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Capítulo 1: Ela(s)

1.8 Os usos da Antiguidade

Danton, Desmoulins, Robespierre, Sieyès, Fouché e outros foram alunos dos colégios dos jesuítas e oratorianos, que privilegiavam o latim no ensino. A formação jurídica também explica a importância de Roma. As instituições foram romanas: Legislativa, Convenção, Diretório, tribunos, triunvirato, cônsules, Senado. ‘Democracia’ é grega, mas foi ‘república’

que prevaleceu, e o chapéu dito ‘frígio’ é na verdade o do liberto romano, que Brutus fez cunhar nas moedas romanas após o assassinato de César (DABDAB TRABULSI, 1998:210).

Como já foi mencionado anteriormente, Olympe De Gouges se preocupou com os papéis e os deveres do poder legislativo. Sua preocupação girava em torno do problema da representatividade, mas, também, parece-nos haver uma preocupação republicana mais geral em relação ao trato com a coisa pública. Esses homens de Estado deveriam se mostrar, inspirados pelos romanos, segundo ela, os mais virtuosos possíveis para com seu exercício político. A filósofa também retoma, em seu debate, a Antiguidade greco-romana, onde Roma aparece repetidamente como exemplo das condições propícias para o exercício virtuoso e republicano do poder. Inspirada pela república romana, De Gouges afirma que a rotação das pessoas que desempenhavam cargos públicos era necessária para evitar a corrupção e o patrimonialismo. Instrumentalizando não apenas o exemplo romano, ela adverte:

Ultrapassem, se possível, os romanos, em coragem e virtude. Lembrem- se das vítimas em vossos seios e presenteiem vossas cabeças ao povo.

Revestidos da soberania nacional, quais golpes podem ir até vocês?

Que século de divisões e partidas é este onde os pretendentes à coroa não podem ter filhos? Os ingleses ocupam na história um lugar bem diferente dos romanos: os ingleses são desonrados aos olhos da posteridade pelo suplício imposto a Carlos I. Os romanos foram imortalizados pelo exílio de Tarquínio. Mas os verdadeiros republicanos sempre tiveram princípios mais elevados que os dos escravos (DE GOUGES. 1793a:6).

Nesse trecho, Olympe De Gouges admoesta o poder legislativo na intenção da defesa do monarca que, para ela, deveria ser exilado e não executado. Com isso, os franceses demonstrariam sua grandeza, ao seguirem o exemplo dos romanos que exilaram Tarquínio.41 No período republicano da “cidade eterna”, não era permitido acumular funções de poder por longos períodos, que, de acordo com seu cargo, não costumavam passar de um ano. Sobre o processo que levou à decapitação de Luís XVI, Dabdab Trabulsi também cita a instrumentalização do exílio de Tarquínio:

41 Lúcio Tarquínio, conhecido pelo epíteto “O Soberbo”, dado por Tito Lívio, foi o último rei etrusco a governar Roma antes da fundação da República Romana. Caracterizado como tirano, ainda por Tito Lívio, foi exilado após sua queda. Ver mais em: GILBERT, John. Mitos e Lendas da Roma Antiga. São Paulo:

Melhoramentos, 1978.

Durante o processo de acusação e morte do rei, o termo com o qual ele é acusado, ‘tirano’, é grego, mas ele é o mais das vezes assimilado a personagens romanos. Tarquínio o soberbo (fim da monarquia) e César (fim da república) são evocados de forma sucessiva e complementar.

Tarquínio tinha sido um verdadeiro rei, e sua queda marca o início da República, mas ele tinha sido expulso e não executado. César, por seu lado, tinha pretensões à monarquia com certeza, mas não chegou a ser um verdadeiro monarca. Ele possuía a "vantagem" de ter tido um fim sangrento, nas mãos de republicanos. Por isso, as duas figuras eram complementares, e eram evocadas conjuntamente (DABDAB TRABULSI, 1998:221).

