1 Trabalho realizado com o apoio financeiro do Funpesquisa/ UFSC e o apoio geral do NEPEPS - Núcleo de Pesquisa e Ext ensão em Educação Popular, Enferm agem e Saúde; 2 Professor Associado, e- m ail ast [email protected]; 3 Professor Adj unt o; 4 Enferm eira da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Florianópolis, Mest randa. Universidade Federal de Sant a Cat arina, Brasil
ROTI NAS DAS FAMÍ LI AS COM CRI ANÇAS LACTENTES
1Ast rid Eggert Boehs2
Márcia Grisot t i3
Marly Denise Wuerges de Aquino4
At ravés dest e est udo descrit ivo, de abordagem qualit at iva, invest igou- se as rot inas de fam ílias com filhos lact ent es de 6 m eses a 2 anos, cuj as m ães enfrent am o m ercado de t rabalho e se ut ilizam de Unidade Básica de Saúde em um m unicípio do Sul do Brasil. Com o referencial teórico, utilizou-se a abordagem das rotinas fam iliares. Foram entrevistadas 25 m ães, através de form ulário sem i-estruturado. A análise dos dados qualitativos seguiu as fases de organização, codificação, cat egorização e int erpret ação dos dados. I dent ificou- se que as rotinas fam iliares de cuidado variam com a periodicidade, horário e tipo de ocupação da m ãe. Foram identificadas diferent es alt ernat ivas de cuidado da criança e, apesar de grande part e das ent revist adas se considerarem casadas, quase não houv e m enção aos m ar idos na r ot ina. A inv est igação, baseada nas r ot inas da fam ília, possibilit a ident ificar os papéis fam iliares, as relações sociais e a organização de cuidados na saúde.
DESCRI TORES: cuidado do lact ent e; saúde da fam ília; fam ília
THE ROUTI NE OF FAMI LI ES W I TH NURSI NG I NFANTS
This descriptive study investigates the routine of fam ilies with nursing infants ages between six m onths and two years old, involving working m others users of a Basic Health Unit in a city in the South of Brazil. The t heor et ical discussion is based on t he fam ilies’ r out ine appr oach. A t ot al of 25 m ot her s w er e int er v iew ed t hr ough a sem i- st r uct ur ed quest ionnair e. The qualit at ive dat a analysis follow ed t he phases of or ganizat ion, codificat ion, cat egorizat ion and int erpret at ion. The findings suggest t hat childcare rout ines vary according t o t he periodicit y, schedule and occupat ion of t he m ot her. Different alt ernat ives t o childcare were ident ified, and alt hough m ost of t he wom en int erviewed report ed t o be m arried, t hey alm ost did not m ent ion t he husband’s part icipat ion in t he rout ine. The invest igat ion based on fam ily rout ines allows t he ident ificat ion of fam ily roles, t he social relat ions and t he healt h care organizat ion.
DESCRI PTORS: infant care; fam ily healt h, fam ily
RUTI NAS FAMI LI ARES CON LACTANTES
Por m edio de est e est udio descript ivo, con enfoque cualit at ivo se invest igó las rut inas de fam ilias con niños lact ant es ent r e 06 m eses a 02 años de edad, cuyas m adr es t r abaj aban y t enían com o r efer encia un Servicio Básico de Salud de un m unicipio del sur del Brasil. Com o fundam ent o t eórico fueron ut ilizadas las rut inas fam iliares. Siendo ent revist adas 25 m adres, por m edio de un form ulario sem i est ruct urado. El análisis de los dat os cualit at ivos fue realizado por m edio de las fases de organización, codificación, cat egorización e int erpret aciòn. I dent ificándose que los cuidados en las rut inas fam iliares varían con la periodicidad, el horario y el tipo de ocupación de la m adre. Se identificaron diversas alternativas de cuidado brindado al niño y, a pesar de la gran m ayoría de las ent revist adas ser casadas, no fue m encionado el esposo com o coadyuvant e en las rut inas. Est a invest igación perm it ió ident ificar los roles fam iliares, las relaciones sociales y la organización de los cuidados a la salud.
