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Universidade do Estado do Rio de Janeiro - BDTD/UERJ

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Academic year: 2023

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Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018. Tese (Doutorado em Antropologia) – Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA

A violência a partir da perspectiva de gênero

A autora analisa que a definição de gênero como uma interpretação cultural de gênero acaba por estabelecer uma relação idêntica entre gênero e gênero. A instituição do conceito de gênero, diferente das leituras convencionais, foi decisiva na ressignificação da dinâmica da violência sexual.

A interseccionalidade e os marcadores sociais da diferença

É fundamental compreender que, no âmbito da interseccionalidade, os marcadores sociais podem constituir instâncias de desigualdades, mas também conduzem a estratégias com amplas possibilidades de ação. Henning (2015) vai ainda mais longe ao propor o termo agência interseccional para nomear os espaços de ação estruturados por marcadores sociais de diferença que surgem em resposta a cenários de potenciais desigualdades no cotidiano dos sujeitos.

Sobre mulheres negras e violência de gênero

  • Os estudos sobre violência e o recorte racial

É interessante refletir sobre como o movimento de mulheres negras teve significativa participação e contribuição na formulação de políticas governamentais relativas à população negra. A contribuição dos movimentos de mulheres negras para a formulação de políticas voltadas à população negra nos anos seguintes mostra a gradual visibilidade das mulheres negras nos cenários político e social.

TRAJETÓRIA DE PESQUISA: observações, percepções e construções

O campo de pesquisa

Pensando nisso, o mapeamento inicial descrito acima me levou ao Centro Especializado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CEAM). A linha de acção de combate à violência contra a mulher destacou como um dos seus objectivos a implementação de uma Política Nacional de Combate à Violência contra a Mulher e como uma das acções para atingir esses objectivos a criação de serviços especializados, como Centros de Referência de Assistência à Mulher. em situações de violência. A ampliação e o fortalecimento da rede de atendimento às mulheres em situação de violência incluem os Centros Especializados de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, que incluem os Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) e os Centros Integrados da Mulher (CIM), Comissariados de Polícia Especializados. de Atendimento à Mulher (DEAM) e Postos de Atendimento Humanizado em Aeroportos (tráfico de pessoas/tráfico de mulheres).

Os centros de referência14 integram, portanto, a Rede de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência na Esfera Governamental e, nesse sentido, desempenham o papel de articuladores das instituições e serviços governamentais e não governamentais que integram a rede.

Os Grupos de Reflexão e os meus “eus” nos Grupos

Em seguida, relato minha participação nos grupos de reflexão e a integração do que considero “novas identidades” que foram construídas no campo de pesquisa. Entendo que os grupos de reflexão se destinam a atividades realizadas em conjunto com mulheres em situação de violência com o objetivo de trocar experiências, fortalecer e exercitar a autonomia e a autoestima e criar um espaço de diálogo que forneça informações sobre temas relacionados à violência a ter. 16 Os dois encontros com profissionais do CEAM pretenderam ser uma oportunidade para obter novas informações e garantir que não haveria “perda de tempo” para mim, pois se deveram ao facto de nenhum dos participantes nos grupos de reflexão destas duas quartas-feiras .

18 Ao perguntar a uma das psicólogas como estimam o momento certo para as mulheres participarem dos Grupos de Reflexão, ela mencionou que muitas mulheres em situação de violência chegam ao CEAM extremamente fragilizadas e inseguras para compartilhar suas histórias.

Estratégias Metodológicas

  • A observação Participação
  • As entrevistas
  • A caracterização das entrevistadas
    • As heroínas negras contemporâneas

Vivia com a expectativa de receber possíveis sim ou não na vontade de compartilhar suas histórias de vida. A participação em grupos de reflexão durante os nove meses possibilitou criar vínculos com essas mulheres a ponto de elas se sentirem seguras para contar suas trajetórias de vida. A utilização de trajetórias de vida permitiu aos informantes reconstruir suas histórias verdadeiras ou ficcionais do ponto de vista de se recolocarem no mundo.

Entendo que a dimensão complexa da violência de género no contexto da investigação teve que ser descodificada com a ajuda de histórias de vida.

Os disfarces da violência: a solidão e a cor

Aí conheci meu ex-marido e enquanto estava no trabalho fui conversar com ele, conversamos, aí eu falei para ele que não era mais menina, mas casei com véu e guirlanda, casei com tudo bem , porque ninguém sabia, certo? véu e guirlanda e tudo mais e eu contei para ele e ele aceitou e casou, naquela época ele nunca jogou isso na cara dele, sabe. A ruptura com os padrões morais continua na seguinte fala: “Aceitei e disse: “mas prometi à minha mãe que me casaria na igreja com véu e guirlanda”. Mas meu pai me disse: ‘Dandara, se você não namorar negros, eles vão acabar com a sua vida e você vai ser demais.

Então meu pai não queria que eu namorasse porque ele ia me maltratar porque os brancos maltratam as negras e os portugueses só querem as negras para outras coisas menos para assumir todas as responsabilidades e eu sofreria muito (DANDARA, 59 anos, negra) .

