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pt 0021 7557 jped 93 s1 0046

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ARTIGO

DE

REVISÃO

Identification

and

initial

management

of

intoxication

by

alcohol

and

other

drugs

in

the

pediatric

emergency

room

Thiago

Gatti

Pianca

a

,

Anne

Orgle

Sordi

b

,

Thiago

Casarin

Hartmann

b,c

e

Lisia

von

Diemen

d,∗

aHospitaldeClínicasdePortoAlegre,Servic¸odePsiquiatriadaInfânciaeAdolescência,PortoAlegre,RS,Brasil bHospitaldeClínicasdePortoAlegre,Servic¸odePsiquiatriadeAdic¸ão,PortoAlegre,RS,Brasil

cCentrodeSaúdeInstitutodeAposentadoriasePensõesdosIndustriários,Servic¸odeEmergênciaPsiquiátrica,

PortoAlegre,RS,Brasil

dUniversidadeFederaldoRioGrandedoSul,DepartamentodePsiquiatriaeMedicinaLegal,PortoAlegre,RS,Brasil

Recebidoem2demaiode2017;aceitoem12dejunhode2017

KEYWORDS

Bingedrinking; Substanceabuse; Substance-related disorders;

Pediatricemergency medicine

Abstract

Objective: Toreviewthescreening,diagnosis,evaluation, andtreatmentofintoxicationby alcoholandotherdrugsinchildrenandadolescentsintheemergencyscenario.

Datasource: Thiswasanarrativeliteraturereview.

Datasummary: Thedetectionofthisproblemintheemergencyroomcanbeachallenge, espe-ciallywhenitsassessmentisnotstandardized.Theintentionalandepisodicuseoflargeamounts ofpsychoactivesubstancesbyadolescentsisausualoccurrence,andunintentional intoxica-tionismorecommoninchildrenyoungerthan12years.Theclinicalpictureinadolescentsand childrendiffersfromthatinadultsandsomeparticularitiesareimportantintheemergency scenario.Aftermanagementoftheacutecondition,interventionstargetingtheadolescentat riskmaybeeffective.

Conclusion: Thediagnosisandtreatmentofintoxicationbyalcoholandotherdrugsin adoles-centsandchildrenintheemergencyscenariorequiresasystematicevaluationoftheuseof thesedrugs. Therearefewspecifictreatmentsfor intoxication, andthemanagement com-prehendssupportmeasuresandmanagementofrelatedclinicalcomplications.

©2017SociedadeBrasileiradePediatria.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisanopen accessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/ 4.0/).

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2017.06.015

Comocitaresteartigo:PiancaTG,SordiAO,HartmannTC,vonDiemenL.Identificationandinitialmanagementofintoxicationbyalcohol

andotherdrugsinthepediatricemergencyroom.JPediatr(RioJ).2017;93:46---52.

Autorparacorrespondência. E-mail:[email protected](L.vonDiemen).

(2)

PALAVRAS-CHAVE

Consumoexcessivo deálcool;

Abusodesubstâncias; Distúrbios

relacionadosa substâncias; Medicinade emergência pediátrica

Identificac¸ãoemanejoinicialdeintoxicac¸õesporálcooleoutrasdrogasnasala deemergênciapediátrica

Resumo

Objetivo: Revisarorastreamento,odiagnóstico,aabordagemeotratamentodasintoxicac¸ões porálcooleoutrasdrogasdecrianc¸aseadolescentesnocontextodeemergência.

Fontesdosdados: Foifeitaumarevisãonarrativadaliteratura.

Sumáriodosachados: Adetecc¸ãodesseproblemanasaladeemergênciapodeserumdesafio, especialmentequandosuaavaliac¸ãonãoépadronizada.Ousointencionaleemgrandes quan-tidadesepisódicasdesubstânciaspsicoativaséopadrãoemadolescenteseaintoxicac¸ãonão intencionalémaiscomumemcrianc¸asmenoresde12anos.Oquadroclínicoemadolescentes eemcrianc¸as diferedosadultosealgumasparticularidadessãoimportantesnocontextode emergência.Apósomanejodoquadroagudo,intervenc¸õescomvistasaoadolescentederisco podemserefetivas.

