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Dores, desaparecimentos e resistência

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 183-200)

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu.

Chico Buarque.

O fenômeno do extermínio observado nas últimas décadas entra em profunda contradição com as conquistas históricas advinda da nova constituinte. A dificuldade de materialização dos direitos sociais na sociedade brasileira é parte integrante de todo um legado histórico de alijamento de participação dos setores subalternizados do processo político. A cidadania escassa de crianças, adolescentes e jovens está intrinsecamente ligada às condições de pauperização com que passaram as famílias da classe trabalhadora a partir da adoção das medidas de reestruturação produtiva no país.

Outro elemento importante que se soma às medidas adotadas em um período de ofensiva neoliberal é a permanência e a reprodução do legado repressor e autoritário no trato das expressões mais agudas da “questão social”. Conforme observamos, apesar de cessada a ditadura civil-militar, houve uma tendência da permanência da cultura política militar nas instituições do sistema de justiça criminal, sobretudo na questão da segurança pública, refletindo a problemática da ausência de uma ruptura mais efetiva com o regime ditatorial (FREIRE, 2011a).

No Rio de Janeiro, por exemplo, em menos de uma década da constituinte, um general com atuação expressiva nos anos de chumbo comandou a segurança pública do estado, responsável por um dos maiores crescimentos dos índices de assassinatos. A própria permanência da polícia militarizada nos moldes de atuação do período ditatorial é um exemplo desta trajetória: é preciso, portanto, introduzir o Estado Democrático de Direito nestas instituições, ou melhor, desmilitarizar a segurança pública.

O legado do extermínio deixa marcas profundas em nossa herança política. Se por um lado, observamos um incremento nestes idos da violência urbana e na prática homicida, a partir da análise dos dados podemos constatar que não se trata de eventos generalizados mas, por outro lado, práticas que possuem profundos recortes. Elas afetam mais diretamente a infância e juventude pobre, negra,

do sexo masculino, moradora de favelas, sujeitos históricos que mais sofrem do processo da barbárie do capital fetiche e sua banalização da vida humana. A violência letal, portanto, tem rosto, sexo, faixa etária, local de moradia e raça.

O controle social da juventude, essa energia viva para as utopias futuras, se articula com um discurso sócio/médico/jurídico, entre a falta e a demonização. O menino pobre, mas principalmente o afrodescendente, aparece como representação “daquele que naturalmente cairá no crime” se não for contido pela polícia ou pela caridade, ou até pelos dois:

prevenção/repressão são dois conceitos simbióticos. A neutralização de sua potência é fundamental para a atualização histórica dos processos de criminalização e aniquilamento exigidos pela atual fase do capitalismo de barbárie. (MALAGUTI BATISTA, 2007, p.39).

Outro ponto crucial para compreendermos a dinâmica do extermínio que nos chamou atenção é a profunda a desigualdade racial que esta forma de violência afeta. Se temos observado no Rio de Janeiro, seguindo uma tendência nacional, que há uma pequena redução nos índices gerais de homicídios, por outro lado, assistimos a uma taxa crescente da violência letal contra sua população negra o que representa uma emblemática tendência ao abismo entre negros e brancos naquela que pode ser considerada uma das piores formas de violência.

Além disso, esta violência no conjunto da população afeta prioritariamente adolescentes e jovens. Se por um lado, conforme observamos em nosso levantamento de dados, houve sensíveis melhoras em alguns indicadores sociais nos dois decênios pós-ECA, isto não refletiu na violência urbana onde assistimos mais um capítulo da repressão às “classes perigosas”.

Salvador & Amorim (2010) ao fazerem uma analise sobre as mudanças socioeconômicas do Brasil na última década, observam que apesar do crescimento de renda e emprego no país, nossa imensa desigualdade social permanece inalterada. Questionando a insuficiência metodológica do Coeficiente de Gini para apontar com amplitude a desigualdade social, os pesquisadores ponderam que “a evolução do saldo de emprego não foi capaz de reverter a desestruturação do mercado de trabalho nos anos 80 e 90” (SALVADOR & AMORIM, 2010, p.7).

Nesta linha de análise, houve aumento de desemprego nos setores de maior qualificação e aumento de empregos formais nos setores de baixa remuneração. No que se refere à desigualdade, ocorreu a diferença do abismo entre os mais pobres e a chamada “classe média” atribuída também à valorização do salário mínimo e benefícios previdenciários e assistenciais.

