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J. Pediatr. (Rio J.) vol.92 número2

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JPediatr(RioJ).2016;92(2):103---105

www.jped.com.br

EDITORIAL

Microcephaly

and

Zika

virus

Microcefalia

e

vírus

zika

Consuelo

Silva

de

Oliveira

a,b,∗

e

Pedro

Fernando

da

Costa

Vasconcelos

a,b,c

aSec¸ãodeArbovirologiaeFebresHemorrágicas,InstitutoEvandroChagas(IEC),SecretariadeVigilânciaemSaúde(SVS),

MinistériodaSaúde(MS),Ananindeua,PA,Brasil

bUniversidadedoEstadodoPará,Belém,PA,Brasil

cPesquisaeReferênciaemArbovírus,CentroColaboradorOrganizac¸ãoMundialdaSaúde(OMS),Organizac¸ãoPan-Americanada

Saúde(Opas),Brasília,DF,Brasil

Oisolamentooriginaldovíruszika(ZIKV),membrodogênero FlavivirusdafamíliaFlaviviridae,foiobtidoem1947do san-gue deum macaco rhesus febril exposto na floresta Zika próximodoLagoVitórianascercaniasdeEntebbe,acapital deUganda.1OZIKVfoiisoladotambémdemosquitos

silves-tres namesma áreae maistardeesporádicos casosfebris humanosforamatribuídosaoZIKVem Ugandaeemoutros paísesdaÁfricaOcidentaleOriental.Posteriormente, nos anos 1960,o ZIKV foi detectadona Ásiae o vírus foi iso-lado de mosquitos Aedes aegypti inicialmente na Malásia e depois em vários paísesda Ásia. Isso mostrou que esse arbovírustambémocorriaforadocontinenteafricano.2Essa

novafacetadoZIKV,ouseja,decausardoenc¸aepidêmica transmitidaporAedesaegypti,mostrouumnovomarcona epidemiologiadessaarbovirose.FicouclaroqueoZIKVhavia conseguidoseadaptaraumvelhoconhecidodoshumanos,o

Aedesaegyti,transmissordafebreamarelaurbana,dos qua-trosorotiposdodengue,dovírusChikungunyaedeoutros maisarbovírusnaÁsiaenaÁfrica.

Desdeadécadade1960têmsidorelatadoscasos espo-rádicosde infecc¸ão pelovírus zika em humanos3e face a

essepadrãodeocorrênciaesporádicaesemgravidadepouca

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2016.02.003

Comocitaresteartigo:OliveiraCS, daCosta VasconcelosPF.

MicrocephalyandZikavirus.JPediatr(RioJ).2016;92:103---5.

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](C.S.deOliveira).

importânciafoidadaaessaarbovirose,atéqueocorreuuma epidemiadefebrezikanailhaYap,naRepúblicada Micro-nésia,em 2007, com a descric¸ão de umasíndrome febril exantemáticadeleveintensidadeeumelevadopercentual deassintomáticos.4AesseepisódionailhaYapseguiram-se

outrosmaisnaregiãodoOceanoPacíficodaPolinésiaeem algunspaísesdo SudestedaÁsia, com surtos confirmados porsorologiaouPCRparaovíruszikanasilhasdaPáscoa, Salomão,Cook,Indonésia,Malásia,TailândiaenaPolinésia Francesa.5---7Nessaúltima,estudosepidemiológicos

retros-pectivossugeremaocorrênciadeaproximadamente30.000 infecc¸õeseobservaram-sepelaprimeiravezoscasosde sín-dromedeGuillain-Barré(SGB)associada àsinfecc¸õespelo ZIKV e a notificac¸ão dos primeiros casos de transmissão perinatal,8oquealertouparaopotencialdascomplicac¸ões

dasinfecc¸õescongênitasporarbovírus, combaseem rela-tosanteriores deencefalopatia, febre hemorrágica,óbito fetal, dentre outros, associados aos vírus chikungunya e dengue.Naanáliseretrospectiva dos nascidosvivosdesse surtonaPolinésia,foramidentificadosdemarc¸ode2014a maiode201517casosdemalformac¸õesdosistemanervoso central,incluindomicrocefalia,emfetoserecém-nascidos. Nenhumadasgestantesrelatousinaisdeinfecc¸ãopelovírus zika,masemquatrotestadasforamencontradosanticorpos (IgG) para flavivírus em sorologia, o que sugeriu infecc¸ão assintomática.9DomesmomodoquenoBrasil,as

autorida-desde saúdedaPolinésiaFrancesa acreditamque o vírus zikapodeestarassociadoàsanomaliascongênitas,casoas gestantessejaminfectadasduranteoprimeiroousegundo trimestredegestac¸ão.

