Capítulo 1: Ela(s)
1.3 Olympe De Gouges
Madame Roland, a Olympe De Gouges e a Maria Antonieta – que analisaremos no próximo capítulo.
Sophie-Marie-Louise de Grouchy (1764-1822), a Marquesa de Condorcet, cresce no castelo de Vilettel com uma educação muito ilustrada e, ainda muito jovem, muda-se para Paris onde logo instala seu salão junto ao seu novo marido, o Marquês de Condorcet.
Seu salão é considerado um dos mais cosmopolitas da capital, contando com a presença de Thomas Jefferson e Thomas Paine – cujos textos a marquesa traduziu para o francês. Seu salão – assim como o de Madame Roland – é um dos pontos centrais de sociabilidade dos girondinos. Mirabeau, Lafayette, Madame de Stäel e Olympe De Gouges eram outros dos frequentadores ilustres do salão do casal Condorcet. Sophie escapa por pouco do cadafalso e morre naturalmente em 1822.
Anne Louise Germaine Necker (1766-1817), a Madame de Stäel, era filha de Necker, o famoso ministro de Estado/das Finanças que foi um dos responsáveis pela convocação da Assembleia dos Estados Gerais. Sua mãe, Suzanne Necker, era dona de um famoso salão em Paris, que contava com a presença de Diderot e D’Alembert. Defendia a monarquia constitucional e exilou-se na Inglaterra durante a Revolução. Casou-se com o célebre Benjamin Constant e faleceu em 1817.
Théroigne de Méricourt (1762-1817) nasceu num pequeno povoado de Marcourt.
Filha de um camponês abastado, estudou na Inglaterra e voltou para a França na ocasião da reunião dos Estados Gerais e instalou-se em Versalhes. Em Paris, abre um salão aonde aproxima-se de Danton, Brissot e Sieyès. Com Olympe De Gouges, desfila à frente do cortejo de mulheres em comemoração do 14 de julho. Autoproclamava-se uma amazona moderna. Seu suposto fim foi a loucura. Permaneceu confinada até sua morte. Foi uma das inspirações para o quadro de Eugène Delacroix, A Liberdade guiando o povo.
qual ficou muito conhecida e, muitas vezes, também variava em anagramas como
“Polyme”. Figura ambígua e de difícil identificação, ela rejeitou os sobrenomes do pai e do marido18 e homenageou sua mãe de nome Anne-Olympe, construindo várias representações de si mesma – e, ao mesmo tempo, mostrando que só ela poderia definir sua origem e existência (SCOTT, 2002:53).
Olympe De Gouges tratou de diversas questões em seus escritos, incluindo maternidade, divórcio, participação na Assembleia dos Estados Gerais, entre outras questões políticas.19 Ela também questionou a escravidão dos negros20 e a colonização, chegando a fazer comparações com a opressão feminina. Seus escritos são fortemente sintomáticos sobre as sucessivas fases da política francesa. Antes do início da Revolução, em 1788, Olympe elabora o projeto de um cofre patriótico,21 chegando, em 1791, a analisar a monarquia, questionando se Luís XVI era mesmo rei ou não.22 As fases da Revolução foram muito caras para as mulheres que tentaram debater e participar da política da época.
Enquanto os jacobinos foram galgando mais poder, chegaram ao ponto de fechar os clubes femininos de 1793. Dessa forma, ansiamos demonstrar como, a partir do fim do Antigo Regime, a nova configuração política realocou as desigualdades entre os sexos.