Entretanto, o quadro não mudou substancialmente a desigualdade social entre ricos e pobres em relação a outras décadas. Tomando como ponto de referência a tributação, os autores observam um fenômeno que denominam de “Robin Hood às avessas” (SALVADOR & AMORIM, 2010), isto é, com a maior taxa de impostos recaindo aos assalariados e servidores públicos. A fase de

crescimento econômico brasileiro apresenta elementar elo com nossa formação social, das mudanças ocorrendo a partir de junção de interesses das classes dominantes nativas com os grandes monopólios com o forte aparato do Estado.

Já Pochmann (2007) avalia nossa profunda desigualdade social como fruto de nosso processo de formação histórica em que os regimes autoritários beneficiaram em demasia os setores mais ricos da sociedade aprofundando o abismo. Diferente de alguns países centrais, no Brasil a composição fundiária se encontra muito concentrada e o sistema tributário permanece regressivo apesar de alguns ganhos referentes às políticas sociais cujos gastos públicos nos últimos anos foram significativos mas insuficientes para romper esta herança excludente.

As ações de governo terminam se direcionando a tarefas de curto prazo, incapazes de alterar a estrutura de concentração dos agregados de renda e riqueza. Reciprocamente, a concentração do poder econômico e político impõem obstáculos profundos à gestão o país.

O reacionarismo das elites que concentram o poder tem inviabilizado a concretização de reformas em um ambiente democrático. Na ausência de revolução e reformas, geralmente obstadas pelo conservadorismo, as políticas públicas ficaram no meio do caminho (POCHMANN, 2007).

Em estudo recente a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)119 avaliando o mercado de trabalho no Brasil revela que apesar do crescimento no emprego, o desemprego tem afetado mais a juventude. Os dados revelam que jovem tem três vezes mais chances de ficar desempregado do que os adultos, se um terço da população apresenta idades entre 15 e 24 anos, cerca de 46% dos desempregados estão nesta faixa etária. Esse cenário se encontra combinado com fatores como falta de qualidade na política de educação, por exemplo, e apresentar ainda maiores desigualdades quando se faz o recorte de raça e gênero. Trata-se de um perfil semelhante da adolescência/juventude descartada que compõe majoritariamente as estatísticas de extermínio em uma sociedade cujo apelo ao consumo se dá como pilar em detrimento da cidadania

Um aspecto imprescindível para compreendermos o fenômeno do extermínio é sua relação direta com a produção e circulação massiva de armas de fogo no país. A relação de uso, posse e distribuição de armas de fogo e sua utilização nos mais diversos conflitos constituem um mix explosivo no contexto da violência urbana e suas consequências no capitalismo em sua fase de esgotamento de seus padrões civilizatórios. Waiselfisz (2013b) com base em um estudo recente estima que há no Brasil 15,2 milhões de armas em mãos privadas, sendo que delas mais da metade

119Risco de jovem ficar desempregado no país é três vezes maior que de adulto”. O Estado de São Paulo, 22/10/2013.

Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,risco-de-jovem-ficar-desempregado-no-pais-e- tres-vezes-maior-que-de-adulto,168106,0.htm. Consulta em 23/10/13 às 10h34.

(8,5mi) não são registradas. O pesquisador menciona que entre 1980 e 2010, 800 mil pessoas morreram vítimas por armas de fogo representando um crescimento de 346,5% enquanto a população geral cresceu 60%. Entre os jovens esse incremento foi maior com um percentual de 414% neste mesmo lastro temporal.

O crescimento do uso das armas de fogo como instrumento de letalidade também é evidente quando se estabelece a comparação da proporcionalidade dos homicídios e seus métodos empregados. Para se ter uma ideia da dimensão do fenômeno, em 1980 a proporção de assassinatos por projétil de armas de fogo (PAF) em relação a outros meios era de 70%, passando a 80% em 1992 e chegando a 94,6% no ano de 2010.

Quando fazemos alguns recortes, podemos destacar, de acordo com Waiselfisz (2013b) que as mortes por armas de fogo atingem prioritariamente negros e do sexo masculino, chegando a este o percentual de 93%. No tocante à faixa etária, há uma curva progressiva nos homicídios por PAF até a idade de 21 anos quando a taxa média começa a cair.