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104 OliveiraCSd,VasconcelosPFdC.

Com a confirmac¸ão dos primeiros casos de febre zika no Brasil em maio de 2015, inicialmente nos estados do Nordeste,10 observou-seumarápidadispersãodovíruspara

as outras regiões do país e seguiu-se o aumento expres-sivo das notificac¸õesde recém-nascidos com microcefalia noSistemadeInformac¸ãodeNascidosVivos(Sinasc),como registrode141casossuspeitosdemicrocefaliaemnovembro de2015,noEstadodePernambuco,edepoisfoidetectado umexcessodenúmerosdecasosemoutrosestadosdo Nor-deste(ParaíbaeRioGrandedoNorte),alémdosregistrosde abortosespontâneosenatimortos.Frenteaessenovo cená-rio,oMinistériodaSaúdedoBrasildeclarouoeventocomo deemergênciaemsaúdepúblicadeimportâncianacional.11

Constatou-seaindaqueosprimeirosmesesdegestac¸ãodas crianc¸asquenasceramcommicrocefaliacorresponderamao períododemaiorcirculac¸ãodovíruszikanaregiãoNordeste equenãohaviacorrelac¸ãocomhistóricodedoenc¸a gené-ticanafamíliaouexamescompadrãodeoutrosprocessos infecciososconhecidos.

O nexo causal foi feito pelo Instituto Evandro Chagas (IEC), do Ministério da Saúde, ao isolar o ZIKV do cére-bro e ao fazer a detecc¸ão desse vírus no LCR,cérebro e nosfragmentosdeváriasvísceras(corac¸ão,pulmão,fígado, bac¸o e rim) de um recém-nascido que evoluiu a óbito logo após o nascimento.11 Posteriormente, esses

resulta-dos foram reforc¸ados com a detecc¸ão de anticorpos IgM paraZIKVnoLCRde12crianc¸asquenasceramcom micro-cefalia. Todos os exames para outros agentes infecciosos associados ao que clinicamente é conhecido como sín-dromeTorch[toxoplasmose(tuberculose),outrasinfecc¸ões, rubéola,citomegalovírus,herpessimples1e2],bemcomo paradengueechikungunyaforamnegativos(Azevedoetal., 2016;comunicac¸ãopessoal).

Outra contribuic¸ão importante para elucidar a relac¸ão causalfoi a identificac¸ão do vírus zika nolíquido amnió-ticodeduasgestantesdaParaíbacomhistóricodedoenc¸a exantemáticaefetoscommicrocefaliadetectadosna ultras-sografiafetal.12 A partir desse achado,estudosadicionais

foramfeitos,oquepossibilitouosequenciamentocompleto dovírusisoladodolíquidoamniótico.Aanálisefilogenética revelou que o vírus compartilha 97-100% da sua identi-dadegenômicacomalinhagemasiáticaisoladanosurtoda PolinésiaFrancesa e que a presenc¸a do genoma viralnos pacientesporalgumassemanasapósafaseagudasugereque acargaviralintraúteroresultadareplicac¸ãopersistente.13

Acrescem-seaessasevidênciasa identificac¸ãodogenoma dovírus zikaem células daplacenta em umabortona 8a

semana,pormeiodetécnicasdeRT-PCRemtemporeal,o quereforc¸aopotencialdatransmissãoplacentária.14

Recentemente foramconfirmadas pelo CDC apresenc¸a dovíruspor RTPCR eimuno-histoquímica notecido cere-bral de quatro recém-nascidos com microcefalia e/ou malformac¸õesgravescerebraisqueevoluíramparaoóbito após onascimento e nas placentasde fetos abortadosna 12a

semanadegestac¸ão.15Achadossimilaresforam

identifi-cadosporMlakaretal.,16queidentificaramogenomaviral

nocérebroenaplacentadeumfetoprodutodeabortona 32a

semanae queapresentoumúltiplaslesõescerebraise retardodecrescimentointrauterinodetectadosapartirda 29a

semanadegestac¸ão,oqueconfirmaoneurotropismodo víruscompossívelpersistênciaviralnotecidocerebraleo gravecomprometimentoplacentário.