Nos escritos de Olympe, no intuito de salvaguardar a virtude para o exercício das funções coletivas, Roma aparece sempre como referência de uma República bem-sucedida, grande e virtuosa, como nos seguintes trechos:

Que momento próprio para manifestarmos nossa aflição do que aqueles onde as cinzas ainda fumegantes nos chamam a lhes conter em uma tumba digna deste grande homem e digna dos romanos de quem somos seguidores (DE GOUGES, 1791b:2)!42

Roma, o lugar da glória e da virtude, como jamais houve sobre a terra (DE GOUGES, 1789d:5).

No momento em que se começa a questionar de maneira mais sistemática a monarquia ou a necessidade da existência de um monarca, a recuperação e a assimilação dos valores antigos dão fácil suporte. A democracia ateniense se constitui, fundamentalmente, sobre a recusa da tirania da mesma maneira que no início da Roma republicana, república foi oposta a realeza. Os opositores modernos da realeza, segundo Dabdab, usaram com mais frequência “tirano” do que “rei” (DABDAB TRABULSI, 1998:208). O que nos demonstra também que a Antiguidade resgatada foi, essencialmente, a Antiguidade política ou das experiências políticas que alimentaram o debate sobre a política contemporânea à Revolução Francesa. Seja Atenas, Esparta ou Roma, a Antiguidade era, para os revolucionários, um modelo de participação política e de engajamento cívico (1998:232).

Como já elucidamos anteriormente, a chave que associava República e Democracia para as revolucionárias e revolucionários era a do exercício da cidadania. Nesse sentido, a democracia grega, e principalmente Atenas, aparece como modelo de participação política, de lidar com a coisa pública e exercer a cidadania. Apesar disso, Dabdab Trabulsi afirma

42 Nesse trecho, o “grande homem” comparado aos romanos é o Conde de Mirabeau. Ele é citado em um

que, no geral, a tradição ilustrada escolheu Esparta contra Atenas. Os motivos elencados são:

[...] respeito pelas leis, equilíbrio dos poderes, austeridade, disciplina, amor pela pátria, oferecidos em espetáculo à razão; seria este o interesse encontrado na Esparta antiga. [...] A tradição escolhe, em geral, Esparta contra Atenas. [...] No início da Revolução, Esparta progride ainda mais e se toma um modelo para os dirigentes da Montanha, ao lado de Roma (DABDAB TRABULSI, 1998:228).

Esparta é recorrentemente citada na construção da nova ordem revolucionária, e um dos aspectos mais importantes diz respeito a educação. Principalmente sob a política jacobina, Esparta forneceu elementos sobre a responsabilidade estatal na educação e na divisão de classes etárias. Muitos dos projetos educacionais analisados pelo Comitê de Instrução Pública da Convenção continham exemplos espartanos (DABDAB TRABULSI, 1998:231). O próprio Rousseau acreditava que Esparta fornecia bons exemplos sobre a educação, a vida austera e mais igualitária da população. Contudo, nos pontos negativos, o filósofo de Genebra desacreditava dos hilotas – escravos em Esparta -, da pobreza das artes e do comércio (1998:212). A crítica sobre a incongruente igualdade social em Esparta ao passo da existência significativa de escravos aparece não só em Rousseau, mas nos jogos discursivos de poder durante a Revolução Francesa. O Abade Grégoire afirma que Robespierre queria transformar os revolucionários em espartanos, como pretexto, para fazer deles os hilotas de seu regime militar que não passaria de mais um exemplo de tirania (1998:238).

O imbróglio moderno entre representantes e representados, que tanto fomentou o debate no período revolucionário francês, também contou com argumentos que instrumentalizaram a sociedade espartana. Em um texto que analisaremos detidamente no Capítulo 2, de autoria de Pierre Guyomar (1793), o deputado próximo aos montanheses opina sobre o que ele chama de “o problema muito importante da igualdade de direitos e da desigualdade de fato”:43

Qual é, portanto, a prodigiosa diferença que existe entre o homem e a mulher? Não vejo nenhuma nos traços característicos. [...] Como nós, esses seres sensíveis são habitantes do globo; mas não concebo como uma diferença sexual poderia produzir outra na igualdade dos direitos.