Embora se tenha assistido pequenos avanços a partir do Estatuto e campanha pelo desarmamento, o Brasil ainda apresentada uma das maiores cifras de mortes por armas de fogo cujo comparativo é muito superior a alguns conflitos e guerras declaradas no mundo. (WAISELFISZ, 2013b) Cabe observar que na sociedade burguesa, a produção está inserida de forma dialética à relação de consumo (MARX, 2012), entendo assim que a maior recorrência e circulação de armas de fogo está intrinsicamente situada no contexto da saída, conforme problematizamos no decorrer de nosso estudo, via complexo industrial-militar estimulada a partir dos anos 80 pelos Estados Unidos como possível caminho de fomentar a acumulação em um contexto de crise.

Trazendo esta dinâmica para nossas particularidades, podemos destacar no país a facilidade de aquisição de armas de fogo, bem como a falta de um controle mais efetivo pelo poder público.

No Rio de Janeiro, é a partir dos anos 90 que se assiste ao incremento de fuzis de alto poder destrutivo, tanto pela Polícia Militar quanto sua utilização pelo tráfico de drogas. Assim como este setor, o tráfico de armas é uma atividade ilegal que movimenta milhões de dólares e geralmente envolve agentes do Estado nesta atividade. (MISSE, 2006; ALMEIDA, 2004)

Outro elemento a se considerar na abordagem dos homicídios no Brasil é a precária investigação e elucidação de casos de assassinatos pelo sistema de justiça de criminal. Waiselsifz (2013b) a partir de um estudo do Ministério da Justiça observa que no Brasil o índice de elucidação de crimes de homicídio está em torno de 5% e 8%, considerado baixíssimo. Se fizermos comparações internacionais, os percentuais de resolução destes casos chegam a 65% nos Estados Unidos, 80% na França e 90% no Reino Unido (WAISELFISZ, 2013b)

Dentre os aspectos relacionados, podemos destacar a falta de equipamentos tecnológicos para uma investigação qualificada e número reduzidos de peritos, sendo necessário quintuplicar o

efetivo existente segundo padrões internacionais120. No entanto, apesar de concordarmos com a deficiência do aparato técnico das forças policiais, entendemos que a investigação dos homicídios pelas policiais corroboram com a ideologia criminalizadora das “classes populares”, isto é, as mortes homicidas direcionadas aos setores mais pauperizados da classe trabalhadora não carecem de um exame mais aprofundado.

Tanto é que, na realidade recente fluminense, assistimos a dois casos de êxito nas elucidações de assassinatos como o da Juíza Patrícia Acioli ou do ajudante de pedreiro Amarildo121. Além disso, conforme problematizamos, a questão dos “autos de resistência” das mortes praticadas por policiais são exemplos fecundos da legitimação do extermínio contra as populações negras e pobres.

No âmbito da violência urbana, a categoria do desaparecimento forçado tem sido designada a ocorrências das chamadas “mortes sem corpos”. Araújo (2009) argumenta que a questão dos desaparecimentos forçados emergiu na América Latina nos anos 70 no contexto dos regimes de ditadura militar. Todavia, o período democrático tem produzido em massa seus desaparecidos.

O desaparecimento forçado se estabelece com a captura violenta do indivíduo que é transportado a lugares ermos onde, na maioria das vezes, são torturados e assassinatos. Trata-se de uma forma de homicídio em que se busca não deixar vestígios onde algumas estratégias são utilizadas como incinerar o corpo, mutilar algumas de suas partes e distribuí-las em diferentes localidades, jogá-las em rios ou enterrá-las em cemitérios clandestinos. A técnica macabra que foi largamente utilizada no país durante o regime militar permanece a ser utilizada pelas forças de segurança, neste contexto direcionada às suas populações criminalizadas.

Estima-se, segundo Araújo (2009) com base nos dados do ISP que tenham desaparecidos cerca de 50mil pessoas entre 1991 e 2005 no Rio de Janeiro. Porém, há uma grande dificuldade de mensurar o fenômeno visto que muitos dos casos em que se registram o desaparecimento, o denunciante não comunica à unidade policial quando a pessoa é encontrada e alguns casos também não são denunciados por temor de represália. Geralmente as ossadas encontradas são enterradas em cemitérios como indigentes. Os desaparecidos forçados no contexto fluminense estão geralmente ligados ao tráfico de drogas, policias e milícias.

120 “Brasil é negligente com perícia e impunidade como resultado apenas 10% dos homicídios são elucidados”. Jornal O Globo, 24/11/2011. Disponível em: http://oglobo.globo.com/politica/brasil-negligente-com-pericia-impunidade- como-resultado-apenas-10-dos-homicidios-sao-elucidados-2694252. Consulta em 13/09/2012 às 22h34.

