Chacinam na favela, chacinam no campo, chacinam na cidade Se ficam impunes... Uma chacina contra nossa dignidade humana
Depois, com que dignidade continuaremos vivendo
Com nossas crianças e com toda gente que amamos e que nos amam também
Chacinam nossas crianças, chacinam a gente que amamos E que nos amam também
Se ficam impunes...uma chacina contra nossa própria vida Depois que vida continuaremos a viver
Sem verdade, sem olhar, sem alegria, sem esperança, sem justiça Sem amor, sem dignidade humana....
Deley de Acary. “Se ficam impunes.. nos chacinam a dignidade.”
2006.
Os versos do poeta da favela e animador cultural refletem o cotidiano da mesma comunidade que convive diariamente em um cenário de violação de direitos das mais diversas modalidades. Deley de Acari milita através da arte desde a década de 70 que em função da crítica social de seu teatro independente, foi preso e torturado durante a ditadura militar. No caso de Acari89, é mister registrar que em exatamente treze dias após a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente aquela favela assistiu a uns assassinatos em massa de maiores repercussões.
Conhecida como a chacina sem corpos, onze jovens moradores da favela de Acari foram levados à força por homens aramados que se diziam policiais em um sítio no município de Magé onde se encontravam. Os corpos dos jovens jamais foram encontrados. Tanto pela forma como ocorreu e pela mobilização do grupo de mães e familiares das vítimas desaparecidas, o caso ganhou repercussão nacional e internacional tornando este grupo conhecido como “As Mães de Acari” que lutam há mais de duas décadas por justiça e informações sobre a chacina ocorrida. (ARAÚJO, 2012)
89 “20 anos do caso Acari: não ao esquecimento, sim à justiça” Disponível em:
http://www.redecontraviolencia.org/Atividades/612.html Consulta em 16/10/2013 às 12h15.
Cabe destacar ainda que nas investigações do caso, havia fortes indícios de participação de grupos de extermínio ligados a policiais militares de um batalhão próximo àquela favela e a primeira líder do movimento de mães de Acari e genitora de uma das vítimas- Sra. Edméia Euzébio- foi assassinada no ano de 1993. Apesar do significado da Chacina de Acari e da luta incessante das Mães de Acari como símbolo de luta e resistência às atrocidades da violência urbana, especialmente aquelas praticadas pelo Estado, o caso jamais foi solucionado e, ainda mais grave, as chacinas contra moradores de favelas foram se ampliando no decorrer daquela década e as seguintes.
A multiplicação das chacinas, antes eventos pontuais agora encarados como elemento do cotidiano dos locais mais pobres, é um dos sintomas-síntese do incremento do fenômeno da violência urbana a partir da égide neoliberal. Chacina, cuja etimologia advém do latim vulgar siccina que significaria carne salgada ou carne seca (CUNHA 2010), e de acordo com Almeida (2004) se refere a homicídios de três ou mais pessoas geralmente envolvendo o tráfico de drogas ou alguma atividade paralela. Entendemos, contudo, que chacina pode designar uma gama maior de circunstâncias que aquelas relacionadas ao tráfico e suas capilaridades.
As altas cifras dos assassinatos de crianças e adolescentes nos convida a designação de extermínio que se apresenta como um fenômeno de grande intensidade no contexto da reestruturação produtiva e adoção da cartilha neoliberal no país a partir dos anos 90 que intensifica a barbárie de nossa tradição histórico-social.
Kosik (1976) ao analisar a dialética da totalidade concreta, busca abandonar a concepção do homem enquanto sujeito abstrato cognoscente examinador, especulativo de uma realidade dada.
Assim, ele faz o movimento contrário, na compreensão do ser humano na sua interação prática com a natureza e os outros homens dentro de um conjunto determinado de relações sociais mediadas por seus interesses e finalidades. Nesse exercício, há de se considerar que a essência da realidade não se apresenta aos homens de imediato, já que o senso comum e a práxis cotidiana utilitária não propiciam as condições para se compreender as coisas e sua realidade. Segundo Kosik (1989) esta práxis utilitária se encontra:
Naquilo que é intimamente contraditório, nada veem de misterioso; e seu julgamento não se escandaliza nem um pouco diante da inversão do racional e irracional. A práxis de que se trata neste contexto é historicamente determinada e unilateral, é a práxis fragmentária dos indivíduos, baseada na divisão do trabalho, na divisão da sociedade em classes e na hierarquia de posições sociais que sobre ela se ergue (KOSIK 1989, p.10).