Como! Aí estaria a linha de demarcação traçada pela natureza entre a parte soberana e a parte dominada na espécie humana. Nesse caso, as mulheres nascem e permanecem escravas, e desiguais nos direitos. As

43 Discurso lido e debatido na sessão da Convenção Nacional de 29 de abril de 1793.

distinções sociais só podem ser baseadas na utilidade comum dos homens.

De duas uma: ou a nação é composta de homens e mulheres, ou constitui- se apenas de homens. No primeiro caso, os homens formam uma corporação contra o espírito do artigo; no segundo caso, as mulheres são as hilotas da República. Escolhei, com boa fé: a diferença dos sexos tem melhor fundamento do que a cor dos negros para a escravidão? (grifo nosso) (GUYOMAR, 1991[1793]:158-159).

O deputado, preocupado com as questões em torno da soberania, questiona aos seus contemporâneos como, numa mesma nação, pode existir uma “parte soberana”, masculina, e uma “parte dominada”, feminina. Nessa condição apontada como parte escrava da espécie humana, Guyomar denomina as mulheres como hilotas – escravas no contexto espartano – da República.

Como! No nascimento da igualdade, iríamos proclamar também a escravidão da metade do gênero humano, cuja felicidade concebemos o projeto de realizar. A época da nova ordem de coisas deixará as mulheres na antiguidade, e deste dia irá datar o nome delas como hilotas da República[...] (grifo nosso) (GUYOMAR, 1991[1793]:169).

Para Dabdab Trabulsi, a Antiguidade tornou-se uma malha de leitura para a atualidade na Revolução Francesa. A utilização de fatos históricos antigos para a comparação, assimilação ou indução em questões contemporâneas foram comuns. Neste uso em particular, o especialista em História Antiga afirma que as personagens da história romana foram mais manipuladas que as da história grega, já que os homens da época não tinham conhecimentos aprofundados a respeito desses (DABDAB TRABULSI, 1998:219).

A esse respeito, o autor afirma:

Eles conheciam a Antiguidade através da convivência com os autores antigos, de forma familiar, e não através de trabalhos críticos ou históricos. Ela servia para exprimir fatos, situações e projetos contemporâneos. Era uma Antiguidade eminentemente instrumental.

Neste sentido, pouco importa se o seu conhecimento era preciso. Por outro lado, essa influência se limita muito ao aspecto político ou histórico. A arte e a poesia ficam num segundo plano, o que estabelece uma diferença fundamental em relação ao Renascimento (DABDAB TRABULSI, 1998:209).

As referências romanas também foram utilizadas pelos homens da época como justificativa para a desigualdade política entre homens e mulheres. Podemos ver, como afirma Dabdabd Trabulsi, uma instrumentalização de fatos e personagens antigos com finalidades políticas contemporâneas. Em um texto que será analisado como um todo futuramente, Da influência das mulheres sobre o caráter dos povos (1790), de autor

As mulheres são as mestras dos homens. Inspiram neles o amor e a virtude, o patriotismo e a coragem. (...) O trono de uma mulher está no seio de sua família, sua glória está na glória de seus filhos que ela educou para o Estado. Cornélia não era nem senador, nem cônsul, nem general dos exércitos de Roma. Era a mãe dos Gracos. Havia dado dois grandes homens à República. A glória deles tornara-se a dela. A posteridade não separou seus nomes; e a memória de Cornélia é, como a de seus filhos, imortal (DA INFLUÊNCIA, 1991[1790]:57).

Não simplesmente como exemplo de lugar bem-sucedido politicamente, no qual as mulheres não ocuparam nenhuma atribuição política direta, o passado romano foi mobilizado também para responder às reivindicações femininas contemporâneas à Revolução. Em seu texto A propósito das mulheres requerentes (1791), o jornalista Prudhomme – responsável pela publicação do Révolutions de Paris – cita o exemplo das damas romanas que oferecerem suas joias, pedrarias e trajes ao senado num momento difícil da república romana. O momento que ele referencia não é especificado, mas o autor ainda cita o exemplo de Pórcia – esposa de Brutus e filha de Catão – que não rivalizaria com a glória política de seus homens, que soube calar-se e morrer quando ambos morreram (PRUDHOMME, 1991[1791]:78). Sobre esse episódio, Prudhomme elucida:

