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Capítulo 1: Ela(s)

1.1 História das Mulheres

A história das mulheres expõe a hierarquia implícita em muitos relatos históricos.

Por isso, ela desafia e desestabiliza as premissas disciplinares estabelecidas na História e seu objeto: os homens no tempo. A história das mulheres também põe em xeque o uso do termo homem como sujeito universal e representativo de todo o gênero humano. Mas, faz- se necessário um exercício reflexivo sobre as mulheres como uma categoria, tomando sempre a precaução de considerar as construções feitas acerca da feminilidade e do próprio sexo biológico de maneira não essencializada e histórica (SCOTT, 2011). A esse respeito, a historiadora estadunidense Joan Scott – referência dos estudos das relações de gênero na historiografia – afirma:

Olhar as normas de gênero como uma indagação na história é aceitar que suas respostas, entendidas como uma forma cultural de configurar as práticas e os corpos, estão abertas (...) e que, portanto, a ‘anatomia’ e o

‘sexo’ não necessariamente são os marcos irrevogáveis do destino [ou da natureza] (SCOTT, 2003: 25).

Sobre a desnaturalização dos sexos e a desconstrução do devir feminino, a historiadora Margareth Rago (1998) chama nossa atenção para a utilidade da categoria relacional de gênero para os estudos da mulher:

Portanto, em se considerando os ‘estudos da mulher’, esta não deveria ser pensada como uma essência biológica pré-determinada, anterior à História, mas como uma identidade construída social e culturalmente no jogo das relações sociais e sexuais, pelas práticas disciplinadoras e pelos discursos/saberes instituintes. Como se vê, a categoria do gênero encontrou aqui um terreno absolutamente favorável para ser abrigada, já que desnaturaliza as identidades sexuais e postula a dimensão relacional do movimento constitutivo das diferenças sexuais (1998:7).

Michelle Perrot (1998, 2005) é uma das mais conhecidas historiadoras francesas e uma das mais eminentes em se tratando de história das mulheres. De sua obra, pretendemos destacar a forma como a autora questiona o interesse em fazer um trabalho de memória com as mulheres, os “lugares tradicionais” das mulheres na historiografia e as dificuldades de rastreamento das fontes relacionadas diretamente com as mulheres. A conservação dos traços, dos indícios das mulheres do passado nos arquivos públicos, é mais difícil, pois, elas são relegadas não só a documentos privados, como a temas do âmbito privado (2005: 12). As mulheres costumam aparecer quando perturbam a ordem.

Um exemplo disso é o caso da revolucionária francesa Olympe de Gouges, que, acusada de

tentar tomar um espaço que não era seu, subvertendo aquilo que lhe foi imposto como mulher, proporciona-nos fontes riquíssimas sobre como uma mulher do seu tempo se via e vivia – ao contrário de muitas fontes de autoria masculina.

Num relato histórico sobre as mulheres, o desejo de conhecer sobre as questões que as próprias mulheres elucidaram ainda são questões que nos fazem revisitar outros problemas, como o poder, o político, a cultura, o trabalho, a família, o amor, entre tantos outros (1998: 25). Em seu livro Os excluídos da história– Operários, Mulheres e Prisioneiros, Perrot dá voz a esses grupos sociais que precisam ser rememorados: “pois este silêncio, imposto pela ordem simbólica, não é somente o silêncio da fala, mas também o da expressão, gestual ou escriturária” (2005:10). Vale ressaltar como foi se construindo, a partir do século XVIII, a mulher como uma potência civilizadora, como a figura da mãe que é responsável pela educação dos filhos, por criar bons cidadãos e pelo “bom” destino das sociedades humanas (1988:168-169).

Para enriquecer nossa discussão, é útil mencionar as reflexões de Elisabeth Badinter (1991, 2003). Segundo a filósofa, dois tipos de mulheres mais chamaram a atenção durante a Revolução: as mulheres “da pena” que gozavam de um relativo prestígio no Antigo Regime, e as anônimas, mulheres do povo. Essas últimas são, na verdade, “as primeiras a reagir em período de miséria, e a tomar a frente dos motins da fome. (...) As raras descrições que nos chegam mostram-nas feias, sujas, descabeladas e ameaçadoras. Mais próximas da animalidade do que da humanidade. Surdas a qualquer raciocínio” (1991:9).

Desse modo,

inscrever as mulheres na história implica necessariamente a redefinição e o alargamento das noções tradicionais do que é historicamente importante, para incluir tanto a experiência pessoal e subjetiva quanto as atividades públicas e políticas. Não é exagerado dizer que por mais hesitante que sejam os princípios reais de hoje, tal metodologia implica não só em uma nova história das mulheres, mas em uma nova história (SCOTT, 1989:4).