I NTRODUÇÃO
A
o longo das últim as décadas, a construçãode conhecim ent o na ár ea da saúde da fam ília t em r eit er ado a concepção de que a fam ília r epr esent a
um a unidade básica de saúde( 1). Nessa concepção, o
dom icílio fam iliar é consider ado com o pr odut or de saúde, porque seus recursos int ernos, com o t em po, co n d i çõ es m a t er i a i s e f i n a n cei r a s, so m a d o s a o s ext ernos, com o serviços form ais de saúde, t êm por
obj et ivo resguardar, m ant er e rest aurar a fam ília( 2).
Na década de 1980, alguns pesquisadores( 3),
p ar t in d o d a p r em issa d e q u e o su p or t e social se const it uía em um m ediador ent re a vida est ressant e e a susceptibilidade às doenças, apontaram o caráter im preciso e de dificil m ensuração de t al concepção. Reconhecendo que o ser hum ano t em a necessidade e l e m e n t a r d e e st a b i l i d a d e , p r e v i si b i l i d a d e e con t in u idade, opt ar am por focar est u dos sobr e as r ot in as e os r it u ais d om ést icos com o f or m a m ais obj et iva de avaliar o suport e social de fam ílias e sua r e l a çã o co m a s d o e n ça s. Ap ó s u m a r e v i sã o d a literatura e realização de duas pesquisas transversais com fam ílias de diferent es classes sociais e origens
ét nicas nos Est ados Unidos, esses pesquisador es( 3)
buscar am ent ender a r elação ent r e as r ot inas e a doença, defendendo a t ese de que rot inas da fam ília são com por t am ent os obser v áv eis e r epet it iv os que envolvem os diversos m em bros do grupo e ocorrem com pr ev isív el r egu lar idade. As r ot in as f am iliar es podem pr ot eger a saú de e o bem - est ar dos seu s m em b r o s, p r o v en d o est ab i l i d ad e e co n t i n u i d ad e d u r a n t e p e r ío d o s d e e st r e sse , p r o m o v e n d o solidar iedade e coesão.
Mais r ecent em ent e, um a aut or a( 4) cham a a
a t e n çã o p a r a a n e ce ssi d a d e d a e n f e r m a g e m preocupar- se com a saúde da fam ília, resgat ando os co n ce i t o s d e r o t i n a s e r i t u a i s j á a p o n t a d o s a n t er i o r m en t e( 3 ) e en f a t i za a i m p o r t â n ci a d esse referencial para a assist ência e para a pesquisa. Em e st u d o s p o st e r i o r e s( 5 - 6 ), p r o cu r o u - se d e f i n i r a s d if er en ças en t r e r ot in as e r it u ais: as r ot in as são at ividades repet it ivas e padronizadas, est reit am ent e ligadas a at ividades diárias e regulares e os rit uais são at o s o u açõ es co n d u zi d as p o r u m g r u p o d e pessoas, em pregando um ou m ais sím bolos de form a repet it iva, form al e precisa, descrit os em t erm os de celebração, t radições religiosas e event os sim bólicos.
No Br asil, est u d o( 7 ) m ais esp ecíf ico sob r e
rit uais com fam ílias de recém - nascidos, concluiu que
o s cu i d a d o s d e sd e o n a sci m e n t o co m o r i t o s d e passagem são aspect os im por t ant es no âm bit o da en f er m ag em . Ou t r o est u d o( 8 ), com o ob j et iv o d e com preender com o as fam ílias constroem o am biente f a m i l i a r, e l a b o r o u u m a ca t e g o r i a d e n o m i n a d a g o v e r n a n d o a v i d a co t i d i a n a . Ne l a , a s f a m íl i a s descrevem as rotinas da vida diária dentro de enfoque relacionado aos papéis e às tarefas dos seus diversos m e m b r o s. Esse s e st u d o s, co n t u d o , d i f e r e m d a a b o r d a g e m , a p o n t a d a i n i ci a l m e n t e( 3 - 6 ), e m b o r a m o st r em a i m p o r t ân ci a d as r o t i n as e r i t u ai s n a pesquisa em enfer m agem .
At ualm ent e, na realidade brasileira, esforços t êm sido em preendidos para consolidar a Est rat égia d a Sa ú d e d a Fa m íl i a ( ESF) . Ne sse se n t i d o , com pr eender a dinâm ica das fam ílias é pr im or dial
par a o cu idado de su as n ecessidades de saú de( 9 ).
Adem ais, as atividades rotineiras da vida diária com o se alim ent ar, dorm ir e preparar refeições const it uem it en s f u n d am en t ais p ar a a av aliação f u n cion al d a fam ília( 10).