Conclusão: Odiagnósticoeotratamentodasintoxicac¸õesporálcooleoutrasdrogasem ado-lescentesecrianc¸asememergênciarequerumaavaliac¸ãosistemáticadousodessasdrogas. Hápoucostratamentosespecíficosparaintoxicac¸ãoeomanejoédeapoioedascomplicac¸ões clínicasrelacionadas.

©2017SociedadeBrasileiradePediatria.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigo OpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4. 0/).

Introduc

¸ão

Ousodesubstânciaspsicoativas(SPA)entreadolescentesé umproblemamundialmenteprevalente.NoBrasil,obeber episódico pesado ainda é maior entre os meninos (24%), mas aumentou entre as meninas (de 11% para 20%).1 O

uso de drogas, exceto álcool e tabaco, foi reportado por

24% dos estudantes de ensino médio e fundamental, são

os mais prevalentes energético com álcool (15%),

maco-nha(6%),inalantes(9%),ansiolíticos(5%)ecocaína(2,5%).2

Nas emergências pediátricas é esperada uma proporc¸ão

maiorde adolescentes usuários de SPA devido a sintomas

deintoxicac¸ão,complicac¸õesde doenc¸aspré-existentes e

porlesõestraumáticas.

O desafio no atendimentodesses pacientescomec¸a na

detecc¸ãodoproblema.Quandonãohá umprotocolo

esta-belecidoparaainvestigac¸ãodousodeSPAnaemergência,

a frequência e a gravidade desse uso são geralmente

subestimadas.3Oretardoouonãodiagnósticodeum

trans-tornoporusodeSPAnaemergênciapodeaumentarotempo

deinternac¸ão,oscustoseoriscodereinternac¸ões.4

O atendimento da intoxicac¸ão relacionada ao uso SPA

entreadolescentesenvolve inicialmenteodiagnóstico eo

tratamento sintomático e/ou abordagem das outras

con-sequências do uso. Após o manejo do quadro agudo, a

emergênciaéumlocalimportantedeencaminhamentopara

tratamentoe paraabordagenspreventivasemrelac¸ãoaos

transtornos relacionados ao uso de SPA. O objetivo desse

artigo édescrevera avaliac¸ão, odiagnóstico, ossintomas

e a abordagem inicial da intoxicac¸ão de SPA, bem como

intervenc¸õesbrevesparaadolescentesemrisco.

Diagnóstico

Rastreamentodousodesubstâncias

Um bominstrumento de rastreamentopara ser usadoem saladeemergênciadeveserbreve,defácilimplantac¸ãoe

comumasensibilidadeeespecificidadeadequadas,afimde complementaraavaliac¸ãoclínica dopaciente edar subsí-diosparaaintervenc¸ãoterapêutica.Aliteraturaébastante controversanaindicac¸ãodeinstrumentosderastreamento paradetecc¸ãodousooudodiagnósticodosproblemasque envolvemSPAenãoexisteumadiretrizespecíficaparaessa avaliac¸ãonopúblicojovem.5Atualmente,o deque

dispo-mossãoalguns questionários validados, bemcomo alguns

testesdeanálisebioquímicaqueavaliamapresenc¸adeSPA

emmatrizbiológica.

Váriosinstrumentosjáforamtestadosparaessepúblico,

masoCraft(Care,Relax,Alone,Family,Friends,Trouble)

eoAudit(AlcoholUse DisorderIdentificationTest)sãoos

de melhor desempenho.6 A vantagem do Craft é que ele

avaliatambém o consumo de múltiplasdrogas, com uma

sensibilidadee especificidade moderadas. Para problemas

comálcool,o Auditfoi o quedemonstrou maior

sensibili-dadeeespecificidade(95%e77%;respectivamente)epode

seraplicado em cercade dois minutos.O pontodecorte

maisadequadoparadeterminarproblemasrelacionadosao

consumodeálcoolé3.7Éimportanteressaltartambémque

a única pergunta, ‘‘Qual a frequênciade vezes que você

bebeunomêsanterior?’’comumarespostamaiorouiguala

trêsepisódios,apresentouumasensibilidadede90%e

espe-cificidadede84%paradetecc¸ãodesseproblema.7

Ostestes bioquímicos para detectarconsumo de

subs-tânciastêm utilidadepráticaem várias situac¸õesclínicas.

