O Contrato de Emprego, em decorrência da importância que ostenta no ordenamento jurídico, deve ter um estudo que envolva suas características, para que haja maior clareza sobre esse instituto indubitavelmente fundamental no mundo do direito. Cumpre-se observar os elementos caracterizadores que o norteia.
O pacto que une Empregado e Empregador possui certas peculiaridades que outros Contratos não têm. O Contrato Empregatício é o único acordo que abarca as características que serão estudadas a partir deste momento. Em outros termos, “entre os caracteres do contrato de trabalho apontados pela doutrina, poderão ser arrolados os seguintes: trata-se de um contrato de direito privado, sinalagmático, de execução continuada, consensual, intuito personae em relação ao empregado, oneroso e do tipo subordinativo.”153 (grifo nosso).
Não obstante, ter apresentado estas características, deve-se ainda salientar que serão apresentadas outras, de modo a buscar um conhecimento mais profundo, como a bilateralidade, profissionalidade, entre outros.
Inicialmente, concernente à primeira das características, isto é, Contrato de Direito Privado, há o entendimento de Glaucia Barreto, quando diz que “o contrato de trabalho é de Direito Privado, pois reflete relações existentes entre particulares. Os interesses que
152 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. p. 468.
153 MONTEIRO, Alice de Barros. Curso de direito do trabalho. p. 238.
prevalecem em uma relação empregatícia são dos pactuantes, dos envolvidos na relação:
empregado e empregador.”154
Assim, pode-se interpretar com os argumentos que foram explanados no momento em que se discorria sobre a natureza jurídica do Direito do Trabalho. Ou seja, quando se tratou da posição enciclopédica do Direito Laboral, verificou-se que este regula a relação entre os particulares: daí o caráter privado das normas justrabalhistas.
Ratificando essa tese, João Manoel Moreira Barros diz que “a relação jurídica instaurada pelo contrato de trabalho é de direito privado, fundando-se, ordinariamente, no acordo de vontades das partes [...].”155 Nesse norte, verifica-se que o Contrato Empregatício está para solenizar uma Relação Jurídica entre particulares: Empregado e Empregador.
Dessa peculiaridade pode-se destacar outra que é denominada bilateralidade, porque “é bilateral o contrato de trabalho, por ser celebrado apenas entre duas pessoas, o empregado e o empregador. Não existe a participação de um terceiro nessa relação.”156
Completando o exposto acima, há outro chamado consensual, que nas palavras de Evaristo de Moraes Filho e Antonio Carlos Flores de Moraes, significa “que não se trata de um negócio jurídico solene nem formal. Não depende de formas especiais prescritas em lei para ter validade, bastando o simples consentimento, tácito ou expresso, de ambas as partes (443 da CLT).”157
Basta o consentimento dos pactuantes para a configuração do Contrato de Emprego.
Empregado e Empregador apenas precisam ajustar os termos do acordo, de modo que não dependa forma alguma para a sua realização. “O direito do trabalho não exige forma especial para a validade e eficácia do contrato de trabalho, ou seja, mesmo não sendo escrito, terá validade e eficácia [...].”158 Ou seja, basta o consentimento de ambos os sujeitos.
Sendo assim, há outro caracter que está relacionado com o supra mencionado, é o sinalagmático. “Para essa característica a doutrina aponta a circunstância de resultarem do
154 BARRETO, Glaucia. Curso de direito do trabalho. p. 62.
155 BARROS, João Manoel Moreira. Prática trabalhista e processo do trabalho. p. 195.
156 MARTINS, Sergio Pinto. Direito do trabalho. p. 92.
157 MORAES FILHO, Evaristo de; MORAES, Antonio Carlos Flores de. Introdução ao direito do trabalho. 9.
ed. São Paulo: LTr, 2003, p. 251.