Pórcia não fazia livros, não questionava o culto estabelecido, a forma de governo constituído em Roma; confiava cegamente em Catão e Brutus, dos quais contentava-se em ser a filha e a esposa. Confiança total e mesmo cega nesses dois homens, que eram seus deuses e seus heróis, eis qual era sua profissão de fé política e religiosa. (...) Já que as Pórcias são tão raras entre elas quando os Catões e os Brutus entre nós. Um dos meios de nos elevar à altura da liberdade romana nos seus belos dias é certamente lembrar-nos que entre eles, nessa época, cada sexo estava no seu lugar (PRUDHOMME, 1991[1791]:82).

Cornélia aparece novamente, reforçando o papel da mulher como mãe e educadora dos republicanos, em um texto de autoria desconhecida de 1792 também como resposta às mulheres tidas como “requerentes” [de direitos]:

Imitai a ninfa Egéria: ela não foi ao senado da Roma nascente para dar opiniões ao bom Numa; mas o bom Numa ia toda a noite consultar a ninfa Egéria no retido desta; imitai a mãe dos Gracos: ela não se apresentava de modo algum aos cônsules no fórum, para lhes dar a ideia de várias leis novas; contentou-se, no silêncio de seu lar, em educar para a República dois filhos que se tornaram um dia os mais ardentes defensores do povo, e que mereceram que se chorasse por eles, depois de terem sido vítimas inocentes (RESPOSTA, 1991[1792]:111).

Num determinado momento do processo revolucionário, a identificação com a República torna-se uma possibilidade palpável. É a partir daí que a Revolução se põe diretamente – e até imageticamente – como continuidade do legado da república, da

liberdade e da cidadania desse passado glorioso – segundo Dabdab, uma história antiga utopizada como uma vida política frugal e equitável (DABDAB TRABULSI, 1998:235).

Após 10 de agosto de 1792, como já indicamos, a Antiguidade se torna fonte de inspiração ainda mais frequente. Agora, os contemporâneos se identificam com os Antigos. Em 10 de maio de 1793, a Convenção se instala nas Tuileries, e, na sala de reuniões, são colocados bustos de Sólon, Licurgo, Platão, Demóstenes, do lado grego, e de Camilo, Publícola, Brutus,Cincinatus, do lado romano.” (DABDAB TRABULSI, 1998:226).

A escolha pelos Antigos possibilitou uma capacidade de rompimento com o passado imediato da Revolução. Houve, em parte dessa escolha, uma transferência de sacralidade para esse passado escolhido. Essas escolhas simbolizaram, inclusive, momentos distintos do processo revolucionário. Segundo Dabdab, após o 9 Termidor e a execução de Robespierre, a orientação simbólica do movimento passa da “revolução espartana” para a “Atenas burguesa” (DABDAB TRABULSI, 1998:240). Os elementos antigos forjaram sentidos para os acontecimentos daquele presente na tentativa de legitimá- los e dirigi-los, seja nas concepções políticas mais gerais, seja no debate sobre a igualdade entre os sexos.

1.9 “Vocês são realmente republicanos?”: os jogos de verdade no republicanismo

O descontentamento de Olympe com o sentido que tomava a Revolução – e com o grupo que tomou a frente dela – move a problemática central desta dissertação44. Na esteira dos exemplos históricos, citados pela autora como menos ou mais republicanos, ela questiona a si mesma e a nós: quem são os verdadeiros republicanos? Qual o verdadeiro republicanismo? Os jacobinos, centralizados na figura de Robespierre, correspondem a esse verdadeiro republicanismo? Os homens de Estado que estavam formulando e guiando essa nova República eram verdadeiramente republicanos ou estavam perpetuando lógicas despóticas e/ou que remetiam ao já “Antigo” Regime?

Convenção, Comuna, Sessões, Maire, General de Paris e todos os poderes constituídos, vocês são realmente republicanos (DE GOUGES, [1792 ou 1793:14)?