O teste do etilômetro e o teste rápido de urina se

mos-tramcomo opc¸õesinteressantes parauso na emergência,

devido à rapidez doresultado e por identificarem o

con-sumorecentedeSPA.8A testagemnoarexpirado através

doetilômetrotemcustobaixo,époucoinvasivaetemboa

correlac¸ãocomaalcoolemia,émuitoútilparaaavaliac¸ão

deintoxicac¸ão recentepor álcool.Os testesde urinasão

feitosapartirdeumafita-testequepodemedirapresenc¸a

demetabólitosdasmaisvariadasclassesdeSPAdeconsumo

recente.O tempodedetecc¸ão évariável paracada

(3)

agudooucrônico),cocaínadeumatrêsdias,anfetaminas

dedoisaquatrodias,benzodiazepínicosebarbitúricosaté

setedias.9Ostestesderastreamentodeurinapodem

apre-sentarresultados falso-negativosem func¸ão de pontosde

coortededetecc¸ãoaltos,masotestefalso-positivoé

impro-vável,aindamaisemumambientedeemergênciaemque

aprobabilidadepré-testejáéalta,seoexameforfeitoem

decorrênciadesuspeitaclínica.8

Ostestesdedrogasentreadolescentesincluemsempre

importantesaspectoséticosedeconfidencialidadecomos

pais.Comoregrageral,oadolescentedevesempreconsentir

com o exame. Em situac¸ões graves como vítimas de

aci-dente,tentativadesuicídio,convulsõesououtrassituac¸ões

deriscoemquenãoforpossívelobteroconsentimentodo

paciente,justifica-sea feiturasemo seuconsentimento.8

Emrelac¸ãoà confidencialidade,oadolescentedeve

auto-rizar que os pais tenham acesso ao resultado, que

só deve ser informado aos pais, contra a vontade do

paciente, se for identificada alguma situac¸ão de risco

agudo.8

Avaliac¸ãoemanejodousodesubstâncias

QuandoumadolescenteemusodeSPAéidentificado, torna--senecessáriaumaavaliac¸ãomaisdetalhadadouso.Emum contextodeemergência, asinformac¸ões sobreo uso con-comitantedeoutrasSPA,asquantidadeseo tempodesde oúltimoconsumosãofundamentaisnomanejo.Comobase nessesdados,deve-seestimarseossintomasdeintoxicac¸ão irãoaumentaroudiminuirnaspróximashoras.Sefor possí-vel,éimportanteobterinformac¸õessobreaidadedeinício edeprogressãoparaousodecadaSPA,frequênciae variabi-lidadedouso,alémdasconsequênciasdiretaseindiretasdo usoemrelac¸ãoaosdomínios:familiar,educacional,social, psicológicoemédico.Aaplicac¸ãodoscritériosdiagnósticos usadosparaadultosébastantequestionadanessecontexto, poisoscritériosdeabstinênciaetolerâncianãoseaplicam adequadamenteparaadolescentes.10 Assim,ofocoé

iden-tificaro adolescenteem risco parao desenvolvimentode

problemascomSPA.

Intoxicac¸ãoporálcool

A intoxicac¸ão por álcool é frequente entreadolescentes, cerca de 15% dos consumidores com 15 anos ou mais envolvem-se em um beber episódico pesado. O princi-pal mecanismo de ac¸ão farmacodinâmica do álcool é a facilitac¸ãodatransmissãoinibitóriadosistemanervoso cen-tral (SNC). Os sintomas da intoxicac¸ão aguda por álcool são dose-dependentes, relacionados ao nível sérico atin-gido, mas existe grande variabilidade individual na dose necessária para produzi-los.11 Os sintomas mais comuns

são: alterac¸ão do humor ou comportamento, fala

arras-tada, incoordenac¸ão, marcha instável, nistagmo, déficit

na atenc¸ão ou memória e, em casos mais graves,

estu-porou coma.É importante ressaltar que osefeitos sobre

o nível de consciência seguem um continuum de acordo

coma concentrac¸ão sanguínea doálcool, vão dasedac¸ão

leveao coma.11 Além disso,o álcoolpodecausardiversos

efeitos metabólicospotencialmenteletais.A hipoglicemia

é um efeito raro em adultos, mas crianc¸as e

adoles-centes estão sob maior risco de desenvolvê-lo.12 Outros

efeitos metabólicossãoacidose,hipocalemia,

hipomagne-semia, hipoalbuminemia, hipocalcemia e hipofosfatemia.