158 CARRION, Valentin. Comentário à consolidação do trabalho. p. 287.
contrato empregatício obrigações contrárias, contrapostas. Haveria, assim, reciprocidade entre as obrigações contratuais, ensejando equilíbrio formal entre as prestações onerosas.”159
Ou seja, quando da Relação de Emprego, os sujeitos do Contrato Empregatício estão diante de obrigações recíprocas. Nas palavras de Christiano Abelardo Fagundes Freitas e Léa Cristina Barboza da Silva Paiva160, tal pacto possui essa peculiaridade “porque prevê obrigações para ambas as partes. O empregado tem a obrigação principal de laborar, ou seja, uma obrigação de fazer. O empregador, por seu turno, tem a obrigação de dar serviço e de pagar ao empregado [...].” (grifo nosso).
Desta forma, verifica-se que a contraprestação decorrente do caráter sinalagmático do Contrato de Emprego, é a que de um lado está o Empregado, que presta serviço para um Empregador, e de outro está este que remunera aquele, como contraprestação pelo seu trabalho desempenhado.
Seguindo essa linha de raciocínio, verifica-se a continuidade na prestação do serviço.
E está é outra característica do Contrato Empregatício (também denominada de trato sussesivo), e quer dizer que “não se esgota com a prática de ato único.”161
A fim de fixar tal entendimento, melhor explica Glaucia Barreto162 alegando que:
pressupõe a continuidade, deve perdurar no tempo. É uma relação de débito permanente, pois as obrigações principais deste contrato (trabalho e verbas salariais) sucedem-se continuadamente no tempo, diferente do aspecto instantâneo nos contratos de compra e venda ou esporádico no contrato de trabalho avulso.
Destarte, verifica-se que o Contrato de Emprego visa uma relação que não se perfaz com uma única conduta ou alguma situação que o rescinda de pronto, com a realização de apenas um ato. Deve haver o elemento continuidade, pois, se fosse apenas um ato que desfizesse o contrato, não estaria diante do Contrato Empregatício, e sim do contrato de prestação de serviço do Direito Civil.
159 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. p. 471.
160 FREITAS, Christiano Abelardo Fagundes; PAIVA, Léa Cristina Barboza da Silva. Curso de direito individual do trabalho: com registro de jurisprudência e com resolução de questões do Exame de Ordem. São Paulo: LTr, 2005, p. 33.
161 PINTO, José Augusto Rodrigues; FILHO, Rodolfo Pamplona. Repertório de conceitos trabalhistas. vol. 01.
São Paulo: LTr, 2000, p. 154.
162 BARRETO, Glaucia. Curso de direito do trabalho. p. 63.
Com relação à peculiaridade referente a intuito personae, Délio Maranhão afirma que esta característica concerne “à pessoa do empregado.”163 E ainda reitera Alice de Barros Monteiro: “isso significa que o empregado não poderá se fazer substituir por outrem na prestação de serviços, salvo esporadicamente e com a aquiescência do empregador.”164 (grifo nosso).
Desta feita, observa-se que o Empregado é obrigado a trabalhar e desempenhar suas atividades laborais sem com que se faça substituir por outro trabalhador, mesmo que eventualmente, sem o consenso para com o Empregador. Contudo, o mesmo não procede diante do Empregador.
Assim ensina Maurício Godinho Delgado165:
Enquanto o empregado é figura subjetivamente infungível no contexto do contrato de trabalho – sob pena de descaracterizar-se esse contrato –, autoriza a ordem justrabalhista, em princípio, a plena fungibilidade da figura do empregador, que pode, assim, ser sucedido por outrem no contexto da mesma relação de emprego.
Semelhantemente Christiano Abelardo Fagundes Freitas e Léa Cristina Barboza da Silva Paiva apontam que é “imprescindível registrar que, com relação ao empregador, não se observa essa exigência, o que é ratificado pelos arts. 10 e 448, da CLT.”166 Neste momento, se faz necessário a transcrição de tais dispositivos, para melhor compreensão do que se está discutindo.