Assi m , e st e e st u d o t e m p o r o b j e t i v o descrever as rotinas das fam ílias com filhos lactentes de 6 m eses a 2 anos, quando as m ães t r abalham fora do lar.
MÉTODO
O estudo descritivo de abordagem qualitativa f oi r ealizado n o m u n icípio de Flor ian ópolis, San t a Cat arina, j unt o a fam ílias da área de abrangência de u m a Un i d a d e Bá si ca d e Sa ú d e ( UBS) . Co m o referencial teórico utilizou- se a abordagem das rotinas fam iliares( 3- 6).
A UBS localiza-se em um bairro que abrange várias áreas, m arcadas pela relação conflit uosa ent re com unidades de população considerada nativa e novos m oradores. Os novos im igrantes são oriundos de outras regiões da Grande Florianópolis, do interior do Estado
de Santa Catarina e de outros Estados do Brasil(11). A
área de abrangência da Unidade de Saúde contem pla população de apr ox im adam ent e 18.000 m or ador es. Está operacionalm ente subdividida em 4 subáreas, onde at uam 4 equipes de saúde da fam ília. Disponibiliza espaço para a realização da Residência Multiprofissional em Saúde e para as at ividades de est ágio curricular de alunos dos cursos da área da saúde.
a m ãe atendesse os critérios, solicitava- se a perm issão para a ent revist a, que era ent ão agendada para ser r e a l i za d a n o d o m i cíl i o o u , se a m ã e e st i v e sse disponível, era realizada nas dependências da UBS. Fo i u t i l i za d o u m f o r m u l á r i o se m i - e st r u t u r a d o , constituído de 4 partes: a) dados de identificação; b) conhecendo a fam ília, que incluía a percepção da m ãe entrevistada sobre quem ela considerava com o sendo
sua fam ília, um genogram a, um ecom apa( 10,12) e dados
so b r e o p r i n ci p a l cu i d a d o r e n q u a n t o a m ã e v a i trabalhar; c) conhecendo as rotinas diárias, sem anais e m ensais da m ãe j unto à fam ília e à criança lactente; d) cuidado de saúde do lactente. As entrevistas foram gravadas m ediant e perm issão e quando isso não era p ossív el, os r eg ist r os er am f eit os im ed iat am en t e d ep ois d e f in alizad a a en t r ev ist a, p r ocu r an d o- se m ant er, na ínt egra, as falas das ent revist adas.
Foram três os critérios de seleção dos suj eitos. Prim eiro, deveria haver na fam ília um a criança com a idade entre 6 m eses e 2 anos. Essa faixa etária foi e sco l h i d a p e n sa n d o - se n a s r e co m e n d a çõ e s preconizadas para o aleit am ent o exclusivo at é o 6° m ês, o que m uit as vezes alt era e ret arda a ent rada ou o r et or n o d a m ãe ao m er cad o d e t r ab alh o. O segu n do cr it ér io er a o de qu e a cr ian ça est iv esse f a ze n d o a co m p a n h a m e n t o d o cr e sci m e n t o e d esen v olv im en t o n a UBS, con f or m e p r ot ocolo d e at enção à cr iança de 0 a 6 anos da Secr et ar ia de Saúde do m unicípio de Florianópolis. O terceiro critério era que a m ãe est ivesse t rabalhando regularm ent e, no m ínim o 3 dias por sem ana.
Pa r a a a n á l i se d o s d a d o s r e f e r e n t e s à i d en t i f i ca çã o d a s ca r a ct er íst i ca s d a s m ã e s
entrevistadas foi utilizada um a classificação sim ples(13).
Na análise do genogram a, analisou- se a com posição e est r u t u r a f am iliar e, n o ecom ap a, as r ed es d e r elações m ais am plas est abelecidas pelos m em br os
da fam ília( 10,12). Quanto aos dados qualitativos, foram
seguidas as seguintes etapas da análise de conteúdo: or ganização dos dados, codificação, cat egor ização,
infer ências e int er pr et ação( 14). A cat egor ização dos
d a d o s co r r e sp o n d i a a o s i t e n s p r e v i a m e n t e estabelecidos no form ulário: a fam ília da entrevistada, as rotinas diárias, sem anais e m ensais e o cuidado de saú d e d o lact en t e. A in t er p r et ação d os d ad os f oi
efetuada à luz do referencial de rotinas fam iliares(3-6).
