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Capítulo 1: Ela(s)

1.7 Republicanismo em questão

a Revolução? Como afirma Outram: “as mulheres como tais, nesse mundo bipolar de referências, eram o Mal. Em grande medida, a influência das mulheres era vista como a característica definidora da corrupção do poder sob o Antigo Regime” (OUTRAM, 1997:147). A relação das mulheres com esse discurso, longe da não aceitação, mostra-se ambivalente, em sua corporificação por sujeitos que eram vistos como um segundo sexo.

As mulheres fizeram mais mal que bem. A constrição e a dissimulação foram o seu destino. Retomaram com a astúcia aquilo que a força lhes havia tirado; fizeram uso de todos os recursos do seu encanto, ao qual nem mesmo o mais irrepreensível dos homens podia resistir. O veneno, os grilhões, tudo se submetia a elas; governavam o crime e a virtude. O governo francês sobretudo, durante séculos, dependeu da administração noturna das mulheres; o gabinete não tinha nenhum segredo para a indiscrição delas; embaixada, comando, ministério, presidência, pontificado, cardinalato, em suma, tudo aquilo, sagrado e profano, que caracteriza a estupidez dos homens, esteve submetido à cobiça e à ambição desse sexo antes desprezível e respeitado e, depois da Revolução, respeitável e desprezado (DE GOUGES, Declaração, 1995:307).

Nesse excerto de sua Declaração dos direitos da mulher e da cidadã (1791), De Gouges elenca os elementos de uma feminilidade nociva ao bem comum e às próprias mulheres, associada à “administração noturna”. Ao usar tal expressão, a autora busca demonstrar qual era a forma possível que as mulheres letradas e/ou da corte tinham de exercer o poder sob o Antigo Regime. Na carta ao Duque de Orleans (1789), De Gouges assina com o que considera serem os valores a serem cultivados pelas mulheres, deixando pistas de sua proposta da construção de uma nova feminilidade, dessa vez, ilustrada e republicana:

Com o respeito que tenho, De Vossa Alteza Sereníssima,

A amiga de todos os meus concidadãos e do repouso da República (DE GOUGES, 1789c:7).

liberalismo – e conformaram um espectro político muito rico e de difícil categorização ou polarização. Tendo em mente os grandes autores e personagens políticos da Revolução, entendemos que esses republicanos eram também pessoas ilustradas que precisavam passar pelas tópicas das Luzes, à procura de respostas para sua sociedade e seu tempo.40 Partimos do pressuposto de que matrizes político-filosóficas não são estruturas estanques de pensamento, mas, sim, conjuntos de ideias recebidas, apropriadas, selecionadas, suprimidas e recriadas. A esse respeito, Newton Bignotto afirma que:

Isso não quer dizer que os autores iluministas e tantos outros pensadores fossem republicanos, mas sim que o conjunto de ideias e conceitos que elaboraram – exatamente por lidar com um vocabulário que fazia parte de uma longa tradição republicana – pôde ser apropriado por aqueles que buscavam uma solução para o colapso da monarquia e a criação de um regime que respondesse aos anseios de liberdade e igualdade (BIGNOTTO, 2010:19).

Nossa hipótese de trabalho é a de que ser republicano é uma maneira de entender o espaço-entre (in-between), ou seja, uma maneira de entender o espaço entre os indivíduos, das suas relações, das negociações, do poder, do político e da política (ASSY, 2015). O espaço-entre é o espaço comum produzido pelos contratos sociais – o contrato dos indivíduos entre si e o contrato dos indivíduos para com o Estado. Entendendo por República a forma de encarar a coisa pública, de modo que os interesses individuais não se sobressaiam aos interesses do bem comum ou da busca desse bem comum, a República é um devir que garanta a liberdade através dos direitos e que combata a tirania e a servidão.

Dessa maneira, ser republicano é uma maneira de ver, lidar e exercer o espaço-entre, no sentido do coletivo, do bem comum.

Nesse sentido, a República é um devir a ser construído no exercício do espaço- entre, pelo debate dos cidadãos esclarecidos e virtuosos na esfera pública, na intenção de tornar virtuosa a política e, assim, engendrar uma coisa pública bem administrada e livre de vícios. Assim, a República se torna uma maneira de entender a configuração social e política que não está necessariamente determinada pela presença ou ausência da figura monárquica. Além de ser, também, um status civilizacional – um constructo progressivo da Razão. Nos textos de Olympe de Gouges, fica claro que o trato virtuoso da coisa pública é a base da esfera política; não confundir interesses públicos com interesses particulares é o que edifica uma República. Olympe se intitula “uma verdadeira republicana”, denotando

40 No entanto, isso não quer dizer que todo ilustrado era republicano, mas, sim, que as Luzes foram o bojo filosófico das mais diferentes concepções de governo na segunda metade do século XVIII.

um juízo de valor em torno das diferentes concepções e formas de lidar com a res publica.