Assim dispõe o art. 10 da CLT: “Qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa não afetará os direitos adquiridos por seus empregados.”167 E o texto do art. 448, alude que:
“A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados.”168
Somente o Empregado que arca com a responsabilidade de prestar o serviço sem recorrer a possibilidade de se fazer trocar por outrem que desempenhe sua atividade. O
163 SÜSSEKIND, Arnaldo; MARANHÃO, Délio; VIANA, Segadas, et al. Instituições de direito do trabalho.
p. 245.
164 MONTEIRO, Alice de Barros. Curso de direito do trabalho. p. 238.
165 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho.p. 472.
166 FREITAS, Christiano Abelardo Fagundes; PAIVA, Léa Cristina Barboza da Silva. Curso de direito individual do trabalho: com registro de jurisprudência e com resolução de questões do Exame de Ordem. p. 32.
167 Vade Mecum Universitário De Direito. Anne Joyce Angher, organização. p. 614.
168 Vade Mecum Universitário De Direito. Anne Joyce Angher, organização. p. 614
Empregador poderá ser alterado, pois da interpretação legal se conclui isso e também está com a possibilidade de admitir que o trabalhador seja substituído em certas ocasiões.
Assim, cumpre observar a característica onerosa do Contrato Empregatício, que, nos ensinamentos de Sergio Pinto Martins quer dizer o seguinte: “não é gratuito o contrato de trabalho, mas oneroso. O empregado recebe salário pelos serviços prestados ao empregador.”169
Nesse mesmo sentido está o posicionamento de Evaristo Moraes Filho afirmando que
“o empregador deve pagar, no mínimo, o salário mínimo a seu empregado.”170 Há o dever, por parte do Empregador, remunerar o trabalhador, é consequência de outra característica do Contrato de Emprego, a sinalágmatica.
Amauri Mascaro Nascimento171 apresenta outra característica: a profissionalidade, que afasta os serviços gratuitos ou prestados com finalidades não profissionais, como o trabalho benemerente e assistencial, por espírito de colaboração ou de vizinhança, ou com propósitos exclusivamente religiosos.
A profissionalidade pressupõe uma troca entre trabalho e retribuição. (grifo nosso).
Essa peculiaridade é complementar à exposta acima, pois ambas visam uma retribuição entre trabalho e remuneração. Desta forma, verificada tais características, passa-se para a análise da última destas: subordinação.
Antes de adentrar na subordinação, cumpre-se atentar que somente, neste momento, irá se abranger sucintamente o que entende-se por subordinação, pois, quando tratar-se sobre o conceito de Empregado, irá ser discutida mais a fundo a sua problemática.
Dito isso, Glaucia Barreto assevera que “o trabalhador não trabalha como quer, terá que obedecer às ordens do empregador, é um se deixar dirigir pelo empregado (faça isso, faça aquilo ou não faça isso, não faça aquilo).”172
Assim, “o traço característico da subordinação é a observância a diretivas constantes e analíticas sobre o modo e o tempo em que deverá ser executada a prestação de serviço.”173
169 MARTINS, Sergio Pinto. Direito do trabalho. p. 91.
170 MORAES FILHO, Evaristo de; MORAES, Antonio Carlos Flores de. Introdução ao direito do trabalho. p.
53.
171 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho: história e teoria geral do direito do trabalho: relações individuais e coletivas do trabalho, p.541.
172 BARRETO, Glaucia. Curso de direito do trabalho. p. 63.
(grifo nosso). O Empregado deve trabalhar mediante certas ordens proferidas pelo Empregador, de modo obter a realização do produto final ocasionado pelo labor do trabalhador.
Esta característica será estudada no momento oportuno, pois, há uma discussão que a envolve e que deve ser apresentada neste trabalho, para que fique constatada a sua importância no Contrato de Emprego.
Desta forma, neste tópico foram apresentadas as principais características do Contrato de Emprego. Peculiaridades estas que sem as quais, o Contrato Empregatício não restará ocorrido, pois, são elas que diferenciam essa forma de negócio jurídico das demais formas.
Partindo dessa tese, no próximo item observa-se o estudo dos sujeitos da Relação de Emprego, ou seja, da figura do Empregado, bem como a do Empregador.