Capítulo 1: Ela(s)
1.5 Sob sua própria pena
começando em si uma própria formação política e cidadã – ou nas palavras de Kant,
“esclarecendo-se” –, com o objetivo de reconhecer no outro os direitos políticos e humanos que são reconhecidos em si mesmo através da subjetivação da liberdade na escrita, na filosofia e na prática política. Essa relação entre a verdade, a ética e o sujeito que tem coragem de enunciá-las e vivê-las, favorece o bem comum da polis – e por que não também da República? Essa questão é central na presente dissertação.
Em fins do século XVIII, a virtude era um conceito chave para se entender a relação de si para consigo e para com os outros. Nesse contexto, Olympe empenhou-se em construir de si uma mulher virtuosa, na intenção de aliviar as penas de seu sexo. De Gouges escreveu sobre o outro em relação a si, tornando-se sujeito de si mesma, assumindo o controle da própria vida, reinventando uma subjetividade incomum de mulher letrada e republicana. Usando do seu falar-franco como prática político-discursiva da liberdade, ela se reinscreveu num mundo político de padrões masculinos. Ao contrário de uma autobiografia intencional, ao escrever, Olympe se encontra num constante movimento de (auto)constituição de uma subjetividade pela prática da liberdade. Falando em nome de todas as mulheres, Olympe apresenta uma escrita feminista de si. Seguimos na esteira de Rago, acreditando que
[...] a ‘escrita de si’ constitui uma chave analítica pertinente para pensar as práticas de resistência nas narrativas dessas feministas que se recusam a ser governadas (RAGO, 2013:55).
Chamam nossa atenção os percalços do reconhecimento dos direitos das mulheres, do seu estatuto como filósofas e participantes da Revolução Francesa. Chegando a correr risco de morte pelo fato de serem mulheres, essas revolucionárias, no exemplo de Olympe De Gouges, proferiram discursos próprios que lhes custaram caro. Contando com os escritos dessa revolucionária que se atreveu a dizer o que os homens de seu tempo lhe negavam, as análises políticas, no decorrer deste capítulo, estão sob a pena de Olympe De Gouges, das concepções políticas que ela formulou de si e para si.
peças que ela escreveu. Sob sua pena está sua construção própria dos acontecimentos políticos e discussões filosóficas de sua época. Sob sua pena está a construção de si mesma, algo que tangencia uma escrita de si. Ainda sob sua pena estão os juízos de valores, entre virtudes e vícios, de todas as personagens e acontecimentos que ela representa em seus escritos. Seu falar franco rendeu-lhe, também, muitas penas. Sua coragem da verdade demonstrou o quão penosa pode ser a vida de uma mulher que constrói uma subjetividade própria, tentando escapar de todos os devires29 femininos de seu tempo. Alcançou sua pena máxima, em 3 de novembro de 1793, com sua subida ao cadafalso.
Olympe De Gouges fala sobre suas penas e responde a seus caluniadores em diversos escritos. Em seu texto Aviso urgente à convenção, por uma republicana,30 a autora debate sobre sua concepção de republicanismo e sobre o que ela considera ser o papel do poder legislativo. Concomitantemente, De Gouges responde aos diversos tipos de ataques que ela sofreu:
Nas circunstâncias que nos encontramos, não saberei colocar a par todas as tentativas de ferir minha reputação que me fazem: já me disseram que sou filha de Luís XV. Não é possível contar os absurdos que me responsabilizaram, até mesmo em minha vida privada (DE GOUGES, [1792 ou 3]:12)!31
E continua, sobre seus amantes e a acusação de corrupção:
Os puritanos, ou seja, os planejadores de trinta e seis aventuras, deram- me amantes na Assembleia Constituinte, Legislativa e até na Convenção.
Certamente eu posso ter feito essas conquistas, mas declaro que nenhum legislador me conquistou. É sem me deter a uma falsa virtude, que creio poder concordar que não existe homem digno de mim: Essa confissão, tão simples quanto orgulhosa, é uma grande verdade. Não é contra meu alegado nascimento, nem contra os amantes que me dão que eu grito, mas peço ao Cidadão Feydel que me faça saber, como uma verdadeira republicana, o homem que disse ter me visto junto a um falsificador de
29 A concepção de “mulher” em nosso trabalho vai além de um termo que define a fêmea da espécie humana.
Entendemos, junto a Simone de Beauvoir (1970), “mulher” como um devir cultural e político que produz uma subjetividade heterossexual e dominável. Opostamente complementar ao devir masculino que se caracteriza pela produção de sujeitos heterossexuais e dominantes ou apenas um “homem”. As instituições, as práticas e os discursos modernos atuam no sentido de produzir subjetividades em prol da constituição de famílias patriarcais, heterossexuais e saudavelmente reprodutivas.
30 A datação desse panfleto encontra-se indefinida no site da Biblioteca Nacional francesa (Gallica).
Entretanto, pela análise do texto, acreditamos que ele tenha sido escrito entre a instauração da Convenção Nacional, em setembro de 1792 e a execução de Luís XVI, em janeiro de 1793.
31 Todas as fontes citadas neste capítulo estão em língua francesa ou inglesa, com a exceção da Declaração dos Direitos da Mulher, que é a única publicada no Brasil. Por acreditarmos num conhecimento mais
moedas. Não é por mim que quero me explicar, nem pela minha honra, mas somente pelos interesses únicos da sociedade e da República (DE GOUGES, [1792 ou 3]:12).