Est a pesquisa foi apr ov ada pelo ao Com it ê de Ét ica da Universidade Federal de Sant a Cat arina,
e esteve de acordo com a Resolução 196/ 96, no que diz respeit o ao sigilo, anonim at o, consent im ent o livre esclarecido e liberdade das participantes de desistirem a qualquer m om ent o do est udo.
RESULTADOS
Car act er íst icas das ent r ev ist adas
O g r a u d e e sco l a r i d a d e d a s 2 5 m ã e s ent revist adas rest ringe- se, na sua m aioria ( 68% ) , ao ensino fundam ent al, dos quais 44% incom plet os e 24% com pletos. As dem ais cursam ou j á com pletaram o segundo grau.
Qu a n t o a o t i p o d e o cu p a çã o , 7 2 % d a s e n t r e v i st a d a s t r a b a l h a m e m f u n çõ e s d e cu n h o d om ést ico. Desse p er cen t u al, 5 6 % t r ab alh am n o d om icilio d e f am ílias e 1 6 % ex er cem f u n ções d e lim peza em est abelecim ent os com erciais. As dem ais, com percentual de 24% , referem exercer a ocupação de auxiliar de creche, auxiliar de padaria, agent e de saúde, t elefonist a, est agiár ia e digit ador a. Mais da m et ade ( 52% ) apresent a vínculo em pregat ício form al com regist ro na cart eira profissional.
É im p or t an t e d est acar, q u e d as 2 5 m ães ent revist adas, 60% m oram em casa própria e 36% em casa alugada; apenas um a delas v iv e em casa em p r est ad a. Val e en f at i zar a g r an d e m o b i l i d ad e e x i st e n t e n o b a i r r o , u m a v e z q u e 5 2 % d a s ent revist adas vive apenas ent re um e seis m eses no en d er eço at u al. Qu an t o ao est ad o civ il, 7 2 % d as ent r ev ist adas se consider am casadas* .
As ent revist adas, na sua t ot alidade, relat am q u e u t i l i zam o d i n h ei r o o b t i d o d o t r ab al h o p ar a d esp esas d e p r i m ei r a n ecessi d ad e: al i m en t ação, pagam ent os de cont as, aluguel, roupas. Const at ou-se que o pr incipal m ot ivo que as levou a t r abalhar fora de casa foi a “ necessidade financeira”.
As fam ílias das ent revist adas
Na an álise das r espost as par a a per gu n t a sobre “ quem consideram da fam ília” e na análise do g e n o g r a m a , co n st a t o u - se q u e a s e n t r e v i st a d a s
con sid er am com o f am ília as p essoas q u e m or am
j untas, sendo algum as com postas na form a tradicional de pai, m ãe e filhos, ou de m ãe e filhos, e out ras,
ai n d a, d e m ãe, f i l h o s, so b r i n h o e av ó s. Qu an d o indagadas sobre quem m ais consideram pert encent es à fam ília, m encionaram out ros parent es que residem na m esm a cidade ou em cidades dist ant es. Nesse ca so , o cr i t é r i o co n si d e r a d o p o r e l a s f o i d a consangüinidade. Mencionaram , t am bém , as relações baseadas na afetividade, com o requisitos im portantes p ar a con sid er ar q u em f az p ar t e d a f am ília com o vizinhos, babá, nam or ado.
Na análise do ecom apa ident ificou- se a rede de relações sociais. O am bient e de t rabalho dest aca-se com o a r elação m ais const ant e dos adult os que int egram o núcleo fam iliar. Em alguns casos t am bém apar ece a igr ej a e a u n idade de saú de do bair r o. Par a as m u lh er es, g er alm en t e a m ãe e as ir m ãs aparecem com o relações m uito próxim as e, em alguns casos, f or am m en cion adas as cu idador as de seu s f i l h o s. Já , p a r a o s h o m e n s, n a p e r ce p çã o d a s en t r ev ist adas, as r elações pr óx im as ocor r em com m ais freqüência com os am igos do t rabalho e/ ou do fut ebol.
A cuidadora de crianças
Qu an d o a m ãe v ai t r ab al h ar, el a p r eci sa buscar alt ernat ivas para o cuidado da criança. Duas m odalidades apar ecer am nos dados: a cr eche, que pode ser pública ou privada, e o cuidador part icular, que pode ser pago ou não.