O referido autor denomina de pseudoconcreticidade o conjunto destas manifestações imediatas que se apresentam externas dos indivíduos fora dos processos essenciais em uma práxis
fetichizada. Assim, o fenômeno seria a manifestação primeira, imediata e de maior frequência da pseudoconcreticidade. Por outro lado, o fenômeno carrega a essência e ao mesmo tempo a oculta, ela se manifesta de forma fragmentada, inadequada ou sob alguns aspectos e óticas. Em contato com a essência (que não se manifesta diretamente), os fenômenos se transformam em mundo fenomênico. Neste prisma,
Captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele se esconde. Compreender o fenômeno é atingir sua essência. Sem o fenômeno, sem a sua manifestação e revelação, a essência seria inatingível (KOSIK, 1989, p.12).
Assim, o conhecimento se estrutura a partir da captação da essência no fenômeno, detectando o que é secundário e primordial. O nosso exercício, portanto, seria de buscar uma essência de uma realidade concreta – os homicídios de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro mediados por uma totalidade – dentro do que se apresenta externamente como fenômeno, que se expressa na forma de extermínio.
Ao nos debruçarmos sobre a realidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro a partir dos anos 1990, observamos uma elevada taxa de assassinatos, denominados homicídios na tipificação penal desse público, cujas cifras se assemelham e ultrapassam ocasiões declaradas de guerra90. Este termo “guerra”, porém se situa à guisa de ilustração numérica, visto que não vivenciamos no período.
Ao retratarmos o tema do assassinato de crianças na história, temos inúmeros elementos dos mais remotos tempos. Uma lei hebreia do século XIII A.C. orientava os pais como castigar os filhos rebeldes e em caso de dificuldade na tentativa, a solução seria a punição através do apedrejamento e/ou morte. No império greco-romano, a prática de infanticídio era comum, cabendo o pai decidir se aceitava o recém-nascido pois em caso de renúncia o destino era dificilmente diferente da morte, assim como a condenação fatal a crianças portadoras de deficiência. (Miyazaki & Pires, 2005)
A mitologia grega também traz relatos de assassinatos de crianças como na epopeia de Crono que matou seus primeiros cinco filhos engolindo-os temendo que eles tirassem seu poder. Na bíblia, há a história da morte de todas as crianças abaixo de dois anos em Belém após ordem decretada por Herodes, rei dos judeus, após receber a notícia do nascimento de Jesus. Os recém- nascidos índios mexicanos eram sacrificados em ritual de agradecimento em tempos de
90 Weiselfisz (2012) observa que de 2004 a 2007, os 12 maiores conflitos armados do mundo tiveram cerca de 169,5 mil pessoas assassinadas enquanto no Brasil, no mesmo período, foram vítimas de homicídios 192,8 mil pessoas. As proporções continentais do país não justificam que já que países com contingente populacional parecido ou maior que o nosso não apresentam números tão elevados.
prosperidade na colheita do milho (MIYAZAKI & PIRES, 2005). Não é demais registrar que a sociedade brasileira, como vimos no primeiro capítulo, se construiu enterrando milhões de suas crianças, especialmente as mais pobres.
Malaguti Batista (2009, p.38) utiliza o termo filicídio, como o pai que mata o próprio filho e a sociedade que mata seus próprios herdeiros, o empaderamento ou aniquilamento de milhares de jovens nas periferias do Rio de Janeiro, tanto vítimas quanto algozes no chamado populismo punitivo.
Vermelho & Jorge (1996)91 analisam a mortalidade de jovens de Rio de Janeiro e São Paulo no longo lastro compreendido entre 1930 e 1991. Segundo o estudo, no município do Rio de Janeiro entre as décadas de 30 e 40, época de incremento do processo de industrialização brasileira, há crescente elevação nas taxas de mortalidade deste público que a partir de 1940 ocorre um abrupto decréscimo nestes índices. Já a partir da década de 1980 se inicia novamente um processo contínuo de aumento de mortalidade, inclusive com coeficiente mais acelerado do que em décadas anteriores.