A par disso, acumulam-se evidências de que além do cérebro osolhos seriam o outro órgão-alvo dovírus zika, como já observado em crianc¸as com microcefalia e a presenc¸adealterac¸õesoculares(atrofiamacular),17emais

recentemente as lesões maculares e perimaculares com atrofia do nervo óptico18 descritas em dez crianc¸as com

microcefaliaduranteosurtodezikaemSalvador,BA. Faceàgravidadedasituac¸ão,àrápidadisseminac¸ãodo ZIKV pelo continente americano, às dificuldades de diag-nóstico para umaarboviroseemergente nas Américase o risco elevado deo vírus se espalhar por outros continen-tes,aOMSdeclarouaepidemiacausadapeloZIKVcomoum eventodeimportânciaemsaúdepúblicainternacional,em consonânciadoregulamentosanitáriointernacional,e con-vocouumcomitêdeemergência.Adivulgac¸ão danotada OMSseguiu-sedeumadescric¸ãodoevento.19

Umadasgrandeslimitac¸õesasersuperadaéaausência detestessorológicosemolecularescomerciaisparao diag-nósticodoZIKV,jáqueostestesinhousehojeexistentessão limitadosaoslaboratóriosdereferência,quenãotêmcomo supriroslaboratóriosdesaúdepública.Defato,éurgente anecessidadededesenvolvimentodetestes rápidos (imu-nocromatográficos), testessorológicos(IgM-eIgG-Elisa)e molecularesparaoprontodiagnósticodainfecc¸ãopeloZIKV, especialmente nos grupos mais vulneráveis, quais sejam, gestanteseportadoresdecondic¸õesautoimunesedoenc¸as crônicas.20 registrosrecentesdemortesem portadores

dedoenc¸ascrônicas,lúpus,anemiahemolítica,anemia fal-ciformeeoutrosmais,oquefazcomquesedevapriorizar essesgruposparaoacessoaodiagnósticodainfecc¸ãopelo ZIKV.

Háumaclaranecessidadedefortalecimento dasac¸ões antivetoriais,queéaúnicamedidaconcretaquehojetemos para diminuir oscasos de infecc¸ões pelo ZIKV. É urgente queac¸õesconcretassejamfeitasemtodososníveis públi-cos e com o envolvimento da sociedade para reduzir os índices de infestac¸ão vetorial, pois ao se reduzir a quan-tidade de vetores se reduzirão as taxas de incidência e obviamenteoscasosdemicrocefaliaeoutrasmalformac¸ões congênitas.

OMinistériodaSaúdedoBrasiltomouadecisãopolítica dedesenvolverumavacinacontraoZIKV.Emrelac¸ãoaesse assunto, são váriasas abordagens possíveispara o desen-volvimentodeumavacinaparaprevenirasinfecc¸õespelo ZIKV, quee incluem: vacinadevírus inativado, vacinade vírusvivoatenuado,vacinadevírusvivoquimérica,vacina deDNAevacinadesubunidade.Certamentequeasvacinas desubunidadeedeDNAsãoasquenãoapresentamriscos paraasgestanteseosgruposespeciaisepodemserobtidas rapidamente,omesmoocorrecomavacinadevírus inati-vado.Éimportanteassinalar,noentanto,quequalquerque sejaaformulac¸ãoadotada,ostestespré-clínicoseclínicos defasesI,IIeIIItomarãoalgunsanosatéquesetenhaum produtolicenciadoparausoemhumanos.

(3)

MicrocephalyandZikavirus 105

financeirodetodososEstados-membrosedasociedadecivil domundo.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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