O verdadeiro republicanismo se confunde, então, com a virtude e o verdadeiro republicano é sinônimo de cidadão ilustrado e virtuoso. No entendimento de nossa autora, o republicanismo é a única virtude possível, e a Providência age pela virtude e pela razão em benefício da República.

Nos nossos dias, as questões em torno dos conceitos de República e Democracia mostram-se muito pertinentes. Levantando inquietações e problemas do presente, demonstram que a agenda política que entrou em erupção na Revolução Francesa ainda está aberta. Os dilemas produzidos pelos ideais de liberdade e igualdade ainda movimentam nossa política. Todas essas questões se imbricam na disputa pela cidadania.

Entendemos a República também como uma organização político-social que garanta o status da cidadania e os direitos universais concebidos a partir dele. A cidadania plena é a concretização da intenção republicana, na qual todos os cidadãos têm direitos plenos. A Democracia, por sua vez, é entendida aqui como o exercício da cidadania. As duas noções se justapõem na prática cidadã, na disputa política, nos debates da esfera pública que geram consensos e dissensos, na intenção de um bem comum que também é uma das noções fundadoras da República. Nesse sentido, República e Democracia caminham paralelas na direção da participação ativa de seus cidadãos que, na concepção ilustrada, devem ser esclarecidos e dotados das preconcepções iluministas da racionalidade e do senso crítico. Mesmo que a Democracia tenha assumido, em nossos tempos, muito mais a forma de um regime de governo, propomos um entendimento de Democracia que denote mais a participação dos cidadãos na política, no cuidado com a coisa pública, muito mais do que uma simples forma de escolha de representantes.

Fernando Catroga (2017) coloca a virtude republicana dos homens de Estado como condição para a construção da República. O ideal pleno da virtude cívica republicana, partindo da busca do bem comum, é caracterizado pela coincidência de interesses entre governados e governantes. Dessa maneira, o estudo do republicanismo levanta-se a partir de mais um imbróglio do presente: o problema insolúvel da representatividade ou da não coincidência de representação entre representados e representantes. Para entendermos melhor esse impasse, precisamos antes compreender que o discurso revolucionário francês intencionou convencer a maior parte da população das razões do que estava sendo feito na

política e porque aqueles representantes deveriam estar no poder. Como argumenta Outram:

Em outras palavras, a natureza da política revolucionária tornava central o discurso político e este moldava o próprio motor da Revolução em si. A Revolução foi o primeiro momento na história francesa no qual a persuasão da massa popular foi fundamental, além de ser parte integrante do fenômeno político. As palavras, argumenta Furet, eram o poder (OUTRAM, 1997:142).

Como fazer representadas as pessoas que não comungam da virtude “universal” ou, ainda, que não compartilham da mesma realidade de inclusão/exclusão social? O dilema da representação faz a política ganhar novos contornos a partir dessa inclusão discursiva do povo – como massa – que é característica da Modernidade. Esse impasse republicano e democrático contemporâneo tange a longa história da luta por direitos civis, e até mesmo por direitos humanos, de grupos excluídos, a partir da falha na representatividade política, sejam eles negros, LGBT’s, mulheres, árabes, judeus, entre tantos outros ao longo do tempo.

Na construção da primeira república francesa, houve a mobilização de diferentes realidades pretéritas no sentido de embasar as intenções políticas daquele presente. Os excertos são exemplos dessas apropriações do passado. Eram usuais os exemplos históricos com finalidades políticas, como no caso de Olympe, que compara o que se fazer com um acontecimento da transição da monarquia para a república romana e o que não se fazer com o exemplo da Inglaterra revolucionária, tentando embasar sua defesa à não-execução de Luís Capeto. A mobilização do termo República, e dos republicanismos históricos, estimula-nos a repensar essa categoria que aparece como cristalizada no presente, mas que é polifônica e polissêmica em sua compreensão histórica e seus usos políticos. Reiteramos as palavras de Newton Bignotto, segundo o qual:

[...] no transcorrer do século XVIII na França, a referência constante a problemas como o da liberdade política, da virtude cívica, do passado glorioso romano e dos exemplos vigorosos de formas livres de governo na Antiguidade foi a alavanca para a constituição da matriz republicana francesa. Essa matriz só seria reconhecida como tal, em termos políticos, pelos homens da Revolução, mas dependeu fortemente do caldo conceitual, simbólico e imaginário que já estava à disposição daqueles que, a partir de 1791, pensariam na instauração de um regime republicano (BIGNOTTO, 2010:21).