Sua obra mais famosa foi a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, escrita em 1791, na qual busca pautar a opressão sofrida por sua condição feminina e invoca, já no preâmbulo, as mães, filhas e irmãs que reivindicam participação na Assembleia Nacional. Numa clara resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a eminência desse documento se dá porque a autora coloca as pautas femininas tomando ao pé da letra a característica universal da Revolução. A declaração de Olympe categoria. Apesar da constatação de que a autora foi uma das mulheres ilustradas mais importantes do período, o “lugar intelectual” que De Gouges ocupou como mulher e os resgates históricos que foram feitos de sua figura extrapolam em complexidade as categorias de baixo ou alto iluminismo. À medida em que os jacobinos aparelharam o processo revolucionário, a concepção de baixo e alto iluminismo – principalmente para as mulheres que buscavam construir essa nova República ilustrada – muda de figura para o binômio revolucionário e contrarrevolucionário. Nessa concepção, sim, podemos afirmar que Olympe ocupou o lugar de contrarrevolucionária. Vale lembrar que a definição do lugar social ocupado pela autora foi um dos grandes incômodos geradores desta pesquisa.
18 A maior parte de seus biógrafos, atribui a paternidade de Olympe ao marquês Jean-Jacques de Pompignan – o que explicaria porque a filha de um açougueiro seria tão letrada. Sua paternidade não é confirmada, enquanto o marido de sua mãe – Pierre Gouze – lhe dá o sobrenome, mas não consta na certidão de nascimento de Olympe. A jovem Olympe De Gouges casa-se com Louis-Yves Aubry, que morre após um ano de casamento.
19 Ver: Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, 1791.
20 Ver: L’esclavage des noirs, ou L’heureux naufrage, 1789.
21 Ver: Lettre au peuple, ou Projet d'une caisse patriotique - par une citoyenne, 1788.
põe em xeque os limites da universalidade, da igualdade, da liberdade e da cidadania pregadas pela Revolução. Destarte, ela elucida e dá visibilidade à exclusão sexista dessa universalidade. Em seus escritos, a autora soma todos os elementos fundamentais das Luzes que foram constatados por Tzvetan Todorov (2008): a universalidade, a autonomia, a finalidade humana de nossos atos e da política, questionando todas as autoridades e tradições através do exame crítico da razão. De antemão, procuramos reinscrever De Gouges na complexa e diversa tradição crítica iluminista, que conta com os mais renomados filósofos, desde o século XVIII até a contemporaneidade. A título de exemplo, citamos Immanuel Kant, Georg Friedrich Hegel, Michel Foucault e o recém citado Tzvetan Todorov.
Dentre as mais diferentes opiniões sobre a participação política das mulheres, seus direitos civis, sua cidadania e racionalidade, encontramos em Olympe de Gouges uma eminente escritora que dialogava com Robespierre, Jean-Jacques Rousseau e outros pensadores da época.23 Suas ideias são férteis para problematizarmos como a autora elaborou uma proposta diferenciada para a construção da feminilidade e da masculinidade, em meio à Revolução que desmontava uma sociedade de Antigo Regime, em que as diferenças, inclusive as de gênero, eram consideradas naturais e dadas em estamentos sociais.
Muitas autoras e autores24 citaram Olympe em seus estudos. Leituras completamente divergentes foram feitas sobre sua figura após sua execução. No século XIX25, principalmente, muitos tentaram patologizá-la, chegando a acusá-la de histeria revolucionária; enquanto no século XX, algumas mulheres fizeram uma releitura de sua figura como uma das pioneiras do movimento feminista, acusando as outras leituras de misóginas e dando a Olympe a posição de uma das fundadoras e mártires do movimento (SCOTT, 2002:101).
Em sua época, Olympe de Gouges ficou conhecida por suas dramaturgias e, principalmente, por seus escritos políticos. Olympe procurou representar as mulheres e, ao
23 Para isso, ver os textos de Olympe de Gouges: Réponse à la justification de Maximilien Robespierre, adressée à Jérôme Pétion, 1792; Avis pressant, ou Réponse à mes calomniateurs, 1789 e Le tombeau de Mirabeau, 1791.