Os desdobramentos da violência de gênero

Eu não entendi o que meu pai estava falando, meu pai que eu amo muito não entendeu e na minha noite de núpcias ele não queria sexo vaginal, ele queria sexo anal, para mim isso foi o meu fim. casamento, na lua de mel meu casamento acabou. Contudo, percebi que essa violência foi criada por uma violência padrão originada de relacionamentos conturbados e violentos com parceiros íntimos. Caso contrário, as práticas violentas dos (antigos) parceiros íntimos estendem-se a outros agentes do seu ciclo social, familiares ou amantes, tornando compreensível a organização dos eixos de poder que moldam as relações violentas.

Eu digo que o Senhor é testemunha que sempre fui boa com ela porque você quer a família bem mas você nunca gostou de mim porque não sei o que ela tem com meu marido, coisas de mãe, essas doenças patológicas (DANDARA, 59 anos, preto).

O apoio institucional

As atividades grupais e individuais permitiram capacitar as mulheres atendidas para lidar com situações de violência no seu cotidiano. As entrevistas também revelaram relatos de desrespeito dos agentes públicos às denúncias de violência. A temática em torno do impacto da violência na família evocou histórias onde os cenários de violência de género tiveram um impacto drástico na dinâmica familiar, mais especificamente na relação com os filhos.

O caminho crítico para as mulheres inclui lacunas que se traduzem numa rede sócio-institucional que nem sempre é útil e capaz de apoiar as mulheres em situações de violência.

Respeito é bom e eu gosto

Para mim a violência era só física, bater, né, bater, agredir, então, para mim foi isso, hoje eu entendo diferente, que não é só isso, né. Fico dizendo a mim mesma que se eu tivesse o cabelo cacheado assim, ficaria parecida com aquela garota da Sheron Menezes (referindo-se à atriz de novela), acho lindo né, mas claro, precisa ser bem cuidado, né ? Então, quando eu for até você, olhe para você: você não fica legal com essa roupa, é um tipo de violência, você nem sabe com quem está falando, não sabe se aquela pessoa é vou ficar com isso né, porque se você falar Pra mim eu vou ficar com isso, já que tem gente que não vai deixar passar, vai falar: Ah, eu sou muito feio, ah, eu não me importo com você, já vou guardar para mim (TERESA, 41 anos, parda).

Ainda dentro desse universo, expressões e gestos também são trabalhados como violência: ―Violência para mim é todo tipo de desrespeito, tudo, né, verbal, é o físico, o olhar, a violência, o olhar que mata, que te leva a o chão, é tudo para mim, desrespeito é violência para mim” (DANDARA, 59 anos, negra).

Ocupando os espaços: das interdições as possibilidades

Dois lugares que fui me disseram que eu não tinha mais idade para trabalhar” (AQUALTUNE, 56 anos, negra). Vou trabalhar, vou estudar, vou voltar a estudar, vou terminar a primeira graduação, talvez até a segunda (..), sempre quis aprender a falar Espanhol, então vou fazer, e tem outras coisas que também me interessam. Quero fazer né, porque nunca é tarde (TERESA, 41 anos, parda). E o meu sonho era que se eu conseguisse terminar os estudos fosse ser assistente social, não sei porque fiz isso.

Ela me perguntou se eu tinha benefício infantil, aí me deram uma cesta básica, mas eu não tinha nada.

Explorando outros espaços: os domínios da sexualidade e do corpo

Mas até eu vi no cinema, eu vi uma coisa que mostrou isso ali, então isso me chamou a atenção, sabe, e aí eu falei para ele, ah, vou fazer um jantarzinho para nós, até lá, jantar. foi bom para ele, mas depois...eu quero comprar roupa para mim, quero comprar roupa com aquele espartilho, quero colocar para você, aí ele fala: não vou fazer isso. Fiquei mais excitada com outros homens, mas não cheguei ao orgasmo como com ele (..), quando realmente descobri qual era o verdadeiro prazer do sexo com ele (AQUALTUNE, 56 anos, negra). Aqualtune afirma que embora estivesse mais excitado por outros homens, ele teve um orgasmo com sua parceira branca e mais velha. 'Fiquei mais excitado com outros homens, mas não cheguei ao orgasmo da mesma forma que fiz com ele.'

Dito isso, esses informantes estruturaram essas relações sob a tríade prazer-desejo-amor como forma de alcançar a satisfação sexual, o que proporcionou a oportunidade de entrar em relações afetivo-sexuais anunciadas por meio de seus desejos e sentidos: "Eu acho que sou", ―Eu me amo‖, “Eu me realizaria mais”.

Os modelos familiares: aspectos geracionais e conflitos

Fiquei aqui com minha família, minha filha já tinha casado, eu estava lá, fiquei com minha família, mãe e pai e ele lá (ex-marido dela) e minha filha, tudo longe e para mim foi muito difícil me encontrar para ficar junto, você pode imaginar, sozinho (..), tenho muitos irmãos, tenho uma irmã aqui no Brasil e essa irmã sempre, de certa forma, me apoiou tanto. A tentativa de reverter a situação se expressa na recusa de Aqualtune em se parecer com a mãe: “Sempre procuro demonstrar esse amor, aconteceu comigo e com minha filha, mas fiz de tudo para não deixá-la” e na tentativa de salvar sua filha do abuso: "Seu desgraçado, você não vai manter minha filha como esposa!". Percorrer as trajetórias de vida de mulheres negras em situação de violência atendidas por um centro de atendimento especializado despertou em mim um olhar mais apurado sobre as questões da violência de gênero.

A pesquisa revelou um universo limitado de mulheres em situação de violência de gênero que podem obter apoio institucional para romper o ciclo de violência.

Referências

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