A c r e c h e p ú b l i c a , q u e p e r t e n c e à r e d e m unicipal e é grat uit a, é um recurso ut ilizado som ent e p o r 2 m ã e s , u m a v e z q u e , d e a c o r d o c o m a s en t r ev ist ad as, h á m u it a d if icu ld ad e em con seg u ir v aga e, quando a conseguem , há o inconv enient e de ofer ecer o ser v iço por apenas m eio per íodo. As m ães ent revist adas consideram o cuidado em creche p ú b lica com o a solu ção id eal, n o en t an t o, p elas r azões j á alegadas, poucas t êm a opor t unidade de obt ê- lo.
Ex i st e m d u a s m o d a l i d a d e s d e cr e ch e privada: a form al e a dom iciliar. A form al, que é um a i n st i t u i çã o p a r t i cu l a r, co m f i n s l u cr a t i v o s, é r e g u l a m e n t a d a o f i ci a l m e n t e . Os d e p o i m e n t o s apon t am o alt o cu st o da m en salidade com o f at or l i m i t a n t e d e ssa m o d a l i d a d e . A d o m i ci l i a r n ã o é r egu lam en t ada pelos ór gãos oficiais do m u n icípio, sendo que a pr est ação de ser v iço é feit a em um a residência onde se reúnem várias crianças.
Na m odalidade do cuidador particular, a m ãe elege u m a pessoa par a cu idar ex clu siv am en t e da
cr ian ça, sej a n a casa d o cu id ad or ou n o p r óp r io dom icílio da cr iança. O cust o dos cuidados, nessa m odalidade, é acert ado com um pagam ent o form al. Há casos que não envolvem pagam ento em dinheiro, m as retribuição de favor. Há, ainda, situações em que out ros filhos m enores, a part ir da faixa et ária de 8 anos, ou as avós, cuidam da criança.
A escolha do cuidador par t icular obedece a alguns cr it ér ios. Algum as m ães escolhem m eninas abaixo de 15 anos para cuidar do bebê, outras m ães co n si d e r a m i m p o r t a n t e q u e o cu i d a d o r t e n h a ex per iência e, par a t ant o, buscam v izinhas que j á t enham net os.
As rot inas diárias e sem anais
Na an álise das r espost as sobr e as r ot in as d i á r i a s d a s e n t r e v i st a d a s e d e su a s f a m íl i a s, em er gir am 2 cat egor ias: a seqüência e os t ipos de at iv idades r ot ineir as.
A seq ü ên cia d as r ot in as est á f or t em en t e vinculada com o tipo de ocupação, escolaridade, idade, est ado civ il e h or ár io de t r abalh o da m ãe. For am ident ificados 3 grupos: o prim eiro, com post o por 10 ent revist adas que t rabalham o dia int eiro, durant e 5 d i a s p o r se m a n a ; o se g u n d o , co m p o st o p o r 1 0 entrevistadas que trabalham m eio turno de 4 a 5 dias por sem ana; e, um t er ceir o gr upo, com post o de 5 ent revist adas que t rabalham alguns dias na sem ana aleat or iam en t e, d e acor d o com o su r g im en t o d e serviços de faxina.
Das 10 ent r ev ist adas que t r abalham o dia int eir o ( pr im eir o gr upo) , apenas 2 são m enor es de 20 anos, 2 estão na faixa de 21 a 25 anos, um a tem 2 8 an os e as dem ais t êm m ais de 3 0 an os. Com relação ao est ado civil, 80% se considera casada e 20% , separada. Est ão nesse grupo as m ulheres que possuem o m aior núm ero de filhos e o m enor nível de escolaridade: 70% delas não avançaram além da quinta série do ensino fundam ental. Além disso, 80% t r a b a l h a co m o e m p r e g a d a d o m é st i ca , i st o é , a t r a b a l h a d o r a q u e p e r m a n e ce e m u m a m e sm a r esid ên cia, p or v ár ios d ias d a sem an a, em m eio per íodo ou int egr al. Apenas 2 est ão na função há m enos de 1 ano, sendo que as dem ais estão no m esm o em prego há m ais t em po. O vínculo em pregat ício de 9 0 % d e l a s é f o r m a l , co m ca r t e i r a p r o f i ssi o n a l assin ada.
(...) acordo cedo, às 6 horas da m anhã, troco a fralda do
nenê, deixo já ele arrum ado para sair, dou m am adeira e faço café
para todos. Saio e deixo o nenê na creche e vou para o serviço.