24 SCOTT, 2002. BADINTER, 1991. CUTRUFELLI, 2009. GILL, 2009. BURUCÚA & KWIATKOWSKI, 2007.
25 LAIRTULLIER, apud SCOTT, 2002. MICHELET, apud SCOTT, 2002. DEVANCE, apud SCOTT, 2002.
mesmo tempo, acabou construindo uma representação de si mesma.26 Num panfleto denunciando os abusos de poder de Robespierre, ela se descrevia como “um animal anfíbio”,27 não sendo nem homem e nem mulher, mas somando características políticas e pessoais de ambos os gêneros. Dentro das concepções do que seria atribuição das mulheres ou dos homens, Olympe jogava com essa matriz de gênero pré-estabelecida e binária. A esse respeito, Scott afirma:
Precisamos rejeitar o caráter fixo e permanente da oposição binária, precisamos de uma historicização e de uma desconstrução autêntica dos termos da diferença sexual. Temos que ficar mais atentas às distinções entre nosso vocabulário de análise e o material que queremos analisar.
Temos que encontrar os meios (mesmo imperfeitos) de submeter, sem parar, as nossas categorias à crítica, nossas análises à autocrítica (SCOTT, 1989:18).
Muito conhecida por seus textos dramatúrgicos, Olympe De Gouges tinha sua própria trupe de atores, da qual participava seu filho, Pierre Aubry. Porém, uma de suas biógrafas afirma que Olympe não queria aparecer na cena pública como atriz, mas, sim, como autora. A biógrafa Laura Manzanera López (2010) afirma também que Olympe fazia questão de construir sua imagem como “autora” – já que em francês, a palavra “autor”
(auteur) ainda é usada de maneira neutra no masculino (MANZANERA LÓPEZ, 2010:42). Sobre a relação de Olympe com a Revolução, Manzanera López sintetiza:
Toda revolución devora a sus hijos. La Francesa devoro a muchas de sus criaturas, incluida Olympe de Gouges, una mujer que cambiaría la historia de las mujeres. Sua pasionante trayectoria vital es inseparable de los acontecimentos que vivió Francia em su período más contestatario.
Debido a la férrea fidelidad a sus ideales y a su valentia a la hora de expresarlos, la revolución que se pretendia justa e igualitária – también com las féminas – acabó engullendo a su hija más atípica (grifo nosso) (MANZANERA LÓPEZ, 2010:10).
Em Olympe De Gouges: la cronista maldita de la Revolución Francesa (2010), Manzanera López afirma que Olympe foi uma feminista avant la lettre ou uma rebelde com causa (2010:13). Segundo a autora, Olympe sai de Montauban já com a intenção de
26 Gayatri Spivak chama atenção para a diferença de “representar”. Primeiramente, no sentido político de
“falar por” e no sentido de “re-presentar”, apresentar uma ausência. Segundo a autora, é preciso aprender a falar ao sujeito sexuado emudecido, às mulheres. Ao invés de ouvir ou falar por, é necessário falar a/com ela (2010:88).
27 “Prognóstico sobre Maximilien Robespierre, por um animal anfíbio. Sou retrato exato desse animal.
Sou um animal como nenhum outro; não sou nem homem e nem mulher. Eu tenho toda a coragem de um, e, às vezes, a fraqueza do outro. Eu tenho o amor do meu próximo e o ódio de mim mesma. Sou orgulhosa, simples, leal e sensível” (grifo nosso). In: Resposta à justificação de Maximilien Robespierre,
fazer de si uma grande mulher. Marie Gouze e Marie Aubry morrem em Montauban, ao ir para Paris nasce Olympe De Gouges, uma mulher para o futuro (2010:25). De Gouges foi recebida em Paris como uma pequena burguesa de Montauban e logo começou a participar das atividades dos bailes, teatros e salões. Segundo a biógrafa, Restif de La Brettonne, seu inimigo, referia-se a ela como uma “mulher de vida alegre” (2010:31). Sua vida financeira dependia de Jacques Biétrix de Rozières, seu companheiro até sua morte, com o qual De Gouges nunca aceitou se casar.
Nas próximas páginas analisaremos como Olympe De Gouges foi uma mulher que muito ambicionou. Principalmente, ambicionou escrever e, em sua escrita, fazer-se republicana e cidadã. Segundo Manzanera López, Olympe foi juíza de si mesma
“utilizando la pluma y el tinteiro como armas de doble filo” (MANZANERA LÓPEZ, 2010:62).