As pesquisadoras destacam que a mortalidade de jovens nestas cidades estavam ligadas prioritariamente às causas naturais com destaque até 1960 para as doenças infecciosas e parasitárias (DIP) que se neutralizam em virtude de alguns avanços tecnológicos e sociais na área da saúde.
Coeficiente de mortalidade segundo sexo e faixa etária de 15 a 24 anos, município do Rio de Janeiro. (VERMELHO & JORGE, 1996)
A taxa de mortalidade começa a se elevar a partir do aumento dos índices de causas externas que vai apresentar um vertiginoso crescimento a partir da década de 1980 se intensificando nas
91 As autoras no referido estudo abordam a juventude, aqueles com idade entre 15 e 24 anos. Embora o foco de nosso trabalho seja crianças e adolescentes, entendemos que estes dados apresentam grandes contribuições a nossa pesquisa subsidiando nossa análise.
décadas seguintes. As autoras ainda ressaltam que ela é muito maior no Brasil em comparação com diversos países do continente americano e atinge principalmente o sexo masculino.
De acordo com o Ministério da Saúde, causas externas de mortalidade são aquelas decorrentes de lesões por acidentes (relacionadas ao trânsito, afogamento, quedas, envenenamento, queimaduras) e violência como suicídios, homicídios, abusos físicos, psicológicos e sexuais (MASCARENHAS et al, 2011). Deste modo, Vermelho & Jorge (1996) ressaltam que esta mudança no perfil de mortalidade a partir da década de 1960 ocorre especialmente por vitimização por acidente de trânsito e homicídios, sendo que estes ganham notoriedade em relação aos demais a partir da década de 1980, o que as mesmas concluem que os ganhos obtidos na redução de mortalidade entre os jovens do sexo masculinos de várias décadas vêm sido perdidos com o aumento dos assassinatos.
Dimenstein (2004) narra de forma dramática, como nas fotografias que ilustram a sua obra, a situação de crianças e adolescentes pobres nos grandes centros urbanos brasileiros no final dos anos 80 no paradoxo da redemocratização. O jornalista paulista com precisa sensibilidade faz um recorte da violência letal, especialmente aquela praticada por policiais ou grupos de extermínio contra esse grupo populacional, denunciando e, de certo modo, antevendo o fértil terreno de criminalização instaurada que se agravaria no nosso país a partir da década seguinte a este estudo.
Aos poucos, porém, fui notando que tocar apenas no extermínio seria restringir demais o foco. O assassinato era apenas o grau mais elevado de um processo de rejeição do menor infrator, suspeito de ser infrator ou potencial infrator. Antes do extermínio, há uma fase
“intermediária”, caracterizada pela rotina da tortura, dos maus tratos, nas delegacias, nas ruas e nos centros de “recuperação” como Febem ou Funabem (DIMENSTEIN, 2004, p.12- 3)
Os assassinatos no Brasil são definidos como homicídio no Código Penal Brasileiro (Art.121 do Decreto Lei 28248/1940 definida na letra da lei como “matar alguém” podendo ser qualificado ou culposo. Os assassinatos representam a violência em seu grau mais extremo.
Como ponderam Cano & Ribeiro (2007), o homicídio não é um fenômeno unívoco, obedecendo etiologias distintas que podem passar de um mero desentendimento, crime passional a ações por conflito por território, traficantes, grupos de extermínio ou por incursões policiais, por exemplo.