44

Povo da França, entenda que os mais ardentes destruidores da realeza não eram nem patriotas nem republicanos; eles serviram a seus propósitos e não aos interesses do povo (DE GOUGES, 1792: n.p.).45

Todas essas perguntas estão formuladas em torno da noção de verdade. Contudo, o que podemos perceber nas inúmeras vezes que Olympe questiona sobre a veracidade dos valores e das virtudes dos homens de seu tempo é que o que está em jogo é a relação entre poder e verdade. Também é, ao mesmo tempo, o jogo de quem conquista politicamente para si o empreendimento de construir a República com seu discurso. Quem tomou a dianteira sabe quais são os verdadeiros meios para se construir uma República? Ela questionava e apontava de maneira diluída em vários panfletos seus próprios caminhos, pautados na sua compreensão de um verdadeiro republicanismo. Com suas indagações, Olympe disputava um discurso performativo da verdade, constituindo-se a si mesma como sujeito desse dizer-verdadeiro. Para nós,

a questão é o tipo de ato pelo qual o sujeito que fala se manifesta e se representa, para si mesmo e para os outros, como sujeito que diz a verdade. Ou seja, como, nesse ato, o indivíduo constitui-se a si mesmo e é constituído pelos outros como sujeito do dizer-verdadeiro (PORTOCARRERO, 2017:198).

Em seu Aviso urgente à Convenção, ela disserta de maneira mais delongada sobre a tônica que perpassa todos os panfletos em que trata de sua concepção republicana, qual seja a de uma prática política una, indivisível e universal. Ainda nesse panfleto, Olympe reforça seu repúdio a quaisquer divisões políticas baseadas em interesses privados, salientando que a unidade política acompanha a unidade do bem comum. Como no excerto abaixo, em que a autora chama a atenção de como os “inimigos da República”, para ela, aplaudem os dissensos políticos entre os republicanos.

Mandatários da República Francesa, uma grande obstinação me coloca frente a vocês. Sim, tudo me diz que eu terei êxito em minha empreitada.

A saúde do povo, a prosperidade da Pátria, tudo deve-lhes impor a obrigação de se reunir. Os aristocratas aplaudem a divisão entre vocês. Eu ouvi com meus próprios ouvidos, no corredor de um espetáculo: ‘Nossas coisas vão bem, os canalhas da Convenção Nacional não se entendem mais, nosso triunfo é certo’. Oh, Convenção! Abandone esse título e torne-se verdadeiramente o senado francês. Torne-se igual ao primeiro areópago do mundo. Encerre seus debates, suas dissensões escandalosas e confunda os malévolos. Eleve-se à altura de suas funções, tome todas as virtudes do caráter republicano e dos costumes de um povo orgulhoso e

45 Esse texto foi extraído da plataforma virtual Olympe De Gouges que disponibiliza em inglês muitos de seus escritos. DE GOUGES, Olympe. La fierté de l'innocence, ou le silence du véritable patriotisme. Último acesso em 23 de janeiro de 2019. Disponível em <https://www.olympedegouges.eu/pride_innocence.php>

generoso. Asfixie todo ressentimento particular e dê lugar à felicidade pública (DE GOUGES, [1792 ou 1793:3).46

Nesse mesmo texto, encontramos ainda uma defesa de Luís, agora de sobrenome Capeto, que é visto por ela como uma figura digna da generosidade dos homens, que formavam esse areópago e que deveriam permanecer em verdadeira coesão, como recomenda nesse outro trecho:

Quando os homens estão divididos pelas opiniões e interesses no tempo das revoluções, é em decorrência da liberdade e da igualdade. A união de verdadeiros republicanos é sua força e cimenta seu governo. Ela é uma sentença de morte para os tiranos. Quando enxergarão essa verdade? (DE GOUGES, [1792 ou 1793]:1)

Em Será ele rei ou não?, de 1791, De Gouges também adverte os legisladores sobre as divisões partidárias e o perigo das disputas internas que, para ela, soam como picuinhas.