Com o o ônibus dem ora m uito, só chego lá às 9 horas. Ao m eio-dia
o m eu filho m ais velho (14 anos), que estuda de m anhã, vai pegar
o nenê na creche (...). É ele que cuida do nenê à tarde. Ele já sabe
o que fazer e eu tenho confiança nele. Volto no final da tarde e
preparo a janta, dou banho no nenê e preparo a com ida para outro
dia.
D a q u e l a s q u e se d e n o m i n a r a m ca sa d a s ( 80% ) , nenhum a m encionou o m arido nessa rot ina.
Do gr u po das 5 en t r ev ist adas qu e “ f azem faxinas”, consideradas nesse t rabalho com o diarist as ( t rabalham em várias casas durant e a sem ana, não t en d o v ín cu lo em p r eg at ício f or m al, com car t eir a profissional assinada) , um a tem 29 anos e as dem ais t êm m ais de 30 anos; possuem ent re 1 e 3 filhos; apenas 1 t em o segundo grau com plet o e as dem ais não avançaram além da sexta série do prim eiro grau; quant o ao est ado civil, 1 refere que é separada e as dem ais se consider am casadas.
Essas m ulheres possuem rotina instável, um a vez que t rabalham de acordo com as oport unidades d e f a x i n a q u e su r g em . Qu a n d o sa b em q u e i r ã o t rabalhar no dia seguint e, deixam os alim ent os e as roupas de suas fam ílias preparadas no dia ant erior e pr ov iden ciam u m cu idador par t icu lar. Esse su j eit o t a m b é m t e m u m v ín cu l o i n st á v e l , j á q u e e l e é r equisit ado ocasionalm ent e. Essa inst abilidade ger a t rocas const ant es de cuidador, dificult ando t am bém a v inculação do lact ent e com o m esm o. Apenas um a das ent revist adas m encionou a aj uda do m arido nas t arefas dom ést icas e no cuidado à criança.
No grupo de 10 m ulheres que trabalham m eio per íodo est ão as ent r ev ist adas m ais nov as, sendo que 6 têm m enos de 25 anos, 2 entre 26 e 30 anos e out r as 2 com m ais de 30 anos. Quant o ao est ado civ il, 6 se con sid er am casad as, 3 sep ar ad as e 1 solt eira. Esse grupo t em m aior escolaridade: apenas 2 n ão com plet ar am o en sin o f u n dam en t al; 3 j á o com p let ar am ; e as 5 r est an t es est ão cu r san d o o segundo gr au, ou j á o com plet ar am . Dessa for m a, esse gr upo t em o m aior núm er o de em pr egos for a da esfera dom ést ica, abrangendo 50% , em que 80% possui vínculo em pregat ício com cart eira profissional assin ada.
Na a n á l i se d a r e d e so ci a l , a t r a v é s d o ecom apa, obser v a- se que esse gr upo de m ulher es r eceb e m aior aj u d a d e p ar en t es, n a m aior ia d os casos, da avó da criança. Assim , podem conciliar suas
at ividades dom ést icas com o t rabalho form al, t endo a possibilidade de cu idar do lact en t e du r an t e u m período do dia. Tam bém , nesse grupo, o m arido t em m aior presença no relat o da rot ina diária.
Na cat egor ia t ipo de at iv idades r ot in eir as em er giu at iv idades ligadas à alim en t ação, h igien e corporal, lim peza da casa e cuidado com as roupas. O at endim ent o dessas necessidades é realizado com m aior ou m enor rigidez de horário de acordo com os grupos acim a m encionados e de acordo com o apoio da rede social que a m ãe ent revist ada dispõe.
A rotina de fim - de- sem ana não se diferenciou m uit o ent re os 3 grupos: há o grupo daquelas que “ n ã o sa e m d e ca sa p o r q u e n ã o t ê m t e m p o ” e aproveitam para fazer faxina dom éstica e há o grupo que refere “ passear” na casa de parentes ou em outros
locais públicos com o o “ parquinho e o shopping”. A
fr eqüência à igr ej a t am bém r epr esent a opção par a sair de casa nos finais de sem ana.
A rot ina m ensal não foi possível aprofundar, u m a v e z q u e a s e n t r e v i st a d a s, t a l v e z p o r n ã o conceberem sua vida em longo prazo, alegaram não saber r esponder.