Os dados acerca de mortalidade por homicídio no Brasil são levantados basicamente por duas fontes: o equipamento da saúde através da emissão da certidão de óbito e as delegacias de Polícia Civil através do documento de registro de ocorrência. Ainda que ambas as fontes
apresentem limitações quanto à exatidão de dados e sua abrangências são importantes meios de levantamento de dados deste tipo de violência extrema. (CANO & SANTOS, 2007; CANO &
RIBEIRO, 2007; WAISELFISZ, 2012)
No tocante aos registros ou boletins de ocorrência realizados pelas policiais civis que são condensados nas secretarias de segurança, os dados sobre homicídios geralmente dão conta sobre qualificação da vítima, dinâmica do fato e autor caso o mesmo for reconhecido. Cano & Santos (2007, p.23-4)) apontam três principais problemas em relação a medição por homicídio por esta fonte:
A) Geralmente baseados em critérios jurídicos ou policiais: com o registro se dando através destes tipos de classificações, nem todas as mortes intencionais são creditadas a homicídios. Muito das vezes situações de homicídios podem ser registradas como infanticídio, latrocínio (roubo seguido de morte), cadáveres encontrados (“mortes suspeitas”) ou mortes de civis em “suposto” confronto com a polícia entendido na linguagem policialesca de autos de resistência, por exemplo.
B) Registro somente do fato inicial: a unidade policial faz o registro ou boletim de ocorrência com as informações iniciais que são chegadas ao órgão, rotulando-as em seguida a partir do suposto crime cometido. Desse modo, uma situação de agressão que chega imediatamente à delegacia pode ser classificada como lesão corporal dolosa ou tentativa de homicídio e a vítima pode vir a falecer tempos depois.
C) Baixo nível de padronização e processamento de dados: a existência de várias forças policiais que geralmente não utilizam procedimentos semelhantes, deixando, muito das vezes a critério do delegado que se baseia no Código Penal, abrindo precedentes para a adoção de diferentes critérios e categorias, muito das vezes relacionados a conjunturas locais. Além disso, há a possibilidade de duplicação de registros quando, por exemplo, uma morte pode ser registrada tanto na delegacia mais próxima do fato quanto na unidade policia responsável pela investigação do caso.
A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) com base nesta problemática tem buscado padronizar nacionalmente os índices estatísticos das delegacias. No caso do Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Segurança (SESEG) tem adotado tais critérios a partir do ano de 2009. O Instituto de Segurança Pública (ISP), vinculado à Polícia Civil do Rio de Janeiro publica em sua página eletrônica dados estatísticos mensais acerca das ocorrências policiais.
Em relação ao levantamento de dados extraídos pelas unidades de saúde, vale registrar que o Ministério da Saúde desde o ano de 1979 divulga dados do Subsistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). De acordo com nossa legislação (Lei nº15 de 1973 com alterações da Lei 6216/1975), nenhum sepultamento pode ser feito em território nacional sem a certidão de óbito correspondente. O referido documento deve necessariamente ser atestado por um médico da localidade ou na ausência deste por duas pessoas qualificadas que tenha constatado ou presenciado a morte (WASELFISZ, 2012).
A certidão de óbito possui padronização em todo o nosso país e fornece dados correspondentes à idade, sexo, estado civil, naturalidade e local de residência do falecido. Além disso, há a determinação legal que este documento seja confeccionado no local onde ocorreu o óbito92.
Importante instrumento para a nossa pesquisa é identificação da causa da morte. O Ministério da Saúde adotou até 1995 as classificações do SIM na CID-9 (Classificação Internacional de Doenças) na nona revisão da Organização Mundial de Saúde (OMS). Desde 1996, portanto, o SIM tem sido adotado no CID-10.
Deste modo, o CID-10 em seu vigésimo capítulo apresenta o tópico “causas externas de morbidade e mortalidade”, e o subitem homicídios que recebe o nome genérico de “morte por agressões” se caracterizada por ações intencionais de terceiros com utilização de qualquer meio para causar danos, lesões ou morte da vítima. ((WASELFISZ, 2012, p.15).
Cano & Ribeiro (2007, p55-6) apontam também alguns problemas no levantamento de dados realizado pelas unidades de saúde advinda principalmente de elementos de três naturezas: a cobertura incompleta dos homicídios93, havendo a existência de morte mas que não são registradas e comunicadas oficialmente, ocorrendo com mais frequência em estados mais pobres do país;
mortes mal classificadas em que não se conhece a causa comumente por falta de detalhamento dos médicos ou elevado estado de composição do cadáver; mortes de causas externas por intencionalidade desconhecida, quando há mortes violentas mas não se sabe se foi decorrente de suicídio, acidente ou homicídio onde geralmente os médicos que examinam o corpo não possuem informações sobre a dinâmica do fato. Os pesquisadores ressaltam que esta natureza de problemas na coleta de dados é aquela que pode provocar mais incidência no resultado do que as demais.