Efeitoscardiovascularespodemsurgirtambém:taquicardia,

vasodilatac¸ãoperiféricaedeplec¸ãodevolume,oquepode

contribuirparaainduc¸ãodehipotermiaehipotensão.11

Em jovens, a intoxicac¸ão por álcool tende a ser mais

gravedoqueemadultos,poiselesnormalmentenão

apre-sentamtolerânciaaosefeitosdesenvolvidapelasexposic¸ões

repetidas.13 adolescentes apresentam uma maior

pro-babilidadedeintoxicac¸ãoproposital,sobretudoempadrão

conhecido como beber episódicopesado (bingedrinking),

que consistena ingesta de grandesquantidades em curto

período.Existemfatoresculturaisque atéestimulamessa

eoutraspráticas,comoo‘‘esquenta’’ou‘‘aquecimento’’,

como é conhecido no Brasil, que consisteno consumo de

álcool na preparac¸ão parasaída parafestas.O padrãode

consumo em episódico pesado repetidas vezes está

rela-cionado com distúrbios cerebraisque podem desenvolver

alcoolismonaidadeadulta.14

Manejodaintoxicac¸ãoporálcool

Antesdeiniciarotratamento,éimportanteestimara alco-olemia.Seoetilômetroestiverdisponíveléumaboaopc¸ão, pois o ar expirado temuma boacorrelac¸ão com a alcoo-lemia.Seaalcoolemiaestiveraumentando,oadolescente deveseratentamentemonitoradoparaadepressãodoSNC. Quando não houver essa medida objetiva, pode-se ten-tarestimar atravésdaquantidadeconsumidaehá quanto tempo foi feito o último consumo. Para uma estimativa grosseiraemadolescentes maisvelhos,pode-se calculara metabolizac¸ão de uma dose (14g de etanol) por hora. O manejodaintoxicac¸ãoagudaparatodososindivíduosdeve ser focado nas complicac¸ões clínicas apresentadas, como correc¸ão dahipoglicemia, hipomagnesemia oumanejo da agitac¸ão. Para a agitac¸ão grave, devem-sepreferir antip-sicóticostípicos,comoohaloperidol,pormenorchancede interac¸ãocomálcool.Aprevenc¸ãodaaspirac¸ãodeconteúdo gástricodeveserbuscadacomaadministrac¸ãode antiemé-ticos,assimcomoagarantiadaviaaérea,dependedograu desedac¸ãodopaciente.Busca-seacessovenoso,se neces-sário,paragarantiraadministrac¸ãodefluidos.Emcrianc¸as e adolescentes,otratamento segueasmesmasdiretrizes, comespecialatenc¸ãoparaahipoglicemiaeahipotermia.12

Alguns estudos mostraram efeito benéfico dametadoxina

para acelerac¸ão do metabolismo do álcool e diminuic¸ão

do tempode intoxicac¸ão na dose única de900mgEV em

adultos.15 Não estudosdemetadoxinaparaessefimna

populac¸ãopediátrica.

Intoxicac¸ãopormaconha

Amaconhaéasegundadrogamaisusadaporadolescentes.O quadrousualdeintoxicac¸ãonormalmenteenvolveos seguin-tesefeitos:16 euforia,sensac¸õesprazerosas,diminuic¸ãoda

ansiedade, da depressão e da atenc¸ão. Alguns usuários

maisansiosos,psicologicamentevulneráveisou

inexperien-tescomadrogapodemapresentaraumentodaansiedade,

disforia e crises de pânico. São comuns vasodilatac¸ão e

vermelhidãodasconjuntivas(umdossinaismais

(4)

esíncope.Emalgunscasosháaumentodapressãoarterial,

bocaseca,aumentodoapetite,nistagmoefalaarrastada.16

Podem ocorrer mudanc¸as na sensopercepc¸ão: as cores se

tornammaisclaraseamúsicamaisvívida.Apercepc¸ãode

espac¸o,o tempodereac¸ão,aatenc¸ão,aconcentrac¸ão, a

memóriaeaavaliac¸ãoderiscotambémsãoalterados.Esses

últimospermanecemalteradospormuitomaistempodoque

a sensac¸ão deintoxicac¸ão subjetiva e taisefeitos podem

permanecerporaté12a24horasapósouso.