121 Importante observar que a investigação da morte do pedreiro Amarildo se deu em um contexto político peculiar, muito mais pela repercussão dos casos do que uma prática comum da segurança pública.

De acordo com o desenvolvimento de nossa análise podemos considerar que, se no período analisado, os índices de extermínio de crianças, adolescentes e jovens se encontram com altíssimas taxas, a problematização que fazemos dá conta que essa cifra pode ainda ser maior visto que muitas dessas vítimas não tiveram seus corpos para serem registrados122. O caso emblemático da favela de Acari em 1990 já relatado em nossa pesquisa é uma síntese deste fenômeno.

Ao analisar a questão dos desaparecimentos no Rio de Janeiro pós-constituição, Araújo (2012) priorizou abordar estas ocorrências sob a ótica dos familiares destes indivíduos. O pesquisador observou, assim como ocorre entre outras situações desta natureza, uma dinâmica omissa e criminalizadora do sistema de justiça criminal no atendimento a estas denúncias, sobretudo aquelas realizadas por moradores de favelas, aqueles que apresentam os maiores contingentes de desaparecidos em tempos de normalidade democrática. As falas dos policiais reproduzem um discurso uníssono que nada podem fazer já que o desaparecimento não é crime e que se trata de um problema familiar e não uma questão policial: “não tem corpo, não tem crime”, é a frase recorrente que os familiares ouvem, além de muitos se queixarem de prestar depoimento nas situações envolvendo suposta autoria de policiais.

O contexto de extermínio de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro afeta toda uma sociabilidade e compõe um ciclo perverso no tratamento às classes subalternas de parcos acessos a riqueza social. O lugar da dor se mistura com a revolta ao mesmo tempo que se banaliza a vida e os aparelhos ideológicos de hegemonia legitimam o infanticídio. Mas há também o lócus da resistência e no período em apreço assistimos a diversas mobilizações de familiares de vítimas de violência letal.

Há um recorte expressivo de gênero nestes movimentos sociais, formadas por mães, mulheres buscando incessantemente por justiça ou simplesmente, o que não é raro nestes casos, a luta se dá em provar que o filho perdido não participava de atividade criminosa, não “era bandido”

cujas mortes gozam de tolerância social através da reprodução ideológica desistoricizada da violência. Os grupos das Mães de Acari ficaram muito conhecidos na década de 90 por dar uma publicidade ao caso apesar de sua primeira líder ter sido assassinada e as Mães da Candelária que faziam vigília em frente à centenária igreja com as fotos de seus filhos mortos e desaparecidos.

122 Um debate controverso que tem se colocado no Rio de Janeiro dão conta de que o número de homicídios no Estado tem diminuído nos últimos anos em função do aumento dos registros de desaparecimentos. Contudo, entendemos prematura esta afirmação visto que se necessita de uma análise mais aprofundada destes dados. Ver: “Pesquisa do IDDH relaciona ações de PMs com os desaparecidos da democracia.” Disponível em:

http://www.jb.com.br/rio/noticias/2013/11/10/pesquisa-do-iddh-relaciona-acoes-de-pms-com-os-desaparecidos-da- democracia/. Consulta em 24/11/2013 às 5h12.

Neste contexto, merece destaque a Rede de Comunidades e Movimento contra Violência formado principalmente por mães que perderam seus filhos para a violência policial e militantes de direitos humanos voltados ao tema dos direitos humanos dos moradores de favelas. Fundada em 2004, a RCMV tem a proposta de mobilizar a sociedade para a questão do extermínio praticados contra crianças, adolescentes e jovens promovendo denúncias, campanhas e mobilizações populares como a caminhada da Candelária, por exemplo. Trata-se de uma resistência coletiva através do sofrimento no qual se multiplicaram grupos com essas características no Brasil vide o extermínio de seus seres em condições peculiares de desenvolvimento, de uma denúncia à cidadania escassa em que vivem milhões de cariocas e brasileiros.