Os cuidados à saúde do lact ent e
No que se refere às tom adas de decisões no cu idado das n ecessidades de son o, alim en t ação e higiene do bebê, vários suj eit os foram m encionados ( a l g u n s se r e f e r i a m a v á r i o s su j e i t o s concom it antem ente) : m ãe ( 16) , avó ( 10) , m arido ( 4) , irm ã ( 2) , filha ( 2) , babá ( 2) e cunhada ( 1) . É visível a p r ed om in ân cia d o p ap el d a m ãe e d a av ó n essa q u est ão e, n o v am en t e, h o u v e p o u ca m en ção ao m arido nos relat os das ent revist adas.
Qu a n t o à o r i e n t a çã o n o d i a - a - d i a , a s ent revist adas apont aram : a avó ( 10) , a m ãe ( 8) , o m édico ( 6) , a equipe da UBS ( 4) , a sogra ( 1) , a irm ã ( 1) , a t ia ( 1) , o m arido ( 1) e a cunhada ( 1) . Ao se repensar o papel da m ãe e da avó, por um lado, e o papel do m édico e da equ ipe da UBS, por ou t r o, const at a- se relação de com plem ent aridade ent re as p r át icas d os p r of ission ais d e saú d e e p r át ica d os cu id ad or es f am iliar es. Além d isso, é in t er essan t e r essalt ar, novam ent e, a quase nula par t icipação do m ar ido nesse pr ocesso.
d e i t i n e r á r i o s t e r a p ê u t i co s. Se a d o e n ça f o sse consider ada lev e, as m ães cuidav am em casa com m edicam ent os ou chás caseiros, ou levavam à UBS d o b a i r r o . Se f o sse g r a v e , e l a s r e co r r i a m à em ergência dos hospitais. As categorias doenças leves e doenças graves foram assim exem plificadas.
Leve: gripe, aparência caidinha. Grave: t uberculose,
pneum onia, doenças que exigem internação. [ ...] Em casos de
doenças leves, eu levo ao Posto; em outros casos (um a febre alta,
por exem plo) eu levo direto ao hospital.
Em r elação à confiança nas or ient ações de cuidado do bebê as ent r ev ist adas indicar am alguns suj eitos: o m édico da UBS ( 14) , a avó ( 9) , a m ãe ( 3) , u m p a r en t e ( 1 ) , o f i l h o m a i s v el h o ( 1 ) . Ou t r a s indicaram : ninguém ( 1) e não sabem ( 2) .
DI SCUSSÃO
Os result ados dest e est udo apont am relação en t r e a seq ü ên cia e t ip o d e at iv id ad es r ot in eir as d esen v olv id as e os f at or es: escolar id ad e, t ip o d e ocupação e apoio da rede social.
A b a i x a esco l a r i d a d e é p er ceb i d a , p el a s ent r ev ist adas, com o fat or lim it ant e no pr ocesso de inserção delas no m ercado de t rabalho e na escolha d o t ip o d e ocu p ação e t am b ém j u st if ica as su as ex p ect at iv as p ar a o f u t u r o, j á q u e esp er am p ela
possibilidade de continuar os estudos, ter um em prego m elhor
e de poder proporcionar estudos para os filhos.
Red e so ci al é u m si st em a co m p o st o p o r pessoas, f u n ções e sit u ações qu e of er ecem apoio i n st r u m e n t a l e e m o ci o n a l à p e sso a , e m su a s
difer ent es necessidades( 15- 16). Além disso, const it
ui-se com o a m ed iad or a d e sit u ações est r essan t es, favorecendo o atendim ento da necessidade elem entar de previsibilidade, cont inuidade e est abilidade do ser h u m a n o( 3 - 6 ) e p er m i t i n d o a i n ser çã o d a m ã e n o m er cad o d e t r ab alh o. Nest e est u d o, essa r ed e é representada por pessoas que, tanto dentro da fam ília ( avós, tias, irm ãs e adolescentes e pré- adolescentes) , quant o fora ( vizinhas, am igas e out ras) , e m ediant e pagam ento ou não, exercem a função de cuidadoras. A dinâm ica cotidiana dessa rede tem influência sobre o t ipo de vínculo em pregat ício da m ãe t rabalhadora, a periodicidade e os horários de t rabalho.