A maconha aumenta a frequência cardíaca para até

160 batimentos por minuto durante alguns minutos após

ouso,16 efeitodose-dependente equeprovavelmentenão

é relevante em jovens, a menos que apresentem algum

problemacardiovascular prévio.Todavia, jáforam

descri-toscasos dearritmias associadasao uso decannabis.Seu

uso aumenta o risco relativo de infarto em 4,8 vezes no

períodode umahora após o uso.17 Entre pacientes

admi-tidos em hospitais geraisna Franc¸a por uso de maconha,

29%apresentaramalgumacomplicac¸ãocardiovascular,

des-ses 3,5% tiveraminfarto domiocárdio e 2% apresentaram

acidentevascular cerebral,semque houvesseoutracausa

aparenteanãoserousodemaconha.18Alémdisso,31%dos

pacientesapresentavam queixasrespiratórias(dispneiaou

hemoptise),dosquais3,5% tiverampneumotórax

espontâ-neo.

Não é infrequente a ocorrência de surtos psicóticos

associada ao uso de maconha quando usada em grandes

quantidades, ouatravés douso de preparadoscom maior

concentrac¸ão.16,19Ematé9,5%dosusuários,podemocorrer

surtospsicóticosquedurammaisdoqueaintoxicac¸ão.19

Manejodaintoxicac¸ãopormaconha

O manejodaintoxicac¸ão por canabinoidesé predominan-temente de apoio. A maioria dos casos de intoxicac¸ões levesresolve-seempoucashoras,podemsermaisbem con-fortados aose acomodaremospacientes em quartos com iluminac¸ão leve, poucos estímulos e, em casos de muita agitac¸ão,podem serusados benzodiazepínicos,como dia-zepam na dose de 5mg por via oral. Nos casosnos quais há complicac¸ões cardíacas ou respiratórias, o manejo da complicac¸ãodeveserfeitodeacordocomaetiologia subja-cente.Nãoérecomendadoousodecarvãoativadoparaos casosdeingestãodemaconha.20 Oscasosqueapresentam

psicose devem ser tratados com antipsicóticos,

preferen-cialmente os atípicos, pela menor incidência de efeitos

adversos.

Intoxicac¸ãoporecstasy

A 3,4-metilenodioximetanfetamina(MDMA), popularmente conhecidacomoecstasy,éumasubstânciaconsumida usu-almenteporfrequentadoresdefestasdemúsicaeletrônica (raves). Há uma tendência de aumento considerável na prevalência e seu uso está associado com complicac¸ões potencialmente fatais. Os efeitos agudos da intoxicac¸ão por MDMAsão ummisto daclassedos alucinógenose dos estimulantes. Seus efeitos fisiológicos mais comuns são hipertermia,hipertensão,taquicardia,sudorese, hiponatre-mia(porsecrec¸ãoinadequadadehormônioantidiurético), tensãomuscular,bruxismoeinsônia.Ossintomas psicológi-cossãoeuforia,mudanc¸asnasensopercepc¸ão(aumentodo

estímulotátil,alucinac¸ões,aumentonapercepc¸ãodascores esons);podemocorrerataquesdepânicoepsicoses tóxi-cas.Opicodeac¸ãoaconteceemtornodeduashorasapóso consumo,commeia-vidaemtornodeoitohoras.Importante notarqueafarmacocinéticadoMDMAénãolinear,istoé, aumentospequenosnadoseoral podemaumentarmuitoa concentrac¸ãosérica.

Manejodaintoxicac¸ãoporecstasy

Omanejodaintoxicac¸ãoagudaéprincipalmentedeapoio, direcionadoaossintomasapresentadospelos pacientes.O sintomamaispreocupanteéahipertermia,potencializada pelocontextonoqualadrogaéusada,deambientequentee comatividadefísicaintensa.21Agitac¸ãoeconvulsõesdevem