Nesse texto, ela já começa afirmando que: “O verdadeiro meio é agora apresentado aos vossos olhos: o único meio que pode cimentar uma felicidade imperturbável é o que apresentarei a nossos legisladores” (DE GOUGES, 1791a:1). Nele, Olympe elucida as possibilidades entre ter um regente, um rei ou nenhum dos dois, ao mesmo tempo que alerta sobre os riscos da tirania que, por dentro e por fora, cercam a pátria francesa. Nos perigos externos de tirania, constam as guerras nas quais a França se envolveu no período e o medo, que segundo vários revolucionários, a Revolução teria provocado nos reis de outros países europeus. Quanto aos perigos internos, Olympe compara a tirania política stricto sensu com a tirania que os homens estabeleciam sobre as mulheres dentro da jovem república.47

Tenho por mim que estão ameaçados os interesses da minha pátria e a defenderei altamente aos olhos de todos. Eu sou monarquista sim, senhores, mas sou uma monarquista patriota, uma monarquista constitucional (DE GOUGES, 1791a:2).

Há um imbróglio conceitual entre Monarquia e República, servidão e liberdade.

Olympe acrescenta a possibilidade da tirania dentro da República e denuncia que é para esse caminho que a Revolução se enveredava. Como podemos ver acima, a filósofa deixa claro que era monarquista, mas que seu republicanismo passava pelo exercício público da cidadania, pelo patriotismo e pela defesa dos direitos que devem ser garantidos por leis.

46 Olympe dirige-se diretamente ao presidente da Convenção em sua defesa a Luís Capeto e usa de mais um exemplo histórico, na intenção de exortar os legisladores franceses que, aqui, deveriam seguir o exemplo do areópago ateniense – lugar mais alto do conselho e do tribunal supremo da democracia de Atenas.

47

Independente da presença de um monarca como governante, caracterizava seu republicanismo pelo combate a qualquer tipo de relação de tirania e servidão humana:

Tu [Divina Providência] que de longe prepara as revoluções e derruba os tiranos! Tu que o olhar penetra mesmo nas consciências mais tenebrosas;

o crime chega ao seu máximo; revele esse longo mistério da iniquidade e puna-o, já é tempo (DE GOUGES, 1793a:1).

Essas almas desprezíveis, vendidas às forças estrangeiras, que com tochas e ferros nas mãos pregam o republicanismo, mas conduzem-nos de volta à mais horrível escravidão, os seus calvários um dia igualarão seus crimes (DE GOUGES, 1793a:6).

Esses trechos pertencem ao seu Testamento Político (1793) que, escrito já na prisão, apresenta um tom decepcionado. Percebemos que, até em seu último texto, Olympe denuncia suas discordâncias com os jacobinos e frisa seu entendimento de que a tirania gera servidão, enquanto a república deve gerar cidadania. Discordando do republicanismo que estava sendo posto em prática pelos revolucionários mais bem-sucedidos, a filósofa não hesitou em propugnar “o verdadeiro republicanismo”. No entanto, seus escritos mostram-nos a complexidade semântica e prática desses conceitos políticos e como estavam entrelaçados a disputas de poder e de legitimidade discursiva.

1.10 Mulheres e o discurso revolucionário: condições de enunciação

Muitos são os tons dos discursos revolucionários encontrados na polaridade forjada entre Monarquia e República. Olympe de Gouges insere-se em um desses tons mesclados, já que conta como uma das pessoas que permaneceu por mais tempo em defesa da monarquia - que, para ela, deveria alicerçar-se sobre uma constituição soberana e sobre ideais cívicos republicanos. Apesar de não constar em seus escritos nenhuma menção a si própria como girondina, Olympe foi tida como tal nesse período, conhecido na historiografia como a “República Jacobina”. A autora foi presa pouco depois da expulsão dos girondinos da Convenção Nacional, no mesmo processo que enrijecia cada vez mais o discurso uno da República, processo esse liderado pelo Comitê de Salvação Pública, em nome de Robespierre.

Buscamos aqui elucidar essa disputa discursiva de quem representa – ou que consegue representar – entidades políticas unas, principalmente, a República e o povo. É necessário olhar para esses discursos que instituíam a verdade sobre o povo e a República e