Ainda nesse mesmo texto, que consta de uma seção denominada “União, Coragem e Vigilância. E a República estará salva”, Olympe desenvolve sua noção de prática política como algo uno e indivisível, assim como o são a razão e o bem comum. Dirigindo-se ao presidente da Convenção Nacional para defender Luís Capeto, ela faz uma nota em resposta aos que a detratam, tomando-a como monarquista – algo que era considerado, por ela, uma ofensa.
Nota: Anexo esta impressão que publiquei, quando me propus a defender oficialmente o último rei dos franceses; isto que me colocou numa perseguição pouco comum e que um dia será motivo de glória para mim.
Que aqueles que me perseguiram e me perseguirão ainda através de seus escritos, e que se dizem patriotas e republicanos quando essas virtudes lhes são desconhecidas, aprendam, enfim, a conhecê-las nessas obras que chamam de monarquistas (DE GOUGES, p. 6).
Em seu panfleto Os fantasmas da opinião pública,32 a filósofa inicia o texto chamando a opinião pública de menino mimado: “quanto mais fazemos por ela, menos a conquistamos”. Ao responder a seus difamadores, ela escreve sobre si e sobre sua utilidade à pátria. Como uma verdadeira patriota, elenca os valores integrantes de seu patriotismo, que considera insuspeito. Entre eles, estão seu amor pela igualdade, seu respeito pelas propriedades e pelas leis, seus projetos úteis para a pátria, sua moral advinda da boa filosofia e, por último, a dicotomia entre seu ódio pela tirania e seu amor pela virtude.
Numa passagem desse escrito político, ela diz que essa seria sua última resposta aos seus caluniadores.33
Isso será minha última resposta aos meus detratores. Periodicamente fui o brinquedo dos conspiradores da Corte e da cidade e [...] sobrecarregada pelos traços da injúria, me revesti com minha virtude e não vi nada além que os interesses da minha pátria. Há tempos me mostro por completa.
Não procurei esta notoriedade, mas a esperava da opinião pública; porém esta é lenta para comigo, e meu país corre novos perigos. Eu notei algumas vezes esse espírito público pronto a se abater. Eu o vejo perder- se, se a Convenção Nacional não se colocar acima dos energúmenos que procuram desorganizá-la. Era-me importante fazer-lhe perceber de qualquer forma o perigo iminente que a circunda (DE GOUGES, [entre 1791 e 1793]:4).
32 Esse panfleto apresenta o mesmo problema de datação já explicitado acima sobre o Aviso urgente à Convenção. Com exceção de que, nesse texto, a autora cita o dia 05 de agosto o que nos leva a deduzir que a publicação é posterior a esse dia.
33 Como espectadores privilegiados do presente, sabemos que essa não seria sua última resposta, já que ela insiste em sua defesa própria em vias de sua prisão em seu Testamento Político, 1793.
Nesse panfleto, encontramos também uma das poucas referências sobre a publicação e circulação de seus escritos. De Gouges denuncia um boicote que fizeram à publicação de um panfleto seu, identificando a época em que se deu e endereçando o que sobrou de seu texto ao “Cidadão Presidente”:
Eu sei que estes mesmos homens, no dia 5 de agosto, impediram um panfleto que poderá, em tempo, ser mostrado. Esse panfleto não teve mais que 200 exemplares, e meu impressor, que é o mesmo dos jacobinos, se permitiu quebrar a forma e de não me entregar os mil exemplares que havia lhe pedido. Eu não encontrei panfleteiros. Em uma palavra, esse panfleto era, em seu tempo, o mais republicano, o mais legal, o mais útil que poderíamos oferecer ao povo na circunstância onde ele se agitava em fixar sua vontade na condução de Luís XVI. [...] Hoje endereço o que resta desse panfleto ao Presidente da Convenção Nacional, persuadida que todos os membros lhe comunicarão sobre. Isso é digno da mais séria atenção (DE GOUGES, [entre 1791 e 1793]:8).
A partir dessa situação específica denunciada por Olympe, pretendemos analisar também o cerceamento da participação feminina, tanto no debate na esfera pública quanto na participação política institucionalizada.34 A denúncia de Olympe, como a de diversas mulheres letradas do período, se encontra na incongruência discursiva sobre a igualdade universal e a liberdade defendida como neutra por esses homens: na prática, a liberdade e a cidadania plenas só poderiam ser corporificadas por indivíduos do sexo masculino.
O discurso revolucionário não era sexualmente neutro. Suas principais palavras emotivas, como ‘virtude’, tinham uma longa história por trás de si, não somente na tradição do humanismo cívico, mas também por possuírem um peso maior sobre o sexo feminino, do que sobre o masculino (OUTRAM, 1997:146).
A ousadia do falar franco, de mulheres como Olympe De Gouges, incomodava aos homens que, segundo ela, uma vez livres da servidão, permaneceram perpetuando as instituições e as práticas que faziam de suas companheiras cativas: “O homem escravo multiplicou suas forças e teve necessidade de recorrer às tuas [mulheres], para romper os seus ferros. Uma vez livre, tornou-se injusto para com a sua companheira” (DE GOUGES 1995:306).35
34 Exploraremos melhor essa análise no Capítulo 2, no qual trataremos da posição dos homens sobre o espaço que as mulheres devem ocupar na sociedade e seu papel para a pátria. Já citando, de antemão, as respostas negativas dos deputados às cartas que mulheres mandaram com suas reivindicações para a República e o fechamento dos clubes de leitura e debate femininos em 1793, a mando de Robespierre.
35 A tradução por nós utilizada da Declaração dos direitos da mulher e da cidadã consta de um livro