sercontroladascombenzodiazepínicos,efeitos

cardiovascu-larescombeta-bloqueadoreseatemperaturacommedidas

externasderesfriamento.Deve-seatentarparaosquadros

dedesequilíbriohidroeletrolíticodevidoaointensoconsumo

deágua,comumaessesusuários.Antipsicóticosdevemser

evitados,peladiminuic¸ãodolimiarconvulsivante.22

Intoxicac¸ãoporcocaína

Aviadeadministrac¸ãodacocaínairáinfluenciaroiníciode ac¸ão,aintensidadeeadurac¸ãodosefeitos.Asvias fuma-das (crack) e a injetável terão efeitos mais intensos, de curtadurac¸ão, mascom umpós-efeito defissura e disfo-ria.Já navia inalada,osefeitos sãomenosintensos,mas com maior durac¸ão. A busca pelo atendimento na emer-gência em geral é pelos efeitos psíquicos ou cardíacos. Osefeitos comuns sãodeexcitac¸ão,euforiae autoestima elevada,masdoseselevadaslevamaansiedade,agitac¸ão, irritabilidade, sintomas paranoides e fissura intensa. Em relac¸ãoaosefeitos cardíacos,a cocaínaproduzumefeito dose-dependentedeaumentonafrequênciacardíaca, pres-sãoarterialevasoconstric¸ão.Háumaumentodademanda cardíaca, podem ocorrer isquemia e arritmia ventricular esupraventricular (porefeito diretooupelaisquemia). O usodadrogaprovocaaumentodatemperatura,diminuic¸ão datranspirac¸ão e da circulac¸ão periférica,pode produzir um quadro de hipertermia grave.23 As complicac¸ões que

ocorrem no SNC são convulsões, isquemia ou hemorragia

cerebral,cefaleiaesintomasneurológicosfocais.As

convul-sõespodemocorrerapósusodegrandequantidade,mesmo

sem foco epilético prévio. Do ponto de vista pulmonar,

podemocorrer pneumotórax, pneumomediastinoou

pneu-mopericárdioemconsequênciadapráticadevalsalvapara

evitaraexalac¸ãodadroga.Avasoconstric¸ão eoaumento

dacoagulac¸ão podemlevar àisquemiaeinfarto devários

órgãosalémdocorac¸ãoecérebro,comopulmões,rins,bac¸o

eintestino.Aintoxicac¸ãoconcomitantecomálcoolaumenta

achanceeagravidadedascomplicac¸ões.Outrofator

impor-tante são osadulterantes presentes na cocaína em pó, o

levamisoleéomaisimportante.Essepodeocasionar

agra-nulocitoseevasculitecutâneacomnecrosedapele.24

Manejodaintoxicac¸ãoporcocaína

(5)

prioriza-dos o tratamento daagitac¸ão, hipertensão e hipertermia ouascomplicac¸õespresentes.Ousodebenzodiazepínicos, comodiazepam,éotratamentodeescolhaparaaagitac¸ão eparaaliviarossintomascardiovasculares.Pacientescom hipertermiadevemserresfriadosrapidamente,idealmente em até30 minutos. Para o tratamento das complicac¸ões, o tratamento é o de rotina, mas alguns cuidados devem sertomados.Beta-bloqueadoresnãodevemserusados,pois podemagravaravasoconstric¸ãoehipertensão.

Intoxicac

¸ão

acidental

em

crianc

¸as

Recentemente, tem se tornado mais comum o consumo acidentaldeSPAporcrianc¸as.Quandoaingestãonãofoi pre-senciadaporumadulto,éprecisoumaltograudesuspeic¸ão parafazero diagnóstico.Aapresentac¸ãodesintomas psi-quiátricos e neurológicosem crianc¸as sem umapatologia identificável deve levar a pensar em intoxicac¸ão aciden-talporalguma SPA. Crianc¸as tendemaseapresentarcom intoxicac¸ão poretanol quandoocorrealgum consumo aci-dentaldealgumprodutoqueocontenhaemsuacomposic¸ão, comoenxaguantesbucais,cosméticos,produtosdelimpeza oubebidasdeixadas pelos pais em casa. Tornartais subs-tânciasinacessíveis àscrianc¸as reduz significativamentea probabilidadedeacidentes.25