92 WASELFISZ (2012) embora considere o método utilizado pelo Ministério da Saúde mais eficaz, visualiza situações em que a violência pode ter ocorrido em uma determinada localidade mas o óbito pode ter ocorrido em outra em função de deslocamento para atendimento de emergência médica.
93 O próprio Ministério da Saúde em sua página eletrônica reconhece alguns problemas desta natureza.
Embora Cano & Santos (2007) citem um projeto da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro de 1995 que objetiva a depuração de dados de diferentes fontes, é praticamente consensual entre os autores pesquisados (WAISELFISZ, 2012) que as bases de dados coletadas pelo Ministério da Saúde (MS) apresentam maior grau de confiabilidade.
Deste modo, preferimos tal levantamento especialmente pela conjugação de três fatores principais: i) os dados do MS possuem uma cobertura padronizada em todo o território nacional; ii) os registros de óbito são sempre em maior número que das unidades policiais pois a agressão no momento do boletim de ocorrência pode ainda não ter causado o óbito; iii) pela própria uniformidade dos dados, possibilitando fazer comparações com informações entre os estados e internacionalmente já que se adota a classificação da OMS.
Além disso, importante destacar que o Ministério da Saúde através do DATASUS disponibiliza em sua página eletrônica94 os dados para consulta de “indicadores de mortalidade”, inclusive com possibilidade de cruzamento de dados. Cabe observar, que ao analisar os dados de crianças e adolescentes, o DATASUS fornece as informações obedecendo um critério que a própria OMS dispõe com as divisões de faixa etária vão de 0 a 19 anos, o que entendemos não haver grandes modificações para que se possam fazer análises dos dados estatísticos.
Embora ainda apresente algumas dificuldades no levantamento de dados em unidades de saúde especialmente no Norte e no Nordeste, os dados de mortalidade do DATASUS, a cobertura está próxima de registro de óbitos se encontra próxima de 100% sobretudo nas outras regiões.
(WAISELFISZ, 2013a)
Cabe destacar também que para realizar uma dimensão instrumental mais qualificada do objeto estudado e possibilitar maiores estimativas de comparações nacionais e internacionais, priorizaremos a utilização das taxas de homicídios por 100mil habitantes em vez de números absolutos.
Outras ferramentas importantes baseadas nesta fonte de dados são os Mapas da Violência. O Mapa da Violência é realizado sobre a coordenação do sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, fornecendo desde 1998 informações, dados e estatísticas sobre mortalidade por causas externas no país. O referido documento, referência no debate sobre homicídios no país, apresenta geralmente frequência anual e conta com uma rica base de dados sobre estes óbitos no país, inclusive produzindo publicações com recortes temáticos de farta abrangência, ainda que deveras simplificado em algumas de suas conclusões.
94 Ministério da Saúde. Indicadores de mortalidade. Disponível em:
http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?idb2010/c09.def
Recentemente, a ONG carioca Observatório de Favelas em conjunto com o Laboratório de Estudos da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV) tem elaborado os Índices de Homicídios da Adolescência (IHA) buscando discutir a incidência dos homicídios no âmbito dos municípios.
Com base nestes dados, podemos observar então que é a partir de meados dos anos de 1980 que as causas externas passam a superar as causas naturais como principal motivo de mortes de crianças e adolescentes no nosso país. E entre as causas externas, o homicídio passa a ter uma forte ascendência neste período e vai se consolidar como a principal responsáveis pelas mortalidades de crianças e adolescentes no país, sobretudo a partir do ano de 1995 em que há a progressiva adoção das políticas neoliberais no país.
Desta forma, como recorte de estudo do nosso trabalho, pretendemos analisar especialmente a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esta região comporta um número de 11.599.156 habitantes (IBGE/2010) correspondido entre os municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Itaguaí, Japeri, Magé, Maricá, Mesquita, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João de Meriti, Seropédica, Tanguá além da capital. Esta é a segunda maior Região Metropolitana do país, terceira da América Latina e a 20ª do mundo (IBGE, 2012 censo 2010)95.
Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro
95 Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/