Const at a- se que essa rede é frágil, pois as m ães dependem diret am ent e de um cuidador para a criança e é, predom inant em ent e, fem inina, j á que os com panheiros quase não são m encionados na rot ina
d iár ia. Esse ach ad o d if er e d e ou t r a p esq u isa( 1 5 ), r e a l i za d a co m p o p u l a çã o co m ca r a ct e r íst i ca s sem elh an t es às dest e est u do, n a qu al o apoio do m ar ido/ com pan h eir o f oi con sider ado, pelas m ães, com o o m ais im por t ant e que os dem ais. Por out r o lado, essa rede t em papel crucial na m anut enção do em prego da m ãe ( um a vez que ela não conta com a aj uda do com panheiro) e perm it e a elas o aport e de bens m at eriais básicos, que garant em cont inuidade, pr ev isibilidade e est abilidade pelo at en dim en t o às necessidades de m oradia, alim ent ação e agasalho.
Nas decisões sobr e os cuidados diár ios das cr i a n ça s l a ct en t es, b em co m o n a s si t u a çõ es d e doenças, a rede fem inina constitui- se com o ponte para a busca dos recursos fora do círculo fam iliar, onde o m édico foi o profissional m ais apont ado.
Ver ifica- se que essa r ede t em fragilidades, principalm ente para aquelas entrevistadas com pouca qualificação e que não possuem o suport e da fam ília am pliada com o, por exem plo, as faxineiras event uais que precisam , com o pouco que recebem , pagar um cuidador. Desse m odo, cont rat am out ras m ulher es, por um a im por t ância ínfim a, usando apenas com o
par âm et r os de com pet ên cia: a pessoa ser calm a,
possuir algum a experiência ( no caso das m ais idosas,
por t erem net os e no caso das j ovens, por cuidarem dos ir m ãos) .
A rotina instável dessas entrevistadas requer t r o ca s co n st a n t e s d e cu i d a d o r, o q u e d e v e se r co n si d e r a d o n e g a t i v o u m a v e z q u e se t r a t a d e lactentes com necessidade de vinculação e de cuidados pr est ados por pessoas r espon sáv eis e h abilit adas. Considera- se que, para os serviços de saúde, ainda f a l t a m d a d o s m a i s si st e m a t i za d o s so b r e q u e m e f e t i v a m e n t e cu i d a d a s cr i a n ça s e m b a i r r o s d e população pobr e quando a m ãe pr ecisa t r abalhar e não há cr eches suficient es. Um a t ar efa pr im or dial, p o r t a n t o , n a p r o m o çã o d a sa ú d e d a cr i a n ça n a a t e n çã o b á si ca se r i a i d e n t i f i ca r a si t u a çã o d o s cuidador es, enquant o as m ães se afast am de seus dom icílios para t rabalhar.
m u i t a s v e ze s, a n a t u r a l i za çã o d a s h a b i l i d a d e s so ci a l m e n t e co n st r u íd a s p o d e i n t e r v i r n o e n ca m i n h a m e n t o d a s p o l ít i ca s p ú b l i ca s( 1 7 ). Os r esu lt ad os m ost r am esse f en ôm en o, p ois a r ed e fem inina, m esm o que frágil e sobrecarregada, perm ite q u e a m ã e se i n si r a n o m e r ca d o d e t r a b a l h o , t r ansfigur ando que, apar ent em ent e, as cr eches são suficient es, as cr ianças est ão sendo cuidadas e os governant es est ão cum prindo as suas funções.
Finalm ent e, considera- se relevant e esse t ipo de in v est igação baseado n as r ot in as das f am ílias, t an t o par a a en f er m agem qu an t o par a os dem ais profissionais de saúde, por possibilitar a com preensão da vida cot idiana fam iliar de m ães de lact ent es que t r abalh am f or a do lar. A par t ir desses aspect os é
possív el iden t ificar, com cer t a facilidade, qu ais os papéis fam iliar es, com o os difer ent es m em br os se r elacionam int er na e ext er nam ent e à fam ília, com o se organizam para o at endim ent o das necessidades básicas, na pr om oção da saúde e nas sit uações de d o en ça s, p r i n ci p a l m en t e a s i n f a n t i s, e q u a i s a s possibilidades do profissional de saúde para fortalecer ou aj udar o grupo fam iliar.
AGRADECI MENTOS
Agradecem os à enferm eira Daniela Mafiolet t i Floriano, pelo auxílio no planej am ent o da pesquisa, assim com o na colet a e regist ro dos dados.
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