Em especial, há relatosdeaumentos na frequênciade

casos de envenenamento por maconha em crianc¸as nos

EstadosUnidos, concentradonos estados em que houvea

descriminac¸ão.26Alegalizac¸ãodousodemaconha

possibili-touavendadeváriasapresentac¸õescomestíveis,inclusive

sobaformadebalasedoces,quepodeminadvertidamente

serconsumidasporcrianc¸as.27 Entreosprincipaissintomas

apresentadosna saladeemergênciaporcrianc¸asmenores

de três anos que consumiram maconha estão:

taquicar-dia sinusal (58,6%), midríase (48,3%), diminuic¸ão donível

de consciência (34%, Escala de Glasgow < 12),

sonolên-cia(24%,EscaladeGlasgow12-14),hipoventilac¸ão(20,6%),

agitac¸ão(10,3%)econvulsões(23,53%).27 Emcrianc¸as

mai-ores, tambémsãomais comuns ossintomas neurológicos,

especialmenteasedac¸ão,mastambémpodemseapresentar

comataxia,agitac¸ão,irritabilidadeouaindacomsintomas

gastrointestinais.Ossintomascardiorrespiratóriossãomais

raros.26

A exposic¸ão acidental a maconhanão costuma levar a

consequências graves, mas pode resultar em morbidade

importante pela necessidade de atendimento e cuidados

de emergência, como exames e procedimentos.28 as

exposic¸õesnãointencionaisacocaínasãorarasemcrianc¸as

(6%), porém resultam em um quadro mais grave do que

exposic¸õesaoutrassubstâncias.29Umestudoretrospectivo

comcrianc¸as menores detrês anos admitidasa

emergên-ciacomexposic¸ãoconfirmada acocaína29 mostrouque os

sintomasmais comuns sãotaquicardia (50%)e convulsões

(33%),seguidosde agitac¸ão (25%),diminuic¸ão donívelde

consciência (22%), sintomas gastrointestinais (17%), febre

(14%),hipertensão(14%),depressãorespiratória(11%),

cia-nose(8%),midríase(8%)eataxia(8%).Cercade40%podem

precisardecuidadosintensivoseem27%ocorreram

even-tos mais graves, como múltiplas convulsões, necessidade

deintubac¸ão,falênciarenalerabdomiólise.23 Podem

ocor-rertambémsintomasrespiratórios (especialmentequando

Tabela1 Indicac¸ãodeIntervenc¸ãoBreveconformeescore

doAudit

Nívelde risco

Intervenc¸ão EscoredoAudit

ZonaI Educac¸ão 0-7

ZonaII Conselho 8-15

ZonaIII Aconselhamento

brevee monitoramento contínuo

16-19

ZonaIV Encaminhamento

aum especialista

20-40

Audit,AlcoholUseDisorderIdentificationTest.

a exposic¸ãose dápelocrack) e febre.30 Omanejo é

pre-dominantemente de apoio: pacientes com manifestac¸ões

cardíacasdevemsermonitoradosporECGeenzimas

cardía-caspor8-12horasnaausênciadecomplicac¸ões,quedevem

ser tratadas de acordo com os protocolos vigentes. Pode

sernecessárioousodecarvãoativadoparadesintoxicac¸ão,

na dose de0,5 a 1mg/kgpeso corporal.31 Em crianc¸as, a

intoxicac¸ãoacidentalporMDMAé umimportante

diagnós-tico diferencial de convulsões com hipertermia e os pais

normalmentenegamousodasubstância.32

Intervenc

¸ão

breve

A admissão em uma sala de emergência após uma intoxicac¸ão por SPA, bem como o atendimento por uma complicac¸ão dessa, é uma janela de oportunidade para intervir no jovem e nos seus responsáveis, com vistas a desenvolver uma crítica ao uso dessas substâncias. As intervenc¸õesbreves(IB)sãobaseadasemtécnicasde Entre-vista Motivacional (EM)e dessa forma compreendemuma abordagem empática, não julgadora, não confrontativa, com vistas ao aconselhamento e ao desenvolvimento de motivac¸ãoparaamudanc¸adecomportamento.33

UmdosmanuaismaisconsagradossobreIBparausuários

de álcool sugere avaliara zona de risco deuso de álcool

antesdeaplicaraintervenc¸ão,conformeescoredoAudit.

A partir disso, deve-se aplicar a conduta mais indicada,

conforme atabela 1.Aconduta deeducac¸ão configura-se

em fornecerinformac¸õessobreosriscosassociadosaouso

deálcoole,semprequepossível,forneceralgumabrochura.

