R e v i s t a d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e M e d ic in a T r o p ic a l 2 5 ( 3 ) : 2 0 5 - 2 0 6 , j u l - s e t , 1 9 9 2
COMUNICAÇÃO
FRACO DESEMPENHO DO ALBENDAZOL NO TRATAMENTO
D A ESTRONGILOIDÍASE
R o n a ld o C e s a r B o rg es G ry sc h e k , V ice n te A m a to N e to , L u ís M a ts u b a r a e R u b e n s C a m p o s
A co m ercialização do albendazol n o B rasil, in fe liz m e n te , a p o n to u a fa v o r d esse fárm aco q u alid ad e exag erad as, frisando espectro de ação n ão v eríd ic o , a resp eito de h elm intíases intestinais. N a v erd ad e, p o rém , se v alo rizad o s os irrefutáveis c o n h e c im e n to s c ie n tífic o s, esse m ed icam en to p a s s o u a re p re s e n ta r o m ais a tiv o fre n te à a n c ilo sto m ía se , d eb e la n d o satisfato ria m e n te a ascaridíase e a enterobíase, sem co nstituir progresso sensível q u an to ao tratam ento da trico cefalíase. N o q u e tan g e à e stro n g ilo id ía se e à h im enolepíase causada p o r H y m e n o l e p i s n a n a , deve ficar bem
ressaltad o , o rem éd io citado n ão constitui avanço, u m a v e z q u e o u tro s recu rso s afig uram -se m elh o re s1 3 4 5 6.
C om o acum ulam os observações suplem entares re la c io n a d a s à in fe c ç ã o p e lo S t r o n g y l o i d e s s t e r c o r a l i s , ju lg a m o s im p o rtan te divulgá-las.
C o m p u se ra m a c a s u ís tic a 4 5 in d iv íd u o s in fectad o s p elo S. s t e r c o r a l i s , co n fo rm e resultados
d e exam es p arasito ló g ico s d e fezes pouco antes realizad o s. D ezesseis eram do sexo fem inino, as idades o scilaram en tre 1 6 a 7 6 a n o s e, clinicam ente, só h o u v e m en ção , p o r u m terço das pessoas consideradas, a distúrb ios discretos, exem plificados p o r d iarréia, d o r ab d o m in al, n áusea ou vôm ito . V in te e d o is receb eram o albendazol (“ Z en tel - S m ith K lin e & C ia. ” ); a eles foram ad m inistrados d o is c o m p r i m i d o s c o m 2 0 0 m g c a d a , co tid ian am en te, d u ran te três dias. A v in te e três d em o s, p a ra com paração e tam bém p ara av aliar o v a lo r d e p rep aração desse tip o , associação de m eb en d azo l co m tiabendazol ( “ H elm ib en - B iolab In dústrias Farm acêuticas S. A . ”); dois com prim idos
com 100 m g e 166 m g , re sp e c tiv a m e n te , dos c o m p o s to s c ita d o s , c o r re s p o n d e r a m às d o se s atribuídas duas vezes em 24 h o ra s, n o d ecu rso de três dias.
O s co ntroles p ó s-tratam en to s d ep en d eram de análises de m atérias fecais o ito , n o v e e d ez d ias após o térm ino dos tratam en to s, m ed ian te u so da técnica d eB aerm ann2. A dm itim os q u e teve lu g ar cura qu ando todas essas avaliações n ão m o straram larv as do h elm into .
C om o resultados ap u ram o s q u e o albendazol p ro p icio u oito sucessos (3 0 ,3 6 % ) e o p ro d u to com m ebendazol-tiabendazol 14 (6 0 ,8 6 % ).
A tolerância p ô d e ser in terp retad a com o m u ito b o a e em ap enas cinco ev en to s su rg ira m d iarréia ou náusea, de pequenas inten sid ad es e talv ez im p u táv eis às pre p araçõ es tom ad as.
D ian te do ex p o sto , ded u zim o s q u e o re m éd io m isto possui eficácia d e p o rte m ed ian o , su p lantada p elo em prego hab itu al de tiabendazol iso lad am en te ou, m orm ente, do cam bendazol. C o m o a lb endazol, no entanto, dem arcam os elev ad a p o rc en tag em de fracassos, deix an d o ev id en te q u e rjão se ju stific a p r e f e r i - l o q u a n d o p r e t e n d i d a a c u r a d a estro ngiloidíase. V árias razões ap o iam essa assertiva, en tre as quais destacam os a citad a b aix a cap acid ad e n o sentido d e d ebelar a infecção m o tiv ad a p elo S. s t e r c o r a l i s e a d isp o n ib ilid ad e d e fá rm aco s m ais
eficientes. F ic a evid en te, então, q u e é criticá v el a p o stu ra d a em p resa p ro p u g n a d o ra d essa indicação, no B rasil, gerando equív o co d e o rd e m assisten cial e desm erecendo corretos re spaldos cien tífico s, opostos a o p in iõ e s n ã o s u s te n ta d a s p o r in v e s tig a ç õ e s co nfiáveis.
Laboratório de Investigação Médica-Parasitologia, do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
E n d e r e ç o p a r a c o r r e s p o n d ê n c ia : Dr. Ronaldo Cesar Borges
Gryschek, Laboratório de Investigação Médica-Parasitológica/ H C/FM /USP. A v. Dr. Arnaldo 455, 01246-000 São Paulo, SP, Brasil.
Recebido para publicação em 06/03/92.
C o m u n ic a ç ã o . G r y s c h e k R C B , A m a to N e to V, M a ts u b a r a L , C a m p o s R . F r a c o d e s e m p e n h o d o a lb e n d a z o l n o tr a ta m e n to d a e s tr o n g ilo id ía s e . R e v is ta d a S o c ie d a d e B r a s ile ir a d e M e d ic in a T r o p ic a l 2 5 : 2 0 5 - 2 0 6 , j u l - s e t , 1 9 9 2 .
R E F E R Ê N C IA S B IB L IO G R Á F IC A S
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5. Amato N eto V , Pinto PLS, M oreira A A B , Campos R, Sant’Ana EJ, L evai E V , Padilha L A A , Takiguti CK. Avaliação da atividade terapêutica do albendazol em ratos exp erim en talm en te in fecta d o s com S tr o n g y lo id e s v e n e z u e le n s is . Revista do Instituto de M edicina Tropical de São Paulo 28:1 8 1 -1 8 4 , 1986. 6 . Cam pos R, M oreira A A B , C astilho V L P , Amato N eto V , G uizelini E , Pinto PLS. Tratamento da ascarid íase e da tr ic o c e fa lía se por m eio do albendazol. A rquivos B rasileiros de M edicina 5 7 :1 8 5 -1 8 6 , 1983.