A identidade social e individual do que significa ser “mulher” e as diferentes formas como essa identidade foi concebida, em toda sua multiplicidade, são também objeto da história e devem ser compreendidas em sua historicidade. Seguindo as proposições de Joan Scott, pretendemos compreender o feminismo como um conjunto de processos discursivos historicamente variáveis, com epistemologias, instituições e práticas que possibilitam a fala, a escrita e o agir político, mesmo quando negado pela ordem vigente

(2002:41). Assim, poderemos perceber como o processo da construção sociocultural do gênero também está sob escrutínio histórico (BURKE, 2012:87).

A história das mulheres tem um lugar determinante em nosso esforço intelectual. A história das mulheres, muitas vezes, é tratada como um tema descolado das abordagens mais gerais da História, nas quais costuma ser tratada como um adendo, um conteúdo ou um tema à parte do “curso geral” da História. Nessa ordem masculinista de mundo, a história das mulheres, na maioria das vezes, é vista como um suplemento historiográfico (SCOTT, 2011:78), ocupando um lugar já normatizado para se falar do segundo sexo (BEAUVOIR, 1970). É nesse lugar discreto que se é apropriado para falar das mulheres, sem causar tanto incômodo, transtorno ou desconforto à historiografia, que costuma funcionar dentro dos marcos ocidentais masculinos em suas teorias, seus temas e suas prioridades. A história das mulheres traz consigo a

ambiguidade [...] e força política potencialmente crítica, uma força que desafia e desestabiliza as premissas disciplinares estabelecidas, mas sem oferecer uma síntese ou uma resolução fácil. O desconforto subjacente a tal desestabilização conduziu não apenas à resistência por parte dos historiadores ‘tradicionais’, mas também um desejo de resolução, por parte dos historiadores das mulheres. Entretanto, não há resolução simples, mas apenas a possibilidade constante de atenção aos contextos e significados no interior dos quais são formuladas as estratégias políticas subversivas (SCOTT, 2011:79)

Tentando escapar da lógica da suplementaridade14 do gênero (2011:78), procuramos mostrar que o gênero é uma categoria de análise útil (SCOTT, 1989) para repensarmos e revisarmos até mesmo nossos temas mais consagrados na historiografia, sendo este o caso, por exemplo, da Revolução Francesa. Nosso objetivo, então, é o de tentar costurar a discussão de ideias promovida por mulheres revolucionárias, especificamente nas palavras de Olympe De Gouges, no debate já consagrado sobre Iluminismo, Republicanismo e Revolução Francesa.

O dilema da diferença acompanha historicamente o feminismo e outros movimentos identitários, que passaram a perceber, ou tomaram consciência, da historicidade da desigualdade baseada nas diferenças socialmente percebidas entre os sexos, as sexualidades, as cores e os credos. No que toca às discussões a respeito das diferenças-desiguais entre homens e mulheres, o feminismo não se ateve apenas ao mundo

14A lógica da suplementaridade é uma noção desenvolvida pela historiadora Joan Scott ao longo de toda sua obra e faz referência à sua concepção historiográfica de que a História das Mulheres não deve ser um suplemento, ou seja, algo que se adiciona à História (SCOTT, 2011).

público e à esfera política institucional, mas, também, passou “a problematizar as concepções de subjetividade e as estratégias que têm mobilizado para criá-las” (RAGO, 2013:27).

Nesse sentido, vale dizer, considero os feminismos como linguagens que não se restringem aos movimentos organizados que se autodenominam feministas, mas que se referem a práticas sociais, culturais, políticas e linguísticas, que atuam no sentido de libertar as mulheres de uma cultura misógina e da imposição de um modo de ser ditado pela lógica masculina nos marcos da heterossexualidade compulsória (2013:27).

No seu livro A aventura de contar-se, a historiadora Margareth Rago aponta as principais bandeiras que as feministas levantam hoje no Brasil e no mundo, a saber: o direito ao controle da própria vida, a busca da construção de uma linguagem feminista corporificada e a crítica às hierarquias de gênero presentes nos modos de organização social (2013:42). Nosso intento é o de inscrever essas mulheres – na figura de Olympe De Gouges – no bojo comum de reivindicações femininas possibilitadas pelo debate ilustrado e contribuir para a percepção da longa duração da prática política da liberdade e da busca pela igualdade que acompanha a história dos feminismos, de suas precursoras até os nossos dias.