Oconselhosignificafornecerfeedbacksobreoresultadodo

Audit,educá-losobreosriscoseorientaracomomudaresse

comportamento.Oaconselhamentobreve,alémdeeducar

sobreosriscosefornecerfeedback,tambémsustentaaideia

engajarojovemnamudanc¸adecomportamentoapartirdo

estabelecimento deobjetivos relativosa essasmudanc¸as.

Nessasituac¸ão,é importanteorientartambémafamíliaa

monitorar esses objetivos e fornecer informac¸ão deonde

buscarajuda,casosejanecessário.Osindivíduosque

apre-sentam escoresdo Audit acimade 20 são aqueles que já

apresentamumpadrãodedependênciadousodeálcoole,

portanto,devemserreferidosaumespecialistapara

(6)

A grande maioria dos ensaios clínicos randomizados

que envolvemIB em saladeemergência parajovens com

intoxicac¸ãoalcoólicaaguda(IAA)éprovenientedosEstados

UnidosedaEuropa,apenasumestudofoidesenvolvidono

Brasil.34 O maiorestudo que temsido desenvolvido

acon-tecenaAlemanha.OHaLT(Stop---closetothelimit)éum

projetode prevenc¸ãobaseado em umaIB em jovens com

IAAnasaladeemergênciaequejáfoiimplantadoemmais

de170localidades.35 Agrandemaioria dosestudos

procu-rouavaliarcomodesfechoprimárioareduc¸ãodoconsumo

deálcoolapósaaplicac¸ãodeumaIB.Todavia,muitosnão

encontraramdiferenc¸asignificativaem relac¸ãoaosgrupos

controle.Esseresultadoéexplicado,namaioriadasvezes,

pelo fato de que o próprio grupo controle também

dimi-nuiuo consumo debebidas alcóolicas apósa admissãona

emergência. Deumamaneira geral, osestudosusaram IB

baseadasem técnicasdeEM,comdurac¸ãodecercade45

minutos, alguns estudostambém usaram abordagens com

ospais.33,36 Apesar de osachados sereminconclusivosem

relac¸ão à quantidade total de bebidas alcoólicas

ingeri-das após IB em emergências, foi verificado que os jovens

quesofreramIBapresentaramumareduc¸ãosignificativaem

desfechossecundários, como númerode dosesingeridase

númerode drinks por semana, dias em que foram

ingeri-dasbebidasalcoólicas,bemcomonúmerodeepisódiosde

beberpesadoemumseguimentodeaté12meses.37,38Outro

achado interessante foi diminuic¸ão de acidentes decarro

relacionadosaoconsumodeálcoolemquemsofreuIB.38

O único estudo desenvolvido no Brasil mostrou uma

populac¸ão predominantemente masculina (90,3%) e com

uma porcentagem alta no que se refere à prevalência

de dependência de álcool (37,9% no grupo que

rece-beu IB; 35,2%nos controles),identificou-se que em nosso

paísintervenc¸õesdirecionadas atratamento talvez sejam

tão importantes quanto intervenc¸ões focadas apenas na

prevenc¸ão.Nesteestudo,nãohouvediferenc¸asignificativa

entreosgrupos,mashouveumareduc¸ãogeralnoconsumo

deálcoolnostrêsmesesdeseguimento.34

AIBébemestabelecidaparaadultosapósepisódiosde

intoxicac¸ão que procuram atendimento emergencial, mas

carece de aperfeic¸oamento para adolescentes, tendo em

vista que a abordagem integrada com a família se torna

muitomaisimportantenessescasos.

Conclusão

Osquadrosdeintoxicac¸ãoporusodeSPA,sejaela aciden-tal ouintencional, são comuns e devem ser dealto nível desuspeic¸ão.Éimportantequeoclínicoestejaatentoaos sinaisdeintoxicac¸ãoapresentados,poisoquadropode facil-mente se confundir com outros problemas. O tratamento na emergência é predominantementedeapoio, mascabe lembrar que a maioria dos casosnecessitará atendimento para as causas subjacentes a intoxicac¸ão apresentada. Além disso, a entrada na emergência por um quadro de intoxicac¸ãopor SPA é umajaneladeoportunidade para a implantac¸ãodemedidasdeprevenc¸ão.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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Tabela 1 Indicac ¸ão de Intervenc ¸ão Breve conforme escore do Audit

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