De acordo com Almeida (2004, p 52-3)

Na vivência da perda, os sujeitos vão figurando seus lugares, adquirem um lugar personalizado na história, constroem um lugar de paixão política, de paixão afetiva. De luta vida x morte, que se materializa em projetos e vidas bruscamente interrompidos, mas que geram novos projetos e novas formas de vida, na perspectiva da nostalgia aberta, de que fala Cardoso: “a ‘nostalgia aberta’ é um tipo de memória que produz os ‘lugares da memória’ a partir da dor. [...] O retorno da ‘nostalgia aberta’, não como retorno às origens ou às fontes, mas como um ‘retorno adiante’, o ‘deixar que as fontes nos retornem’”

(2001:129-130). É a partir da dor, como categoria pertinente de interrogação histórica, como geradora de um lugar social, e da violência institucional que atravessam com matizes diferenciados e com adversários nomeados (e, por vezes, inominados), que também ocupam diferentes lugares sociais, que determinados sujeitos constroem seu espaço nas esferas privada e pública, contraem relações formais e vão delineando uma consciência mais ampla. (grifo nosso)

A incidência dos homicídios e suas características peculiares têm sido nos últimos anos matérias de denúncias internacionais, mobilizações e audiências públicas, tendo como problema central a violência estatal. O Governo Federal, através da Secretaria de Direitos Humanos, passou a contribuir a partir de 2008 no Programa de Redução à Violência Letal (PRVL)123. Estratégia criada pela ONG carioca Observatório de Favelas e parceria com a UNICEF visando ações de sensibilização e produção de instrumentos de monitoramento de mortes violentas de adolescentes, especialmente aqueles dos grandes centros urbanos brasileiros.

Não pretendemos aprofundar o debate a partir desta experiência inovadora mas compreendemos o mérito deste programa em publicizar em forma de denúncias os extermínios perpetrados contra adolescentes, inclusive criando um índice (IHA) municipal de ocorrência destas violências. Em uma de suas publicações, há uma coletânea de projetos sociais com adolescentes

123 Ver http://prvl.org.br/.

moradores de favelas dos centros urbanos mais afetados pela violência letal. Contudo, entendemos ainda o programa ainda tímido em algumas de suas conclusões e propostas.

Outro aspecto observado a partir de boa parte da bibliografia aqui utilizada sobre violência urbana é o trato recorrente às soluções baseadas em questões meramente técnicas desvinculadas de uma análise política deste fenômeno articulada com nossa particularidade histórica e descolada do estágio macrossocietário da sociedade capitalista, guiada muito das vezes por certa fetichização dos números.

Evidente também que algumas questões aqui problematizadas carecem de pesquisas futuras mais minuciosas, bem como adoções de estratégias políticas em um assunto tão delicado. Dentre os assuntos aqui dissertados, podemos elencar brevemente alguns debates fundamentais aqui já apontados como estratégias mais imediatas de enfrentamento à letalidade de crianças e adolescentes nas quais destacamos: políticas sociais universais gratuitas e de qualidade com recorte geracional, gênero e raça; desmilitarização da segurança pública; descriminalização das drogas; controle na produção e circulação de armas de fogo; fortalecimento do aparato tecnológico e investigativo dos homicídios.

O extermínio de crianças e adolescentes aqui entendidos é uma síntese de múltiplas determinações que dada nossa inserção periférica na sociedade burguesa retoma as raízes autoritárias, patrimonialistas, das soluções dos conflitos na forma privada e autoritária. Delega uma visível contradição em relação às possibilidades históricas advindas da nova constituinte e o Estatuto da Criança e Adolescente pois conforma uma paradoxal convivência com os aspectos mais arbitrários da herança política autoritária maximizada na ditadura militar.

É também um retrato dos mais perversos e dolorosos da égide neoliberal que sob a manta do capital fetiche promove a coisificação cada vez mais abrangente da vida humana em um sistema que esgotou suas possibilidades civilizatórias onde a pobreza, em vez de ser eliminada deve ser administrada ou exterminada em seus setores mais descartáveis. É preciso alterar, portanto, as raízes profundas desta sociedade tendo por norte a superação da sociabilidade sob a órbita do capital.

De algum modo, quaisquer dessas indicações imediatas aqui situadas só surtirão grandes efeitos quando se eliminarem as principais questões que assolam o campo da cidadania do nosso país. Só surtirá grandes efeitos às políticas de redução da violência se estas vierem acompanhadas com políticas públicas sociais universais, de qualidade e realmente efetivas Assim, de acordo com Almeida 2004 (p.64):

É necessário imprimir a visão de totalidade necessária à apreensão dos processos sociais em suas múltiplas determinações. Mais do que propor políticas voltadas para determinados

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 183-200)