Capítulo 1: Ela(s)
1.6 Olympe De Gouges: uma mulher republicana?
desenvolver, ocupando por fim um lugar de destaque no cenário político (BIGNOTTO, 2010:15).
Pela associação feita a posteriori entre Revolução e republicanismo, pode parecer- nos contraintuitivo pensar num debate republicano que defenda, como forma de governo, a monarquia constitucional.38 Ou pensar que a Revolução só contou com o anti- monarquismo como catalisador do discurso revolucionário, mais ferrenho após 1791.
Pretendemos demonstrar a polifonia política no interior da matriz republicana francesa, entendendo os textos de Olympe De Gouges como elucidativos da tríade proposta por Newton Bignotto em suas análises. Olympe usou para si o epíteto “republicana” e ainda demonstrou diversas vezes que o disputou, como nos trechos que se seguem:
Sim, eu entendi que homens semelhantes a este odioso Dumouriez combatem meu republicanismo, me dizem que foi impossível que ele fosse apoiado na França, que um rei, um protetor, um mestre era, em uma palavra, indispensável à turbulência francesa.
E eu vejo esses mesmos homens implacáveis ao tratar dos sábios da república (DE GOUGES, 1793a:9)!
É sob o altar da pátria que suas cinzas devem repousar. É aqui que ele deve nos relembrar tudo que fez por nós. É aqui que nós devemos jurar sobre sua tumba de conservar tudo o que ele fez. É isto que ousa lhes propor a mais ardente patriota e a melhor das cidadãs (DE GOUGES, 1791b:2).
Madame De Gouges continua com sua defesa da República, numa retórica de defesa do seu republicanismo em detrimento de seus próprios interesses e de sua própria imagem:
Não é por mim que quero me explicar, nem pela minha honra, mas somente pelos interesses únicos da sociedade e da República (DE GOUGES, [1792 ou 1793]:12).
Hoje não fiz mais do que me qualificar, mas os indivíduos que ousam me caluniar são seres tão insignificantes! Jamais vacilei em meus princípios e, em quatro anos, já tivemos três governos. O da República é o que me é mais familiar sem dúvida. Possa ele estar entre os franceses, Grande Deus (DE GOUGES, [entre 1791 e 1793]:7)!
Era necessário, para uma mulher, que ela produzisse de maneira mais sistemática uma qualificação de si mesma – nos marcos da virtude ilustrada –, no intuito de se qualificar e comprovar que estava apta a fazer parte dos debates públicos de seu tempo.
“As mulheres tinham de lutar por seus próprios interesses valendo-se do veículo de um discurso político inadequado para suas necessidades, e também para as de todos os grupos
38
setoriais excluídos” (OUTRAM, 1997:144). Mulheres como Olympe tiveram que valer-se e adaptar-se a uma lógica discursiva universalista, em prol de interesses considerados
“setoriais” – concepção que é rejeitada por De Gouges que acredita que os males enfrentados pelas mulheres são os males de toda a sociedade, da pátria e da República.
Para além disso, podemos perceber como a reivindicação de “direitos setoriais” é subjacente a uma dimensão universal dos direitos sem a qual a primeira sequer existiria. A autora segue uma lógica universal do início ao fim de seus objetivos políticos, em outras palavras, as reivindicações que Olympe faz em nome das mulheres são o meio entre a partida de uma concepção universal e uma finalidade também universal.
Dirigindo-se ao Cidadão Presidente, no Aviso Urgente à Convenção, ela diz:
Deixemos meu sexo à parte; o heroísmo e a generosidade são também partilhados pelas mulheres, e a revolução nos oferece sobre isso mais de um exemplo. Sou uma franca e leal republicana, sem manchas e sem censura; ninguém duvida, mesmo aqueles que fingem desconhecer minhas virtudes cívicas. Posso, então, me encarregar desta causa (DE GOUGES, [1792 ou 1793]:7).
A princípio, em “deixemos meu sexo à parte”, percebemos o conflito entre a feminilidade39 e a linguagem pública. “Deixemos meu sexo à parte” elucida a necessidade que a autora sentia de qualificar-se como cidadã para além de seu sexo, expondo a subestimação filosófica e política à qual as mulheres estavam sujeitas. Para além disso, no prosseguimento do trecho, vemos a necessidade de Olympe em demonstrar que a virtude feminina não está em sua honra privada, nem apenas relacionada ao âmbito sexual.
Interessa-nos, também, pensar nas condições e possibilidades dos discursos femininos e feministas no debate sobre o bem comum. As historiadoras feministas que se ocuparam do discurso feminino na esfera pública se concentraram no conteúdo, nas mensagens, nas ideias.
Essa abordagem deixa de lado todo o problema da estrutura da elocução pública em si, e aquilo que ela nos diz sobre a posição das mulheres em relação à esfera pública. Se soubéssemos mais a esse respeito, então também poderíamos dizer mais a respeito das razões do fracasso das mulheres para alcançar as reivindicações de igualdade política nesse período (OUTRAM, 1997: 145).
Esperanças republicanas foram investidas, pelo sexo desprezível e desprezado, nesse discurso universal e foram frustradas: quais as vantagens as mulheres obtiveram com
39 Convém frisar que entendemos a feminilidade como um aparente padrão único ocidental que referencia o constructo histórico de discursos, práticas e instituições que conformam o processo de subjetivação no intuito de produzir sujeitos femininos que estão associados a esfera privada, do cuidado e da manutenção da família.
a Revolução? Como afirma Outram: “as mulheres como tais, nesse mundo bipolar de referências, eram o Mal. Em grande medida, a influência das mulheres era vista como a característica definidora da corrupção do poder sob o Antigo Regime” (OUTRAM, 1997:147). A relação das mulheres com esse discurso, longe da não aceitação, mostra-se ambivalente, em sua corporificação por sujeitos que eram vistos como um segundo sexo.
As mulheres fizeram mais mal que bem. A constrição e a dissimulação foram o seu destino. Retomaram com a astúcia aquilo que a força lhes havia tirado; fizeram uso de todos os recursos do seu encanto, ao qual nem mesmo o mais irrepreensível dos homens podia resistir. O veneno, os grilhões, tudo se submetia a elas; governavam o crime e a virtude. O governo francês sobretudo, durante séculos, dependeu da administração noturna das mulheres; o gabinete não tinha nenhum segredo para a indiscrição delas; embaixada, comando, ministério, presidência, pontificado, cardinalato, em suma, tudo aquilo, sagrado e profano, que caracteriza a estupidez dos homens, esteve submetido à cobiça e à ambição desse sexo antes desprezível e respeitado e, depois da Revolução, respeitável e desprezado (DE GOUGES, Declaração, 1995:307).
Nesse excerto de sua Declaração dos direitos da mulher e da cidadã (1791), De Gouges elenca os elementos de uma feminilidade nociva ao bem comum e às próprias mulheres, associada à “administração noturna”. Ao usar tal expressão, a autora busca demonstrar qual era a forma possível que as mulheres letradas e/ou da corte tinham de exercer o poder sob o Antigo Regime. Na carta ao Duque de Orleans (1789), De Gouges assina com o que considera serem os valores a serem cultivados pelas mulheres, deixando pistas de sua proposta da construção de uma nova feminilidade, dessa vez, ilustrada e republicana:
Com o respeito que tenho, De Vossa Alteza Sereníssima,
A amiga de todos os meus concidadãos e do repouso da República (DE GOUGES, 1789c:7).