etapas- que se confrontariam sequencialmente entre elas estabelecendo síntese: “certeza sensível, percepção, entendimento, consciência de si (autoconsciência), razão, espírito e saber absoluto” (SOUSA, 2009, p.80-1).

Para Hegel, ao contrário de Kant, o pensamento (autoconsciência) vai dotar o ser de razão.

Todavia, para se chegar a razão, os indivíduos dotados de desejo e necessidades passariam

necessariamente por embates que ao mesmo tempo apresenta o patamar positivo da interação entre os sujeitos provocaria disputas que se dá através do trabalho que é poder sobre o objeto. Essa disputa representa a gênese da violência como categoria ontológica do ser social.

A violência que dará a tônica deste embate só cessa quando há o medo da morte que parte de uma autoconsciência que automaticamente se submeterá à outra, se coisificando na relação. Este reconhecimento estabelece as relações sociais situadas na dominação legítima, superando a negatividade da autoconsciência e alcançando a razão, ou seja, a passagem da violência física para a dominação consentida.

Todavia, os dominados não alcançariam a liberdade vista sua condição e ao mesmo tempo, os dominantes, cientes da condição de coisificação dos seus subalternos não gozariam de liberdade.

Deste modo, a partir desta contradição, há a passagem da Razão para o Espírito representada historicamente pela Revolução Francesa (SOUSA,2009). O Espírito, portanto, superaria estas contradições estabelecendo a vitória da lei sobre a força (violência strictu sensu), o que segundo ele, representaria a vontade universal.

A passagem para este estágio condicionada na supremacia das relações jurídicas e políticas representa a passagem da coisa para o sujeito a partir da propriedade privada, sendo esta então uma categoria ontológica de racionalização do sujeito. Hegel, contudo, admite o uso da violência mas que seja para fins políticos e sociais de manutenção deste estágio, sendo a lei imprescindível para garantir a posse das coisas apropriadas privadamente.

Deste modo, as leis (os aparelhos de coerção do Estado) também podem ser violentos mas somente para criar uma moralidade subjetiva, desde as relações mais complexas às relações familiares estabelecidas nas interações entre pais e filhos sendo dotadas de uma ética. O Estado é em suma a supremacia da liberdade humana, a supremacia do universal sobre o particular.

O filósofo ainda reconhece que as situações de violência são mais frequentes na sociedade civil, etapa anterior à pessoa jurídica mediada pela propriedade. As contradições da sociedade civil então se situam devido à relação desigual e precária no acesso à satisfação de suas necessidades já que não possuem acesso à propriedade.

Para estas situações, o Estado deve ser chamado a atuar em duas vertentes: na assistência e repressão; e na exportação de pessoas a fim de que as mesmas possam conquistar a liberdade desbravando outros territórios que ainda não alcançaram o espírito.

Como podemos observar, o pensamento de Hegel, embora complexo, nos oferece um farto repertório a respeito da dinâmica desta sociedade: privatização das relações sociais, caráter

imperialista e expansionista da atividade capitalista, uso legítimo da força pelo Estado burguês- tanto nos aparelhos repressivos e assistenciais.

Desta forma, segundo Sousa (2009, p.93)

A obra de Hegel é seminal quanto ao tema que por nós foi abordado e as reflexões ensaiadas neste texto nos permitem alcançar uma clara conclusão: a violência como constituinte da vida social, aparecendo em todos os momentos da constituição da sociedade; e em todas as tentativas de combatê-la se dão sob a forma de dominação, como que se a própria astúcia da Razão se encarregasse de fazê-la reaparecer no curso do processo histórico. E mais: o pensamento hegeliano deixa nítido que o mote de reprodução da violência e a reprodução do que funda a sociabilidade humana: a propriedade privada.

Cabe ressaltar que Karl Marx, em sua teoria social revolucionária, reconhece a mesma propriedade privada a fonte das contradições da sociedade capitalista moderna e das outras constituintes da “pré-história” da humanidade (MARX, 2003). Hegel forneceu um caminho muito interessante para pensar o fenômeno da violência a partir das contradições da sociedade burguesa.

Max Weber se constitui, juntamente com Marx e Durkheim como um dos ícones do pensamento sociológico, com larga contribuição na análise dos fenômenos sociais e relevante para compreensão da violência sob a órbita capitalista.

Segundo sua sociologia compreensiva, a relação do indivíduo com os outros na vida social, há quatro tipos de ideias em ação: 1)racional com relação a fins- quando o agente busca alcançar os objetivos deve recorrer aos meios mais adequados disponíveis; 2)racional em relação a valores- quando o sujeito age de acordo com suas convicções e valores; 3)ação afetiva- voltada as emoções e paixões do indivíduo; 4)ação tradicional- em que hábitos e costumes orientam as ações dos agentes.

(QUINTANEIRO, 2002)

Na medida em que essas ações sociais se multiplicam, há o estabelecimento das relações sociais que podem ser individuais, comunitárias e associativas, sendo ambas orientadas a partir de uma ordem vigente e que essa ordem se altera quando há um processo de luta que pode ser pacífica ou violenta, conferindo a mesma legitimidade. (SOUSA, 2009)

Desse modo, um conjunto de coisas pelo qual uma vontade manifesta (mandato) do dominador ou dos dominadores influi sobre os atos de outros (do domínio ou dos dominados), de tal modo que, em um grau socialmente relevante, estes atos têm lugar como se os dominados tivessem adotado por si mesmo e como máxima de sua ação o conteúdo do mandato (obediência). A dominação legítima representaria três tipos: legal (racional), tradicional (costumes) e afetivo (carismáticas).

Cabe observarmos que no pensamento weberiano há certa naturalização conferida ao estatuto da legitimidade. Por conseguinte, é a burocracia- a forma de associação política por

excelência, representada pelo Estado, que é o “tipo ideal” de garantia de dominação legal. Para tal, ele (o Estado) deve estar munido de todo um aparato racional capacitado jurídico e policial para fazer o uso legítimo da violência física para se fazer, se preciso, para garantir a ordem e a paz social.

Esse agente munido do uso legítimo da força, não obstante, deve se condicionar a dois tipos de éticas: éticas das últimas finalidades (responder as questões de meio e fim que envolvem alcançar determinados objetivos) e ética da responsabilidade44 (atuando de forma prudente prevenindo a ocorrência de determinadas situações negativas).

No seu estudo sobre a sociedade, a análise weberiana prevê uma separação entre as esferas econômica, cultural, política e religiosa. Assim, no tocante às diferenças sociais, que são precedidas por uma complexidade de indivíduos, Weber estabelece três conceitos de diferenciação no plano coletivo: a) classes: situação em relação a propriedades ou habilitações; b) estamentos: formado comunidades que possuem estilos de vida típicos de caráter amorfo; c)partidos- socialização em torno de um objetivo ou ideais comuns de caráter político (QUINTANEIRO, 2002).

Weber entendia que uma das características do capitalismo era a tendência a burocratização e a racionalização em que se acentuava com uma maior coletivização da produção social o que segundo ele havia provocado uma decadência da cultura clássica, o que havia significado para ele seu desencantamento com o mundo. Porém, apesar de seu pessimismo em relação à racionalidade moderna, há no seu pensamento a preocupação da manutenção da ordem, que é a seu ver a sociedade burguesa.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 64-69)